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Tuesday, March 15, 2011

O ESPELHO TEM DUAS FACES

O ESPELHO TEM DUAS FACES (The mirror has two faces, 1996, TriStar Pictures, 126min) Direção: Barbra Streisand. Roteiro: Richard LaGravenese, roteiro original de "Le miroir a deux faces", de André Cayatte, Gérard Oury. Fotografia: Andrzej Bartkowiak, Dante Spinotti. Montagem: Jeff Werner. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Tom John/John Alan Hicks. Produção executiva: Cis Corman. Produção: Arnon Milchan, Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Jeff Bridges, Lauren Bacall, Pierce Brosnan, Mimi Rogers, George Segal, Brenda Vaccaro, Elle Macpherson. Estreia: 16/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall), Canção Original ("I finally found someone")
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)

Todo mundo em Hollywood - e até mesmo muita gente fora de lá - sabe que Barbra Streisand não é uma pessoa exatamente fácil de lidar. Histórias a respeito de seu egocentrismo e de seu perfeccionismo não faltam a quem teve a oportunidade de trabalhar com ela (e até mesmo seu ex-marido e pai de seu filho, o ator Elliot Gould, quando indagado a respeito do pior emprego que tivera respondeu prontamente: "fui casado com Barbra Streisand!"). Em 1996, o diretor de fotografia Dante Spinotti foi mais uma vítima da atriz/cantora/diretora/produtora: em meio às filmagens de "O espelho tem duas faces", foi demitido (devido às famosas divergências artísticas) e substituído por Andrzej Bartkowiak, assim como já havia acontecido com o ator Dudley Moore, que perdeu seu lugar no elenco para George Segal.

Levando em consideração toda essa dança das cadeiras, é de admirar que "O espelho tem duas faces" funcione tão bem. Apesar de não ser nem de longe o melhor momento das carreiras de Streisand e seu galã Jeff Bridges, é uma comédia romântica que tem na inteligência seu maior trunfo e que, nadando contra a corrente da eterna obsessão de Hollywood pela juventude eterna, aposta em um casal de protagonistas maduros, interpretados por atores de verdade e não por símbolos sexuais inexpressivos. Bridges - que ficou com o papel para o qual Harrison Ford foi pensado - e Barbra Streisand, segundo reza a lenda desmentida por eles mesmos, tiveram rusgas nos bastidores, mas isso não transparece no resultado final. O filme seguinte de Streisand após sua tentativa frustrada de ganhar um Oscar como diretora - o drama "O príncipe das marés" - é engraçado, romântico e dono de brilhantes diálogos. E isso é mais do que é oferecido normalmente aos fiéis fãs do gênero.

Gregory Larkin (Jeff Bridges exercitando seu timing cômico com razoável sucesso) é um professor de Matemática que, a despeito de seu charme junto às mulheres, passou por repetidas frustrações amorosas. Buscando uma companhia feminina que não atrapalhe o funcionamento de sua rígida rotina (ou seja, uma mulher sem atrativos sexuais que o desviem de seus objetivos profissionais), ele publica um anúncio em uma revista. Quem responde o anúncio é Claire Morgan (Mimi Rogers), que acredita que Larkin é o par perfeito para sua irmã mais velha, Rose (Barbra Streisand exagerando um tantinho em sua performance). Dona de uma baixíssima auto-estima - principalmente devido às críticas de sua mãe Hannah (Lauren Bacall), uma ex-beldade - Rose dá aulas de Literatura na Universidade de Columbia e seu discurso sobre as falsas esperanças criadas em relação ao amor romântico convence Larkin de que é ela quem ele procura. Depois de um tempo como amigos, eles se casam, mas tem expectativas diferentes em relação ao casamento: enquanto Gregory realmente deseja apenas uma companhia, Rose anseia por amor e paixão, justamente o que ele repudia. Quandoa situação torna-se insustentável, o improvável casal precisa saber o que fazer com seu relacionamento.


Streisand não é uma diretora genial ou mesmo inventiva. A forma como conduz a narrativa de seu filme é clássica, privilegiando enquadramentos que lhe favoreçam esteticamente ou até mesmo apelando para alguns exageros dramáticos (a cena em que cobre um espelho depois da rejeição de Larkin é um exemplo dessa afirmação, com a música de Marvin Hamlisch soando fora de propósito). Mas não há como elogiar sua segurança em comandar seu elenco, dos protagonistas aos coadjuvantes: Lauren Bacall dá um show como Hannah, a mãe que vê sua beleza esvair-se com o tempo e se vinga destruindo o amor-próprio da filha (suas falas são as melhores e a viúva de Humphrey Bogart conquistou sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho) e Mimi Rogers nunca esteve tão radiante e engraçada. Dando apoio a um Jeff Bridges leve como poucas vezes se viu nas telas e uma Streisand menos eficiente do que em "O príncipe das marés" mas ainda assim uma atriz competente e sensível, os atores secundários do filme pontuam com correção um roteiro que diverte e emociona na medida certa. É um filme romântico para adultos que preferem finais felizes.

