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Monday, February 20, 2012

ABAIXO O AMOR

ABAIXO O AMOR (Down with love, 2003, Fox 2000 Pictures, 101min) Direção: Peyton Reed. Roteiro: Eve Ahlert, Dennis Drake. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Larry Bock. Música: Marc Shaiman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Paddy Cullen, Arnon Milchan. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Renee Zellweger, Ewan McGregor, Sarah Paulson, David Hyde Pierce, Tony Randall. Estreia: 09/5/03

Nova York, década de 60. O feminismo ainda é um ideal para a maioria das mulheres americanas, esmagadas pelo machismo latente e nada velado. É nesse ambiente um tanto em combustão que chega a escritora Barbara Novak (Renée Zellwegger), vinda do interior do país para lançar seu livro “Abaixo o amor”, onde incentiva as mulheres a tomarem as rédeas de suas vidas amorosas, profissionais e – por que não? – sexuais. Contando com o apoio de sua editora e amiga Vikki Hiller (Sarah Paulson), ela quase que imediatamente vira sensação na cidade que nunca dorme, principalmente quando vai a uma rede de televisão e dá o nome de um exemplo a ser combatido pela raça fêmea: o repórter, playboy e conquistador Catcher Block (Ewan McGregor). Sentindo-se pessoalmente atingido, uma vez que sua taxa de sedução cai astronomicamente depois da declaração de Barbara, Catcher resolve então virar o jogo: assumindo o nome e a personalidade do astronauta Zip Martin, ele tenta seduzir a escritora, para assim desmascará-la como mais uma mulher que, no fundo, busca o que todas buscam: a felicidade nos braços de um homem.
       
Uma pena que esta divertida comédia romântica tenha se dado tão mal nas bilheterias americanas. Engraçada, criativa e inteligente, ela não conquistou o público ianque, tão mal acostumado a besteiras como as estreladas por rappers e afins. O filme, dirigido pelo pouco conhecido Peyton Reed, na verdade é uma bela e justa homenagem às comédias estreladas por Rock Hudson e Doris Day, nos anos 50, em que uma história de amor quase boba disfarçava, às vezes bem mal, piadas de duplo sentido embaladas em um visual exagerado e que beirava o kitsch. Está tudo isso em “Abaixo o amor”. O roteiro, com ótimos diálogos e situações rocambolescas , a direção de arte cafona e over, o figurino extremamente espirituoso, o visual retrô (a tela dividida em duas quando os personagens estão no telefone, por exemplo), a trilha sonora com standards do jazz da época (em que até Astrud Gilberto dá uma canja, cantando “Fly me to the moon”), os coadjuvantes engraçadinhos (a dupla de amigos, vivida por David Hyde Pierce e Sarah Paulson tem ótimos momentos) e a dupla central, entrosada e com boa química, divertindo-se notadamente com suas atuações afetadas (Renee ainda não havia ganho o Oscar de coadjuvante por “Cold Mountain”, mas já era uma queridinha da crítica americana), além inclusive do logotipo da Fox com seu visual anos 60 e a presença do ator Tony Randall, companheiro fixo de Day e Hudson em seus filmes do gênero.


O que não deu certo, então? Novamente, a falta de boa vontade do público, que não entrou no espírito da brincadeira, não comprou a idéia de um romance aparentemente ingênuo e com sabor de sessão da tarde das antigas. Nem mesmo o capricho da produção (com o figurino confecionado especialmente para o filme e a direção de arte espirituosa) conseguiu chamar a atenção, relegando o trabalho de Reed ao indesejável rol dos injustos fracassos comerciais. Tudo culpa de uma plateia mal-acostumada a produções formulaicas que não ousam com medo de perder público.
Afinal, só mesmo em um filme como “Abaixo o amor”, que não se preocupa com verossimilhança e bobagens do tipo, o final feliz pode ser tão debochado, irônico e até nostálgico. Um filme que merece ser descoberto e apreciado! É só entrar no clima nostálgico e se deliciar.

Friday, February 10, 2012

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS (How to lose a guy in 10 days, 2003, Paramount Pictures, 116min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Kristen Buckley, Brian Regan, Burr Steers, livro de Michele Alexander, Jeannie Long. Fotografia: John Bailey. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: David Newman. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez. Produção executiva: Richard Vane. Produção: Robert Evans, Christine Peters, Lynda Obst. Elenco: Kate Hudson, Matthew McConaughey, Adam Goldberg, Bebe Neuwirth, Celia Weston, Thomas Lennon, Michael Michele, Shalom Harlow. Estreia: 07/02/03

Uma das maiores dores-de-cabeça dos produtores de comédias românticas deve ser encontrar material que pareça novidade, uma vez que é raro, dentro do gênero, que uma história já não tenha sido contada uma infinidade de vezes, mesmo que de formas variadas. Por isso, não deixa de ser compreensível que a origem de “Como perder um homem em 10 dias” seja um bem-humorado livro de auto-ajuda escrito pelas jornalistas Michelle Alexander e Jeannie Long, que analisa os erros mais graves cometidos pelas mulheres quando iniciam um relacionamento amoroso. Adaptado com um senso de humor impecável e dirigido com relativo bom-gosto por Donald Petrie, o filme fez um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo mais de 100 milhões de dólares somente nos EUA, comprovando a tese de que comédias românticas – em especial as de qualidade – têm um público cativo.

A protagonista do filme é a jornalista Andie Anderson (Kate Hudson, a eterna Penny Lane de “Quase famosos”, substituindo a primeira escolha, Gwyneth Paltrow), que sonha escrever sobre assuntos socialmente relevantes mas que não consegue convencer sua chefe (a ótima Bebe Neuwirth) a liberá-la de seus artigos fúteis na revista feminina onde trabalha. Sua chance vem quando ela recebe a promessa de escolher o tema de seu próximo texto desde que consiga, com sucesso, escrever um artigo chamado “Como perder um homem em dez dias”. Para dar veracidade a sua dissertação, Andie resolve escolher um homem ao acaso, cometer as atrocidades que as mulheres de sua geração costumam cometer e afastá-lo no prazo de pouco mais de uma semana. A vítima escolhida, no entanto, não é o que parece à primeira vista. Benjamin Barry (Matthew McConaughey) é um publicitário que tenciona dar um salto na carreira, deixando pra trás os comerciais de produtos esportivos e assumindo a conta de uma joalheria sofisticada. Para isso ele precisa provar que é capaz de manter uma relação estável por no mínimo dez dias, o prazo proposto por seu chefe para que ele demonstre a capacidade de se envolver com uma mulher. Quando conhece Andie, ele acha que seus desejos se realizaram, mas logo descobre que por trás da carinha de anjo da jovem se esconde um monstro inseguro e obsessivo.
         

Uma das grandes sacadas do filme – e elas são muitas – é deixar com que o público saiba de antemão os objetivos de seus protagonistas, fazendo com que todo mundo se divirta ao máximo com os exageros de Andie e a paciência hercúlea de Benjamin, que, logicamente, se apaixonarão perdidamente durante o percurso para atingir suas expectativas profissionais. Sendo assim, os homens se identificarão com o desespero de Benjamin em perder suas partidas de basquete e suas noites com os amigos e as mulheres rirão de si mesmas ao perceber nas atitudes tresloucadas de Andie o quanto alguns erros são praticamente imperceptíveis em se tratanto de amor.
        
Mas sem dúvida nenhuma o grande trunfo de “Como perder um homem em 10 dias” é seu casal central. Mesmo que o visual moderno e atraente conferido pelo diretor seja extremamente responsável pelo clima romântico de sessão da tarde, é a química entre McConaughey – brilhando como no início de sua carreira – e Kate Hudson – que usa e abusa de seu carisma, improvisando em muitas cenas – que faz com que o filme decole com elegância e requinte. As cenas entre os dois – tanto as românticas quanto as cômicas, em que o timing de Hudson é absolutamente perfeito – são tão deliciosas que fica difícil tirar os olhos da tela. Uma das comédias românticas mais divertidas da última década, que ainda consegue brincar com propriedade com a famosa "You're so vain", de Carly Simon (composta como indireta ao ex Warren Beatty, segundo as más línguas).

PS - Pena que o casal protagonista se empolgou tanto com o sucesso desse filme que alguns anos depois realizou o tenebroso "Um amor de tesouro"...

Friday, December 9, 2011

DOCE LAR

DOCE LAR (Sweet home Alabama, 2002, Touchstone Pictures, 108min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: C. Jay Cox, história de Douglas J. Eboch. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Troy Takaki, Tracey Wadmore-Smith. Música: George Fenton. Figurino: Sophie de Rakoff Carbonell. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Fottrell, Jon Jashni, Wink Mordaunt. Produção: Stokely Chaffin, Neal H. Moritz. Elenco: Reese Witherspoon, Patrick Dempsey, Josh Lucas, Candice Bergen, Fred Ward, Mary Kay Place, Jean Smart, Melanie Lysnkey, Ethan Embry, Dakota Fanning. Estreia: 27/9/02

Não é difícil compreender o enorme êxito de bilheteria de "Doce lar" nos EUA, onde arrecadou mais de 180 milhões de dólares. Em primeiro lugar, é uma comédia romântica açucarada (gênero que se mantém como um dos mais populares mesmo no cínico século XXI). Depois, é o tipo de filme que não ofende ninguém e nem tenta reinventar a roda (e todo mundo sabe que sempre é bom recorrer aos mesmos clichês de sempre vez ou outra). E em terceiro (e talvez mais importante) existe o fator Reese Witherspoon. Desde que "Legalmente loira" fez um inesperado sucesso em 2001, a jovem atriz - à época ainda casada com Ryan Phillippe - tornou-se um dos nomes mais quentes da "nova Hollywood". Carismática, talentosa e dona de uma beleza nada ameaçadora (ou seja, perfeita para agradar às mulheres que levam os namorados ao cinema), Witherspoon é o centro do filme de Andy Tennant e a responsável por torná-lo um agradável e descompromissado entretenimento.

