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Tuesday, February 21, 2012

AS INVASÕES BÁRBARAS

AS INVASÕES BÁRBARAS (Les invasions barbares, 2003, Canadá, 99min) Direção e roteiro: Denys Arcand. Fotografia: Guy Dufaux. Montagem: Isabelle Dedieu. Música: Pierre Aviat. Figurino: Denis Sperdouklis. Direção de arte/cenários: François Séguin/Patrice Bengle, Annika Krausz. Produção: Daniel Louis, Denise Robert. Elenco: Rémy Girard, Stéphane Rousseau, Marie-Josée Croze, Marina Hands, Yves Jacques. Estreia: 21/5/03 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Festival de Cannes: Melhor Atriz (Marie-Josée Croze), Melhor Roteiro

Normalmente, quando vai escolher o vencedor do Oscar na categoria de Melhor Produção Estrangeira a Academia de Hollywood gosta de praticar a política de boa vizinhança ou optar por filmes de países cuja relevância política e/ou social esteja em voga no momento. Felizmente quando este “As invasões bárbaras” estava no páreo não houve nenhum tipo de polêmica. Um dos mais belos produtos cinematográficos do ano, o filme do canadense Denys Arcand emociona e faz pensar sem apelar para sentimentalismos baratos, graças a um roteiro equilibrado e atuações acima de quaisquer críticas.

Espécie de continuação de “O declínio do império americano”, realizado por Arcand em 1986 – cujos personagens retornam aqui, mais velhos e um tanto mais cínicos – o filme que ganhou dois prêmios em Cannes – roteiro e atriz (Marie-Josée Croze) – conta uma história triste e melancólica, mas com um senso de esperança raramente visto em produções comerciais, sejam elas de que país forem. E talvez justamente por tratar de temas tão universais como amor entre amigos, família e aos ideais, “As invasões bárbaras” tenha conquistado tanta atenção e provocado tantas lágrimas.

 

A trama começa quando o bem-sucedido empresário Sebastien (Stephane Rousseau), que trabalha no mercado financeiro de Londres, é chamado de volta ao Canadá por sua mãe, que o avisa que seu pai está seriamente doente, precisando de um tratamento para seus últimos momentos. O pai de Sebastien é Remy (o extraordinário Remy Girard), um professor universitário socialista que já teve seus dias de conquistador e que agora vive um casamento quase de aparência com sua nem tão compreensiva mulher. Mesmo sentindo que seus dias estão no fim, ele reluta em aceitar a ajuda do filho – que em sua concepção não passa de um materialista colonizador - em pagar seu tratamento. No entanto, as coisas começam a mudar quando recebe a visita de seu grupo de antigos amigos, todos intelectuais tentando lidar com a passagem do tempo e com a destruição de seus sonhos políticos e sociais. Entre lembranças divertidas com seus amigos e discussões ferrenhas com o filho, Remy ainda faz duas amizades no hospital: uma enfermeira paciente e dedicada e a filha de uma amiga, uma jovem viciada em heroína que encontra nele a inspiração para deixar as drogas.

O roteiro de “As invasões bárbaras” é um primor de delicadeza, inteligência e de um eruditismo que nem de longe soa como pedante. Ao confrontar suas personagens – mais maduras e consequentementes com suas próprias cargas de perdas pessoais e espirituais – com a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte, Denys Arcand de uma certa forma faz o inventário de uma geração, sem precisar apelar para lágrimas fáceis. Nem mesmo as cenas entre pai e filho, de uma beleza pungente, consegue tirar a sensação de uma pequena obra-prima sobre as coisas boas da vida. Um filme para ver e rever sempre!

Monday, November 28, 2011

FALE COM ELA

FALE COM ELA (Hable con ella, 2002, Espanha, 112min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodóvar. Elenco: Javier Câmara, Dario Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin, Lola Dueñas. Estreia: 15/3/02

2 indicações ao Oscar: Diretor (Pedro Almodóvar), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

No universo do cineasta espanhol Pedro Almodovar - como bem sabem seus inúmeros fãs - nada é preto no branco. Não existem mocinhos e bandidos e nem atos corretos ou errados (ao menos dentro da concepção tradicional do termo). Na obra de Almodovar nada é exatamente o que parece à primeira vista e, dentro de seu mundo particular (onde circulam com desenvoltura personagens da mais alta complexidade) um enfermeiro com características aparentes de homossexualidade é capaz de um ato tresloucado e machista, ainda que revestido de um romantismo distorcido. Nos filmes de Almodovar nenhum amor é normal. Quando alguém se apaixona dentro de um roteiro seu ou rapta a mulher amada (como em "Atame!") ou a estupra, como acontece em "Fale com ela", uma de suas obras-primas, merecidamente premiada com o Oscar de roteiro original.

Surpreendentemente deixada de lado pela Academia em sua lista dos indicados a Melhor Filme Estrangeiro - apesar de ter levado o Golden Globe da categoria - "Fale com ela" de certa forma compensou a esnobada concorrendo em duas categorias nobres e levando a importante estatueta de roteiro (batendo nomes fortes como o belo "Longe do paraíso" e o favorito "Gangues de Nova York"). Na verdade, dar o prêmio a qualquer outro candidato seria impensável: se em seu filme anterior, o incensado "Tudo sobre minha mãe" (que por sua vez levou o Oscar de filme estrangeiro) Almodovar já brindava o espectador com seu estilo próprio de fazer cinema misturando imagens poderosas com tramas e personagens fortes, em "Fale com ela" ele chega a um nível de sofisticação narrativa ainda maior. Ao contrário de muitos filmes cuja trama pobre pode ser resumida em uma única frase, o 14º longa do diretor nascido em uma pequena cidade do interior da Espanha em 1949 é uma prova inconteste de que a imaginação e a poesia ainda são os maiores aliados de um roteirista.



"Fale com ela" conta, na verdade, duas histórias de amor que se transformam em uma bela história de amizade. Depois de ter criado, em "Tudo sobre minha mãe", meia dúzia de personagens femininas de se tirar o chapéu, agora Almodovar presenteia o público com duas personagens masculinas intensas, imprevisíveis e melhor ainda, críveis e humanas. Benigno Martin (o ótimo Javier Câmara) é um enfermeiro dedicado que passa seus dias cuidando de Alicia (Leonor Watling), que entrou em coma depois de ser atropelada em um dia de chuva. Apaixonado pela jovem desde os tempos em que a observava de sua janela enquanto ela fazia aulas de balé na academia em frente à sua casa, Benigno de certa forma aproveita a chance de manter-se perto dela mesmo sabendo da possibilidade de sua inconsciência ser permanente. Sua rotina - para ele doce, ainda que rotina - é alterada quando ele conhece Marco Zuluaga (Dario Grandinetti), um jornalista que chega ao hospital acompanhando a namorada, Lydia Gonzalez (Rosário Flores), uma famosa toureira atingida em plena arena. Solitário, logo Benigno torna-se o confidente de Marco, um homem fechado e profundo a quem ele tenta convencer a manter conversas com a namorada inconsciente.

Como normalmente acontece na obra de Pedro Almodovar, o início de "Fale com ela" - o pontapé inicial de seu roteiro, digamos assim - é apenas um esboço de tudo que virá pela frente. Não demora muito para que o cineasta embaralhe as cartas de seu jogo, emprestando a Benigno características viris e impulsivas que se poderia esperar de Marco e dando a este momentos de uma pureza e sensibilidade próprias de alguém como Benigno. Enquanto o enfermeiro afeminado é capaz de um ato a príncipio brutal (através do qual a vida retorna, de forma irônica), o jornalista viril é capaz de desmanchar-se em lágrimas diante de um número de dança (com a participação especial da alemã Pina Bausch) ou de uma bela canção de amor (interpretada por Caetano Veloso), além de sofrer sem medo da opinião alheia. É o amor dos dois pelas mulheres em coma - mas que mesmo mudas e inertes empurram a trama pra frente - que une Benigno e Marco, que os completam como yin e yang. Mas não são os dois que tem o mesmo equilíbrio e a mesma força de lidar com suas paixões, e é daí, dessa fragilidade passional, que nasce a trágica poesia do filme.

E poesia é o que não falta em "Fale com ela", seja visualmente, através da inspirada fotografia de Javier Aguirresarobe, que transforma a violência das touradas em um balé (que remete às danças de Alicia e aos números de abertura e encerramento da projeção) ou em alguns diálogos de cortar o coração (que citam inclusive Tom Jobim, cuja bela "Por toda a minha vida" na voz de Elis Regina, ilustra lindamente uma tourada de Lydia). Até mesmo a homenagem de Almodovar ao cinema mudo (em uma sequência aparentemente sem importância que dá grandes pistas sobre o que vem a seguir) é um exemplo de concisão e inteligência: a história do "amante minguante" que entra no corpo da mulher que ama é a metáfora perfeita para o desfecho de uma das histórias de amor contadas pelo diretor, que ainda faz o grande favor de não entregar tudo mastigadinho à audiência. O público, encantado, agradece!

Monday, November 7, 2011

BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER

BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER (À la folie...pas du tout, 2002, 92 min) Direção: Laetitia Colombani. Roteiro: Laetitia Colombani, Caroline Thivel. Fotografia: Pierre Aim. Montagem: Véronique Parnet. Música: Jérôme Coullet. Figurino: Jacqueline Bouchard. Direção de arte/cenários: Jean-Marc Kerdelhue/Odile Hubert. Produção executiva: Dominique Brunner. Produção: Charles Gassot. Elenco: Audrey Tautou, Samuel Le Bihan, Isabelle Carré, Sophie Guillemin, Clément Sibony. Estreia: 27/03/02

A bela Audrey Tautou teve a sorte e o azar de estrelar o sensacional "O fabuloso destino de Amélie Poulain". Sorte porque o filme de Jean-Pierre Jeunet tornou-se um clássico instantâneo. E azar porque, a partir dele, poderia ficar para sempre presa na imagem icônica da personagem. Uma das primeiras tentativas de fugir dessa armadilha é esse drama que, à primeira vista, é mais um romance água-com-açúcar, mas que aos poucos revela-se bem mais inteligente e surpreendente.

