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Tuesday, October 25, 2011

KATE & LEOPOLD

KATE & LEOPOLD (Kate & Leopold, 2001, Miramax Films, 118min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Steven Rogers, história de Steven Rogers. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Brenner. Música: Rolfe Kent. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Kerry Orent, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Meg Ryan, Hugh Jackman, Liev Schreiber, Breckin Meyer, Natasha Lyonne, Bradley Whitford, Philip Bosco. Estreia: 25/12/01

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Until")

Filme ideal para aquelas mulheres que reclamam da falta de romantismo e galanteria dos homens contemporâneos, a comédia romântica "Kate & Leopold", protagonizada pela estrela máxima do gênero, Meg Ryan, é uma aula de como conquistar um público ávido por histórias de amor com finais felizes. Em pouco menos de duas horas de duração, o filme de James Mangold usa e abusa de clichês, mas o faz com tanto carinho, bom humor e leveza que é difícil deixar de gostar.

O cientista Stuart (vivido com graça pelo prestigiado Liev Schreiber) descobre um rasgo no tempo que o permite visitar a Nova York de 1876. Na apressada volta para 2001 ele acaba, por acidente, ganhando a companhia de Leopold (Hugh Jackman, perfeito), um duque falido que está sendo pressionado por seu tio a fazer um bom casamento. Em choque com as diferenças culturais e sociais de duas épocas completamente distintas, o gentil e cavalheiro Leopold acaba conquistado pela ex-namorada de Stuart, a executiva Kate McKay (Meg Ryan), que, desiludida com a espécie masculina em geral, demora a perceber que também está apaixonada pelo galante duque, que, de quebra, ajuda o irmão da moça, o aspirante a ator Charlie (Breckin Meyer) a mudar suas atitudes para seduzir uma colega.



O roteiro do diretor Mangold - exercitando um estilo diferente do dramalhão que apresentou em "Garota, interrompida" - escrito em parceria com Steven Rogers não tenta explicar como funciona as viagens no tempo que são cruciais para o início da trama, deixando que a bela e delicada história de amor entre os protagonistas comande o espetáculo. Ao optar por centrar seus esforços na dupla de atores, o cineasta marca um gol de placa. Enquanto Ryan continua utilizando seu arsenal de caras e bocas que a fizeram a preferida entre o público cativo das comédias românticas, é o astro Hugh Jackman quem rouba todas as cenas. Distante anos-luz de seu personagem mais conhecido, o furioso Wolverine de "X-Men", o ator australiano demonstra um timing cômico perfeito, além de ter o tipo físico ideal para encarnar o sedutor Leopold. Juntos, ele e Meg formam um casal adorável, o que torna a experiência de assistir a "Kate & Leopold" deliciosa.

E dá pra não simpatizar com um filme que homenageia, ainda que de leve, o clássico "Bonequinha de luxo"?

PS - Reparem na ponta da atriz Viola Davis (indicada ao Oscar de coadjuvante por "Dúvida") como a policial que aborda Leopold em seu primeiro passeio pelas ruas da Nova York de 2001.

Friday, June 17, 2011

MENSAGEM PARA VOCÊ

MENSAGEM PARA VOCÊ (You've got mail, 1998, Warner Bros,) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, peça teatral "Parfumerie", de Miklós László. Fotografia: John Lindley. Montagem: Richard Marks. Música: George Fenton. Figurino: Albert Wolsky.  Direção de arte/cenários: Dan Davis/Susan Bode, Ellen Christiansen. Produção executiva: G. Mac Brown, Julie Durk, Delia Ephron. Produção: Nora Ephron, Lauren Schuler Donner. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Greg Kinnear, Parker Posey, Steve Zahn, Dabney Coleman, Jean Stapleton. Estreia: 18/12/98

Levando-se em consideração o enorme sucesso de "Sintonia de amor", em que Tom Hanks e Meg Ryan foram dirigidos por Nora Ephron - e que rendeu mais de 220 milhões de dólares pelo mundo - até que demorou para que os três nomes voltassem a enfeitar o mesmo cartaz. Cinco anos separam "Sintonia" de "Mensagem para você", mais uma deliciosa comédia romântica comandada pela roteirista do já clássico "Harry & Sally, feitos um para o outro". Nesse meio-tempo, Hanks passou de comediante simpático a ator sério e respeitado - e dono de dois Oscar consecutivos - e Ryan tentou fugir da armadilha de tornar-se atriz de um papel único, chegando a ponto de encarar um filme de guerra - "Coragem sob fogo" - e um papel de alcóolatra - em "Quando um homem ama uma mulher". O que fica claro em "Mensagem para você" é que a química entre os dois não se alterou um mílimetro sequer: são eles, aliados ao texto sempre irônico e ágil de Ephron, que fazem do filme um programa sem contra-indicações.