Assumindo o papel que seria de Charlize Theron antes que ela pulasse fora para participar do infame "Encurralada", Witherspoon interpreta Melanie Carmichael, uma promissora estilista de moda que vive o melhor momento de sua vida: além de estar dando os primeiros passos rumo à sua realização profissional, ela acaba de ser pedida em casamento por um dos mais cobiçados solteiros de Nova York, o bem-sucedido Andrew Hennings (Patrick Dempsey), filho da prefeita da cidade (vivida com graça por Candice Bergen). O problema é que, apesar de aparentar ser uma cosmopolita e sofisticada cidadã nova-iorquina, ela na verdade é uma caipira fugida do Alabama, seu estado natal. E o pior ainda: é casada com um namorado da adolescência, Jake Perry (Josh Lucas), que se recusa a conceder-lhe o divórcio. Desesperada para esconder do noivo seu passado (e com o objetivo de exigir de Jake a separação formal), Melanie volta à sua cidade, mas acaba descobrindo que ainda é o objeto dos sonhos de seu ex-marido e que suas raízes são mais fortes do que ela imaginava.



"Doce lar" é mais uma comédia romântica da estirpe politicamente correta que tomou conta da América nos anos 90. Sua ideologia mal-disfarçada não deixa de ser um tanto desconfortável, contrapondo a vida pacata e "verdadeira" do interior do país à correria hedonista e "fútil" das grandes cidades (e fazendo com que todas as personagens relacionadas ao noivo mauricinho soem como pastiches de uma sociedade vazia enquanto sua família e seu ex-marido servem quase como exemplo de pureza e integridade). No entanto, para a sorte do espectador, o roteiro consegue fazer com que tudo seja facilmente assimilável graças a diálogos rápidos e algumas piadas realmente engraçadas, em especial as relacionadas ao amigo de infância de Melanie, o jovem Bobby Ray (Ethan Embry), que precisa lidar com sua homossexualidade em um cenário não especialmente simpático à sua causa. Também é pouco justo com a personagem de Patrick Dempsey (voltando aos poucos ao estrelato que culminaria na série "Grey's anatomy") rivalizá-lo com Josh Lucas em um papel que explora ao máximo seu charme rústico. Não é preciso mais do que dez minutos de Lucas em cena para que a plateia perceba os rumos da história.

É impossível dizer que "Doce lar" é um grande filme. É previsível, é ideologicamente questionável (se bem que ninguém assiste a comédias românticas pensando sobre essas coisas) e não apresenta maiores novidades. Mas é agradável, é simpático e tem Reese Witherspoon fazendo o que faz de melhor. Os fãs não reclamarão jamais!

Tuesday, October 25, 2011

KATE & LEOPOLD

KATE & LEOPOLD (Kate & Leopold, 2001, Miramax Films, 118min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Steven Rogers, história de Steven Rogers. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Brenner. Música: Rolfe Kent. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Kerry Orent, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Meg Ryan, Hugh Jackman, Liev Schreiber, Breckin Meyer, Natasha Lyonne, Bradley Whitford, Philip Bosco. Estreia: 25/12/01

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")

Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.

O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.



O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.

E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?

PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.

Friday, October 21, 2011

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN (Le fabuleux destin d'Amelie Poulain, França, 2001, 122min) Direção: Jean-Pierre Jeunet. Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Hervé Schneid. Música: Yann Tiersen. Figurino: Madeline Fontaine, Emma Lebail. Direção de arte/cenários: Aline Bonetto/Marie-Laure Valla. Produção executiva: Claudie Ossard. Produção: Jean-Marc Deschamps, Claudie Ossard. Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Jamel Debbouze, Dominique Pinon, Yolande Moreau. Estreia: 25/4/01

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original, Fotografia, Direção de Arte/Cenários, Som

O mundo seria um lugar muito melhor se fosse como é retratado em "O fabuloso destino de Amélie Poulain", um dos mais felizes produtos cinematográficos jamais concebidos em seus mais de cem anos de história. Feliz em sua essência, em sua realização e em seu resultado final, o filme de Jean-Pierre Jeunet (em seu primeiro trabalho após sua experiência hollywoodiana com "Alien: a ressurreição") é uma obra-prima em todos os sentidos, um verdadeiro e sólido argumento a favor da paixão que o cinema desperta em milhares de fãs. Exagero? Não é o que acham os mais de 15 milhões de espectadores que correram aos cinemas para assistí-lo e transformá-lo no maior sucesso de bilheteria da história do cinema francês, além de um dos mais influentes produtos cinematográficos de todos os tempos.

Tendo como cenário uma Paris estilizada e esplendidamente fotografada por Bruno Delbonnel (cuja predominância das cores verde, amarelo e vermelho tem como inspiração o trabalho do artista plástico catarinense Juarez Machado), Jeunet conta a história da jovem garçonete Amélie Poulain (vivida com graça e carisma pela ótima Audrey Tautou), que descobre o prazer de ajudar as pessoas a ser felizes ao localizar, por acidente, uma caixa de relíquias infantis perdida em seu apartamento por um antigo morador que vive afastado da família. Incentivada pela mudança positiva que provoca no desconhecido ao devolver-lhe o antigo brinquedo, ela passa a vingar oprimidos, unir solitários, levar a vida exterior a um vizinho doente e até mesmo a resgatar o amor-próprio de uma viúva infeliz. A única pessoa a quem ela não consegue ajudar é ela mesma: tímida e introvertida, ela não tem coragem de declarar-se ao excêntrico Nino Quincampoix (o cineasta Matthieu Kassovitz), mesmo sabendo que ele é o amor de sua vida.



Apontar um único defeito no filme de Jean-Pierre Jeunet é tarefa das mais difíceis que se pode imaginar. Tecnicamente perfeito, com uma trilha sonora deliciosa de Yann Tiersen, com um elenco de atores com rostos marcantes (uma das mais fortes características do diretor, que lembra o cuidado de um Fellini) vivendo personagens interessantes e verossímeis apesar de suas excentricidades e com um roteiro impecável, equilibrado entre o romance idílico e uma auto-ironia irresistível, "O fabuloso destino de Amélie Poulain" ainda consegue o feito raro de conquistar a audiência sem jamais tocar em assuntos polêmicos, ignorar qualquer tipo de violência física e contar uma história de amor sem cair nas armadilhas das comédias românticas americanas - além, é claro, de nunca apelar para o erotismo. Não foi à toa que até mesmo a Academia de Hollywood, normalmente avessa a produções que saem de seus domínios, lhe deu cinco indicações ao Oscar (ainda que, na hora H tenha escolhido o politizado "Terra de ninguém" como vencedor). E se o papel principal foi escrito especialmente para Emily Watson (que pulou fora do projeto na última hora), não há público que consiga imaginar outra Amélie Poulain que não Audrey Tautou.

Dona de um rosto impressionante e de um carisma inegável, Tautou tornou-se a imagem perfeita do filme, uma das mais emblemáticas faces do cinema do início do século XXI. Seus olhos levemente arregalados, assim como seu sorriso meigo enfeitam um dos filmes mais alto-astral que se pode ter notícia. Uma obra-prima capaz de derrubar qualquer mau-humor. Seu único problema? Fazer com que, em comparação com o mundo colorido e onírico mostrado por Jeunet, o mundo real soe tão cinzento...

Tuesday, September 27, 2011

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES (Bridget Jones's diary, 2001, Working Title Films, 97min) Direção: Sharon Maguire. Roteiro: Helen Fielding, Richard Curtis, Andrew Davies, romance de Helen Fielding. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Martin Walsh. Música: Patrick Doyle. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Shirley Lixenberg. Produção executiva: Helen Fielding. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Renée Zelwegger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Tim Broadbent. Estreia: 13/4/01

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Renée Zelwegger)

Não há como negar: toda mulher tem uma parte Bridget Jones. A personagem criada pela escritora Helen Fielding e protagonista de dois romances atingiu em cheio o que era esperado por milhares de leitoras ávidas por personagens com as quais pudessem identificar-se. Fumante inveterada, com alguns quilos a mais, amiga de um bom porre, infeliz com o emprego e irremediavelmente frustrada com seus casos de amor, a inglesa criada por Fielding chegou aos cinemas na pele da texana Renée Zellweger e em um caso raro na história do cinema não criou polêmica por causa disso. Em uma interpretação impecável que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Zellwegger toma a personagem para si e não deixa dúvidas de que foi a escolha acertada para viver a personagem.
Bridget Jones é uma mulher comum. Apaixonada pelo chefe cafajeste Daniel Clever (Hugh Grant, divertindo-se a valer no papel), ela começa, no primeiro dia do ano, a escrever um diário, onde narra suas escapadas amorosas com ele, sua luta contra a balança, seus problemas familiares – sua mãe acaba de abandonar seu pai, trocando-o por um apresentador de televisão – e sua implicância com um partido arrumado por sua mãe, o almofadinha Mark Darcy (Colin Firth). Repleto de piadas tipicamente inglesas com um tempero feminino anos 90, o roteiro – que tem a colaboração da própria Helen Fielding – segue fielmente o livro, brincando com as neuroses femininas de forma saudável e romântica. A trilha sonora também ajuda, misturando contemporaneidades (Geri Haliwell, Robbie Williams) com clássicos (a cena em que Bridget dubla “All by myself”, logo nos créditos de abertura conquista qualquer um com um mínimo de senso de humor).