Em "Bem-me-quer, mal-me-quer" Tautou vive Angélique, uma jovem romântica e sonhadora que é apaixonada pelo bem-sucedido cardiologista Luic (Samuel Le Biehn), um homem casado, mais velho e às vésperas de ser pai. Seu amor incondicional a leva a rejeitar as constantes investidas de um pretendente de sua idade e estudante de Medicina. Apesar das evidências que lhe são mostradas dia-a-dia por seus amigos, Angélique acredita piamente que sua paciência será recompensada com a separação de Luic. Quando as coisas começam a demorar a acontecer, no entanto, ela resolve que é hora de agir e apressar os acontecimentos.

A partir daí, o roteiro co-escrito pela diretora Laetitia Colombini mostra que boas ideias são capazes de operar milagres. De uma hora pra outra, o drama romântico vivido por Angélique se torna um suspense imprevisível, valorizada pela competente edição. E é aí, principalmente, que Tautou demonstra que não é atriz de um papel só. Sem estragar nenhuma surpresa, basta dizer que a jovem francesa acaba fazendo praticamente dois papéis distintos e que o final, apesar de um tanto pessimista, deixa o público bastante satisfeito. O uso inteligente de repetições e cortes aparentemente bruscos faz todo o sentido quando finalmente a plateia consegue visualizar o quadro todo e não apenas um pedaço. E, apesar de soar um tanto superficial no estudo da personalidade de sua protagonista, Colombini oferece mais do que simplesmente um drama boboca e corriqueiro.

"Bem-me-quer, mal-me-quer" não é um típico produto francês - e sua própria estrutura fragmentada deve muito ao cinema americano pós-Tarantino (ainda que o estilo exista desde sempre no cinema). Mas é uma alternativa saudável para um público que gosta de sair de vez em quando da dieta tradicional de entretenimento ianque.

Friday, October 21, 2011

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN (Le fabuleux destin d'Amelie Poulain, França, 2001, 122min) Direção: Jean-Pierre Jeunet. Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Hervé Schneid. Música: Yann Tiersen. Figurino: Madeline Fontaine, Emma Lebail. Direção de arte/cenários: Aline Bonetto/Marie-Laure Valla. Produção executiva: Claudie Ossard. Produção: Jean-Marc Deschamps, Claudie Ossard. Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Jamel Debbouze, Dominique Pinon, Yolande Moreau. Estreia: 25/4/01

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original, Fotografia, Direção de Arte/Cenários, Som

O mundo seria um lugar muito melhor se fosse como é retratado em "O fabuloso destino de Amélie Poulain", um dos mais felizes produtos cinematográficos jamais concebidos em seus mais de cem anos de história. Feliz em sua essência, em sua realização e em seu resultado final, o filme de Jean-Pierre Jeunet (em seu primeiro trabalho após sua experiência hollywoodiana com "Alien: a ressurreição") é uma obra-prima em todos os sentidos, um verdadeiro e sólido argumento a favor da paixão que o cinema desperta em milhares de fãs. Exagero? Não é o que acham os mais de 15 milhões de espectadores que correram aos cinemas para assistí-lo e transformá-lo no maior sucesso de bilheteria da história do cinema francês, além de um dos mais influentes produtos cinematográficos de todos os tempos.

Tendo como cenário uma Paris estilizada e esplendidamente fotografada por Bruno Delbonnel (cuja predominância das cores verde, amarelo e vermelho tem como inspiração o trabalho do artista plástico catarinense Juarez Machado), Jeunet conta a história da jovem garçonete Amélie Poulain (vivida com graça e carisma pela ótima Audrey Tautou), que descobre o prazer de ajudar as pessoas a ser felizes ao localizar, por acidente, uma caixa de relíquias infantis perdida em seu apartamento por um antigo morador que vive afastado da família. Incentivada pela mudança positiva que provoca no desconhecido ao devolver-lhe o antigo brinquedo, ela passa a vingar oprimidos, unir solitários, levar a vida exterior a um vizinho doente e até mesmo a resgatar o amor-próprio de uma viúva infeliz. A única pessoa a quem ela não consegue ajudar é ela mesma: tímida e introvertida, ela não tem coragem de declarar-se ao excêntrico Nino Quincampoix (o cineasta Matthieu Kassovitz), mesmo sabendo que ele é o amor de sua vida.



Apontar um único defeito no filme de Jean-Pierre Jeunet é tarefa das mais difíceis que se pode imaginar. Tecnicamente perfeito, com uma trilha sonora deliciosa de Yann Tiersen, com um elenco de atores com rostos marcantes (uma das mais fortes características do diretor, que lembra o cuidado de um Fellini) vivendo personagens interessantes e verossímeis apesar de suas excentricidades e com um roteiro impecável, equilibrado entre o romance idílico e uma auto-ironia irresistível, "O fabuloso destino de Amélie Poulain" ainda consegue o feito raro de conquistar a audiência sem jamais tocar em assuntos polêmicos, ignorar qualquer tipo de violência física e contar uma história de amor sem cair nas armadilhas das comédias românticas americanas - além, é claro, de nunca apelar para o erotismo. Não foi à toa que até mesmo a Academia de Hollywood, normalmente avessa a produções que saem de seus domínios, lhe deu cinco indicações ao Oscar (ainda que, na hora H tenha escolhido o politizado "Terra de ninguém" como vencedor). E se o papel principal foi escrito especialmente para Emily Watson (que pulou fora do projeto na última hora), não há público que consiga imaginar outra Amélie Poulain que não Audrey Tautou.

Dona de um rosto impressionante e de um carisma inegável, Tautou tornou-se a imagem perfeita do filme, uma das mais emblemáticas faces do cinema do início do século XXI. Seus olhos levemente arregalados, assim como seu sorriso meigo enfeitam um dos filmes mais alto-astral que se pode ter notícia. Uma obra-prima capaz de derrubar qualquer mau-humor. Seu único problema? Fazer com que, em comparação com o mundo colorido e onírico mostrado por Jeunet, o mundo real soe tão cinzento...

Monday, September 19, 2011

UM AMOR QUASE PERFEITO

UM AMOR QUASE PERFEITO (Le fate ignoranti, 2001, Medusa Distribuzione, 106min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Pasquale Mari. Montagem: Patrizio Marone. Música: Andrea Guerra. Figurino: Catia Dottori. Direção de arte/cenários: Bruno Cesari. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Margherita Buy, Stefano Accorsi, Serra Yilmaz, Gabriel Garko, Erika Blanc, Andrea Renzi. Estreia: 08/02/01 (Festival de Berlim)

A médica infectologista Antonia (Margherita Buy) leva um casamento de sonhos com seu marido, Mássimo, apesar de ter deixado para trás desejos como o de ter filhos e de ter se afastado dos amigos para dedicar-se à relação. Quando Mássimo morre repentinamente, vítima de um atropelamento, ela descobre abismada que ele tinha um caso extra-conjugal há sete anos. A busca por sua rival a leva até o jovem Michele (Stefano Accorsi) e, ainda mais atônita, a médica percebe que seu marido mantinha um relacionamento com o próprio rapaz. A princípio arrasada com a notívia, Antonia acaba se tornando responsável por Ernesto (Gabriel Garko), um jovem soropositivo amigo de Michele e, aos poucos, começa a notar que, ao lado dele Massimo era outra pessoa e que vivia com os amigos do amante como se fizessem todos parte de uma grande família. Ela e Michele passam, então, a conviver como amigos, vendo um no outro a lembrança do seu amor perdido.

Grande sucesso de bilheteria na Itália, seu país natal, “Um amor quase perfeito”, belo drama de Ferzan Ozpetek tem como principal qualidade a forma de apresentar e tratar de um assunto tabu: a bissexualidade. Ao introduzir a Antonia o mundo escondido de seu marido, o cineasta também mostra ao público uma nova maneira de ver um universo normalmente relegado ao estereótipo e ao humor exagerado. A família de amigos de Michele (uma uma interpretação excelente do galã Stefano Accorsi), por exemplo, é um núcleo familiar que foge ao padrão pré-estabelecido, mas é amorosa, leal e solidária. Há a mãezona (vivida pela ótima Serra Yilmaz), o casal bem-sucedido, o transexual fugido da verdadeira família, etc. Todos, no entanto, são personagens bem escritos, sem o ranço politicamente correto e preconceituoso que povoa o cinema comercial de modo geral.


Sem apelar para emoções fáceis ou sentimentos pasteurizados, Ozpetek criou um universo repleto de calor humano e personagens dicotômicos: ninguém é totalmente bom e ingênuo, todos tem seu passado e esperam seu futuro com maior ou menor esperança. Para isso é essencial o talento de seus dois protagonistas, Margherita Buy e Stefano Accorsi, que vive um gay longe das afetações comuns. Com um texto forte, uma trama atual (que encontra um espacinho para uma crítica de leve ao governo turco) e um elenco homogêneo e absolutamente à vontade em suas personagens únicas em suas personalidades e ordinárias em suas grandezas, “Um amor quase perfeito” (um título nacional mais uma vez totalmente sem sentido) é um legítimo representante do ótimo cinema italiano do começo do século.

