Monday, February 7, 2011

O PADRE

O PADRE (Priest, 1994, Miramax Films, 98min) Direção: Antonia Bird. Roteiro: Jimmy McGovern. Fotografia: Fred Tammes. Montagem: Susan Spivey. Música: Andy Roberts. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Raymond Langhorn/Sue Pow. Produção executiva: Mark Shivas. Produção: George Faber, Josephine Ward. Elenco: Linus Roache, Tom Wilkinson, Robert Carlyle, Robert Pugh, Cathy Tyson, Lesley Sharp. Estreia EUA: 24/3/95

Dentre inúmeros países que levam muito a sério a sua origem católica, a Irlanda provavelmente é um dos mais radicais, e não gosta nem um pouco que se toque em qualquer polêmica relativa a sua religião. Um exemplo claro dessa afirmação é seu violento boicote a "O padre", realizado pela cineasta inglesa Antonia Bird. Ao centrar sua história em um sacerdote homossexual com dúvidas em relação a um dos principais dogmas da Igreja, Bird desagradou a cúpula religiosa irlandesa, que tentou banir o filme dos cinemas. Tendo estreado mundialmente no Festival de Toronto de 1994, o filme alcançou as telas inglesas e americanas em março do ano seguinte, dividindo opiniões mas dando seu recado de forma bastante contundente.

A história começa quando o jovem padre Greg Pilkington (o ótimo Linus Roache, que anos depois faria o pai de Christian Bale em "Batman begins") chega a uma paróquia de Liverpool para substituir um antigo religioso. Logo que chega ao local, porém, Greg descobre que o pároco, Padre Matthew Thomas (Tom Wilkinson) não é exatamente praticamente do celibato, tendo um relacionamento estável com uma funcionária, Maria Kerrigan (Cathy Tyson). A princípio chocado com a descoberta, aos poucos Greg inicia uma relação de amizade e admiração pelo religioso mais velho, principalmente porque também seus segredos e dúvidas. Homossexual, ele passa a se encontrar às escondidas com o operário Graham (Robert Carlyle), lutando contra suas convicções. Sua fé fica definitivamente abalada, no entanto, quando ele descobre, através da confissão, que a adolescente Lisa (Christine Temarco) é abusada sexualmente pelo próprio pai. Sem poder revelar o trágico segredo, Greg fica de mãos amarradas e inicia uma jornada de revisão de todos os seus conceitos.

"O padre" não tem medo de polemizar. Cenas de sexo ousadas, diálogos bastante inteligentes a respeito da falta de sentido de alguns dos principais pilares da igreja católica e incesto desfilam pela tela diante dos olhos da plateia, a qual só resta tomar partido: é um filme forte e de ideias liberais ou apenas uma obra com vontade de chocar a audiência mais conservadora? Talvez a resposta esteja na coluna do meio. "O padre" merece aplausos por sua coragem em tocar em temas que precisam ser discutidos sem falsos moralismos, mas o faz, em certos momentos, sem uma bem-vinda dose de sutileza. Antonia Bird consegue provocar a discussão, mas a encerra de maneira um tanto abrupta e simplista. Até lá, no entanto, boa parte de suas intenções atingiram o objetivo: "O padre" toca em feridas e só por isso já é digno de louvor.


Primeiro, o roteiro de Jimmy McGovern ousa questionar o celibato, na figura do Padre Thomas, interpretado com o talento conhecido de Tom Wilkinson. Adepto da Teologia da Libertação, o veterano sacerdote vive em constante conflito com seus superiores a respeito de todo e qualquer assunto relacionado às formalidades católicas e suas discussões com o bispo são interessantes e relevantes. Se tivesse dedicado o filme todo a essa questão complicada por si mesma, "O padre" já daria o que falar. Mas Antonia Bird e McGovern ainda querem mais. E aproveitam a mesma trama (incesto) para discutir abuso sexual e a importância dos segredos de confessionário. Em "Testemunha do silêncio", Alfred Hitchcock jogou Montgomery Clift na cova dos leões ao fazê-lo ser acusado de um crime do qual ele sabia o autor através da confissão. Aqui, Padre Greg é impedido de tomar qualquer atitude em relação ao drama da adolescente Lisa e isso aumenta sua crise de fé. Ou seja, assunto para longas discussões em mesas de bares, artigos de jornal e sermões.

Mas nenhuma trama de "O padre" causou mais comoção do que a discussão do homossexualismo. Antonia Bird não se furta a mostrar graficamente a opção sexual de Greg, em cenas bastante quentes, ainda que muito bem dirigidas e plasticamente atraentes. Mesmo que os demais assuntos discutidos no filme sejam tão fortes quanto as aventuras amorosas de Greg com seu amante Graham, são elas que causaram mais choque entre a comunidade religiosa irlandesa e mundial a respeito do filme. Discutir celibato? Tudo bem. Questionar a validade dos segredos de confissão? Perfeito. Mas falar sobre homossexualidade dentro da Igreja pareceu ser além da conta. À luz dos inúmeros escândalos envolvendo pedofilia e padres, no entanto, não deixa de ser de extrema ironia que um filme com pretensões sérias e legítimas tenha sido capaz de despertar tanto celeuma.

No final das contas, "O padre" é um filme que merece ser assistido por suas qualidades artísticas (o elenco é impecável), mas que fica no meio-termo entre o que poderia ser e o que se tornou. Discute assuntos muito sérios que precisam ser discutidos, mas o faz de maneira bastante simplória em alguns momentos, apesar de algumas cenas de extrema força dramática. É um filme que poderia ter sido genial, mas que esbarra em seus próprios exageros e vontade de chocar.