Quanto aos homens da vida de Mrs. Jones, nada a reclamar. Enquanto Hugh Grant dá início a sua especialização em papéis de canalhas adoráveis - sempre com atuações renovadas e simpáticas - o normalmente relegado a segundo plano Colin Firth é quem rouba a cena e os corações femininos da plateia (isso bem antes de ter seu talento reconhecido e ser premiado com o Oscar pelo soporífero "O discurso do rei"). Seu Mark Darcy, arrogante em um primeiro olhar e romântico e sentimental quando analisado mais profundamente, encontra em Firth o intérprete ideal (isso sem mencionar que no livro que deu origem ao filme a protagonista é fissurada pelo próprio ator Colin Firth, em uma jogada feliz dos produtores). O triângulo amoroso formado por Grant-Zelwegger-Firth só acrescenta ainda mais simpatia ao filme, seguramente uma das mais bem-sucedidas adaptações literárias de sua época.

Dono de um bom-humor contagiante e um romantismo longe de ser babaca (além de contar com a participação especialíssima do escritor Salman Rushdie), "O diário de Bridget Jones" é um perfeito passatempo que pode agradar até a ala masculina do público. Pena que sua continuação não foi tão feliz...
        

Tuesday, July 12, 2011

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS (The story of us, 1999, Castle Rock Entertainment, 95min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Alan Zweibel, Jessie Nelson. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Edward Bell, Robert Leighton. Música: Eric Clapton, Marc Shaiman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Sarah Jackson Burt, Kathy Lucas. Produção executiva: Frank Capra III, Jeffrey Stott. Produção: Jessie Nelson, Rob Reiner, Alan Zweibel. Elenco: Bruce Willis, Michelle Pfeiffer, Tim Matheson, Rita Wilson, Rob Reiner, Julie Hagerty, Paul Reiser. Estreia: 15/10/99

Não seria exagerar demais afirmar que, se as personagens de Billy Cristal e Meg Ryan em "Harry & Sally, feitos um para o outro" tivessem se casado, envelhecido alguns anos e tido um casal de filhos seriam mais ou menos como o casal central de "A história de nós dois", dirigido pelo mesmo Rob Reiner. Apesar da falta incomensurável que os diálogos sólidos e bem-humorados da roteirista Nora Ephron faz, pode-se dizer que este filme é uma cria mais madura de sua comédia romântica mais famosa, ainda que, obviamente, não tenha nem metade do charme de seu irmão mais velho.


Bruce Willis (com a carreira devidamente revigorada depois do impressionante êxito de "O sexto sentido") e Michelle Pfeiffer (impressionantemente bela) vivem Ben e Kate Jordan, um casal passando por uma crise quase irremediável. Cansados das infindáveis discussões quase diárias e da falta de romantismo de seu casamento, eles aproveitam a viagem dos filhos para uma colônia de férias para por sua relação na balança e chegarem a uma decisão sobre seu futuro. Enquanto ficam separados - e ela inicia um flerte com um recém-divorciado - eles tentam também descobrir em que momento de suas vidas os motivos que os levaram a se apaixonar um pelo outro tornaram-se o centro de suas frustrações.



O problema do roteiro de "A história de nós dois" é que ele não é engraçado e sardônico e nem ao menos profundo e maduro. Superficial, ele não investiga a contento todos os reveses de uma relação familiar e nem tampouco cria situações verdadeiramente engraçadas - e aqui faz muita falta um elenco de coadjuvantes fortes, como havia, por exemplo, em "Harry & Sally" (a comparação é inevitável, ainda que se tente fugir dela). Os diálogos entre Kate e suas amigas (dentre as quais se inclui Rita Wilson, a sra. Tom Hanks) e as conversas francas entre Ben e seus comparsas não encantam como deveriam. Fica-se claramente perceptível que apesar da ideia central ser muito boa, o desenvolvimento ficou muito aquém do que se pretendia.

Ainda que seja bastante fácil simpatizar com um casal atraente e carismático como o formado por Willis e Pfeiffer (que tem boa química e bom timing cômico), o filme de Rob Reiner nunca decola totalmente e nem atinge plenamente seus objetivos. Apesar de alguns bons momentos, não faz rir como deveria e não comove nas cenas mais emotivas (ainda que Michelle se esforce bastante em fazer de sua personagem algo mais do que uma mulher controladora e chata). Ainda assim - e ainda que pareça mais longo do que realmente é - é impossível não se encantar com seu charme e suas boas intenções.

"A história de nós dois" é um filme perfeito para ser visto a dois, especialmente quando se está passando ou se passou por uma crise semelhante. A despeito de sua falta de criatividade e ousadia, tem um final quase redentos, com uma edição de momentos vividos pelo casal que emociona pela simplicidade e vitalidade. Se o resto do filme tivesse seguido a mesma linha provavelmente seria menos esquecível - e a bela trilha sonora com canções de Eric Clapton tivesse sido mais festejada. Mesmo com todos os seus pecadilhos, porém, é um bom programa para quem sente falta de filmes espertos, feitos para um público adulto, que prescindem de efeitos visuais elaboradíssimos.

Friday, July 1, 2011

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (Notting Hill, 1999, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 124min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Tim Bevan, Richard Curtis, Eric Fellner. Produção: Duncan Kenworthy. Elenco: Julia Roberts, Hugh Grant, Rhys Ifans, Richard McCabe, Hugh Bonneville. Estreia: 13/5/99

Nada como uma equipe inglesa para que o público relembre como comédias românticas não precisam necessariamente caprichar na glicose para garantir bilheteria e sucesso de crítica. E nada como uma estrela do porte de Julia Roberts (novamente alçada à maior estrela da América graças ao sucesso de “O casamento do meu melhor amigo”) para conferir glamour a uma história tão fantasiosa e ao mesmo tempo tão real quanto “Um lugar chamado Notting Hill”.
        
Fantasiosa porque conta a história de amor entre um homem comum – no caso o proprietário de uma pequena livraria de guias de viagem em um bairro tranquilo de Londres – e uma das mulheres mais famosas do mundo – uma atriz hollywoodiana, o que mais poderia ser?. Real porque, ao invés de tratar a história como um romance água-com-açúcar, repleto de glamour e estereótipos, trata seus personagens com carinho e inteligência, entregando a eles diálogos espertos o bastante para trair sua origem britânica e personalidades fascinantes mas verossímeis.
        
Na pele de Will, o jovem inglês abandonado pela esposa – que o trocou por um homem com a cara de Harrison Ford, segundo suas próprias palavras – que vive cercado pelos amigos fiéis, está Hugh Grant, voltando às boas da crítica e do público que o elevou ao estrelato com “Quatro casamentos e um funeral” em 1994 – sintomaticamente outra comédia romântica escrita pelo mesmo Richard Curtis de “Notting Hill”. Sem carregar nas costas o peso de uma expectativa exagerada que o havia vitimado pós-escândalo com a prostituta Divine Brown, Grant mostra que ainda tem o mesmo talento e carisma de antes, acrescido de uma maturidade bem-vinda. Sua atuação como homem apaixonado por uma diva de cinema e sem certeza de ser correspondido é de uma delicadeza ímpar, que encontra um par perfeito no sorriso inconfundível de Julia Roberts, com a carreira novamente nos trilhos do sucesso.

Também mais madura do que em seus tempos de “Uma linda mulher” – o filme que a lançou como estrela e lhe deu uma indicação ao Oscar – Roberts brilha em uma personagem perigosamente parecida com ela mesma, mas da qual ela inteligentemente extrai detalhes que a transformam, por incrível que pareça, não na Anna Smith atriz bem-sucedida e milionária mas sim na Anna, uma mulher como as outras – e como ela mesma diz em uma frase brilhante, “sou apenas uma garota em frente a um homem, pedindo a ele que a ame.”

Contando ainda com um elenco de coadjuvantes afiadíssimos - em especial o celebrado Rhys Ifans como Spike, o melhor amigo de Will - e com diálogos engraçados e humanos, que brincam com a cultura pop e com suas idiossincrasias – a cena em que Grant participa das entrevistas de lançamento de um filme de Roberts é genial – o filme do desconhecido Roger Mitchell é também vitorioso por fazer crer, em suas duas horas de duração, que uma das mais belas e famosas mulheres do mundo pode tranquilamente se apaixonar por um homem comum. E não é de fantasias que supostamente o cinema é feito?

Tuesday, June 28, 2011

NUNCA FUI BEIJADA

NUNCA FUI BEIJADA (Never been kissed, 1999, Fox 2000 Pictures, 107min) Direção: Raja Gosnell. Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein. Fotografia: Alex Nepomniaschy. Montagem: Debra Chiate, Marcelo Sansevieri. Música: David Newman. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven J. Jordan/Suzette Sheets. Produção executiva: Drew Barrymore. Produção: Sandy Isaac, Nancy Juvonen. Elenco: Drew Barrymore, Michael Vartan, David Arquette, John C. Reilly, Molly Shanon, Garry Marshall, Leelee Sobieski, Jessica Alba, James Franco. Estreia: 09/4/99

Drew Barrymore, a garotinha Gertie de “ET, o extra-terrestre” cresceu e apareceu. Em “Nunca fui beijada” ela não só é a protagonista absoluta como ainda aparece como produtora executiva, através de sua produtora, a Flower Films. E dando mostras de que sabe muito bem de suas limitações como atriz, ela não quis buscar profundos dramas existenciais para voltar às telas. “Nunca fui beijada” é uma comédia romântica sem maiores novidades e talvez por isso mesmo funcione e cumpra tão bem seus objetivos de divertir sem exigir muito exercício da massa cinzenta. E é bastante engraçado, especialmente para aqueles que já conseguiram superar os traumas de uma adolescência conturbada.
     
