Sunday, February 6, 2011

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (Clueless, 1995, Paramount Pictures, 97min) Direção e roteiro: Amy Heckerling. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Debra Chiate. Música: David Kitay. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven Jordan/Amy Wells. Produção: Robert Lawrence, Scott Rudin. Elenco: Alicia Silverstone, Paul Rudd, Brittany Murphy, Stacey Dash, Donald Faison, Breckin Meyer, Jeremy Sisto, Dan Hedaya, Wallace Shawn, Justin Walker. Estreia: 19/7/95

Cher Horowitz é uma adolescente de 16 anos que divide seu tempo entre a escola, passeios ao shopping e festas com os amigos, em especial a igualmente bem-nascida Dionne (Stacey Dash). Suas maiores preocupações na vida são cuidar da alimentação de seu pai, um advogado bem-sucedido (Dan Hedaya), escolher a roupa adequada para cada ocasião e, em último lugar, encontrar a pessoa certa para entregar sua virgindade. Enquanto isso não acontece, ela tenta resolver a vida amorosa das pessoas que a cercam, em especial Tai (Brittany Murphy), uma nova colega desajeitada e sem traquejo social, a quem ela considera sua principal missão. Preocupada em ensinar-lhe bons modos e arranjar-lhe um namorado, Cher nem desconfia que sua própria vida romântica está prestes a sofrer uma reviravolta e que o amor de sua vida está bem mais perto que ela imagina.

Se a história de "As patricinhas de Beverly Hills" parece familiar é porque sua trama não é exatamente original. É que a diretora e roteirista Amy Heckerling - da comédia "Picardias estudantis" - inspirou-se descaradamente no romance "Emma", de Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1815. E por incrível que pareça, as aventuras e desventuras românticas de uma inglesa do século XIX soou absolutamente moderna mesmo duzentos anos depois de seu lançamento. Utilizando fielmente a estrutura e os elementos básicos do romance de Austen - que também em 1995 teve uma adaptação oficial estrelada por Gwyneth Paltrow - Hecklerling criou uma ácida e deliciosa crítica (ainda que carinhosa) à juventude um tanto fútil, consumista e vazia do final de século.

Mas a crítica velada (ou nem tanto) de Heckerling não foi a principal responsável pelo grande sucesso que o filme fez, uma vez que a maioria absoluta do público que frequentou as salas de cinema para assistir o filme provavelmente nem sabia que seu roteiro seria premiado pelo National Board of Review e indicado pelo sindicato de roteiristas. Pode ser meio bobo e não agradar a quem vai ao cinema atrás de elocubrações, mas é uma hora e meia de diversão leve e - por que não? - bastante inteligente, principalmente se comparado a outros produtos do gênero. E isso tudo embalado por uma atuação inspiradíssima de Alicia Silverstone, no auge da popularidade e do frescor juvenil.


Silverstone é quem comanda a festa. Sua Cher orquestra toda a sinfonia de festas, angústias e paixonites que aparentam ser definitivas de sua faixa etária sem nunca deixar de ser charmosa e sensível. Cher desfila por cenários deslumbrantes, usa roupas caras, dirige um carro do último tipo mas no fundo é uma adolescente assombrada pelas mesmas dúvidas de qualquer um na sua idade: ela quer ser amada por alguém que valha a pena e, nesse caminho tortuoso rumo à felicidade românticas esbarra em candidatos que foram genialmente adaptados da obra de Austen. Estão ali o don juan adolescente Elton (Jeremy Sisto), o suspeito Christian (Justin Walker) e até mesmo Josh (Paul Rudd), filho da ex-mulher de seu pai, por quem ela nutre estranhos sentimentos de repulsa. Todas são personagens do romance, devidamente ajustados por Heckerling de maneira genial. E não deixa de ser interessante ver o início da carreira de Jeremy Sisto - que faria sucesso com a série "A sete palmos" -, Paul Rudd (em franca atividade no cinema) e Brittany Murphy, precocemente morta em um bom momento da carreira.

Somados à trilha sonora pop contagiante - que inclui David Bowie, No Doubt, Radiohead, Supergrass e Jewell - e a um clima que remete fatalmente aos tempos de escola, "As patricinhas de Beverly Hills" é uma delícia, uma sessão da tarde agradável, engraçada e que é a cara de sua geração. Um clássico juvenil dos anos 90, apesar dos preconceitos dos 'cultos'.