Refilmagem livre e modernizada do clássico "A loja da esquina", que Ernst Lubitsch dirigiu em 1940 e onde James Stewart e Margaret Sullavan trocavam calorosas cartas amorosas enquanto se odiavam como colegas de trabalho, "Mensagem para você" mais uma vez usa o charme natural de Nova York como cenário de um romance capaz de afastar todo e qualquer cinismo e conquistar o público sem fazer esforço. Seguindo a receita vitoriosa de "Sintonia de amor", o filme de Ephron também se aproveita de uma deliciosa trilha sonora e da simpatia dos coadjuvantes: além de uma dupla central imbatível, desfilam pela tela Greg Kinnear, Parker Posey e Steve Zahn em atuações extremamente simpáticas e eficientes.


Kathleen Kelly (Meg Ryan adorável mas repetindo os trejeitos de sempre) é a brava dona de uma pequena livraria infantil localizada em uma zona valorizada de Nova York. Com um público fiel que conhecem o estabelecimento desde que era de sua mãe, a livraria chamada "A loja da esquina" começa a sofrer a concorrência desleal da filial de uma enorme cadeia de megastores de propriedade de Joe Fox (Tom Hanks). Furiosa com a possibilidade de ir à falência, Kathleen conta com o apoio do namorado, o jornalista Frank Navasky (Greg Kinnear) e dos funcionários, mas é somente pela Internet que ela realmente se sente à vontade para ser ela mesma. Assumindo o apelido de Shopgirl, ela se apaixona virtualmente por NY152, sem nem de longe desconfiar que ele é, na verdade, seu maior rival.

O roteiro de "Mensagem para você" se desenvolve sem maiores surpresas ao espectador, mas o faz de maneira tão honesta que fica difícil não compactuar com seu humor romântico e quase ingênuo. Juntos em cena, Meg Ryan e Tom Hanks são o perfeito exemplo de atores carismáticos e devidamente aproveitados. É principalmente devido a eles que a audiência acredita piamente que dois estranhos completos podem se apaixonar perdidamente através da Internet sem ao menos ver o rosto um do outro. E é lógico que, caminhar nas ruas arborizadas e coloridas de Manhattan e ao som de Cranberries, Sinnead O'Connor, Roy Orbison e Louis Armstrong não atrapalha em nada nessa missão.

Thursday, May 19, 2011

CIDADE DOS ANJOS

CIDADE DOS ANJOS (City of Angels, 1998, Warner Bros, 114min) Direção: Brad Silberling. Roteiro: Dana Stevens, roteiro original de Wim Wenders, Peter Handke, Richard Reitinger. Fotografia: John Seale. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Gabriel Yared. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Gretchen Rau. Produção executiva: Robert Cavallo, Arnon Milchan, Charles Newirth. Produção: Charles Roven, Dawn Steel. Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Andre Braugher, Dennis Franz, Colm Feore. Estreia: 10/4/98

Os fãs que me perdoem, mas "Asas do desejo", o cultuado filme do alemão Wim Wenders é um porre. Chato, arrastado, verborrágico e pretensioso, ele tornou-se uma espécie de unanimidade entre os "bem pensantes" do final da década de 80, mas no fundo, não passava de uma parábola com uma premissa interessante e uma fotografia bem cuidada (a não ser que se considere as elocubrações típicas do cineasta, cujo currículo passa bem longe do chamado cinema mainstream). Todas as questões filosóficas/metafísicas do filme foram louvadas ad nauseum pela mídia, fazendo dele um produto superestimado a ponto de ser eleito como um dos melhores da década. Por isso a gritaria generalizada na ocasião do lançamento de "Cidade dos anjos", uma espécie de refilmagem americana. Acusado de diluir a poesia do filme original, a obra de Brad Silberling - cujo trabalho mais famoso até então havia sido a versão em carne-e-osso de "Gasparzinho", com Christina Ricci - foi violentamente execrada pelos fãs de Wenders. Já aqueles que não se deixaram convencer pelos exageros estilísticos do alemão gostaram - e muito - da versão ianque da história. Com uma renda superior a 100 milhões de dólares no mercado doméstico, "Cidade dos anjos" tornou-se mais um sucesso romântico na carreira de sua protagonista, a namoradinha da América, Meg Ryan.