No filme, dirigido por Raja Gosnell (que depois cometeria a versão live action de "Scooby Doo"), Drew – deixando pra trás um sério problema com vícios em drogas e álcool e uma tentativa de ressuscitar a carreira como símbolo sexual em filmes sofríveis – vive Josie Geller, a competente revisora de um jornal de Chicago que torce desesperadamente pela chance de virar repórter. Essa chance chega quando recebe de seu chefe (um surpreendente Garry Marshall, o diretor de “Uma linda mulher”) a incumbência de disfarçar-se de estudante secundarista para escrever uma reportagem sobre a juventude contemporânea. Mesmo desestimulada por seu amigo e editor Gus (John C. Reilly), Josie matricula-se em uma escola, e tão logo chega começa a lembrar-se de que seu período como adolescente não foi dos melhores. Renegada pelas patricinhas e ridicularizada pelos galãs de plantão, ela encontra amizade apenas com uma nerd, Aldys (Leelee Sobieski) - com quem se identifica de imediato - e com o professor de literatura Sam Coulson (Michael Vartan), por quem se apaixona perdidamente. As coisas começam a melhorar quando seu irmão Rob (David Arquette) também entra na escola e, popular como em seu tempo de estudante, a ajuda a galgar posições mais altas no status estudantil.
        

Nada em “Nunca fui beijada” é novidade. Quando Josie encontra-se pela primeira vez com seu professor, é óbvio que irá apaixonar-se por ele. Quando começam os preparativos para o Baile de Formatura, é claro que ele será o palco do clímax, quando as verdades virão à tona. E quando a jovem jornalista marca um encontro com seu amado em pleno campo de futebol todos sabem o que acontecerá. Mas a simpatia e o timing cômico de Barrymore, a trilha sonora recheada de bons nomes (John Lennon, REM, The Smiths, Cardigans), as citações pop (que vão de “Negócio arriscado”, com Tom Cruise a “Carrie, a estranha”, de Brian de Palma, passando por Shakespeare e Barbie), o elenco de apoio (que conta com a ótima Molly Shannon) e alguns bons momentos de humor compensam a falta de criatividade.

No final das contas, esse primeiro filme de Drew Barrymore como produtora executiva é uma deliciosa e bobinha sessão da tarde, que diverte sem fazer esforço e traz algumas cenas destinadas a clássicas do gênero (a protagonista em sua versão anos 80, ao som de "Like a prayer", de Madonna é hilária). Pode não ter mudado a história do cinema, mas é pop de qualidade, além de contar com as participações de Jessica Alba e James Franco em início de carreira. E é, acima de tudo, extremamente romântico para aqueles que acreditam em contos de fada!

Friday, June 24, 2011

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ (10 things I hate about you, 1999, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Gil Junger. Roteiro: Karen McCullah Lutz, Kirsten Smith, peça teatral "A megera domada", de William Shakespeare. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Richard Gibbs. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Carol Winstead Wood/Charles Graffeo. Produção executiva: Jeffrey Chernov, Seth Jaret. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Heath Ledger, Julia Stiles, Joseph Gordon-Levitt, Larisa Oleynik, David Krumholtz, Andrew Keegan, Allison Janney. Estreia: 31/3/99

A primeira vez em que o ator australiano Heath Ledger chamou a atenção dos frequentadores de cinema foi na pele de Patrick Verona, o rebelde com cara de mau de "10 coisas que eu odeio em você", uma despretensiosa comédia romântica inspirada em "A megera domada", de Shakespeare. Antes mesmo de encantar a plateia com seu Ennis Del Mar de "O segredo de Brokeback Mountain", chocar o mundo com sua morte precoce ou ser um dos raros atores a levar um Oscar póstumo - por sua brilhante atuação em "Batman, o Cavaleiro das Trevas", ele já demonstrava que, por trás de um adolescente enfurecido, havia um ator de alto gabarito. Não é por morbidez de espécie alguma, mas é Ledger a principal atração do filme de Gil Junger, que, no saldo final, não vai muito além das comédias juvenis que volta e meia fabricam novos (e efêmeros) ídolos.

O jovem Cameron James (Joseph Gordon-Levitt, uma década antes de ser reconhecido por "(500) dias com ela") chega à Escola Pádua e logo de cara se apaixona pela bela e quase fútil Bianca Stratford (Larisa Oleynik). Seus planos de conquistá-la caem por terra, no entanto, quando seu cicerone na escola, Michael (David Krumholtz) deixa bem claro que ela é um amor impossível. Além de cobiçada por metade dos colegas, ela é a irmã caçula da detestada Kat (Julia Stiles), uma garota mal-humorada e briguenta que desperta raiva e desprezo de todos. Ao saber que Bianca só poderá sair com rapazes quando sua irmã também o fizer, Cameron tem a brilhante ideia de contratar alguém para o sacrifício. O escolhido é Patrick Verona (Heath Ledger), que, segundo lendas que o desenham como praticamente um marginal, é a pessoa mais apropriada para lidar com a jovem megera. Precisando de dinheiro, Patrick aceita a proposta e passa a assediar Kat, que logo cede a seus encantos grosseiros. Quando eles se descobrem apaixonados, porém, a farsa ameaça vir à tona.



O que diferencia "10 coisas que eu odeio em você" de seus congêneres é a boa vontade do roteiro em homenagear a obra de William Shakespeare (sempre uma homenagem justa). A base da trama é, logicamente, "A megera domada", mas encontra-se ecos de "Romeu e Julieta", "Hamlet" e alguns sonetos, além de referências ao local de nascimento do bardo, através do sobrenome - Stratford - da protagonista. Também é bastante divertido o romance entre Mandella (Susan May Pratt), a melhor amiga de Kat, com o atrapalhado Michael (David Krumholtz), que utiliza da paixão da menina pelo dramaturgo inglês para seduzí-la. Ao contrário de muitas comédias para adolescentes, no filme de Junger os coadjuvantes também tem função importante na narrativa, não servindo apenas de escada para piadas sem graça. Aqui, o humor é um nível acima do corriqueiro, ainda que isso não signifique que seja brilhante ou imperdível - e em alguns momentos emperra na nulidade dramática de sua atriz central.

Enquanto Heath Ledger - que bateu Ashton Kutscher e Josh Hartnett na disputa pelo papel principal - seduz a audiência com seu rude Patrick Verona, sua companheira de cena nunca ultrapassa o comum. Julia Stiles não é particularmente bonita nem tampouco é boa atriz. Seu desempenho chega a atrapalhar o resultado final do filme, que fica capenga em algumas cenas cruciais - em especial no clímax que justifica o título. Ao lado de gente talentosa como Ledger e Gordon-Levitt, a jovem que seria figurinha carimbada nas comédias românticas do final dos anos 90 mostra toda as suas deficiências. Porém, se for levado em consideração que analisar talento dramático é a última coisa que o público-alvo do filme pretende, "10 coisas que eu odeio em você" funciona muito bem. É um dos melhores produtos direcionados ao público jovem de sua época.

Friday, June 17, 2011

MENSAGEM PARA VOCÊ

MENSAGEM PARA VOCÊ (You've got mail, 1998, Warner Bros,) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, peça teatral "Parfumerie", de Miklós László. Fotografia: John Lindley. Montagem: Richard Marks. Música: George Fenton. Figurino: Albert Wolsky.  Direção de arte/cenários: Dan Davis/Susan Bode, Ellen Christiansen. Produção executiva: G. Mac Brown, Julie Durk, Delia Ephron. Produção: Nora Ephron, Lauren Schuler Donner. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Greg Kinnear, Parker Posey, Steve Zahn, Dabney Coleman, Jean Stapleton. Estreia: 18/12/98

Levando-se em consideração o enorme sucesso de "Sintonia de amor", em que Tom Hanks e Meg Ryan foram dirigidos por Nora Ephron - e que rendeu mais de 220 milhões de dólares pelo mundo - até que demorou para que os três nomes voltassem a enfeitar o mesmo cartaz. Cinco anos separam "Sintonia" de "Mensagem para você", mais uma deliciosa comédia romântica comandada pela roteirista do já clássico "Harry & Sally, feitos um para o outro". Nesse meio-tempo, Hanks passou de comediante simpático a ator sério e respeitado - e dono de dois Oscar consecutivos - e Ryan tentou fugir da armadilha de tornar-se atriz de um papel único, chegando a ponto de encarar um filme de guerra - "Coragem sob fogo" - e um papel de alcóolatra - em "Quando um homem ama uma mulher". O que fica claro em "Mensagem para você" é que a química entre os dois não se alterou um mílimetro sequer: são eles, aliados ao texto sempre irônico e ágil de Ephron, que fazem do filme um programa sem contra-indicações.

Refilmagem livre e modernizada do clássico "A loja da esquina", que Ernst Lubitsch dirigiu em 1940 e onde James Stewart e Margaret Sullavan trocavam calorosas cartas amorosas enquanto se odiavam como colegas de trabalho, "Mensagem para você" mais uma vez usa o charme natural de Nova York como cenário de um romance capaz de afastar todo e qualquer cinismo e conquistar o público sem fazer esforço. Seguindo a receita vitoriosa de "Sintonia de amor", o filme de Ephron também se aproveita de uma deliciosa trilha sonora e da simpatia dos coadjuvantes: além de uma dupla central imbatível, desfilam pela tela Greg Kinnear, Parker Posey e Steve Zahn em atuações extremamente simpáticas e eficientes.