Em tempo: as “fadas ignorantes” do título original são as pessoas que, mesmo sem o saber, transformam a vida de outras. E é o nome do quadro que Michele manda para Mássimo e que acaba sendo a pista que o revela à Antonia. Uma sutileza a mais em um filme simpático e realista.

Wednesday, September 14, 2011

O ÚLTIMO BEIJO

O ÚLTIMO BEIJO (L'ultimo bacio, 2001, Fandango, 115min) Direção e roteiro: Gabriele Mucino. Fotografia: Marcello Montarsi. Montagem: Claudio Di Mauro. Música: Paolo Buonvino. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte: Eugenia F. Di Napoli. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Stefano Accorsi, Giovanna Mezzogiorno, Stefania Sandrelli, Claudio Santamaria, Giorgio Pasotti, Marco Cocci. Estreia: 02/02/01

Quando Hollywood resolve falar sobre crises geracionais sempre acaba esbarrando em generalizações rasas, talvez por querer agradar a todos os tipos de público. Foi preciso que um cineasta italiano chamado Gabriele Muccino mostrasse aos produtores americanos o caminho das pedras. Seu filme “O último beijo” agradou tanto aos executivos ianques que mereceu um remake, lançado em 2006, dirigido por Tony Goldwin e estrelado por Zach Braff. Não é preciso dizer, no entanto, que o original, como sempre acontece nesses casos, é muito melhor, principalmente porque conta, no papel central, um dos atores italianos mais requisitados de sua época, o ótimo Stefano Accorsi.

Tendo atuado, no mesmo ano, no belo “Um amor quase perfeito”, Accorsi tem, em “O último beijo”, um trabalho bastante diferente e maduro. Na pele de Carlo, o protagonista, ele representa todas as dúvidas de uma geração inteira de homens que, tendo passado a vida inteira sem maiores responsabilidades, se veem repentinamente obrigados a tomar atitudes adultas, apesar de sua mentalidade ainda adolescente. Com um roteiro bem escrito e equilibrado entre as histórias que conta, além de atuações bastante convincentes (ainda que um tanto exageradas, às vezes, culpa talvez do sangue italiano que corre nas veias do filme), a obra de Muccino é engraçado, comovente e realista, além de ter também um lado bastante romântico.


Às vésperas de completar 30 anos, o publicitário Carlo (Stefano Accorsi) descobre que vai ser pai, depois de três anos de relacionamento com a bela Giulia (Giovanna Mezzogiorno). Sentindo-se pressionado, ele passa a imaginar como será a sua vida sem o acréscimo de responsabilidade que uma paternidade fatalmente trará. Seus amigos também não são exemplos a ser seguidos. Seu colega de trabalho, Adriano (Giorgio Pasotti) tem um filho de seis meses, o que destruiu a paixão de sua relação com a esposa, Lívia (Sabrina Impaciatore). Paolo (Cláudio Santamaría) foi abandonado pela namorada, e, além de não conseguir recuperar-se do fato, tenta fugir de um futuro opaco na loja de sua família fazendo planos de viajar pelo mundo em um trailer. Alberto (Marco Cocci) foge de qualquer tipo de responsabilidade ficando com uma mulher diferente por dia. E Marco (Pierfrancesco Favino) é sua única fonte de calma e felicidade, uma vez que recém casou-se. E até mesmo a sogra de Carlo, Anna (Stefania Sandrelli) entra em crise com a ideia de ser avó e resolve separar-se do marido. Com tantas informações desencontradas à sua volta, Carlo acaba tentado a ceder à atração que sente pela adolescente Francesca (Martina Stella).

“O último beijo” é tudo que um filme sobre uma geração precisa ser sem parecer superficial ou genérico. Suas personagens não parecem personagens e sim pessoas reais, com problemas reais e atos nem sempre heróicos ou louváveis. Difícil é não identificar-se com pelo menos uma das histórias contadas pelo belo roteiro, escrito pelo próprio diretor e com um toque de sentimentalismo agridoce que deve agradar principalmente aos homens carentes de um filme leve e que os retrate com tanta precisão – e o que é ainda melhor, sem julgamentos.

Tuesday, August 30, 2011

BILLY ELLIOT

BILLY ELLIOT (Billy Elliot, 2000, BBC Films/Studio Canal, 110min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: John Wilson. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Stewart Meacham. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana Lund. Produção executiva: Charles Brand, Tessa Ross, David M. Thompson, Natascha Wharton. Produção: Greg Brenman, Jon Finn. Elenco:Jamie Bell, Julie Walters, Gary Lewis, Jamie Draven. Estreia EUA: 12/10/00

3 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Daldry), Atriz Coadjuvante (Julie Walters), Roteiro Original

A primeira cena já conquista o público. Ao som de "Cosmic Dancer", da banda T-Rex, um menino de onze anos de idade pula em sua cama, transmitindo uma alegria de viver que é uma lembrança viva da infância do próprio roteirista Lee Hall. O menino, vivido com graça e competência pelo estreante Jamie Bell, é o protagonista de "Billy Elliot", um dos maiores sucessos do cinema inglês do início do século XXI e o belo filme de estreia de Stephen Daldry, merecidamente indicado ao Oscar já em seu primeiro trabalho. Um perfeito exemplo de como um filme pode ser encantador e comovente sem gastar fábulas ou apelar para lágrimas fáceis, "Billy Elliot" seduz a audiência pela sensibilidade e pela honestidade.

Billy é o filho caçula de Jackie Elliot (Gary Lewis), um viúvo que trabalha arduamente para sustentar a sogra doente e os dois filhos. É o ano de 1984, e a família vive em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, inflamada por uma polêmica greve dos trabalhadores das minas de carvão. Um dos líderes trabalhistasé justamente o irmão de Billy, Tony (Jamie Draven), que não aceita diálogo e luta por melhores condições de trabalho no governo de Margaret Tatcher. Billy, aos onze anos de idade cuja única diversão é frequentar suas aulas de boxe, as quais encara sem muito entusiasmo. Sua vida dá uma virada inesperada quando ele conhece a Sra. Wilkinson (Julie Walters), que dá aulas de balé no mesmo ginásio onde ele treina - e tem suas aulas pagas com muito suor por seu pai. Encantado com o mundo da dança, Billy desperta a atenção da veterana professora, que o incentiva então a ir embora para Londres, tentar a sorte como bailarino profissional. Para isso, porém, o menino terá que enfrentar o preconceito da cidade e as dificuldades financeiras da própria família, sofrendo com a crise econômica do país.



Conquistando o papel principal ao deixar para trás mais de dois mil candidatos, Jamie Bell provou ser a melhor escolha do diretor Stephen Daldry. Seu físico mirrado, seu olhar que alterna timidez com fúria e seu passado como dançarino (quando era frequentemente vítima de deboche dos colegas) fazem dele o ator ideal para viver Billy Elliot, um dos protagonistas mais encantadores de sua temporada. Mesmo que muitas vezes soe agressivo - em especial em sua relação quase materna com sua professora - o jovem Elliot jamais afasta o público de si, envolvendo-o com sua paixão nascente pela dança. É especialmente tocante a cena em que ele tenta convencer seu pai a respeito de seu talento simplesmente dançando, sem dizer uma única palavra, assim como é necessário aplaudir de pé o resto do elenco escolhido por Daldry.

A escolada Julie Walters arrebatou uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por sua performance como a Sra. Wilkinson, uma mulher que vê no pré-adolescente arredio uma chance de compensar sua frustração profissional - ao contrário do clichê, no entanto, ela não é nem recalcada nem invejosa e sim uma espécie de mãe que é tão necessária na vida de seu aluno. Mas é Gary Lewis, na pele do pai do protagonista quem quase rouba todas as cenas em que aparece, em uma atuação nunca aquém de soberba. Discreto e econômico, Lewis merecia também ser lembrado pelo Oscar por jamais deixar de transmitir toda a extensão de sentimentos de sua personagem sem que, para isso, precise discursar ao público. A cena final, por exemplo, é um primor de sutileza e emoção: ele nem precisa falar para despertar a empatia, a solidariedade e a emoção de sua audiência. Se é nos pés de Billy que Daldry concentra o corpo de seu filme, é no olhar orgulhoso e marejado de Jackie Elliot que o filme encontra sua alma.

Um dos filmes mais humanos a surgir nas telas em 2000, "Billy Elliot" é, acima de tudo, uma ode à paixão pela arte, à família e à fé nos próprios desejos. É uma pequena obra-prima embalada por uma bela trilha sonora e um roteiro delicioso como uma obra de Tchaikovsky.

Wednesday, July 20, 2011

TUDO SOBRE MINHA MÃE

TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo sobre mi madre, 1999, El Deseo SA, 101min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Bina Daigeler, José Maria de Cossio. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodovar. Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penelope Cruz, Antonia San Juan, Candela Peña, Rosa Maria Sardá. Estreia: 16/4/99

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Diretor (Pedro Almodovar)

As atrizes hollywoodianas adoram reclamar – não sem certa razão - que é difícil encontrar bons e desafiadores papéis femininos. É de imaginar, portanto, seu choque quando assistiram a “Tudo sobre minha mãe”, filme que deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes ao espanhol Pedro Almodóvar. Em seu 13º longa-metragem, o cineasta atinge sua maturidade artística em um filme que apresenta ao público não apenas uma ou duas personagens femininas interessantes, mas simplesmente uma boa meia-dúzia delas (com espaço até mesmo para uma transexual). Deixando de lado os machistas protagonistas de seu filme anterior, o bem-sucedido “Carne trêmula”, Almodóvar criou personagens complexas, multidimensionais e fascinantes, donas dos próprios desejos e sofrimentos – e que carregam na pele e na alma as cicatrizes de suas vidas.

