Friday, May 20, 2011

A RAZÃO DO MEU AFETO

A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98

De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.

Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green,  sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.



Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês ainda existam - o crítico de teatro, homossexual de terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd é encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Nigel Hawthorne por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em um romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos anteriores.

Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo de comédia romântica, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chiva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos GLBT e fãs de "Friends".