Kathleen Kelly (Meg Ryan adorável mas repetindo os trejeitos de sempre) é a brava dona de uma pequena livraria infantil localizada em uma zona valorizada de Nova York. Com um público fiel que conhecem o estabelecimento desde que era de sua mãe, a livraria chamada "A loja da esquina" começa a sofrer a concorrência desleal da filial de uma enorme cadeia de megastores de propriedade de Joe Fox (Tom Hanks). Furiosa com a possibilidade de ir à falência, Kathleen conta com o apoio do namorado, o jornalista Frank Navasky (Greg Kinnear) e dos funcionários, mas é somente pela Internet que ela realmente se sente à vontade para ser ela mesma. Assumindo o apelido de Shopgirl, ela se apaixona virtualmente por NY152, sem nem de longe desconfiar que ele é, na verdade, seu maior rival.

O roteiro de "Mensagem para você" se desenvolve sem maiores surpresas ao espectador, mas o faz de maneira tão honesta que fica difícil não compactuar com seu humor romântico e quase ingênuo. Juntos em cena, Meg Ryan e Tom Hanks são o perfeito exemplo de atores carismáticos e devidamente aproveitados. É principalmente devido a eles que a audiência acredita piamente que dois estranhos completos podem se apaixonar perdidamente através da Internet sem ao menos ver o rosto um do outro. E é lógico que, caminhar nas ruas arborizadas e coloridas de Manhattan e ao som de Cranberries, Sinnead O'Connor, Roy Orbison e Louis Armstrong não atrapalha em nada nessa missão.

Friday, May 20, 2011

A RAZÃO DO MEU AFETO

A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98

De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.

Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green,  sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.



Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês ainda existam - o crítico de teatro, homossexual de terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd é encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Nigel Hawthorne por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em um romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos anteriores.

Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo de comédia romântica, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chiva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos GLBT e fãs de "Friends".

Tuesday, April 26, 2011

MELHOR É IMPOSSÍVEL


MELHOR É IMPOSSÍVEL (As good as it gets, 1997, TriStar Pictures/Gracie Films, 139min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, Mark Andrus, história de Mark Andrus. Fotografia: John Bailey. Montagem: Richard Marks. Música: Hans Zimmer. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Bill Brzeski/Clay A. Griffith. Produção executiva: Laura Ziskin, Laurence Mark, Richard Sakai. Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson. Kristi Zea. Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Shirley Knight, Harold Ramis, Timothy Olyphant, Jamie Kennedy. Estreia: 25/12/97

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt), Ator Coadjuvante (Greg Kinnear), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Jack Nicholson), Atriz/Comédia ou Musical (Helen Hunt)

Em 1983, o cineasta James L. Brooks fez a festa na cerimônia do Oscar com "Laços de ternura", um misto de comédia de costumes com melodrama familiar que arrancou elogios da crítica e lágrimas do público. Em 1988, ele falhou em conseguir um bicampeonato com "Nos bastidores da notícia", uma comédia romântica ácida que criticava a falta de ética nos telejornais. Levou quase uma década - período em que criou a mega bem-sucedida série de TV "Os Simpsons" - até que Brooks voltasse a ver um filho seu na disputa pela estatueta mais cobiçada de Hollywood. E quando isso aconteceu, não poderia ter sido de melhor forma. "Melhor é impossível" é um filme adorável, que mais uma vez mostra o dom de seu diretor/roteirista/produtor em equilibrar drama e comédia em histórias humanas com personagens extremamente próximas da realidade. Indicado a 6 Oscar - incluindo Melhor Filme mas não Melhor Diretor - o ... longa de Brooks bateu de frente com "Titanic", mas ainda assim seus intérpretes não podem se queixar da recepção que tiveram junto aos membros da Academia. Tanto Jack Nicholson quanto Helen Hunt, seus protagonistas, foram (merecidamente) oscarizados.

"Melhor é impossível" segue o estilo elegante e simples de Brooks, que faz rir de situações cotidianas sem forçar gargalhadas e cria personagens que falam ao público de maneira simples. Os diálogos inteligentes/engraçados/dramáticos nunca soam como diálogos de filme e sim como conversas de gente normal. As personagens parecem pessoas comuns (ainda que entre elas encontre-se um escritor famoso e um artista plástico gay). E as situações, mesmo que pareçam um tanto forçadas, funcionam perfeitamente a seus objetivos dramáticos.

 

Melvin Udall (Jack Nicholson em mais um papel antológico de sua carreira) é um escritor bem-sucedido profissionalmente mas com sérios problemas em relação à convivência com outros seres humanos. Sofrendo de transtorno obsessivo-compulsivo, ele vive recluso em seu apartamento luxuoso, vivendo em constante conflito com os vizinhos, em especial Simon (Greg Kinnear, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), artista plástico homossexual por quem ele nutre uma antipatia gratuita. Dono de rígidas regras de comportamento, Melvin lava as mãos com água fervendo, pula as rachaduras das ruas de Nova York e tranca a porta de casa dezenas de vezes antes de dar-se por satisfeito e leva sua vida confortavelmente. Sua rotina necessária é quebrada quando, ao frequentar o mesmo restaurante de sempre e sentar-se à mesma mesa de sempre, ele descobre que sua garçonete preferida, a doce Carol (Helen Hunt) faltou ao trabalho para cuidar do filho pequeno, portador de uma doença crônica. Para não perder seu hábito adquirido, Melvin resolve pagar o tratamento da criança e se descobre apaixonado por Carol, uma mulher batalhadora que esconde sua carência e seu romantismo por trás de uma máscara de força e estoicismo. Depois que Simon é violentamente espancado por um grupo de drogados, Carol convence Melvin a viajar com ele até a casa de sua família e um real relacionamento de amizade e carinho surge entre eles, aproximando-o da mulher que ama.

Ainda que a trama acene com a possibilidade de um forte melodrama ou situações forçadas por um roteiro necessitado de emoções, "Melhor é impossível" paira acima dos clichês por uma razão muito simples: tem um diálogo direto com o espectador, não tenta falar bonito nem busca complexidades psicológicas. A doença de Melvin - que tornou-se bem mais conhecida após o filme - é apenas um elemento a mais na trama, não ocupando mais espaço do que o necessário (assim como os problemas de saúde do filho de Carol e das relações familiares de Simon). O que interessa a Brooks é a interrelação entre as personagens, como suas vidas podem ser transformadas quando em contato com outras. E nisso o roteiro é pródigo, ainda que muitos considerem um tanto "simples demais". Na verdade, essa simplicidade é que faz dele tão especial. O público se identifica com as personagens e é aí que reside seu charme maior. E ter um elenco como o escalado pelo diretor ajuda bastante.
 
Em mais uma prova de que segundas opções podem ser extremamente benéficas em termos hollywoodianos, o elenco de "Melhor é impossível" que encantou público e crítica poderia não ter feito o filme. Melvin Udall, que acabou tornando-se um dos papéis mais representativos da carreira de Jack Nicholson (que levou um terceiro e justo Oscar), foi oferecido inicialmente a John Travolta. Carol, que elevou o status de Helen Hunt (em uma atuação delicada e sutil) de atriz de TV a estrela de cinema, poderia ter ido parar nas mãos de Holly Hunter ou (Deus nos proteja!) Courtney Love. E Simon, que fez de Greg Kinnear um ator respeitado depois de bombas com a refilmagem de "Sabrina", com Julia Ormond, quase esteve nas mãos de John Cusack, que saiu do projeto devido a seus compromissos com a comédia de humor negro "Matador em conflito". Juntos, os três apresentam uma química invejável, o que reitera a teoria de que certos filmes tem a hora certa de acontecer.

"Melhor é impossível" é um filme delicioso, sofisticado e que se pode assistir com prazer diversas vezes. Seu alto-astral e sua inteligência, aliados à inconfundível música de Hans Zimmer e a seu elenco impecável fazem dele um clássico dos anos 90. Poucas vezes um título soou tão adequado.

Wednesday, April 13, 2011

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA (A life less ordinary, 1997, Channel Four Films/Polygram Filmed Entertainment, 103min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: David Arnold. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Marcia Calosio. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Cameron Diaz, Ewan McGregor, Ian Holm, Holly Hunter, Delroy Lindo, Dan Hedaya, Stanley Tucci, Tony Shalhoub, Timothy Olyphant. Estreia: 24/10/97

Robert Lewis (Ewan McGregor) é um sujeito de pouca sorte. Desacreditado em suas tentativas de tornar-se escritor de um romance trash, ele, no mesmo dia, é abandonado pela namorada (que o deixa pelo professor de aeróbica) e demitido do emprego de faxineiro de uma empresa (sendo substituído por um robô). Indignado com sua situação desesperadora, ele invade o escritório de seu chefe e, ao perceber que nada fará o frio empresário mudar de ideia a respeito de sua dispensa, faz a única coisa que lhe passa na cabeça: sequestra sua filha, a dondoca Celine Naville (Cameron Diaz). A moça, revoltada com o fato de ser obrigada a trabalhar para pagar por seus luxos, une-se então a Robert para arrancar dinheiro de seu pai. O que os dois jovens nem de longe sonham, porém, é que dois anjos bastante atrapalhados - O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) - tem a difícil missão de fazê-los se apaixonarem um pelo outro, para que não sejam obrigados a viver na Terra pra sempre.
Com essa premissa de novela das sete, a dupla Danny Boyle (diretor) e John Hodge (roteirista) voltou às telas depois do estrondoso sucesso crítico de "Trainspotting", que colocaram seus nomes no mapa da indústria hollywoodiana. Contando ainda com o ator Ewan McGregor (com quem haviam trabalhado ainda em "Cova rasa"), Boyle e Hodge experimentaram, para seu desgosto, o amargo sabor do fracasso. Ignorado pelo público e malhado pela crítica, "Por uma vida menos ordinária" nem de longe causou o mesmo impacto de seus trabalhos anteriores e, pior ainda, foi rechaçado até mesmo pelos fãs mais fiéis do time até então vencedor. Mas afinal de contas, a comédia romântica de Boyle mereceu todo essa vaia generalizada?