No centro dessa mulherada fascinante toda está Manuela (Cecília Roth em uma atuação madura e admirável), uma mulher assombrada pela trágica e precoce morte do filho adolescente, atropelado em plena noite de seu aniversário de 17 anos, quando tentava um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes). Devastada pela dor, Manuela parte para Barcelona com o objetivo de encontrar o pai do rapaz e dar-lhe a triste notícia. Chegando lá, reencontra-se com uma amiga dos tempos de juventude, a prostituta transexual Agrado (a excelente Antonia San Juan, sempre a ponto de roubar as cenas). Através de Agrado, Manuela conhece Irmã Rosa (Penélope Cruz), uma jovem religiosa que dá assistência social nas ruas da cidade e que, para surpresa de todas, se descobre grávida justamente do ex-marido de Manuela, um conquistador que assumiu o nome de Lola ao passar a travestir-se. Fugindo do jugo da mãe burguesa (Rosa Maria Sardí), Rosa vai morar com Manuela justamente quando esta aceita o emprego como assistente pessoal de Huma Rojo, que chega à cidade acompanhada da amante Nina (Candela Pena), uma atriz viciada em drogas com quem vive uma relação tempestuosa.


A rede de relações criada por Almodóvar, nunca forçada e sim absolutamente orgânica graças ao elenco inspirado, empurra seu filme em uma ciranda de crescimento pessoal de todas as mulheres, que descobrem na amizade e na cumplicidade uma forma de seguir suas vidas, por mais complicadas que sejam ou estejam. Apoiado em uma fotografia belíssima do brasileiro Affonso Beato, que nunca trai as origens quentes do cineasta mas foge da cafonice proposital de seus primeiros filmes, o roteiro não tem medo de criar um mundo surreal, onde o conquistador machista é também um travesti e uma religiosa aparentemente virgem está grávida e morrendo de AIDS. A trilha sonora de Alfredo Iglesias colabora com o clima melancólico e ao mesmo tempo otimista do filme, que apela para as emoções mais nobres do ser humano sem em nenhum momento buscar a lágrima fácil ou momentos clichês. Pode-se medir a genialidade e inteligência de um cineasta por sua capacidade de contar histórias fora do comum e com personagens quase à margem da realidade e ainda assim fazer com que seu público não fique a todo momento lembrando que está assistindo a apenas uma obra de ficção. Em “Tudo sobre minha mãe”, o espanhol comprova – mais uma vez – seu imenso talento em mergulhar a plateia em um universo extremamente particular.

Repleto de um humor no limiar entre o irônico e o vulgar e citações cinematográficas - o título do filme é uma brincadeira com o nome original do clássico "A malvada (All about Eve)", que é assistido por Manuela e seu filho nas primeiras cenas, e em determinado momento a própria Manuela substitui Nina no palco, exatamente como acontece na obra de Joseph L. Mankiewicz - e teatrais, o filme ainda é dedicado às atrizes que já interpretaram atrizes, às atrizes que interpretaram mães e à própria mãe do diretor. Uma delicadeza a mais em uma obra impecável, merecidamente premiada com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Até hoje o melhor trabalho de Pedro Almodovar!

Tuesday, May 31, 2011

CORRA LOLA, CORRA

CORRA LOLA, CORRA (Lola Rennt, 1998, 81min) Direção e roteiro: Tom Tykwer. Fotografia: Frank Griebe. Montagem: Mathilde Bonnefoy. Figurino: Monika Jacobs. Direção de arte/cenários: Alexander Manasse/Irene Otterpoh. Produção: Stefan Arndt. Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibetreu, Nina Petri, Herbert Knaup. Estreia (Alemanha): 20/8/98

Ainda bem que não só de Wim Wenders vive o cinema alemão! Deixando de lado a imagem soporífera e intelectualóide das produções alemãs que alcançaram o grande público mundial, o divertido "Corra Lola, corra" rompe radicalmente com seus antepassados. Ágil, moderno e criativo, o filme de Tom Tykwer conquista a audiência justamente por ser absolutamente desligado de qualquer obrigação sócio-filosófica que o cinema europeu "engajado" empurra garganta abaixo do público. É entretenimento puro e simples, conectado absurdamente com a audiência jovem que fez dele um grande sucesso.

Apresentando o que convencionou-se chamar de "estética de videoclipe" (sem o sentido pejorativo do termo), "Corra Lola, corra" é praticamente isso, mesmo: um videoclipe estiloso e divertido que utiliza um fiapo de enredo para seduzir uma audiência sedenta por novidades na sétima arte. Pode ser quase fútil e até mesmo raso em termos de conteúdo, mas é tão fascinante que a falta de uma trama consistente quase nem é sentida. O truque é entrar na viagem de Tykwer e, ao lado da bela Franka Potente (que logo foi importada por Hollywood nos dois primeiros filmes da série Bourne), correr adoidado pelas ruas de uma Berlim bem diferente daquela mostrada pelos cineastas "sérios".


Lola, a protagonista vivida com garra e carisma por Potente, é uma jovem alemã que, na primeira cena do filme, recebe um angustiado telefonema do namorado Mannie (Moritz Bleibetreau), que acaba de perder uma sacola contendo 100 mil marcos que pertencem a seu chefe, um marginal perigoso e truculento. Para impedir que o rapaz assalte um supermercado, ela precisa arrumar a grana dentro de vinte minutos. A partir daí, a correria começa e o roteiro conta a mesma história três vezes, sempre com desdobramentos diferentes, tanto para Lola e Mannie quanto para as pessoas com as quais eles tem contato - entre elas, o pai de Lola (envolvido em uma relação extraconjugal) e o mendigo que encontrou a sacola com o dinheiro de Mannie.

Ao ritmo de música techno de qualidade (composta pelo próprio diretor e com vocais de Potente), "Corra Lola, corra" é dinâmico e imprevisível, utilizando-se de vários formatos para contar sua história, como animação e flashes fotográficos (que mostram o futuro das pessoas que cruzam o caminho da personagem central). Mesmo que os protagonistas não tenham exatamente um teor psicológico mais aprofundado - uma vez que a trama concentra-se basicamente nos vinte minutos cruciais de suas vidas - não é justo apedrejar o roteiro do cineasta, que brinca com todas as possibilidades do destino sem tentar ser filosófico ou sério demais. Isso o cinema alemão encontra em Wim Wenders, afinal...

"Corra Lola, corra" é um filme delicioso, com um visual atraente (é um achado a cabeleira vermelha de Lola esvoaçando enquanto ela percorre a passos largos as ruas de sua cidade) e um senso de timing extraordinário. Curto e enxuto (dura menos de hora e meia), é um filme com a cara de seu tempo, e é também um belo cartão de visitas para seu diretor, que, em Hollywood, assinaria o belo mas pouco visto "Paraíso", estrelado por Cate Blanchett e Giovanni Ribisi, com roteiro do polonês Krzystof Kieslowski.

Monday, February 7, 2011

O PADRE

O PADRE (Priest, 1994, Miramax Films, 98min) Direção: Antonia Bird. Roteiro: Jimmy McGovern. Fotografia: Fred Tammes. Montagem: Susan Spivey. Música: Andy Roberts. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Raymond Langhorn/Sue Pow. Produção executiva: Mark Shivas. Produção: George Faber, Josephine Ward. Elenco: Linus Roache, Tom Wilkinson, Robert Carlyle, Robert Pugh, Cathy Tyson, Lesley Sharp. Estreia EUA: 24/3/95

Dentre inúmeros países que levam muito a sério a sua origem católica, a Irlanda provavelmente é um dos mais radicais, e não gosta nem um pouco que se toque em qualquer polêmica relativa a sua religião. Um exemplo claro dessa afirmação é seu violento boicote a "O padre", realizado pela cineasta inglesa Antonia Bird. Ao centrar sua história em um sacerdote homossexual com dúvidas em relação a um dos principais dogmas da Igreja, Bird desagradou a cúpula religiosa irlandesa, que tentou banir o filme dos cinemas. Tendo estreado mundialmente no Festival de Toronto de 1994, o filme alcançou as telas inglesas e americanas em março do ano seguinte, dividindo opiniões mas dando seu recado de forma bastante contundente.

A história começa quando o jovem padre Greg Pilkington (o ótimo Linus Roache, que anos depois faria o pai de Christian Bale em "Batman begins") chega a uma paróquia de Liverpool para substituir um antigo religioso. Logo que chega ao local, porém, Greg descobre que o pároco, Padre Matthew Thomas (Tom Wilkinson) não é exatamente praticamente do celibato, tendo um relacionamento estável com uma funcionária, Maria Kerrigan (Cathy Tyson). A princípio chocado com a descoberta, aos poucos Greg inicia uma relação de amizade e admiração pelo religioso mais velho, principalmente porque também seus segredos e dúvidas. Homossexual, ele passa a se encontrar às escondidas com o operário Graham (Robert Carlyle), lutando contra suas convicções. Sua fé fica definitivamente abalada, no entanto, quando ele descobre, através da confissão, que a adolescente Lisa (Christine Temarco) é abusada sexualmente pelo próprio pai. Sem poder revelar o trágico segredo, Greg fica de mãos amarradas e inicia uma jornada de revisão de todos os seus conceitos.

"O padre" não tem medo de polemizar. Cenas de sexo ousadas, diálogos bastante inteligentes a respeito da falta de sentido de alguns dos principais pilares da igreja católica e incesto desfilam pela tela diante dos olhos da plateia, a qual só resta tomar partido: é um filme forte e de ideias liberais ou apenas uma obra com vontade de chocar a audiência mais conservadora? Talvez a resposta esteja na coluna do meio. "O padre" merece aplausos por sua coragem em tocar em temas que precisam ser discutidos sem falsos moralismos, mas o faz, em certos momentos, sem uma bem-vinda dose de sutileza. Antonia Bird consegue provocar a discussão, mas a encerra de maneira um tanto abrupta e simplista. Até lá, no entanto, boa parte de suas intenções atingiram o objetivo: "O padre" toca em feridas e só por isso já é digno de louvor.


