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Wednesday, August 31, 2011

A CONSPIRAÇÃO

A CONSPIRAÇÃO (The contender, 2000, Dreamworks SKG, 126min) Direção e roteiro: Rod Lurie. Fotografia: Denis Maloney. Montagem: Michael Jablow. Música: Larry Groupé. Figurino: Matthew Jacobsen. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Eloise Stammerjohn. Produção executiva: Maurice Leblond, Gary Oldman. Produção: Marc Frydman, James Spies, Douglas Urbanski. Elenco: Joan Allen, Gary Oldman, Christian Slater, Jeff Bridges, Sam Elliott, William Petersen, Saul Rubinek, Philip Baker Hall, Robin Thomas, Mariel Hemingway. Estreia: 13/10/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Joan Allen), Ator Coadjuvante (Jeff Bridges)

Filmes sobre política norte-americana interessam ao público brasileiro quase na mesma proporção que filmes sobre beisebol. Intrigas dos bastidores da Casa Branca e seus arredores, portanto, volta e meia suscitam a atenção, como bem prova a popularidade da série de TV "West Wing" - que mesmo assim fez um sucesso imenso nos EUA e aqui tinha uma audiência bastante selecionada. Por essa razão não é nenhuma surpresa o fato de um filme tão interessante quanto "A conspiração" ter passado quase batido na ocasião de sua estreia, apesar do elenco de prestígio. Se não fosse as indicações ao Oscar - Joan Allen como melhor atriz e Jeff Bridges como ator coadjuvante é bem possível que nem mesmo tivesse passado pelas salas brasileiras.

Escrito e dirigido pelo desconhecido Rod Lurie - que dedica o filme a suas filhas, em sinal de esperança no futuro de seu país - "A conspiração" é um drama político que centra sua atenção mais em suas personagens do que em intrincadas manobras de gabinete (ainda que elas existam em número considerável), o que facilita a assimilação até mesmo por quem não tem familiaridade com os jogos políticos americanos. É elogiável a forma sóbria e direta com que Lurie conta sua história, permitindo a seus atores (todos em excelente forma) momentos de um brilho discreto mas muito eficiente.


Quando o filme começa, os EUA estão sem um vice-presidente, morto recentemente. A expectativa de todos é que o presidente, o carismático Jackson Evans (Jeff Bridges em uma atuação simpática) nomeie o governador Jack Hathaway (William Petersen) para o cargo, aproveitando sua popularidade em alta, especialmente depois de ter tentado salvar (em vão) uma jovem de morrer afogada após um acidente de carro. O que surpreende a todos - mas não em especial seus assessores mais próximos - é a decisão de Evans de deixar um legado histórico, escolhendo uma mulher para o segundo posto mais importante do país. A escolhida é a senadora Laine Hanson (Joan Allen), uma mulher séria e discreta, filha de um político, que aceita o cargo prontamente. A escolha do presidente desagrada principalmente o líder da oposição, Shelly Ruinon (um Gary Oldman irretocável), que tencionava manipular Hathaway. Para denegrir Hanson e tentar impedir sua posse, ele faz vazar para a imprensa e consequentemente para os eleitores, fotos que mostram a senadora participando de uma orgia sexual em seus tempos de faculdade. Atônita com a situação, ela se vê dividida entre reagir à altura ou manter sua integridade pessoal e privada.

Depois de ter-se consagrado como a coadjuvante perfeita - em filmes como "Nixon", "As bruxas de Salem" e "Tempestade de gelo" - finalmente Joan Allen atinge o status de protagonista, em um papel escrito especialmente para seu talento. Sua Laine Hanson é discreta, honesta e estoica, mesmo quando vê sua vida pessoal ser vasculhada com um microscópio, e o rosto sempre sereno de Allen casa perfeitamente com a personalidade da personagem. Joan trasmite confiabilidade, o que é essencial para que o público fique a seu lado, torcendo contra aqueles que, em nome da moral e dignidade, buscam sujar seu nome, mesmo que não sejam exatamente exemplos de hombridade (um detalhe que lembra perigosamente os políticos brasileiros). Essa definição clara entre o bem e o mal feita pelo roteiro de Lurie caminha perigosamente em direção ao maniqueísmo, mas felizmente o cineasta consegue driblar essa armadilha, mantendo o tom sério e realista da trama, que tem entre seus produtores executivos o excepcional Gary Oldman.