É preciso saber se o público - e até mesmo a imprensa - entendeu a proposta do cineasta e seus fiéis asseclas. O que se pode esperar de uma comédia romântica cujos autores deram ao mundo um suspense recheado de humor negro e um drama sobre drogas que foi acusado de glamourizá-las? Obviamente não há, em "Por uma vida menos ordinári"a, cenas daqueles romances melosos que Hollywood costuma empurrar a plateias sedentas por escapismo sentimental. Quando acontece de falarem de amor, logo somos lembrados - pela trilha sonora propositalmente piegas ou pelos absurdos do roteiro - de que estamos diante de um filme que fala de amor, sim, mas da maneira menos convencional possível. Robert e Celine não formam um típico par romântico ele é quase um banana, capaz de desmaiar ao ver sangue, e ela é uma riquinha mimada cujo hobby é brincar de Guilherme Tell (mesmo que corra o risco de ferir o próprio ex-namorado). E o fato de estarem à mercê de dois anjos nada dados a sentimentalismos e capazes de violência física para atingir seus objetivos apenas reitera o tom de brincadeira absoluta. É preciso que se compre a proposta de Por uma vida menos ordinária. E o público, infelizmente, dessa vez não comprou.

Logicamente nem tudo são flores... É necessário admitir que há muitos erros em "Por uma vida menos ordinária", a começar pelo roteiro que, apesar de alguns bons momentos, não chega nem aos pés do brilhantismo de "Trainspotting" e "Cova rasa". As personagens são mal delineadas (talvez de propósito, mas isso não fica exatamente claro) e certas situações não se desenvolvem a contento, dando a impressão de uma colagem de desventuras sem muita conexão. Mas Danny Boyle é visivelmente um diretor muito criativo e isso fica nítido em soluções visuais bastante interessantes, como o céu de um branco absoluto e na sequência musical em que Ewan McGregor e Cameron Diaz parecem se divertir a valer (McGregor inclusive voltaria a demonstrar seus dotes vocais nos filmes "Velvet Goldmine" e "Moulin Rouge"). Somados à atuação delirante de Holly Hunter (de longe a melhor coisa do filme) e à trilha sonora impecável (característica das obras do diretor), esses momentos de criatividade fazem do filme uma agradável experiência. Pode não ser um Danny Boyle dos melhores, mas está longe de ser um dos piores. E tem a simpatia contagiante de Ewan McGregor.

Monday, March 28, 2011

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (My best friend's wedding, 1997, TriStar Pictures, 105min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Ronald Bass. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Garth Craven, Lisa Fruchtman. Música: James Newton Howard. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/William Kemper Wright. Produção executiva: Gil Netter, Patricia Whitcher. Produção: Ronald Bass, Jerry Zucker. Elenco: Julia Roberts, Cameron Diaz, Dermot Mulroney, Rupert Everett, Rachel Griffiths, Philip Bosco, Paul Giamatti. Estreia: 20/6/97

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

O sucesso repentino não fez muito bem à Julia Roberts. Alçada da noite para o dia à condição de maior e mais bem paga estrela de Hollywood no início da década de 90, ela cometeu uma sucessão de escolhas profissionais equivocadas e tornou-se a matéria-prima preferida de tablóides sensacionalistas, graças principalmente ao fim de seu noivado com o ator Kiefer Sutherland e seu casamento-relâmpago com o cantor country Lyle Lovett. Tendo sua vida pessoal devassada pela imprensa marrom e seus trabalhos ignorados pelo público - e massacrados pela crítica - só restava a ela dar uma pausa para respirar antes de voltar à ribalta. O enorme sucesso de bilheteria de seu retorno, a comédia "O casamento do meu melhor amigo", a despeito das qualidades do filme, provou o que todos já sabiam: a plateia estava com muita saudade não da Julia Roberts triste de "Tudo por amor" e "O segredo de Mary Reilly", mas da carismática e sorridente estrela de "Uma linda mulher".

Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - que também comandou o tragicômico "O casamento de Muriel", de 1995 - o filme que devolveu a atriz às boas graças do público foge do tradicional modelo das comédias românticas ao não contar uma história de amor onde moça encontra rapaz, se apaixona por ele, come o pão que o diabo amassou e finalmente consegue viver a seu lado, feliz para sempre. Utilizando uma alta dose de sarcasmo, o roteiro de Ronald Bass - que tem um Oscar em casa pelo script de "Rain Man" - criou uma protagonista que, ao contrário do que se espera de uma mocinha íntegra e passional, tem defeitos gritantes e, mais do que tudo, não mede esforços para atingir seus objetivos. Aqui, outra novidade: ela não quer apenas conquistar o homem que ama, mas sim roubá-lo da mulher com quem ele está prestes a se casar. Mezzo heroína/mezzo vilã, a personagem de Julia Roberts conquista exatamente por estar muito mais perto das espectadoras do que as sonhadoras moçoilas que são ícones de um dos gêneros mais queridos pelo público - e, paradoxalmente ou não - desprezados pela crítica.

Roberts, desprovida do glamour exagerado de "Uma linda mulher" mas ainda assim apresentando seu sorriso matador, vive Julianne Potter, uma respeitada crítica gastronômica que, às vésperas de completar 28 anos, recebe um telefonema inesperado de um ex-namorado e atual melhor amigo. O jornalista esportivo Michael O'Neal (Dermot Mulroney), por telefone, lhe comunica seu iminente casamento com a doce e milionária Kimberly Wallace (Cameron Diaz) e lhe pede que seja a dama-de-honra da noiva. Julianne, estupefacta, aceita o convite, mas seus planos são bem mais diabólicos do que simplesmente acompanhar a cerimônia de enlace entre o casal: sentindo-se no direito de reivindicar a promessa feita por Michael anos antes, de que se casaria com ela se ambos estivessem solteiros aos 28, a jovem resolve viajar para Chicago com a intenção de impedir o casamento. Descobrindo-se apaixonada por Michael (ou sentindo apenas o amargo gosto do orgulho ferido), ela arma inúmeras situações para separá-lo de Kimberly, que, inocente, nem desconfia que sua confiável nova amiga quer na verdade afastá-la do noivo que ama profundamente.

Apesar de ter em mãos uma personagem um tanto quanto malévola, Roberts dá humanidade e simpatia a ela, que desperta a compaixão e até mesmo a torcida da audiência, apesar do fato de não ser exatamente uma pessoa confiável. Talvez levado pela máxima que diz que "o amor justifica tudo", o público aceita as armações de Julianne sem rejeitá-la, no que o trabalho de Julia tem influência gigantesca. Ao fugir do maniqueísmo, a atriz encontra no texto inteligente de Bass o veículo ideal para desenvolver uma personagem que não é totalmente má nem completamente boa. Julianne Potter comete erros grotescos, mas também sofre as suas consequências, e seus planos, ainda que aparentemente infalíveis, sempre acabam sendo malogrados por um fato incontestável: apesar de adorá-la, Michael ama, na verdade, sua noiva e nem mesmo todas as armadilhas do mundo mudam isso. É essa certeza que o público tem, mas Julianne não, que faz toda a diferença. Antes de ser uma vilã, Potter é uma mulher equivocada e confusa e respeito de seus sentimentos.


E, se Julianne não sabe com certeza o que se passa dentro de seu coração, é seu grilo falante quem lhe dá todas as dicas - e de quebra, rouba absolutamente todas as cenas das quais participa. O inglês Rupert Everett dá um show particular de bom humor e carisma na pele de George Downes, o editor de Julianne que lhe serve de ombro amigo e que, nas melhores cenas do filme, vai até ela com a missão de fazê-la desistir de seus planos. Homossexual assumido - assim como sua personagem - Everett é o protagonista da já clássica sequência em que comanda um improvisado coral em um restaurante lotado em uma versão de "I say a little prayer". Sua química com Julia Roberts é tamanha que, após exibições-teste, os produtores resolveram lhe dar um espaço maior nas cenas finais - cortando, assim, a participação do ator John Corbett, que adiaria por alguns anos a relativa fama conquistada no filme "Casamento grego" e na série "Sex and the city" - cuja atriz central, Sarah Jessica Parker era a primeira escolha para liderar o filme de P.J. Hogan.

Hogan, aliás, merece boa parte dos créditos pelo sucesso de "O casamento do meu melhor amigo". Aparentemente fascinado pela cafonice intrínseca das cerimônias matrimonias - haja visto seu currículo que inclui o ótimo "O casamento de Muriel" - o australiano compartilha com o conterrâneo Baz Luhrmann o talento em selecionar uma trilha sonora impecável para seus projetos. Enquanto em seu primeiro filme ele usava e abusava de canções do grupo sueco ABBA, aqui ele varia o cardápio, comentando a ação com pérolas do compositor Burt Bacharach e iniciando a projeção com uma irônica sequência musical com a inacreditável "Wishing and hoping" dublada por uma ansiosa noiva. Esses primeiros minutos dão o tom exato do que virá pela frente: um filme agradável, divertido e que não se leva exatamente a sério. Ou seja, um programa perfeito para marcar o retorno de Julia aos holofotes sem que tenha sido para falar de sua vida particular.

"O casamento do meu melhor amigo" não é, e nem tenta ser, um filme para ser louvado pela crítica especializada ou homenageado por cerimônias de premiação. Mas é um passatempo que não ofende a inteligência do público e que serviu como uma luva para que a estrela de Julia Roberts voltasse a brilhar, dessa vez em definitivo.

