Histórias de amor no cinema seguem quase sempre a mesma métrica. Rapaz e moça se conhecem, se apaixonam, vivem um romance idílico, são forçados a enfrentar problemas de vários tipos e têm uma variante final: ou se acertam de vez e ficam felizes para sempre ou sofrem uma perda irreparável (leia-se uma morte dramática e piegas). Felizmente de vez em quando aparece alguém com algo mais a acrescentar do que simplesmente uma história vazia de amor irreal e plástico. E é isso que o ator e diretor Keith Gordon faz com “Amor maior que a vida”, um romance interessante e consistente que mostra que o amor tem razões que a própria razão desconhece.
“Amor maior que a vida” foge como o diabo da cruz dos clichês do gênero, mas agrada a quem procura um bom romance, assim como acrescenta inteligência na receita e faz a platéia pensar até mesmo depois dos créditos finais graças a um roteiro forte e que emociona sem apelar para lágrimas fáceis. A trama começa em 1972, quando o jovem Fielding Pierce (Billy Crudup), que trabalha na Guarda Costeira de Nova York e sonha ser Presidente da República conhece e se apaixona pela bela e idealista Sarah Williams (Jennifer Connelly), secretária de seu irmão editor. O romance dos dois engrena, e apesar de seu amor evidente, suas personalidades diferentes começam a afastá-los. Enquanto Fielding começa sua ascensão política no Partido Republicano, Sarah envolve-se com a Igreja e com refugiados de países sob ditadura. Em uma de suas viagens, a jovem morre tragicamente, deixando seu namorado inconsolável. Dez anos depois, às vésperas de sua eleição para senador, Fielding passa a ter visões da jovem e começa a desconfiar que sua amada está viva e forjou a própria morte para não atrapalhar sua carreira política. Por ironia, seu desequilíbrio começa a pôr em risco seu futuro.

Nada é banal e corriqueiro no filme de Gordon. A edição, repleta de vai e voltas no tempo, mais que demonstrar um estilo vazio, ajuda na forma de contar a história, forte por si mesma ao levantar questões importantes e não julgar seus personagens, bem construídos e interpretados por um casal em dias de graça. Jennifer Connelly brilha com sua beleza etérea – em um papel disputado por nomes tão díspares quanto Drew Barrymore, Cameron Diaz, Brittany Murphy, Winona Ryder e até mesmo Britney Spears - mas é o jovem Billy Crudup que entrega uma atuação corajosa e enérgica, com uma personagem complexa e apaixonante. A cena em que Fielding perde a cabeça em um restaurante diante da família comprova que Crudup foi uma escolha acertada, ao invés das figurinhas marcadas que foram consideradas para o papel – pasmem, Tom Hanks, Tom Cruise e Kevin Spacey estiveram cotados... Felizmente o talento falou mais alto do que a ganância (talvez influência da produtora executiva Jodie Foster) e “Amor maior que a vida” é um filme fascinante justamente por suas opções certeiras.
Baseado em um livro de Scott Spencer - cujo título original traduzido literalmente seria algo como "Despertando os mortos", o que provavelmente sugeriria um filme de horror aos desavisados frequentadores de multiplexes - "Amor maior que a vida" faz bem em deixar o espectador tão aturdido e tão em dúvida quanto seu protagonista a respeito da morte (ou não) de Sarah. Nem mesmo quando o filme acaba pode-se dizer com certeza absoluta o que realmente aconteceu e o que não passa da imaginação de um homem loucamente apaixonado. A belíssima trilha sonora - que pega emprestado a linda "Mercy Street" - dá o clima perfeito à introspecção fantasmagórica da trama, que ainda encontra espaço para discussões sociais de suma importância sem nunca soar panfletária ou didática. Os diálogos entre Fielding e Sarah tem o equilíbrio certo entre o romântico e o idealista, entre a ilusão e a realidade, entre o que se sonha e o que realmente se consegue atingir. Nas mãos de atores fracos tudo seria risível. Com Billy Crudup e Jennifer Connelly tudo fica nunca aquém de fascinante.
Dono de diálogos revelantes, atuações viscerais e uma química rara entre seus dois belos protagonistas, "Amor maior que a vida" é um dos dramas românticos mais interessantes do final do século XX. Pode não ter feito bonito nas bilheterias - nem mesmo pagou seu orçamento ínfimo de 8 milhões e meio de dólares - mas é uma experiência enriquecedora. Quem dera mais fracassos assim fossem lançados, para o deleite da plateia mais sensível...
