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Friday, July 22, 2011

REGRAS DA VIDA

REGRAS DA VIDA (The cider house rules, 1999, Miramax Films, 126min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: John Irving, romance de sua autoria. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrilch Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Beth Rubino. Produção executiva: Bobby Cohen, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein. Elenco: Tobey Maguire, Michael Caine, Charlize Theron, Paul Rudd, Delroy Lindo, Erikah Badu, Kate Nelligan, Kathy Baker, Jane Alexander, Kieran Culkin. Estreia: 21/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lasse Halstrom),  Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado

Só Deus sabe porque Michael Caine aceita fazer parte da maioria dos filmes dos quais participa. Entre dezenas de obras senão totalmente execráveis ao menos descartáveis, o ator inglês acerta majestosamente vez ou outra. Quando isso acontece ele faz coisas como “Hannah e suas irmãs”, que lhe deu um Oscar de coadjuvante e este “Regras da vida”, que lhe rendeu uma segunda estatueta na mesma categoria exatos 13 anos depois.

Dessa vez, ao contrário da primeira, ele não vive um homem de meia-idade canalha e apaixonado pela cunhada mais nova. Agora ele vive Wilbur Larch, um médico obstetra que, em uma cidade pequena do Maine, nos anos 40, comanda um orfanato e ajuda jovens a interromper gestações indesejadas, o que causa algumas discussões com seu braço-direito, o jovem Homer Wells (Tobey Maguire), um órfão que aprendeu o ofício de seu mentor, mas que hesita tenazmente em seguir sua carreira. A desculpa que Homer precisava para sair do orfanato em busca de uma vida própria surge quando um jovem casal pede ajuda ao dr. Larch. Encantado com a bela Candy (Charlize Theron) e empolgado com a idéia de trabalhar na colheita de maçãs da fazenda do jovem soldado  Willy (Paul Rudd), o rapaz abandona seu passado e inicia uma nova fase de sua existência. Tomando contato com outros trabalhadores – e testemunhando histórias bastante tristes, como a do veterano Sr. Rose (Delroy Lindo) e de sua filha Rose Rose (a cantora Erykha Badu estreando como atriz) – Wells acaba se envolvendo romanticamente com Candy, mas uma tragédia envolvendo o namorado da moça os separa.

O escritor John Irving adaptou seu próprio romance de maneira singular (e levou um merecido Oscar pelo feito). Repleto de uma delicadeza e de uma melancolia únicas, o filme, dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, comove justamente por tratar de temas polêmicos - aborto, incesto - de maneira discreta, sem maiores arroubos de criatividade ou buscando a lágrima fácil. O elenco infantil rouba todas as cenas das quais participa (e depois de 40 minutos, quando o orfanato deixa de ser o centro da história dá uma saudade dos pequenos...) e demonstra uma naturalidade que muitos astros adultos dariam um braço para ter. Charlize Theron faz pouco mais do que desfilar sua beleza deslumbrante pela tela. Tobey Maguire segura bem seu primeiro protagonista antes de encarar a série "Homem-aranha", mas é Michael Caine quem emerge brilhante com sua feliz interpretação de um homem vitorioso sentimentalmente e cuja felicidade consiste em dar paz aos outros. É um trabalho sensacional que cobre "Regras da vida" de qualidade e emoção verdadeiras.

Belo e comovente, "Regras da vida" é o perfeito exemplo de um drama honesto e adulto que não precisa apelar para golpes baixos para conquistar o público.

Friday, May 20, 2011

A RAZÃO DO MEU AFETO

A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98

De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.

Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green,  sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.



Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês ainda existam - o crítico de teatro, homossexual de terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd é encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Nigel Hawthorne por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em um romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos anteriores.

Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo de comédia romântica, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chiva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos GLBT e fãs de "Friends".

