Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Sharon Stone)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sharon Stone)
A filmografia de Martin Scorsese é, mais do que qualquer outra do cinema americano contemporâneo, uma filmografia que é melhor descrita por uma profusão de adjetivos. Depois do belo, romântico, devastador e opulento "A época da inocência", em que o cineasta exercitou seu lado menos violento - fisicamente falando - ele entregou à plateia o visceral, vigoroso, arrebatador e tenso "Cassino", em que volta a seu habitat natural com a mesma força que imprimiu em "Os bons companheiros", com quem, aliás, este seu filme dialoga em inúmeros momentos de estilo. Pode-se dizer que "Cassino" é o irmão mais velho e mais tranquilo de "Os bons companheiros", ainda que seja tão violento e amoral quanto.
Mais uma vez, como é costume em sua obra, Scorsese conta a história de um homem cercado de inimigos por todos os lados. No entanto, se em "Taxi driver" os rivais de Travis Bickle estavam em sua mente distorcida e em "Touro indomável" a paranoia de Jake LaMotta mostrava-se injustificada, em "Cassino" as ameaças contra o protagonista Sam Rothstein são bem concretas e tem a forma das pessoas que ele mais ama: a esposa - ex-prostituta e viciada em drogas e o melhor amigo - um gângster beligerante e temperamental. Tal como uma personagem de tragédias shakespereanas, Rothstein vive em constante tensão e medo... e pessoas com medo tendem a ser perigosas, como todo mundo sabe.
Baseado em um livro do escritor Nicholas Pileggi - cujos direitos foram comprados para o cinema antes mesmo do lançamento - "Cassino" é tudo que se espera de um filme com a assinatura de Martin Scorsese (e lá veem de novo mais adjetivos): é cruel, é ágil, é tecnicamente impecável, excitante e chocante, com direito a algumas das cenas mais violentas do cinema ianque nos anos 90. Dirigido com uma energia e uma paixão explícitas, é também um exercício de estilo e a prova inconteste de que, sob o comando de um diretor de verdade, Sharon Stone, além de linda e sexy é uma atriz de grande garra e talento. Premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de melhor atriz, ela consegue um feito raro: ofuscar Robert DeNiro e Joe Pesci (repetindo trejeitos de seu trabalho oscarizado de "Os bons companheiros".

Belíssima, elegante e chique mesmo cheirando carreiras e mais carreiras de cocaína, Stone vive (de corpo e alma) Ginger McKenna, uma prostituta de luxo que cai nas graças de Sam Rothstein (Robert DeNiro em um de seus últimos bons momentos nos últimos 15 anos), o gângster judeu que controla o Tangiers, um dos maiores cassinos de Las Vegas. Incapaz de manter-se fiel ao marido - em especial porque é dependente do ex-cafetão Lester Diamond (James Woods, sensacional) - ela acaba sendo a maior responsável, junto com Nicky Santoro (Joe Pesci), pela derrocada moral e financeira do marido. Mesmo que não seja a protagonista absoluta do filme - é quase uma coadjuvante, ainda que de bastante peso - Stone é o catalisador de todas as ações e reações da trama. Mesmo que incontáveis crimes aconteçam a seu redor - e Scorsese faz questão de mostrá-los em detalhes - é em Ginger que Sam Rothstein foca sua vida. E talvez justamente aí resida seu maior erro.
"Cassino" usa e abusa de cortes e movimentos de câmera ousados e complexos. Levando ao ápice a estrutura testada com propriedade em "Os bons companheiros", o cineasta e sua editora Thelma Schoonmaker exigem atenção extrema da plateia, ao alternar não apenas uma narração em off, mas duas: a história é contada sob os diferentes pontos de vista tanto de Rothstein quanto de Nicky Santoro, o que faz com que cada pequeno detalhe seja de importância sumária para o entendimento da história contada. Nunca Scorsese foi tão visual quanto em "Cassino": os cenários, os figurinos exuberantes, a edição e o uso exemplar da trilha sonora são elementos de uma orquestra regida com maestria por um cineasta no auge de sua maturidade artística. É de se questionar apenas por que a Academia praticamente ignorou mais essa obra-prima sua em detrimento de bobagens sentimentalóides como "Apollo 13". Apenas Sharon Stone foi indicada ao Oscar mas, apesar de ser quase uma favorita, perdeu a estatueta para Susan Sarandon.
"Cassino" é uma tour de force de um cineasta acostumado a presentear seu público com filmes no mínimo imperdíveis. É longo, mas ágil o bastante para jamais cansar o espectador. É violento, mas nunca chocante demais para afugentar os mais sensíveis. E é, acima de tudo, uma história contada com absoluto domínio da técnica cinematográfica.