Friday, March 25, 2011

PROCURA-SE AMY

PROCURA-SE AMY (Chasing Amy, 1997, View Askew Productions, 113min) Direção e roteiro: Kevin Smith. Fotografia: David Klein. Montagem: Scott Mosier, Kevin Smith. Música: David Pirner. Figurino: Christopher Del Coro. Direção de arte/cenários: Robert 'Ratface' Holtzman/John Carlucci, Susannah McCarthy. Produção executiva: John Pierson. Produção: Scott Mosier. Elenco: Ben Affleck, Jason Lee, Joey Lauren Adams, Dwight Ewell, Kevin Smith, Jason Mewes. Estreia: 04/4/97

Não se deixe enganar pela singeleza da frase de efeito do cartaz, que diz "Não importa quem ama, mas sim como você ama." Apesar de levantar questões bastante interessantes e ser claramente simpático à causa gay, "Procura-se Amy" não tenta dar lições de moral ou soar como dono da verdade. A comédia romântica do diretor independente Kevin Smith - realizada com uns trocados e relativamente bem-sucedida comercialmente - tem como objetivo simplesmente contar uma história de amor diferente e, de quebra, tentar jogar uma luz nos relacionamentos homem/mulher dos anos 90. Utilizando-se de sua característica ironia e de seu humor calcado nitidamente na cultura pop, o cineasta de Nova Jersey conseguiu criar seu melhor e mais bem acabado filme antes de ingressar de vez no mainstream com o polêmico "Dogma", de 1997.


Conhecido como diretor dos cultuados "O balconista" e "Barrados no shopping", Kevin Smith - uma figura bizarra, tipicamente nerd e também ator em seus projetos - caiu nas graças da crítica justamente por conseguir fazer filmes ridiculamente baratos e donos de uma personalidade própria. Em "Procura-se Amy" ele atinge o perfeito equilíbrio entre seus diálogos engraçadíssimos, suas referências culturais (quadrinhos, filmes e música) e sua alma de cineasta independente. Deixando de lado sua tendência a piadas escatológicas, ele criou um retrato acurado sobre as relações amorosas da juventude classe média anos 90, com todas a sua diversidade sexual. Longe de ser um filme cujo público-alvo seja a plateia gay, "Amy" é a prova perfeita de que um bom roteiro pode fazer milagres. Até mesmo arrancar uma atuação decente de Ben Affleck.



Ainda antes de tornar-se um astro conhecido, vencedor do Oscar - de roteiro, por "Gênio indomável" - e cineasta, Affleck até convencia como ator. Pelo menos em "Procura-se Amy" ele dá o melhor de si, em uma interpretação senão espetacular, ao menos bastante convincente. Ele vive Holden McNeil, autor de uma popular revista em quadrinhos chamada "Bluntman and Chronic" que tem uma relação de amizade e confiança há mais de vinte anos com seu sócio Banky Edwards (Jason Lee). A estreita relação entre os dois sofre um abalo quando ele se apaixona por outra quadrinista, Alyssa Jones (Joey Lauren Adams), que além de jovem, bela e talentosa, é lésbica. Banky não acredita que a relação entre o novo casal vai dar certo - por pelo menos uma boa razão - e isso acaba atrapalhando inclusive o equilíbrio profissional entre os dois. As coisas se complicam quando seu medo de ver Holden machucado torna-se real: compreensivo a respeito das aventuras gays da namorada, o rapaz tem a incapacidade de aceitar seu passado heterossexual.

Kevin Smith tem um rasgo de inteligência ao colocar como maior empecilho à felicidade entre Holden e Alyssa não sua preferência sexual, e sim seu passado. É como se ele dissesse que em toda relação sempre existe algo imperdoável, seja essa relação hetero ou homossexual, e que cabe aos maiores interessados a decisão de relevar ou não tais "erros". O roteiro, recheado de diálogos saborosos a respeito de sexo (alguns até mesmo bastante contundentes) consegue manter-se neutro, sem julgar Holden e seus preconceitos, levando a plateia a entender suas dúvidas - mesmo que provavelmente vá achá-las um tanto exageradas. São nessas horas que Ben Affleck demonstra que, quando bem dirigido, pode ser um ator razoável. É exemplar a cena em que seu Holden declara-se à Alyssa, quando fica claro até ao mais otimista espectador que relacionamentos não são exatamente fáceis e que seres humanos são mais do que simplesmente gays ou heteros. Aliás, é preciso destacar também o trabalho do ótimo Dwight Ewell, que, em suas poucas interferências na trama, dispara as melhores e mais cáusticas piadas, normalmente a respeito de homossexualidade e racismo, citando inclusive a saga "Star Wars" (o que trai a influência nerd na carreira de Smith).

De certa forma valorizado pelo ótimo timing cômico de Jason Lee e prejudicado pela voz irritante de sua protagonista Joey Laurel Adams - namorada do cineasta à época das filmagens - "Procura-se Amy" é, no entanto, uma pérola a ser descoberta. Hilariante e romântico, é recomendável a qualquer público que estiver disposto a fugir dos lugares-comuns das comédias românticas e dar boas risadas. Ao quebrar a certeza de que "gay é gay e hetero é hetero", o diretor embaralha as cartas da sexualidade humana sem pretender dar nenhuma palavra final. O que ele quer dizer mesmo é que todos, independente de quem leva para a cama, procura sua cara-metade (e a longa e brilhante fala de Alyssa a respeito disso reitera essa afirmação). De quebra, tem uma discreta profundidade que seu diretor nunca mais conseguiu atingir - com a possível exceção do já citado "Dogma". Um filme com aura de cult!

Tuesday, March 22, 2011

UM DIA ESPECIAL

UM DIA ESPECIAL (One fine day, 1996, Fox 2000 Pictures/20th Century Fox, 108min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Terrel Seltzer, Ellen Simon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anne Kuljian. Produção executiva: Kate Guinzburg, Michelle Pfeiffer. Produção: Lynda Obst. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Clooney, Mae Whitman, Alex D. Linz, Charles Durning, Amanda Peet, Ellen Greene. Estreia: 20/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("For the first time")

Em 1996, o ator George Clooney estava começando sua escalada rumo ao sucesso no cinema. Na TV ele já era ídolo: sua participação como Doug Ross, o pediatra don juan da série "Plantão médico" o colocava como símbolo sexual inquestionável entre o público feminino, que suspirava todas as semanas frente ao aparelho de televisão. Em sua ambição de tornar-se também um astro de cinema, nada mais natural do que não mexer em time que está ganhando. Depois de experimentar um pouco de ousadia com sua estreia nas telas - o terror "Um drink no inferno", roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Robert Rodriguez - Clooney presenteou as fãs com "Um dia especial", uma comédia romântica que pode ser definida por todos os adjetivos que filmes do gênero comportam: agradável, engraçadinha, fofa... e previsível.

Não que o público que tenha ido acorrido aos cinemas para ver George Clooney seja muito exigente - e foi um público razoável, a julgar pela bilheteria bem razoável de quase 50 milhões de dólares. Mas o fato é que, apesar de não apresentar nenhuma novidade, "Um dia especial" serviu perfeitamente aos objetivos do ator, que, ao lado de uma inspirada Michelle Pfeiffer - também produtora executiva - conquista a plateia sem precisar fazer muito esforço. E são os dois, belos e talentosos, que fazem com que o filme de Michael Hoffman seja um entretenimento inofensivo e divertido. Fotografado com capricho pelo veterano Oliver Stapleton, "Um dia especial" não é inesquecível, mas tem um charme que o diferencia de muitos outros exemplares do gênero.


Michelle Pfeiffer, linda como sempre e com um timing cômico na medida certa, vive Melanie Parker, uma arquiteta que divide seu tempo entre tentar uma promoção profissional e cuidar de Sammy (Alex D. Linz), seu filho com um músico itinerante que aparece apenas de vez em quando na vida do filho. Clooney interpreta Jack Taylor, conhecido jornalista que, além de procurar furos de reportagem, tenta provar à ex-mulher que sabe cuidar da filha pequena, Maggie (Mae Whitman). Justamente no dia em que Melanie tem uma apresentação importantíssima que pode lhe dar a sonhada promoção e Jack precisa comprovar os fatos de uma polêmica reportagem cujas consequências podem lhe tirar o emprego, seus filhos perdem o passeio de barco da escola e os dois adultos - de personalidades opostas e que nutrem uma antipatia à primeira vista em relação um ao outro - são obrigados a criar uma forma de resolver a situação e, é claro, acabam o dia apaixonados.

E é só isso. Com esse fiapo de história, Hoffman mantém a atenção da plateia usando a abusando dos clichês que fazem a glória das comédias românticas sem, no entanto, incomodar ou aborrecer. O ritmo mantido pelo cinesta combina com a bela trilha sonora de James Newton Howard e com a coloração de uma Nova York chuvosa em dias de uma beleza rara. As personagens secundárias não roubam a atenção da dupla central, surgindo em cena apenas quando o necessário para o desenvolvimento da trama - e são interpretados por gente boa, como o veterano Charles Durning e a bela Amanda Peet. Michael Hoffman concentra o foco de seu filme totalmente em Pfeiffer e Clooney, e acerta em fugir das tramas paralelas. A química entre o ótimo casal de protagonistas e as crianças que interpretam seus filhos é outro ponto alto do filme, uma sessão da tarde das mais encantadoras.

Logicamente o futuro de Clooney no cinema preparava voos maiores - inclusive uma carreira de diretor e um Oscar de coadjuvante - mas é impossível negar que "Um dia especial" jamais será uma mancha em seu currículo. Afinal, é um filme, como dito anteriormente, agradável, encantador e fofo. E tem Michelle Pfeiffer no elenco!