Primeiro, o roteiro de Jimmy McGovern ousa questionar o celibato, na figura do Padre Thomas, interpretado com o talento conhecido de Tom Wilkinson. Adepto da Teologia da Libertação, o veterano sacerdote vive em constante conflito com seus superiores a respeito de todo e qualquer assunto relacionado às formalidades católicas e suas discussões com o bispo são interessantes e relevantes. Se tivesse dedicado o filme todo a essa questão complicada por si mesma, "O padre" já daria o que falar. Mas Antonia Bird e McGovern ainda querem mais. E aproveitam a mesma trama (incesto) para discutir abuso sexual e a importância dos segredos de confessionário. Em "Testemunha do silêncio", Alfred Hitchcock jogou Montgomery Clift na cova dos leões ao fazê-lo ser acusado de um crime do qual ele sabia o autor através da confissão. Aqui, Padre Greg é impedido de tomar qualquer atitude em relação ao drama da adolescente Lisa e isso aumenta sua crise de fé. Ou seja, assunto para longas discussões em mesas de bares, artigos de jornal e sermões.

Mas nenhuma trama de "O padre" causou mais comoção do que a discussão do homossexualismo. Antonia Bird não se furta a mostrar graficamente a opção sexual de Greg, em cenas bastante quentes, ainda que muito bem dirigidas e plasticamente atraentes. Mesmo que os demais assuntos discutidos no filme sejam tão fortes quanto as aventuras amorosas de Greg com seu amante Graham, são elas que causaram mais choque entre a comunidade religiosa irlandesa e mundial a respeito do filme. Discutir celibato? Tudo bem. Questionar a validade dos segredos de confissão? Perfeito. Mas falar sobre homossexualidade dentro da Igreja pareceu ser além da conta. À luz dos inúmeros escândalos envolvendo pedofilia e padres, no entanto, não deixa de ser de extrema ironia que um filme com pretensões sérias e legítimas tenha sido capaz de despertar tanto celeuma.

No final das contas, "O padre" é um filme que merece ser assistido por suas qualidades artísticas (o elenco é impecável), mas que fica no meio-termo entre o que poderia ser e o que se tornou. Discute assuntos muito sérios que precisam ser discutidos, mas o faz de maneira bastante simplória em alguns momentos, apesar de algumas cenas de extrema força dramática. É um filme que poderia ter sido genial, mas que esbarra em seus próprios exageros e vontade de chocar.

Friday, February 4, 2011

O CARTEIRO E O POETA

O CARTEIRO E O POETA (Il postino/The postman, 1995, Miramax International, 108min) Direção: Michael Radford. Roteiro: Anna Pavignano, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli, Massimo Troisi, romance "Ardiente paciencia", de Antonio Skarmeta. Fotografia: Franco di Giacomo. Montagem: Roberto Perpignani. Música: Luis Enrique Bacalov. Figurino: Gianna Gissi. Direção de arte: Lorenzo Baraldi. Produção executiva: Alberto Passone. Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori, Gaetano Daniele. Elenco: Phillipe Noiret, Massimo Troisi, Maria Grazia Cucinotta, Linda Moretti, Anna Bonaiuto. Estreia EUA: 14/6/95

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Radford), Ator (Massimo Troisi), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original/Drama
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Drama

Para um filme estrangeiro, romper a barreira do idioma e fazer sucesso junto ao preguiçoso e mal-acostumado público médio norte-americano é uma façanha e tanto. Quando a esse sucesso junta-se generosas cinco indicações ao Oscar - inclusive as mais importantes de filme, diretor, roteiro e ator - então, a festa tem tudo para ser completa. Pois o belo italiano "O carteiro e o poeta" pode-se gabar desses dois feitos e tanto. Mesmo tendo sido dirigido pelo inglês Michael Radford, a adaptação do romance do chileno Antonio Skarmeta tem cenário, alma e sensibilidade italianas, e é capaz de emocionar qualquer espectador disposto a embarcar na jornada de um homem em direção às mais importantes conquistas de sua vida: o amor, a amizade e a consciência política.
O roteiro de "O carteiro e o poeta" mescla acontecimentos reais com uma história de ficção, equilibrando com maestria o verdadeiro com o imaginário. Mesmo tendo um final substancialmente diferente de sua versão literária - o que pode enfurecer os puristas, mas não atinge a vasta maioria da audiência - ele mantém o tom cômico/romântico/melancólico do livro e da peça teatral que este originou. Tudo se passa em uma pequena ilha da Sicília, onde o poeta chileno Pablo Neruda (Phillipe Noiret) se auto-exila depois de desentendimentos sérios com o governo de seu país. Vivendo ao lado da esposa Matilda em uma casa simples com uma bela vista para o mar, ele recebe vasta correspondência de seus fãs - a maioria mulheres encantadas com suas poesias. Encarregado de entregar todas as cartas que chegam para Neruda está o simples e semi-analfabeto Mario Ruoppolo (Massimo Troisi), que tenta desesperadamente fugir de uma vida miserável e da carreira de pescador de seu pai. Quando Mario se apaixona pela garçonete Beatrice (Maria Garzia Cuccinota), ele resolve pedir ajuda ao poeta para conquistá-la. No processo de aprender a fazer poesia, Mario passa a tomar consciência da desigualdade social que impera em seu vilarejo e inicia uma grande e profunda amizade com Neruda.



Premiado com o Oscar de melhor trilha sonora original/drama, "O carteiro e o poeta" deu a Massimo Troisi uma indicação póstuma na categoria de melhor ator. Troisi, que morreu 24 horas depois de encerrar sua participação no filme era um dos atores mais queridos e talentosos do cinema italiano da época, tendo participado de filmes importantes como "A viagem do Capitão Tornado", de Ettore Scola. Tendo feito seu último filme já seriamente doente - havia adiado a cirurgia cardíaca para após o término de filmagens - Troisi conquista a plateia com seu jeito triste e simplório, em uma atuação tão delicada quanto sua saúde no momento. Com um perfeito timing de comédia e uma riqueza de nuances em sua expressão facial, ele rouba a cena até mesmo do veterano e carismático Noiret, que pontua com discrição seu show particular.

Mas, além da presença extraordinária de Troisi, "O carteiro e o poeta" também tem outros trunfos, que o levaram a ocupar um lugar de destaque nos corações dos fãs. A fotografia deslumbrante de Franco di Giacomo não busca o tentacular e encanta justamente por limitar-se à beleza das paisagens (mesmo quando foca as tristes e desesperançadas redes dos pescadores). A música de Luis Bacalov é deslumbrante por sua pungência. E o roteiro - que poderia facilmente ter levado o Oscar se não tivesse batido de frente com o fabuloso Razão e sensibilidade, de Emma Thompson - alterna com grande inteligência momentos genuinamente engraçados com diálogos brilhantes e um final de partir o coração. O que mais se pode esperar de um filme, além disso?

Não é por qualquer motivo que "O carteiro e o poeta" fez tanto sucesso pelo mundo. Lançado na mesma época em que imbecilidades como "Independence Day" lotavam salas e mais salas, ele foi um oásis de humanismo, sinceridade e beleza para aqueles que buscam no escurinho do cinema a vida como ela é, ainda que revestida de uma dolorosa e tocante aura de poesia.

Wednesday, December 29, 2010

A RAINHA MARGOT

A RAINHA MARGOT (La reine Margot, 1994, Renn Productions, 144min) Direção: Patrice Chereau. Roteiro: Patrice Chereau, Danielle Thompson, romance de Alexandre Dumas. Fotografia: Phillipe Rousselot. Montagem: François Gédigier, Hélène Viard. Música: Goran Bregovic. Figurno: Moidele Bickel. Direção de arte: Richard Peduzzi, Olivier Radot. Produção executiva: Pierre Grunstein. Produção: Claude Berri. Elenco: Isabelle Adjani, Daniel Auteil, Virna Lisi, Vincent Perez, Jean-Hugues Angladé, Pascal Greggory, Miguel Bosé, Thomas Kreschtmann. Estreia: 13/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Virna Lisi)
Vencedor do Prêmio do Júri - Festival de Cannes


Sempre que um filme francês foge de seu tradicional padrão - leia-se ritmo lento, verborragia excessiva e conteúdo existencial/dramático - a imprensa especializada apressa-se em encontrar nele ecos do cinema americano, depreciando suas qualidades próprias. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com a adaptação do romance "A rainha Margot", do escritor Alexandre Dumas. Violento, ágil e principalmente muito caro, o filme de Patrice Chereau encontrou brava resistência junto à crítica, que o acusou de ser derivativo do cinema hollywoodiano. Isso não o impediu, porém, de encontrar seu público - fez enorme sucesso comercial - e de encantar o júri do Festival de Cannes - que deu a Virna Lisi o merecidíssimo prêmio de melhor atriz.

Ainda que seja coadjuvante - a protagonista é vivida por uma deslumbrante Isabelle Adjani - a Catarina de Médicis criada por Lisi é, sem sombra de dúvida, a personagem mais interessante do filme, uma presença maligna e ambiciosa que rouba todas as cenas em que aparece. Espectral como um fantasma e malévola como tal, Catarina manipula todos a seu redor, com o objetivo único de entregar o poder da França a seu filho preferido, o Conde D'Anjou (Pascal Greggory), mesmo que, para isso, tenha que ser a responsável por um dos episódios mais sangrentos da história de seu país.