Foi Jeff Bridges quem concorreu ao Oscar de coadjuvante por "A conspiração", mas quem deveria ter sido lembrado - por outros filmes também - é Oldman. Na pele do vil, cínico e cruel Shelly Runion, o ator inglês não apenas está irreconhecível. Ele está visivelmente à vontade, em um papel sob medida para seu talento para o lado obscuro do ser humano - que tanto lhe ajudou em "Drácula de Bram Stoker" e "Sid & Nancy, o amor mata". Seus diálogos com Joan Allen encontram nos dois atores os intérpretes ideais, em um jogo de cena quase minimalista, repleto de silêncios e olhares expressivos. Oldman encarna um político da forma mais abjeta e escorregadia possível, provocando a antipatia imediata da plateia e causando, assim, a torcida incondicional pela heroína. Não é esse o sonho de todo diretor?

"A conspiração" é um filme inteligente, adulto e sério que toca em assuntos pertinentes e relevantes. Depois de juntar a essas qualidades um elenco de grandes atores - que nem Christian Slater consegue estragar - é só correr pro abraço. E ser descoberto pela audiência que lhe interessa.

Tuesday, March 15, 2011

O ESPELHO TEM DUAS FACES

O ESPELHO TEM DUAS FACES (The mirror has two faces, 1996, TriStar Pictures, 126min) Direção: Barbra Streisand. Roteiro: Richard LaGravenese, roteiro original de "Le miroir a deux faces", de André Cayatte, Gérard Oury. Fotografia: Andrzej Bartkowiak, Dante Spinotti. Montagem: Jeff Werner. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Tom John/John Alan Hicks. Produção executiva: Cis Corman. Produção: Arnon Milchan, Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Jeff Bridges, Lauren Bacall, Pierce Brosnan, Mimi Rogers, George Segal, Brenda Vaccaro, Elle Macpherson. Estreia: 16/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall), Canção Original ("I finally found someone")
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)

Todo mundo em Hollywood - e até mesmo muita gente fora de lá - sabe que Barbra Streisand não é uma pessoa exatamente fácil de lidar. Histórias a respeito de seu egocentrismo e de seu perfeccionismo não faltam a quem teve a oportunidade de trabalhar com ela (e até mesmo seu ex-marido e pai de seu filho, o ator Elliot Gould, quando indagado a respeito do pior emprego que tivera respondeu prontamente: "fui casado com Barbra Streisand!"). Em 1996, o diretor de fotografia Dante Spinotti foi mais uma vítima da atriz/cantora/diretora/produtora: em meio às filmagens de "O espelho tem duas faces", foi demitido (devido às famosas divergências artísticas) e substituído por Andrzej Bartkowiak, assim como já havia acontecido com o ator Dudley Moore, que perdeu seu lugar no elenco para George Segal.

Levando em consideração toda essa dança das cadeiras, é de admirar que "O espelho tem duas faces" funcione tão bem. Apesar de não ser nem de longe o melhor momento das carreiras de Streisand e seu galã Jeff Bridges, é uma comédia romântica que tem na inteligência seu maior trunfo e que, nadando contra a corrente da eterna obsessão de Hollywood pela juventude eterna, aposta em um casal de protagonistas maduros, interpretados por atores de verdade e não por símbolos sexuais inexpressivos. Bridges - que ficou com o papel para o qual Harrison Ford foi pensado - e Barbra Streisand, segundo reza a lenda desmentida por eles mesmos, tiveram rusgas nos bastidores, mas isso não transparece no resultado final. O filme seguinte de Streisand após sua tentativa frustrada de ganhar um Oscar como diretora - o drama "O príncipe das marés" - é engraçado, romântico e dono de brilhantes diálogos. E isso é mais do que é oferecido normalmente aos fiéis fãs do gênero.