Monday, March 21, 2011

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA (Jerry Maguire, 1996, TriStar Pictures, 139min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Joe Hutsching. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Stephen Lineweaver/Clay A. Griffith. Produção executiva: Bridget Johnson. Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark, Richard Sakai. Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renee Zelwegger, Kelly Preston, Bonnie Hunt, Regina King, Jonathan Lipnicki, Beau Bridges, Jay Mohr, Jerry O'Connell, Todd Louiso. Estreia: 13/12/96

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Tom Cruise), Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Cruise)
Vencedor do Screen Actors Guild Award de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)

Estivesse Frank Capra vivo e em atividade em 1996 certamente ele assinaria com prazer a comédia romântica "Jerry Maguire, a grande virada". Repleto do otimismo e do humanismo que eram suas marcas registradas, o filme escrito e dirigido por Cameron Crowe nadou contra a corrente dos filmes encharcados de cinismo da década de 90 ao contar uma história de amor e redenção com um protagonista que caberia facilmente no currículo de James Stewart. Não à toa, Tom Hanks - a encarnação atual do ator preferido de Capra - foi cotado para o papel de Maguire, um agente esportivo que, depois de uma crise de consciência, toma contato com uma nova forma de enxergar a vida e os relacionamentos. Quinto filme consecutivo de Tom Cruise a ultrapassar a marca de cem milhões de dólares de arrecadação, provou, além disso, que o galã preferido da época também sabia atuar longe dos filmes de guerra e dos dramas de tribunal: o então ainda marido de Nicole Kidman arrebatou sua segunda indicação ao Oscar.


O Jerry Maguire do título é um bem-sucedido agente de esportistas, que mede seu sucesso pelo número de telefonemas que atende diariamente e pelos contratos milionários que assina para seus clientes. Um belo dia, sentindo-se culpado e ganancioso, ele escreve uma declaração de metas onde sugere que todos os seus colegas (ele inclusive) passem a dedicar-se a menos clientes, dando-lhes a devida atenção. Aplaudido pela frente e criticado pelas costas (afinal sua ideia significa menos dinheiro à empresa onde trabalha), ele é demitido por Bob Sugar (Jay Mohr), que o tinha como mentor. Não se deixando desesperançar, ele conta com a ajuda da contadora Dorothy Boyd (René Zelwegger) para recomeçar do zero, Mãe solteira e apaixonada por Jerry, Dorothy entra de cabeça na nova agência do rapaz, que conta com apenas um cliente, o falastrão e encrenqueiro Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.), que tem talento tanto para jogar futebol quanto para reclamar de seus péssimos contratos.


"Jerry Maguire" é delicioso. Tem um roteiro impecável, recheado de diálogos brilhantes por sua simplicidade e verdade. Tem uma trilha sonora agradável que inclui Paul McCartney, Tom Petty e Bruce Springsteen - cuja belíssima "Secret garden" embala o romance central de maneira comovente. E conta com um elenco que, apesar de não ser formado de primeiras escolhas, não só dá conta do recado como conquista a audiência desde seus primeiros momentos. Para o papel título, nomes como os de Tom Hanks e John Travolta foram sondados. Para interpretar Rod Tidwell foi testado Jamie Foxx. Para o papel de Avery, a ambiciosa noiva do protagonista (vivida por Kelly Preston) foram pensadas Diane Lane, Jennifer Connely e Meg Ryan. E para o papel da romântica Dorothy Boyd, o diretor Cameron Crowe considerou atrizes que iam de Winona Ryder e Mira Sorvino a Janeane Garofalo a Courtney Love. Sorte da texana Rene Zelwegger, que não apenas conquistou o papel mas também o coração da audiência, com uma atuação doce e engraçada.


A química entre Cruise e Zelwegger, aliás, é outro ponto alto do filme. Dificilmente a história de amor entre Jerry e Dorothy emocionaria tanto o público se outros atores estivessem em seus lugares. Se Cruise até exagera em certos momentos - não a ponto de incomodar, mas o suficiente para ser notado - a quase novata Zelwegger está absolutamente impecável com sua estóica contadora: suas cenas com Bonnie Hunt (como sua irmã Laurel) e com o pequeno Jonathan Lipnicki (na pele do encantador Ray) são dotadas de uma veracidade delicada e tocante. Transitando entre o dramático e o cômico com segurança ímpar, a futura Bridget Jones apresenta uma das melhores interpretações de sua carreira. Merecia muito mais o Oscar de coadjuvante feminina do que Cuba Gooding Jr. merecia o de masculino. Gooding Jr. - que saiu vitorioso no ano em que Edward Norton causou impacto com sua estreia em "As duas faces de um crime" - tem uma atuação histérica e bastante irritante, que destoa da sutileza do restante do elenco. E é de se imaginar como seria se Billy Wilder (ele mesmo, o diretor de "Quanto mais quente melhor") tivesse aceito interpretar o mentor de Maguire, cujas inserções durante o filme dão o tom e a "moral" da história.


Em última análise, "Jerry Maguire" é uma pequena obra-prima de seu gênero. Romântico sem ser bobo, engraçado sem ser pateta e com uma certa dose de ingenuidade e otimismo que sempre faz bem ao coração, é também o filme que revelou Rene Zelwegger ao grande público. Imperdível para quem ainda acredita no ser humano!

Monday, March 7, 2011

NOSSO TIPO DE MULHER

NOSSO TIPO DE MULHER (She's the one, 1996, 20th Century Fox, 96min) Direção e roteiro: Edward Burns. Fotografia: Frank Prinzi. Montagem: Susan Graef. Música: Tom Petty. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: William Barclay/Harriet Zucker. Produção executiva: Michael Nozik, Robert Redford. Produção: Edward Burns, Ted Hope, James Schamus. Elenco: Edward Burns, Jennifer Aniston, Mike McGlone, Cameron Diaz, John Mahoney, Maxine Bahns, Amanda Peet. Estreia: 23/8/96

Por mais que Woody Allen, com sua habitual modéstia, acredite que não influencia a obra de ninguém, é impossível assistir-se a "Nosso tipo de mulher", uma comédia romântica a respeito dos relacionamentos de nova-iorquinos um tanto neuróticos e sempre com uma frase sarcástica na ponta da língua. Excetuando-se os fatos de que os personagens criados por Edward Burns são católicos descendentes de irlandeses  e que não são exatamente sofisticados, existe muito de Allen em "Nosso tipo de mulher". Felizmente, coisas boas.

Segunda parte de uma espécie de trilogia do jovem ator/roteirista/diretor/produtor Edward Burns - iniciada com "Os irmãos McMullen" (1995) e finalizada com "No looking back" (1998) - o filme conta as aventuras amorosas de dois irmãos de personalidades opostas (uma espécie de "Razão e sensibilidade" masculino e moderno): o mais velho, Mickey (vivido pelo diretor) trabalha como taxista desde que flagrou a noiva transando com outro homem e, em uma de suas viagens, conhece e se apaixona por Hope (Maxine Bahns), uma garçonete que sonha morar em Paris mas que, no momento, mora em um apartamento caindo aos pedaços. Em um ato impulsivo, eles se casam no mesmo dia em que se conhecem, o que pega toda a família de surpresa. O pai machista (John Mahoney) acredita que ela deseja o green card (mesmo que ela seja americana), a mãe (que jamais aparece em cena) acha que a nora está grávida. Mas quem fica mais chocado com a notícia é seu irmão caçula, Francis (Mike McGlone). Executivo de Wall Street, ambicioso e certinho, ele vê o casamento de Mickey causar um alvoroço em sua própria vida amorosa: não apenas passa a ser cobrado pela esposa Renee (Jennifer Aniston) como ainda entra em crise com a amante, Heather (Cameron Diaz), que vem a ser justamente a ex-noiva de seu irmão.


A ciranda amorosa bolada por Burns propicia bons momentos de humor, em especial quando o roteiro dá oportunidade para que os três membros masculinos da família Fitzpatrick estejam juntos, normalmente se preparando para uma pescaria. As diferenças entre seus pontos de vista e a forma como elas empurram o filme em direção a um clímax não poderoso mas coerente e romântico fazem com que tudo soe verossímil e o elenco escalado ajuda muito nesse quesito. A estrela maior é Cameron Diaz, já entrando na melhor fase de sua carreira - que culminaria com "Quem vai ficar com Mary?" cerca de um ano depois - e não tendo muito trabalho em parecer bonita e sexy. Jennifer Aniston, dando seus primeiros passos reais no cinema, não foge muito dos trejeitos de sua Rachel Green da série "Friends", mas é tão agradável que dá pra perdoar facilmente. E Maxine Bahns, que interpreta Hope, a mulher que entra em cena para desestabilizar a harmonia familiar, era namorada do diretor na época das filmagens, o que talvez explique sua escalação, já que não é especialmente bonita nem uma grande e carismática atriz.

Mas não deixa de ser irônico que em um filme chamado "Nosso tipo de mulher" seja justamente os homens que se destaquem. A química entre Burns e Mike McGlone (que já haviam atuado juntos em "Os irmãos McMullen") é palpável, e a aquisição do ótimo John Mahoney para o time não poderia ter sido melhor. Mahoney é engraçado, sério e convincente em cada cena, dando verdade a todos os diálogos que lhe cabem e simplesmente roubando o filme para si - mesmo porque Burns, apesar de talentoso como roteirista e cineasta parece estar sempre com uma certa preguiça para atuar (estilo, talvez...)

No fim das contas, "Nosso tipo de mulher" é uma comédia romântica inofensiva como todas elas devem ser. É irônica, é engraçada e é extremamente agradável. Não muda a vida de ninguém, mas é um passatempo bastante honesto.