Inspirado em um pouco conhecido filme francês, o roteiro de Richard LaGravenese (que também adaptou "As pontes de Madison" para as telas) conquista pelos diálogos espertos e pelo romantismo assumido. Mesmo que sua cena final de certa forma desminta propositalmente o discurso de Rose em uma de suas aulas (com Puccini tocando em alto e bom som na noite nova-iorquina) é impossível ficar imune ao charme da história contada por Barbra Streisand, que, pelo jeito, sabe exatamente o que quer de seus colaboradores. Se todos os que agem com essa certeza quase ditatorial assinassem filmes com a qualidade de "O espelho tem duas faces", seria bem mais fácil perdoá-los.

Thursday, May 20, 2010

NOSSO AMOR DE ONTEM


NOSSO AMOR DE ONTEM (The way we were, 1973, Columbia Pictures, 118min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Harry Stradling Jr. Montagem: John F. Burnett. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Dorothy Jeakins, Moss Mabry. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/William Kiernan. Produção: Ray Stark. Elenco: Barbra Streisand, Robert Redford, Lois Chiles, Bradford Dilman, Viveca Lindfords,Murray Hamilton, James Woods. Estreia: 17/10/73

6 indicações ao Oscar: Atriz (Barbra Streisand), Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The way we were"), Figurino, Direção de arte

Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original e Canção Original ("The way we were")

Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("The way we were")


Em um dos melhores episódios da saudosa série "Sex and the city", Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) relembra, ao lado das amigas, a cena final do filme "Nosso amor de ontem", identificando-se com sua protagonista e seu malfadado romance. No filme "Somente elas", de Herbert Ross, a sensível personagem de Mary-Louise Parker, também apaixonada pela história de amor contada na obra de Sydney Pollack meio que obriga sua nova amiga (vivida por Whoopi Goldberg) a assistí-la, dizendo tratar-se de uma de suas preferidas. Afinal, o que esse filme tem que conquista tanto o público, especialmente aquele formado por mulheres?

Não há dúvidas que o romantismo desbragado do roteiro de Arthur Laurents é o ponto principal do amor da audiência feminina a ele. Mas, espertamente, Laurents temperou sua história de amor relativamente banal com elementos políticos e ideológicos que o retirou gloriosamente da vala comum do gênero. Mesmo que para o público médio e não-americano muitas das referências sócio-políticas da trama passem quase batidas, a história de amor entre os protagonistas ainda soa verdadeira, graças principalmente à química entre seus atores, Barbra Streisand e Robert Redford.

Quando o filme começa, Kate Morosky (Streisand) trabalha em uma rádio e reencontra um antigo colega de escola, Hubbell Gardiner (Redford), que alistou-se na Marinha e a quem não via há anos. A paixão que sempre sentiu por ele volta com toda força e eles acabam iniciando um romance. No entanto, suas diferenças ideológicas também se fazem notar: comunista desde sempre, Kate não compreende o jeito despreocupado de Hubbell, um rapaz bonito, de alta classe e pra quem sempre as coisas aconteceram de maneira fácil. Quando eles se mudam para a Califórnia - onde ele vai tentar adaptar seu livro para o cinema - as coisas ficam ainda mais complicadas. A "caça às bruxas" do senador Joseph McCarthy contra o comunismo os coloca em lados opostos, ameaçando seu relacionamento.

Apesar de colocar suas personagens em meio a furacões políticos - a ascensão do comunismo, a ameaça do nazismo, a caçada provocada por McCarthy - Laurents e o diretor Sydney Pollack não tentam se aprofundar nas questões levantadas pela trama. Mesmo que alguns diálogos toquem diretamente no ponto (em especial a última discussão do casal, em um restaurante vazio), a superficialidade do roteiro chega quase a transformar Kate em uma mulher mais apaixonada pelas causas que defende do que pelo homem que ama. Em inúmeros momentos é mais fácil entender o lado de Hubbell - que pretende levar sua vida e sua carreira sem envolver-se em problemas universais - do que identificar-se com Kate, mesmo que a atuação de Streisand seja passional e crível. Mesmo que se possa acreditar no amor entre os protagonistas é visível, desde suas primeiras cenas, que eles combinam tanto quanto Fidel Castro e Hitler.

No geral "Nosso amor de ontem" funciona. A belíssima trilha sonora de Marvin Hamlisch (vencedora do Oscar, assim como a canção-título gravada por Streisand) contribui para o clima da história contada, assim como a caprichada reconstituição de época e o elenco bem escalado (Redford, no auge da beleza e do carisma, quase perdeu o papel para Ryan O'Neal devido a sua demora em comprometer-se com o projeto). Mas sua perenidade junto às fãs mais sensíveis provavelmente deve-se ao fato de ter um final menos feliz do que o corriqueiro. É um filme que merece ser conhecido, mas que não encanta tanto quanto promete.