Gregory Larkin (Jeff Bridges exercitando seu timing cômico com razoável sucesso) é um professor de Matemática que, a despeito de seu charme junto às mulheres, passou por repetidas frustrações amorosas. Buscando uma companhia feminina que não atrapalhe o funcionamento de sua rígida rotina (ou seja, uma mulher sem atrativos sexuais que o desviem de seus objetivos profissionais), ele publica um anúncio em uma revista. Quem responde o anúncio é Claire Morgan (Mimi Rogers), que acredita que Larkin é o par perfeito para sua irmã mais velha, Rose (Barbra Streisand exagerando um tantinho em sua performance). Dona de uma baixíssima auto-estima - principalmente devido às críticas de sua mãe Hannah (Lauren Bacall), uma ex-beldade - Rose dá aulas de Literatura na Universidade de Columbia e seu discurso sobre as falsas esperanças criadas em relação ao amor romântico convence Larkin de que é ela quem ele procura. Depois de um tempo como amigos, eles se casam, mas tem expectativas diferentes em relação ao casamento: enquanto Gregory realmente deseja apenas uma companhia, Rose anseia por amor e paixão, justamente o que ele repudia. Quandoa situação torna-se insustentável, o improvável casal precisa saber o que fazer com seu relacionamento.


Streisand não é uma diretora genial ou mesmo inventiva. A forma como conduz a narrativa de seu filme é clássica, privilegiando enquadramentos que lhe favoreçam esteticamente ou até mesmo apelando para alguns exageros dramáticos (a cena em que cobre um espelho depois da rejeição de Larkin é um exemplo dessa afirmação, com a música de Marvin Hamlisch soando fora de propósito). Mas não há como elogiar sua segurança em comandar seu elenco, dos protagonistas aos coadjuvantes: Lauren Bacall dá um show como Hannah, a mãe que vê sua beleza esvair-se com o tempo e se vinga destruindo o amor-próprio da filha (suas falas são as melhores e a viúva de Humphrey Bogart conquistou sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho) e Mimi Rogers nunca esteve tão radiante e engraçada. Dando apoio a um Jeff Bridges leve como poucas vezes se viu nas telas e uma Streisand menos eficiente do que em "O príncipe das marés" mas ainda assim uma atriz competente e sensível, os atores secundários do filme pontuam com correção um roteiro que diverte e emociona na medida certa. É um filme romântico para adultos que preferem finais felizes.

Inspirado em um pouco conhecido filme francês, o roteiro de Richard LaGravenese (que também adaptou "As pontes de Madison" para as telas) conquista pelos diálogos espertos e pelo romantismo assumido. Mesmo que sua cena final de certa forma desminta propositalmente o discurso de Rose em uma de suas aulas (com Puccini tocando em alto e bom som na noite nova-iorquina) é impossível ficar imune ao charme da história contada por Barbra Streisand, que, pelo jeito, sabe exatamente o que quer de seus colaboradores. Se todos os que agem com essa certeza quase ditatorial assinassem filmes com a qualidade de "O espelho tem duas faces", seria bem mais fácil perdoá-los.

Thursday, February 24, 2011

TORMENTA

TORMENTA (White squall, 1996, Hollywood Pictures/Largo Entertainment, 129min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Todd Robinson, livro "The last voyage of the Albatross", de Charles Gieg Jr., Felix Sutton. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Gerry Hambling. Música: Jeff Rona. Figurino: Rand Sagers. Direção de arte/cenários: Peter J. Hampton, Leslie Tomkins/Rand Sagers. Produção executiva: Ridley Scott. Produção: Mimi Polk Gitlin, Rocky Lang. Elenco: Jeff Bridges, Caroline Goodall, John Savage, Scott Wolf, Jeremy Sisto, Ryan Phillippe, Balthazar Getty, Ethan Embry, James Rebhorn. Estreia: 02/02/96