Quando lançado, em 1987, "Asas do desejo" comoveu as plateias "antenadas" com seus discursos verbais e estéticos sobre amor, liberdade e imortalidade justo em um momento crucial da história política e social da Europa: a queda do mundo de Berlim. Ao deixar de lado qualquer ressonância social, sua refilmagem americana concentra-se apenas na história de amor esboçada no terço final do original. E conquista justamente por ser simples e direta. O roteiro de Dana Stevens troca uma melancólica Berlim por uma ensolarada Los Angeles, onde anjos convivem harmoniosamente entre os seres, ajudando-lhes a superar seus problemas (mas sem nunca aparecerem). Um desses anjos é Seth (Nicolas Cage, canastrão como sempre), que busca as pessoas no momento de suas mortes. Em uma dessas tristes missões ele conhece a competente cirurgiã Maggie Rice (Meg Ryan em uma atuação superior a seus trabalhos anteriores) e se apaixona por ela, apesar de saber que jamais poderá consumar seu amor. No entanto, quando trava conhecimento com Nathaniel Messinger (Dennis Franz), um paciente de Maggie que consegue enxergá-lo, descobre que os anjos podem, sim, transformar-se em mortais. Enlouquecido de amor, Seth, contando com o apoio de seu melhor amigo, Cassiel (Andre Braugher), decide abandonar a imortalidade para ficar ao lado da mulher que ama.



Sim, "Cidade dos anjos" é piegas, triste, exageradamente romântico. E é, também, um belo filme, um perfeito exemplo de como transformar uma obra com objetivos pretensiosos em uma delicada história de amor que comove às lágrimas e ainda por cima dá margem a discussões (ainda que superficiais) sobre vida, morte e destino. É um produto tipicamente hollywoodiano, com tudo que isso tem de bom e de mau, mas que aproveita todo seu aparato técnico para uma narrativa enxuta e visualmente impressionante, mérito da fotografia inspirada de John Seale, oscarizado por "O paciente inglês". As cenas em que os anjos se reúnem aos crepúsculos são deslumbrantes, assim como a bela trilha sonora de Gabriel Yared, que conta com uma lindíssima canção de Alanis Morissette em seus créditos finais.

Os fãs de "Asas do desejo" tem razões mil para odiarem cada minuto de "Cidade dos anjos", que é, paradoxalmente, uma refilmagem que não utiliza quase nada de seu original, a não ser a ideia central. Mas em compensação, certamente as multidões que saíram aos prantos em seus momentos finais também não se tornarão especialmente adoradoras da obra de Wim Wenders, que continua sendo pedante e monótona.

Friday, March 4, 2011

CORAGEM SOB FOGO

CORAGEM SOB FOGO (Courage under fire, 1996, Fox 2000 Pictures, 117min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Steven Rosenlblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Rick Gentz. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Debra Martin Chase. Produção: John Davis, David T. Friendly, Joseph M. Singer. Elenco: Denzel Washington, Meg Ryan, Lou Diamond Phillips, Michael Moriarty, Matt Damon, Zeljko Ivanek, Sean Astin, Sean Patrick Thomas. Estreia: 12/7/96

O primeiro filme de um grande estúdio hollywoodiano a respeito do conflito do Iraque não foi uma obra exatamente do gênero que todos poderiam esperar. Ao contrário de um convencional filme de guerra, "Coragem sob fogo", dirigido pelo competente Edward Zwick, é um drama sobre pessoas, acima de qualquer outra coisa. Mesmo contando com algumas sequências que retratam com bastante fidelidade as batalhas travadas entre americanos e iraquianos, o cerne do roteiro de Patrick Sheane Duncan - autor do script de "Mr. Holland, adorável professor" - é a dificulade do Tenente Nat Serling (Denzel Washington) em lidar com uma tragédia ocorrida em combate ao mesmo tempo que investiga a verdade sobre a morte da primeira oficial norte-americana cotada para uma Medalha de Honra do exército.

Seguindo a estrutura do clássico "Rashomon", de Akira Kurosawa, "Coragem sob fogo" começa quando o Tenente Serling, por engano, vitima alguns colegas durante uma batalha no deserto. Extremamente abalado pelo trágico acontecimento, ele recebe a missão de apurar as circunstâncias da morte de Karen Walden (Meg Ryan), uma capitã que morreu depois de ter salvo a vida de soldados ameaçados pelos inimigos. Indicada para receber a maior homenagem do exército americano, ela torna-se objeto de uma dedicada investigação por parte do oficial em crise de consciência. Serling acaba se vendo diante de subordinados de Walden contando histórias diferentes da morte de sua líder: enquanto o jovem Ilario (Matt Damon, quase vinte quilos mais magro do que o normal) a considera uma mulher corajosa e heróica, o rebelde Monfriez (Lou Diamond Phillips, de "La Bamba") a vê como uma covarde que arriscou a vida de seu pelotão. Cabe a Sterling definir o que é verdade e o que não é.


