Thursday, February 24, 2011

TORMENTA

TORMENTA (White squall, 1996, Hollywood Pictures/Largo Entertainment, 129min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Todd Robinson, livro "The last voyage of the Albatross", de Charles Gieg Jr., Felix Sutton. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Gerry Hambling. Música: Jeff Rona. Figurino: Rand Sagers. Direção de arte/cenários: Peter J. Hampton, Leslie Tomkins/Rand Sagers. Produção executiva: Ridley Scott. Produção: Mimi Polk Gitlin, Rocky Lang. Elenco: Jeff Bridges, Caroline Goodall, John Savage, Scott Wolf, Jeremy Sisto, Ryan Phillippe, Balthazar Getty, Ethan Embry, James Rebhorn. Estreia: 02/02/96

Não é querer fazer nenhum tipo de piada infame, mas "Sociedade dos poetas mortos" fez escola. Desde que o belo filme de Peter Weir lotou cinemas em 1989 um novo tipo de super-herói, sem poderes extra-terrenos ganhou o imaginário popular: professores dispostos a inspirar seu grupo de alunos. Em 1996, até mesmo o bem-sucedido Ridley Scott aderiu à tendência e realizou um de seus trabalhos menos conhecidos pelo grande público. Apesar do fracasso de bilheteria e das críticas apáticas, "Tormenta", baseado em uma história real, é um filme com uma qualidade acima da média, ainda que escorregue em alguns lugares-comuns e soe como uma espécie de cópia da obra-prima estrelada por Robin Williams.

O maior atrativo de "Tormenta" é Jeff Bridges. Bom ator como nunca, ele dá vida e substância a Skipper Sheldon, o capitão do Albatross, um barco-escola que, no ano de 1960, sai de Miami em direção ao Caribe com o objetivo de, no caminho, ensinar a seus oito tripulantes/alunos bem mais do que disciplinas acadêmicas: os adolescentes que embarcam na viagem liderada por ele tem por objetivo forjar seu caráter. Ajudado por sua esposa Alice (Caroline Goodall) - professora de Matemática e Ciências ,  seu companheiro de viagem McCrea (John Savage) - que dá aulas de Inglês e declama Shakespeare no café-da-manhã - e do jovem Shay Jennings (Jason Marsden), seu imediato, Skipper dá a seus oito discípulos lições de hombridade e integridade. A história, contada em off por um dos alunos, Chuck Gieg (Scott Wolf), sofre uma reviravolta quando um trágico acidente provocado por uma tormenta - a "white squall" do título original - faz vítimas fatais e o capitão é levado a julgamento por negligência.


A bem da verdade, a direção de Ridley Scott está longe do brilhantismo de seus melhores filmes, como "Blade Runner" e "Thelma & Louise". Quase burocrático, Scott ainda assim mantém o domínio narrativo, nunca permitindo que o tédio se manifeste. Em forma de anedotas cotidianas, a primeira parte do filme apresenta suas personagens de forma dinâmica e até carinhosa. Mesmo sendo mais estereótipos do que personagens multidimensionais, o traumatizado Gil Martin (Ryan Phillipe em início de carreira), o garoto-problema Dean Preston (Eric Michael Cole), o mimado Frank Beaumont (Jeremy Sisto) e até mesmo o sensível Chuck conquistam a plateia sem muito esforço. Sua segunda parte - cujo clímax é a apavorante tormenta, em uma sequência que dura angustiantes quinze minutos - perde um pouco a força: o julgamento de Skipper não é muito convincente, talvez por lembrar demais o filme de Peter Weir, com direito inclusive à catarse emocional, que, aliás, mostra a fragilidade de Scott Wolf como ator.

Revelado na série televisiva "O quinteto", Wolf foi louvado, na segunda metade da década de 90, como um novo Tom Cruise, mas sem o carisma do galã dos anos 80 e tampouco sem seu talento em escolher os projetos mais adequados, se perdeu no meio do caminho. Em "Tormenta" ele se esforça visivelmente, mas, mesmo tendo o papel mais importante dentre os jovens do elenco, se deixa eclipsar por colegas com personagens de menor destaque, como Ryan Phillipe e Jeremy Sisto. Quando contracena com Jeff Bridges, então, praticamente desaparece diante de sua presença maciça e dominante. Bridges, aliás, é o motivo primordial para que se assista ao filme, em mais uma interpretação sensacional.

Não é difícil entender porque "Tormenta" foi praticamente ignorado em seu lançamento. A trama é um tanto derivativa, o roteiro não apela para pieguices exageradas e Jeff Bridges, por melhor ator que seja, não é um chamariz de público. Nem mesmo o nome de Ridley Scott nos créditos foi capaz de lhe dar uma sorte maior. Mas é um entretenimento honesto, realizado com o capricho técnico que se espera do cineasta e tem uma história interessante e bem contada. Vale a pena uma espiada sem maiores expectativas.