Não é querer fazer nenhum tipo de piada infame, mas "Sociedade dos poetas mortos" fez escola. Desde que o belo filme de Peter Weir lotou cinemas em 1989 um novo tipo de super-herói, sem poderes extra-terrenos ganhou o imaginário popular: professores dispostos a inspirar seu grupo de alunos. Em 1996, até mesmo o bem-sucedido Ridley Scott aderiu à tendência e realizou um de seus trabalhos menos conhecidos pelo grande público. Apesar do fracasso de bilheteria e das críticas apáticas, "Tormenta", baseado em uma história real, é um filme com uma qualidade acima da média, ainda que escorregue em alguns lugares-comuns e soe como uma espécie de cópia da obra-prima estrelada por Robin Williams.

O maior atrativo de "Tormenta" é Jeff Bridges. Bom ator como nunca, ele dá vida e substância a Skipper Sheldon, o capitão do Albatross, um barco-escola que, no ano de 1960, sai de Miami em direção ao Caribe com o objetivo de, no caminho, ensinar a seus oito tripulantes/alunos bem mais do que disciplinas acadêmicas: os adolescentes que embarcam na viagem liderada por ele tem por objetivo forjar seu caráter. Ajudado por sua esposa Alice (Caroline Goodall) - professora de Matemática e Ciências ,  seu companheiro de viagem McCrea (John Savage) - que dá aulas de Inglês e declama Shakespeare no café-da-manhã - e do jovem Shay Jennings (Jason Marsden), seu imediato, Skipper dá a seus oito discípulos lições de hombridade e integridade. A história, contada em off por um dos alunos, Chuck Gieg (Scott Wolf), sofre uma reviravolta quando um trágico acidente provocado por uma tormenta - a "white squall" do título original - faz vítimas fatais e o capitão é levado a julgamento por negligência.


A bem da verdade, a direção de Ridley Scott está longe do brilhantismo de seus melhores filmes, como "Blade Runner" e "Thelma & Louise". Quase burocrático, Scott ainda assim mantém o domínio narrativo, nunca permitindo que o tédio se manifeste. Em forma de anedotas cotidianas, a primeira parte do filme apresenta suas personagens de forma dinâmica e até carinhosa. Mesmo sendo mais estereótipos do que personagens multidimensionais, o traumatizado Gil Martin (Ryan Phillipe em início de carreira), o garoto-problema Dean Preston (Eric Michael Cole), o mimado Frank Beaumont (Jeremy Sisto) e até mesmo o sensível Chuck conquistam a plateia sem muito esforço. Sua segunda parte - cujo clímax é a apavorante tormenta, em uma sequência que dura angustiantes quinze minutos - perde um pouco a força: o julgamento de Skipper não é muito convincente, talvez por lembrar demais o filme de Peter Weir, com direito inclusive à catarse emocional, que, aliás, mostra a fragilidade de Scott Wolf como ator.

Revelado na série televisiva "O quinteto", Wolf foi louvado, na segunda metade da década de 90, como um novo Tom Cruise, mas sem o carisma do galã dos anos 80 e tampouco sem seu talento em escolher os projetos mais adequados, se perdeu no meio do caminho. Em "Tormenta" ele se esforça visivelmente, mas, mesmo tendo o papel mais importante dentre os jovens do elenco, se deixa eclipsar por colegas com personagens de menor destaque, como Ryan Phillipe e Jeremy Sisto. Quando contracena com Jeff Bridges, então, praticamente desaparece diante de sua presença maciça e dominante. Bridges, aliás, é o motivo primordial para que se assista ao filme, em mais uma interpretação sensacional.

Não é difícil entender porque "Tormenta" foi praticamente ignorado em seu lançamento. A trama é um tanto derivativa, o roteiro não apela para pieguices exageradas e Jeff Bridges, por melhor ator que seja, não é um chamariz de público. Nem mesmo o nome de Ridley Scott nos créditos foi capaz de lhe dar uma sorte maior. Mas é um entretenimento honesto, realizado com o capricho técnico que se espera do cineasta e tem uma história interessante e bem contada. Vale a pena uma espiada sem maiores expectativas.