A trama de Dumas - adaptada a contento por Chereau e Danielle Thompson - se passa na Paris de 1572, quando as brigas entre católicos e protestantes estão a um passo de transformarem-se em uma guerra civil. Para apaziguar ambos os lados, o Rei Charles (o ótimo Jean-Hugues Angladé) acata a ideia de sua mãe, Catarina de Médicis (Virna Lisi) de casar sua irmã católica, Margot (Isabelle Adjani) com Henrique de Navarre (Daniel Auteiuil), um rei protestante. O que era para ser uma ocasião festiva, no entanto, torna-se uma noite sangrenta quando, devido a articulações de Catarina, centenas de protestantes são assassinados violentamente. Refugiando-se da morte no quarto de Margot - casada contra a vontade e não exatamente um exemplo de puritanismo, uma vez que tem dezenas de amantes - o jovem La Môle (Vincent Perez) acaba se apaixonando por ela e sendo correspondido. Para ficarem juntos, eles precisam sobreviver às intrigas do palácio e à violência da ambição de Catarina e seu séquito, capazes de conspirações e assassinatos covardes.

Vendido ao mercado internacional como uma história de amor, na verdade "A rainha Margot" é um épico repleto de suspense, interpretado por alguns dos melhores atores franceses de sua época. Ao lado da impressionante Virna Lisi e da bela Isabelle Adjani estão nomes como Daniel Auteil e Jean-Hugues Angladé, que extraem o melhor possível de seus papéis, em especial o segundo, que, na pele do fraco rei Charles - que tem um filho bastardo mas não a coragem de assumí-lo perante a corte e sua dominadora mãe - dá um show particular. Principal vítima das articulações maldosas de sua progenitora, ele acaba sendo sacrificado por engano, culminando na tragédia do desfecho do filme - que não se deixa seduzir por um falso final feliz.

Fotografado com precisão por Phillipe Rousselot - que amplia a escuridão dos palácios e das ruas de Paris para reiterar as trevas que circundam as personagens - e com uma reconstituição de época caprichada (com ênfase no figurino indicado ao Oscar de Moidele Bickel), "A rainha Margot" conquista justamente pelos motivos que incomodaram os críticos sem abdicar dos elementos próprios de sua cinematografia (nudez frontal masculina ainda é tabu em Hollywood, por exemplo) e absorvendo o melhor do cinema americano, ele é um filme que serve tanto como entretenimento quanto como história (ainda que disfarçada de romance). Não é um típico produto francês, mas é bem mais nutritivo do que filmes de ação americanos.

Monday, December 20, 2010

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (Four weddings and a funeral, 1994, Polygram Filmed Entertainment/Channel Four Films/Working Title Films, 117min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Jon Gregory. Música: Richard Rodney-Bennett. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Maggie Gray/Anna Pinnock. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Duncan Kenworthy. Elenco: Hugh Grant, Andie McDowell, Kristin Scott-Thomas, John Hannah, Simon Callow, Rowan Atkinson. Estreia: 04/3/94

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Hugh Grant)

 Para renovar seu elenco de astros e galãs, volta e meia Hollywood vai buscar em outras paragens rostos novos e talentosos. Em 1994 foi a vez de Hugh Grant, um inglês então com 32 anos que tornou-se a sensação do momento graças a uma comédia romântica das mais engraçadas lançadas na década, "Quatro casamentos e um funeral". Dono de uma carreira da qual já faziam parte filmes de prestígio como "Maurice", de James Ivory e "Lua de fel", de Roman Polanski, Grant virou febre nos EUA e no mundo, com sua mistura de galã desajeitado e estilo rapaz da casa ao lado. Antes que um escândalo sexual prejudicasse sua imagem - ele foi flagrado recebendo sexo oral de uma prostituta, em 1995 - Grant era o genro que toda mãe de família sonhava. E "Quatro casamentos" foi o estopim para esse sucesso todo.

Escrito com verve pelo ótimo Richard Curtis - especialista no gênero que mais tarde tornaria-se cineasta com o simpático "Simplesmente amor", de 2003 - "Quatro casamentos" não só foi um dos filmes britânicos de maior bilheteria nos EUA como concorreu a 2 Oscar - melhor filme e roteiro original. Infelizmente bateu de frente com "Forrest Gump" e "Pulp fiction", o que arruinou suas chances. No entanto, seus fãs provavelmente não dão a menor importância a isso, preferindo ver e rever a delicada e hilária história de amor vivida nas telas por Grant e a americana Andie McDowell do que preocupar-se com cerimônias de premiação.
Grant (vencedor do Golden Globe por sua atuação) vive Charles, um mulherengo e solteirão convicto que ignora solenemente todas as investidas femininas em relação a um compromisso mais sério. Durante a festa de casamento de um amigo ele conhece a americana Carrie (McDowell em papel recusado - para sorte de todos - por Melanie Griffith e Brooke Shields), uma mulher atraente, liberada e, melhor que tudo, estrangeira. Depois de passar a noite com ela e despedir-se, no entanto, Charles fica surpreso ao perceber que gostou mais dela do que esperava. Apaixonado pela primeira vez na vida, ele ainda irá demorar mais três cerimônias de casamento e o funeral de um querido amigo para finalmente convencê-la de seu amor.



A grande sacada do roteiro de Curtis foi justamente situar a vasta maioria das cenas do filme nos eventos do título. Meio como que contando crônicas do dia-a-dia festivo de Charles e seus amigos, o roteirista aproveita para criar cenas curtas e bem escritas, que conquistam pelo humor ácido mas nunca vulgar ou agressivo. Com essa estrutura, todas as personagens do filme apresentam ao público somente parte de suas personalidades, mas o texto de Curtis é tão bom que não é preciso muito para que logo todo o grupo de amigos pareçam velhos conhecidos. E eles são de aplaudir de pé, desde Fiona (Kristin Scott-Thomas), a ex-namorada recalcada até o casal gay Gareth (Simon Callow) e Matthew (John Hannah) - responsáveis pela cena mais bonita do filme, onde um poema de W.H. Auden é declamado para a emoção de todo mundo (personagens e audiência).

E se até Auden é citado no filme, o que dizer então de sua trilha sonora? Além da bela "Love is all around" (que virou hit e a cara do filme, interpretada por Wet Wet Wet), somos brindados com Elton John cantando "But not for me" e "Chapel of love" - esta última nos divertidíssimos créditos finais, que brincam até mesmo com o Príncipe Charles - e nem mesmo a Princesa Diana é poupada: na encantadora cena em que Charles e Carrie conversam sobre suas experiências sexuais, ela é citada como exemplo oposto à Madonna. Aliás, a mesma cena comprova a excelente química entre o casal: mesmo apenas sentados em uma mesa e dialogando, Hugh Grant e Andie McDowell fascinam a plateia, que torce por seu esperado final feliz.

Contando até mesmo com Rowan Atkinson - o Mr. Bean em pessoa - como um padre extremamente atrapalhado, "Quatro casamentos e um funeral" é um antídoto perfeito para uma tarde tediosa e uma crise de descrédito no amor. É sensível, é engraçado e é inglês. Melhor é impossível!

Tuesday, December 14, 2010

KIKA

KIKA (Kika, 1993, El Deseo, 114min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: José Salcedo. Figurino: José María Cossio, Gianni Versace. Direção de arte: Alain Bainée, Javier Fernandez. Produção: Agustin Almodovar. Elenco: Veronica Forqué, Peter Coyote, Victoria Abril, Àlex Casanovas, Rossy de Palma, Santiago Lajusticia. Elenco: 29/10/93

Dono de uma das mais criativas mentes do cinema europeu, o cineasta e roteirista Pedro Almodovar tem uma séria tendência ao melodrama. Reviravoltas mirabolantes, crimes misteriosos e passionais e amores obsessivos são moeda corrente em sua filmografia. Normalmente pródigo em equilibrar elementos dramáticos com as mais absurdas e surreais situações, o espanhol também é especialista em criar memoráveis personagens femininas. Por isso, não é nenhuma surpresa o fato de o maior destaque de "Kika" seja justamente uma bizarra jornalista chamada Andrea Caracortada. Sensacionalista e fria a ponto de filmar impassível um assassinato - para aumentar os índices de audiência de programa de TV chamado "O pior do dia" - ela é vestida por Jean-Paul Gautier, pilota uma motocicleta com um capacete munido de uma câmera e abusa de imagens do mundo-cão para sobressair em sua profissão - além, é claro, de ostentar uma cicatriz na face direita. A surpresa aqui é que Andrea Caracortada, apesar de roubar todas as cenas em que aparece, não é a protagonista do filme.

Vivida por Veronica Forqué, a personagem-título é uma maquiadora dotada de grande otimismo que, mesmo morando com o namorado fotógrafo, Ramon (Alex Casanova), mantém um tórrido romance com o padrasto dele, o escritor americano Nicholas (Peter Coyote). A volta de Nicholas à Espanha abala o relacionamento um tanto frio de Kika e Ramon, especialmente porque o rapaz desconfia que a morte de sua mãe não foi o suicídio oficial e sim um assassinato. O triângulo amoroso cruza o caminho de Andrea - novamente, já que ela foi amante de Ramon em outros tempos - quando o ator pornô Pablo (Santiago Lajusticia), irmão da empregada lésbica de Kika, Juana (Rossy de Palma), invade o apartamento da esteticista e a estupra repetidas vezes.