Saturday, March 12, 2011

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

Sunday, February 6, 2011

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS

AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (Clueless, 1995, Paramount Pictures, 97min) Direção e roteiro: Amy Heckerling. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Debra Chiate. Música: David Kitay. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven Jordan/Amy Wells. Produção: Robert Lawrence, Scott Rudin. Elenco: Alicia Silverstone, Paul Rudd, Brittany Murphy, Stacey Dash, Donald Faison, Breckin Meyer, Jeremy Sisto, Dan Hedaya, Wallace Shawn, Justin Walker. Estreia: 19/7/95

Cher Horowitz é uma adolescente de 16 anos que divide seu tempo entre a escola, passeios ao shopping e festas com os amigos, em especial a igualmente bem-nascida Dionne (Stacey Dash). Suas maiores preocupações na vida são cuidar da alimentação de seu pai, um advogado bem-sucedido (Dan Hedaya), escolher a roupa adequada para cada ocasião e, em último lugar, encontrar a pessoa certa para entregar sua virgindade. Enquanto isso não acontece, ela tenta resolver a vida amorosa das pessoas que a cercam, em especial Tai (Brittany Murphy), uma nova colega desajeitada e sem traquejo social, a quem ela considera sua principal missão. Preocupada em ensinar-lhe bons modos e arranjar-lhe um namorado, Cher nem desconfia que sua própria vida romântica está prestes a sofrer uma reviravolta e que o amor de sua vida está bem mais perto que ela imagina.

Se a história de "As patricinhas de Beverly Hills" parece familiar é porque sua trama não é exatamente original. É que a diretora e roteirista Amy Heckerling - da comédia "Picardias estudantis" - inspirou-se descaradamente no romance "Emma", de Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1815. E por incrível que pareça, as aventuras e desventuras românticas de uma inglesa do século XIX soou absolutamente moderna mesmo duzentos anos depois de seu lançamento. Utilizando fielmente a estrutura e os elementos básicos do romance de Austen - que também em 1995 teve uma adaptação oficial estrelada por Gwyneth Paltrow - Hecklerling criou uma ácida e deliciosa crítica (ainda que carinhosa) à juventude um tanto fútil, consumista e vazia do final de século.

Mas a crítica velada (ou nem tanto) de Heckerling não foi a principal responsável pelo grande sucesso que o filme fez, uma vez que a maioria absoluta do público que frequentou as salas de cinema para assistir o filme provavelmente nem sabia que seu roteiro seria premiado pelo National Board of Review e indicado pelo sindicato de roteiristas. Pode ser meio bobo e não agradar a quem vai ao cinema atrás de elocubrações, mas é uma hora e meia de diversão leve e - por que não? - bastante inteligente, principalmente se comparado a outros produtos do gênero. E isso tudo embalado por uma atuação inspiradíssima de Alicia Silverstone, no auge da popularidade e do frescor juvenil.


Silverstone é quem comanda a festa. Sua Cher orquestra toda a sinfonia de festas, angústias e paixonites que aparentam ser definitivas de sua faixa etária sem nunca deixar de ser charmosa e sensível. Cher desfila por cenários deslumbrantes, usa roupas caras, dirige um carro do último tipo mas no fundo é uma adolescente assombrada pelas mesmas dúvidas de qualquer um na sua idade: ela quer ser amada por alguém que valha a pena e, nesse caminho tortuoso rumo à felicidade românticas esbarra em candidatos que foram genialmente adaptados da obra de Austen. Estão ali o don juan adolescente Elton (Jeremy Sisto), o suspeito Christian (Justin Walker) e até mesmo Josh (Paul Rudd), filho da ex-mulher de seu pai, por quem ela nutre estranhos sentimentos de repulsa. Todas são personagens do romance, devidamente ajustados por Heckerling de maneira genial. E não deixa de ser interessante ver o início da carreira de Jeremy Sisto - que faria sucesso com a série "A sete palmos" -, Paul Rudd (em franca atividade no cinema) e Brittany Murphy, precocemente morta em um bom momento da carreira.

Somados à trilha sonora pop contagiante - que inclui David Bowie, No Doubt, Radiohead, Supergrass e Jewell - e a um clima que remete fatalmente aos tempos de escola, "As patricinhas de Beverly Hills" é uma delícia, uma sessão da tarde agradável, engraçada e que é a cara de sua geração. Um clássico juvenil dos anos 90, apesar dos preconceitos dos 'cultos'.