Friday, October 1, 2010

SUSIE E OS BAKER BOYS


SUSIE E OS BAKER BOYS (The fabulous Baker Boys, 1989, Gladden Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Steve Kloves. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Anne H. Ahrens. Casting: Wallis Nicita. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Elenco: Jeff Bridges, Michelle Pfeiffer, Beau Bridges, Xander Berkeley, Jennifer Tilly. Estreia: 13/10/89

4 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Pfeiffer), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora

Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Michelle Pfeiffer)

  
Susie Diamond é linda, sexy, charmosa e talentosa. Também é agressiva, um tanto vulgar e defende suas ideias com unhas e dentes. Ao assumir o posto de cantora para incrementar o dueto formado pelos Fabulosos Baker Boys - dois irmãos pianistas que tocam juntos desde a infância - ela não apenas aumenta a frequência dos shows e consequentemente os cachês, mas também faz com que eles percebam claramente o quanto eles prostituíram o próprio talento. Quando se envolve com o caçula dos irmãos, Jack (Jeff Brigdes), no entanto, é que os problemas realmente começam.

Vivida com garra, beleza e uma alta dose de sex-appeal por uma Michelle Pfeiffer em vias de fincar de vez os pés no imaginário fetichista masculino como a Mulher-Gato de Tim Burton (feito 3 anos depois), Susie Diamond é o anjo da discórdia em "Susie e os Baker Boys", escrito e dirigido por Steve Kloves, que nunca mais fez nada de marcante na carreira (exceto escrever alguns roteiros da série "Harry Potter"). Em "Susie" ele conta sua história de forma elegante e sucinta, ainda que um tanto repleta de clichês - Jack, por exemplo, é um solitário cuja melhor amiga é a filha pré-adolescente de uma vizinha, que o vê como um pai e seu irmão Frank (Beau Bridges, irmão de Jeff na vida real, obviamente) abandonou todos os sonhos de grandeza e sucesso para sustentar a família, o que para ele já bom o bastante. No meio dessas duas vidas estagnadas e quase tediosas, Susie tem o poder de sacudí-las, usando para isso a amargura que acumulou em seus anos como call-girl e a sensualidade de uma mulher que conhece o poder que tem sobre os homens. E para os marmanjos não faltam oportunidades para conferir que Pfeiffer, além de boa atriz também é extremamente linda.
Seja cantando "Makin' whoope" em cima de um piano, entoando "Can't take my eyes off you" em um belo vestido colante ou mesmo desprezando a tenebrosa "Fellings", Michelle Pfeiffer é o corpo de "Susie e os Baker Boys". Talvez tenha sido exagero a quantidade de prêmios que arrebatou (levou um Golden Globe e concorreu com boas chances ao Oscar), mas é inegável que seu brilho contamina o filme. Fotografada com sutileza e delicadeza pelo veterano Michael Ballhaus (que também concorreu a uma estatueta), a história da encruzilhada dos irmãos Baker em relação a seu futuro profissional é também a história de duas solidões que se encontram, ainda que talvez não estejam exatamente dispostas a dividir suas tristezas e frustrações. Apesar do verniz alto-astral (aparentemente é um musical, afinal de contas) é um filme melancólico, desesperançado. E é aí que entra Jeff Bridges.

Premiado com o Oscar de melhor ator este ano, por "Coração louco", Bridges entrega aqui uma de suas atuações mais furiosas. Sua personagem é similar à interpretada por ele no filme que lhe deu o prêmio, mas Jack Baker não tem tanta certeza sobre os rumos a tomar na vida nem mesmo quando se envolve com Susie, e foge de seus momentos de isolamento mental tocando lindamente em espeluncas de quinta categoria. Em "Coração louco" ele já foi alguém. Em "Susie" ele deseja (ou não) sê-lo. Em ambos os trabalhos, Bridges mostra porque é um dos grandes atores americanos. Pfeiffer é o corpo do filme. Briges é a alma.