Apesar de brincar com temas sérios - violência sexual, adultério, homicídios - Almodovar não consegue, em "Kika" repetir o mesmo nível de sucesso de seu filme mais famoso até então, "Mulheres à beira de um ataque de nervos". Indeciso entre narrar uma história policial ou debochar dos excessos com que o gênero se mantém, ele não atinge aqui o delicado equilíbrio entre o drama e a comédia de seus trabalhos anteriores. Prejudicado pela falta de carisma de sua atriz principal - que substituiu Maria Barranco (a amante do terrorista de "Mulheres...") na última hora - o décimo longa-metragem de Almodovar esbarra na falta de interesse da história, não particularmente empolgante. No entanto, espertamente, seu maior trunfo acaba se tornando também a prova da fragilidade de sua protagonista.


Na pele de Andrea Caracortada - e se divertindo notadamente em cena - Victoria Abril tem os diálogos mais "almodovarianos" do filme, repletos de um humor surreal  (a entrevista que faz com a mãe de um acusado de homicídio, por exemplo, é uma pérola de humor negro). Ainda que sua personagem não tenha uma profundidade maior - uma deficiência que o diretor curou majestosamente em seus trabalhos posteriores - Abril deita e rola, em uma das atuações mais fascinantes de sua carreira. Sempre que ela sai de cena o filme enfraquece, mesmo contando com a participação da também hilária Rossy de Palma. De Palma, aliás, um dos rostos mais estranhos do cinema europeu da época, também não fica atrás em termos de aproveitamento: todas as suas cenas nunca são menos do que engraçadíssimas. E isso inclui a polêmica sequência do estupro de sua patroa.

Em uma longa cena - mais de dez minutos - Almodovar mostra Kika sendo estuprada pelo irmão de sua empregada, um ator pornô foragido da cadeia que tenciona bater o recorde de gozar quatro vezes sem tirar. Em uma prova inconteste do humor sui generis do cineasta, ao invés de chocar ou indignar, a cena é uma das mais hilárias do filme - e isso inclui a participação de dois policiais bastante incomuns e um misterioso voyeur, que assiste a tudo de sua janela. Enquanto é estuprada, Kika não chora nem dramatiza: conversa com seu agressor e até mesmo tenta ajudá-lo em sua missão, ao simular o orgasmo mais falso da história do cinema...

Talvez "Kika" seja o filme menos brilhante de Almodovar - uma espécie de transição entre seu lado marginal e seu status de autor que se firmaria em pouco tempo. Mas é divertido, diferente e jamais comum, o que, convenhamos, é bom o suficiente.

Friday, October 8, 2010

ATAME!

ATAME! (Atame!, 1990, El Deseo S/A, 111min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Ennio Morricone. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte/cenários: Esther Garcia/Pepón Sigler. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Enrique Posner. Elenco: Victoria Abril, Antonio Banderas, Loles Leon, Francisco Rabal, Julieta Serrano. Estreia: 22/01/90

"Tenho 23 anos, 50 mil pesetas e serei um bom marido para ti e um bom pai para os teus filhos."  Assim se apresenta à atriz Marina Osório o jovem Ric, recém-saído de uma instituição psiquiátrica e que, para chamar-lhe a atenção, sequestrou-a em seu próprio apartamento e a amarrou e amordaçou. Ele é apaixonado por ela desde que, em uma de suas várias fugas do hospital onde morava, encontrou-a em uma boate e fez sexo com ela. Esse amor, obcecado, cego e até um tanto ingênuo é o cerne de "Atame!", uma bizarra e excitante história de amor dirigida pelo mais apropriado cineasta possível: o espanhol Pedro Almodovar.

Alçado à glória depois do espetacular sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos", Almodovar conseguiu surpreender meio mundo com sua visão particular (doentia/debochada/sexy) de "O colecionador" , filme de suspense dirigido por William Wyler em 1965 e estrelado por Terence Stamp e Samantha Eggar. Ao acrescentar altas doses de erotismo à sua já idiossincrática visão de mundo - que inclui um amor exagerado ao kitsch, um humor politicamente incorreto e seu alto teor iconoclasta - Almodovar encantou os fãs de bom cinema, mas incomodou a ala mais conservadora do público. Os exibidores americanos, por exemplo, não gostaram nadinha da longa cena de sexo entre os protagonistas e liberou-o para as salas de exibição com um selo de filme pornográfico. A gritaria em torno desse absurdo, inclusive - assim como aconteceu com o belo "Henry & June", de Philip Kaufman - foi o estopim para que a famigerada classificação X desse lugar, junto à censura americana, ao menos assustador NR-17 (menores de 17 anos entram no cinema somente acompanhados dos pais...) Mas o fato é que "Atame!" é bem mais do que  um filme despudorado (no bom sentido) dirigido por um espanhol fora de controle (no melhor sentido) e rebelde às convenções morais (num sentido ainda melhor). "Atame!" é uma espécie de comédia romântica à base de anfetaminas. E é absurdamente delicioso!

Quando "Atame!" começa, o jovem Ric (vivido com gosto e uma alta dose de ingenuidade malandra por Antonio Banderas em seu melhor momento) está saindo de uma instituição onde passou a maior parte de sua vida - e onde aprendeu vários ofícios, além de ter dormido com todas as enfermeiras que lhe passaram pela frente. Seu maior objetivo, ao encarar novamente o mundo com liberdade, é conquistar a mulher que ama, Marina Osório (Victoria Abril), uma atriz pronô que está tentando abandonar o vício em drogas e começar uma carreira como intérprete séria ao fazer um filme com um veterano diretor (Francisco Rabal). Mas para convencer Marina que ele é o homem certo para ela, ele precisa apelar para seu plano B - raptá-la.

"Atame!" é Almodovar em seu melhor. A trilha sonora rasgada de Ennio Morricone casa com perfeição com as personalidades histéricas das personagens, com as corres berrantes da direção de arte característica da obra do cineasta - onde imagens de santos dividem espaço com vibradores em forma de mergulhadores - e com a história, por si só absurda e apaixonante. Assim como acontece com a maioria das criações de Almodovar, o amor de Ric não é um amor tradicional - ele não tenta conquistar Marina com poemas ou serenatas (até tenta com uma caixa de chocolate), mas sequestrando-a. Não é um beijo que ele lhe dá no primeiro encontro na casa dela - é uma cabeçada... Ric é a quintessência do amor na obra de Almodovar - erótico, compulsivo, passional, mas ainda assim absolutamente sincero.

E a tão falada cena de sexo de "Atame!" - elogiada até mesmo por Elia Kazan e que não acaba onde normalmente acontece quando um filme é pudicamente hollywoodiano - é, sem sombra de dúvida, uma das mais quentes, reais e excitantes da história do cinema. Almodóvar é mestre!

Thursday, September 9, 2010

CAMILLE CLAUDEL


CAMILLE CLAUDEL (Camille Claudel, 1988, 158min) Direção: Bruno Nuytten. Roteiro: Bruno Nuytten, Marilyn Goldin, livro de Reine-Marie Paris. Fotografia: Pierre Lhomme. Montagem: Joelle Hache, Jeanne Kef. Música: Gabriel Yared. Figurino: Dominique Borg. Direção de arte: Bernard Vézat. Casting: Shula Siegfried. Produção: Isabelle Adjani, Christian Fechner. Elenco: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Laurent Grévill, Alain Cuny, Madeleine Robinson, Maxime Leroux. Estreia: 07/12/88

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Isabelle Adjani)

Melhor Atriz no Festival de Berlim


"Camille Claudel" é um filme sobre paixão. A paixão desesperada de uma mulher por um homem. E a paixão de uma artista por seu trabalho, por seu dom. É um filme intenso, passional e feito com o amor necessário para se contar uma história de loucura, perda e talento. Uma história real, inacreditável e triste, como toda boa história de amor. E absolutamente verdadeira.

No início de 1885, a jovem aspirante a escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani) é aceita como aprendiz pelo célebre Auguste Rodin (Gerard Depardieu). Famoso por seu temperamento forte e pela beleza de seu trabalho, Rodin também é conhecido como um notório sedutor e não demora muito para que sua nova aluna caia de amores por ele. Envolvidos em um escandaloso romance - o mestre é casado e mais velho do que ela - os dois passam a ser objeto de fofocas por toda Paris, principalmente porque Camille frequenta círculos ilustres - é irmã do escritor Paul Claudel e amiga do compositor Paul Debussy, por exemplo. Quando seu relacionamento com Rodin acaba, a bela escultora, ainda apaixonada por ele, começa a entrar em um perigoso declínio psicológico. Paranóica e agressiva, ela passa a acusar o ex-amante de querer acabar com sua carreira artística.

Como bom todo filme francês pré-Amélie Poulain, "Camille Claudel" tem um ritmo próprio - leia-se um tanto lento -, contando sua história sem pressa, aprofundando-se no contexto histórico da trama (é citada, por exemplo, a morte do escritor Victor Hugo) e fugindo da edição veloz típica do cinema americano. Se perde em agilidade, no entanto, o filme de Bruno Nuytten (na época casado com Adjani) ganha em coerência, em honestidade e no cuidado com os detalhes (a reconstituição de época é deslumbrante, assim como a obra de sua protagonista). Mas é no trabalho de Isabelle Adjani que "Camille Claudel" se sustenta.

Já acostumada a papéis fortes de mulheres enlouquecidas de amor (vide seu trabalho em "A história de Adele H.", de François Truffaut), Adjani apresenta aqui sua interpretação mais passional, entregue absolutamente à sua personagem. Os closes do rosto de porcelana da atriz sujos de barro, seus olhos azuis suplicando amor e o desespero que suas belas feições transmitem são a alma de "Camille Claudel". Merecidamente indicada ao Oscar por sua atuação, a atriz francesa mais destacada da década de 90 demonstra claramente porque amealhou milhares de fãs pelo mundo.

Monday, September 6, 2010

CINEMA PARADISO


CINEMA PARADISO (Nuovo Cinema Paradiso, 1988, Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Giuseppe Tornatore. Fotografia: Blasco Giurato. Montagem: Mario Morra. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrice Bordone. Direção de arte: Andrea Crisanti. Produção: Franco Cristaldi, Giovanna Romagnoli. Elenco: Phillipe Noiret, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Pupella Maggio, Agnese Nano, Jacques Perrin. Estreia: 17/11/88

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro


Enquanto “A rosa púrpura do Cairo”, de Woody Allen, era uma homenagem ao poder do cinema de deixar a vida menos dolorosa, este “Cinema Paradiso”, do italiano Giuseppe Tornatore e merecido vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, fala da sétima arte como o que ela realmente é: inspiração, arte e emoção.

E emoção é o que não falta na história contada por Tornatore, também autor do roteiro, belo, engraçado e comovente como poucos. O filme começa quando um bem-sucedido cineasta italiano (vivido por Jacques Perrin) recebe a notícia da morte de um velho amigo, do tempo em que morava em Giancaldo, um pequeno vilarejo siciliano. Sentindo-se triste e comprometido com seu passado, ele retorna a sua cidade e relembra momentos marcantes de sua vida ao lado deste amigo, Alfredo (o sempre ótimo Phillipe Noiret), que era o projecionista do único cinema de sua infância, o Cinema Paradiso.
Ainda chamado de Totó (e vivido pelo inesquecível Salvatore Cascio), quando criança o cineasta via no programa de ir ao cinema o único escape para sua vida de pobreza ao lado da mãe que esperava a volta do marido da segunda guerra. Capaz de usar o dinheiro das compras para assistir aos filmes, censurados rigidamente pelo pároco local, Totó logo faz amizade com Alfredo, que mesmo contra a vontade, o ensina os macetes da profissão. Quando um incêndio destrói o cinema, Alfredo fica cego e impossibilitado de praticar sua função. No momento em que um morador da cidade, ganhador da loteria, resolve inaugurar um novo Cinema Paradiso, sobra para o pequeno fã de filmes a responsabilidade de divertir seus conterrâneos e dessa vez sem os cortes impostos pela Igreja. Finalmente depois de anos, a população de Giancaldo vê um beijo nas telas e se apaixona por gente como Brigitte Bardot e Claudia Cardinale. Quando torna-se adolescente, Totó (na pele de Marco Leonardi) é apresentado ao primeiro amor, na figura da bela Elena.

A primeira metade de “Cinema Paradiso” é uma obra-prima, inspirada descaradamente no neo-realismo italiano, capaz de cenas enternecedoras e divertidíssimas. O ritmo cai um pouco na segunda parte, quando Totó, já um jovem adulto se apaixona e tenta conquistar sua amada, contando com a ajuda de um Alfredo cego e desiludido. Mesmo assim, Tornatore mantém a atenção, com diálogos inteligentes e sensíveis, além de contar uma história de interesse universal. A bela homenagem prestada pelo cineasta à sétima arte é de enternecer, fazendo com que "Cinema Paradiso" tenha um lugar cativo na lista dos fãs de cinema.

No entanto, nada supera os momentos finais de seu filme, quando um presente de Alfredo a seu antigo pupilo consegue emocionar qualquer pessoa com um coração. Não vale a pena contar para quem nunca assistiu (o que para fãs de cinema é imperdoável), mas ficar impassível durante os minutos derradeiros de “Cinema Paradiso”, ao som da inesquecível trilha sonora do mestre Enio Morricone é tarefa das mais difíceis.

Para quem gosta de cinema como diversão ou como obra de arte, “Cinema Paradiso” não é apenas recomendável. É obrigatório!

Wednesday, August 18, 2010

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS


MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988, El Deseo SA, 90min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte: Emilio Cañuelo, Félix Murcia. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Pedro Almodovar. Elenco: Carmen Maura, Antonio Banderas, Julieta Serrano, Maria Barranco, Rossy de Palma, Kit Manver, Guillermo Montesinos, Chus Lampeavre. Estreia: 23/3/88

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Se em “A lei do desejo”, de 1986, o diretor espanhol Pedro Almodóvar não agradou a gregos e troianos, usando e abusando de suas obsessões por sexo, religião e personagens bizarros, com seu filme seguinte ele atingiu um novo patamar em sua carreira ainda jovem: sucesso de bilheteria e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Mulheres à beira de um ataque de nervos" já apontava para uma maturidade precoce e um futuro que já parecia bastante promissor. Se ele abandonou duas de suas marcas (o sexo e a religião) não economizou em personagens bizarros. Poucas vezes se viu tantos personagens deliciosamente insanos reunidos em um mesmo roteiro, saídos da mente quase doentia de um diretor que utiliza o deboche como arma contra a hipocrisia.

A dubladora e atriz Pepa (Carmen Maura, soberba como sempre) entra em pânico quando descobre-se grávida do amante casado Ivan (Fernando Guillen), que, se não bastasse, acaba de abandoná-la para viajar com outra mulher. Tentando comunicar-se com o desaparecido colega de trabalho e cama, ela nem percebe a loucura que começa a desenhar-se a sua volta: sua amiga Candela (Maria Barranco) muda-se para seu apartamento, apavorada com a possibilidade de seu ex-namorado, um terrorista xiita, derrubar um avião de passageiros conforme um plano que ela acaba de descobrir; a enlouquecida esposa de seu amante, Lucía (a ótima Julieta Serrano), recém saída de um hospital psiquiátrico, tenciona matá-la; o filho de seu amante, Carlos (o ator habitual de Almodóvar, Antonio Banderas) e sua noiva Marisa (Rossy de Palma) querem alugar sua cobertura, sem sequer desconfiarem da ligação entre os dois e a advogada feminista que ela procura para ajudar Candela, Paulina Morales (Kiti Manver) está mais interessada em viajar com seu novo amor do que colaborar com as duas.

Somando dois policiais a essa turma de enlouquecidos personagens, Almodóvar criou sem dúvida uma das comédias mais inteligentes e sideradas que já cruzaram as telas. Transitando em cenários kitsch, repletos de cores berrantes e vestindo roupas inacreditavelmente bizarras, as mulheres imaginadas pelo cineasta recitam diálogos engraçadíssimos e surreais, em situações absurdas que, paradoxalmente, fazem todo o sentido do mundo dentro do universo insano de Pedro Almodóvar, que magistralmente citou a si mesmo e a seu filme em "Abraços partidos", em uma homenagem carinhosa e hilariante.

Não deixa de ser apavorante, no entanto, imaginar a refilmagem proposta por Jane Fonda - e que felizmente até hoje nunca se concretizou. Por mais perfeito que seja o roteiro do diretor espanhol, sem sua presença atrás das câmeras é pouco provável que as mulheres que ele imaginou à beira de um ataque de nervos sejam tão deliciosamente passionais.

Wednesday, August 4, 2010

A LEI DO DESEJO


A LEI DO DESEJO (La ley del deseo, 1987, El Deseo SA, 102min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Angel L. Fernandez. Montagem: José Salcedo. Figurino: Cossio. Direção de arte/cenários: Javier Fernandez/Ramón Moya. Produção executiva: Miguel A. Perez Campos. Elenco: Eusebio Poncela, Carmen Maura, Antonio Banderas, Miguel Molina, Bibi Andersen. Estreia: 07/02/87

Vencedor do Teddy Bear do Festival de Berlim

Já em seus primeiros filmes, ainda longe da sofisticação de suas mais famosas obras, o espanhol Pedro Almodóvar apresentava suas obsessões. Religião, sexo e uma queda para o kitsch estão óbvios em “A lei do desejo”, um de seus filmes menos conhecidos e talvez um dos mais ousados. Sujo, visualmente pouco atraente e sem concessões ao comercial, “A lei do desejo” serve para apresentar o talento ainda em estado bruto do diretor.

Eusébio Poncela vive Pablo Quintero, um diretor de cinema famoso e consagrado, que tem uma relação complicada com seu jovem amante Juan (Miguel Molina), que esconde sua homossexualidade da família. Durante uma viagem do jovem, encontra e inicia um relacionamento doentio com um fã, Antonio (Antonio Banderas), que é obcecado por ele. Enquanto fica dividido entre seus dois amantes, o cineasta ainda tem que lidar com sua irmã Tina (Carmen Maura), que tem um segredo do passado escondido em meio a um trauma.

Em "A lei do desejo", Almodovar utiliza elementos do mais absoluto melodrama (segredos do passado, cartas trocadas, amores não correspondidos) a seu favor. Seu roteiro - que soaria um tanto absurdo em mãos menos capazes - alterna momentos de pura lascívia e sexo com discussões sobre família, arte e religião - ingredientes que se tornariam moeda corrente em sua filmografia. É um filme que não agrada a todos os públicos, mas que demonstra claramente o que o cineasta espanhol poderia fazer - e o fez - no futuro. E Antonio Banderas, um de seus mais frequentes colaboradores em seus primórdios cinematográficos mostra porque foi importado com tanta voracidade por Hollywood nos anos 90, entregando uma de suas atuações mais ousadas.

Não há dúvida que o universo de Pedro Almodóvar é muito particular e isso fica absolutamente claro em qualquer cena de “A lei do desejo”. Seja nas vidas sexuais dos personagens ou até mesmo em suas roupas e atos - e na trilha sonora propositadamente exagerada, em que cabe até uma canção da brasileira Maysa -, o mundo criado pelo diretor e roteirista tem sua marca registrada, pro bem ou pro mal. Para alguns, sinal de personalidade, para outros apenas exageros estilísticos, o fato é que seu filme não deixa ninguém indiferente. E de quantas obras se pode dizer isso em dias de filmes tão pasteurizados como a em que vivemos?