"Coragem sob fogo" estreou nos EUA cercado de muita expectativa e um burburinho que o classificava como o primeiro filme do ano "com cara de Oscar". No entanto, fazendo um sucesso apenas relativo nas bilheterias, acabou sendo ignorado em todas as cerimônias importantes. Antes que seja taxado de injustiçado, porém, é preciso que se tenha a frieza de perceber que, apesar dos talentos envolvidos e do tema momentoso, é um filme que fica longe de ser tão empolgante quanto promete. Longe de ser ruim - tem qualidades gritantes, tanto técnica quanto artisticamente - também não consegue impressionar sua audiência, ao contrário do filme anterior do cineasta, o dramaticamente superior "Lendas da paixão".

Talvez o maior problema no roteiro de "Coragem sob fogo" seja a decisão de contar duas histórias simultaneamente. Provavelmente para não deixar que Denzel Washington fosse apenas um coadjuvante da trama bem mais interessante que cerca a morte de Karen Walden, inventaram para sua personagem uma tragédia inicial que pouco acrescenta ao resultado final. Já iniciando sua fase de ser mais Denzel Washington do que qualquer personagem, o oscarizado ator mesmo assim tem pouco a fazer, sendo eclipsado pelo elenco coadjuvante. Se Matt Damon pouco foi percebido pela crítica por seu belo trabalho - mas não por Francis Ford Coppola, que o escalou para "O homem que fazia chover" - toda a mídia não se furtou a tecer loas encantadas com a atuação de Lou Diamond Phillips, como o quase psicótico soldado Monfriez. Os elogios a Phillips não foram exagerados: sua interpretação é forte, com uma potência dramática que se avoluma a cada cena, até explodir em uma climática sequência que esclarece todas as dúvidas - tanto do Tenente Serling quanto da audiência.

Mas é inegável que o grande diferencial de "Coragem sob fogo" - além de ter inaugurado o filão de filmes sobre o Iraque - é a escalação de Meg Ryan para o papel crucial da Capitã Karen Walden. Conhecida do grande público por seus papéis de mocinha em comédias românticas como "Sintonia de amor", Ryan tentou uma guinada na carreira, na pele de uma complexa líder militar. Não apenas por ser uma soldada - com toda a preparação física que o papel exige - Karen Walden proporcionou a ela a chance de mostrar todas as nuances de seu trabalho. Nem sempre ela consegue, mas é bem sucedida ao fazer com que todos esqueçam que ela é a mesma atriz responsável pelo orgasmo falso mais conhecida da história do cinema, em "Harry & Sally, feitos um para o outro". Esforçada, ela não tem culpa se o roteiro não explora a contento todas as probabilidades que poderia.

Fotografado com maestria por Roger Deakins - um dos melhores profissionais em sua área - e editado com competência ímpar (além de utilizar os efeitos de som com inteligência), "Coragem sob fogo" é um filme que prende a atenção do espectador até seus momentos finais, podendo até mesmo surpreendê-lo com suas viradas. Não é um petardo como "O resgate do soldado Ryan", por exemplo, mas é um filme que reitera o talento de Edward Zwick em transitar entre diversos gêneros sem nunca perder a elegância.

Thursday, December 9, 2010

SINTONIA DE AMOR

SINTONIA DE AMOR (Sleepless in Seattle, 1993, TriStar Pictures, 105min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, David S. Ward, Jeff Arch, história de Jeff Arch. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Robert Reitano. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Clay Griffith. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Patrick Crowley, Delia Ephron, Lynda Obst. Produção: Gary Foster. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Rita Wilson, Victor Garber, Bill Pullman, Rosie O'Donnell, Carey Lowell, Ross Malinger, Gabby Hoffman, Rob Reiner, Frances Conroy, David Hyde Pierce. Estreia: 25/6/93

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção Original ("A wink and a smile")

Quando se sabe que Meg Ryan teve seu melhor papel em "Harry & Sally, feitos um para o outro", escrito por Nora Ephron e se assiste a sua atuação em "Sintonia de amor" - estreia da roteirista como cineasta - fica-se difícil imaginar outra atriz como protagonista. No entanto, antes que Ryan embarcasse no projeto, o papel da romântica jornalista Annie Reed foi oferecido a Julia Roberts, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer, Jodie Foster e Kim Basinger - que o recusou por considerar a premissa do roteiro ridícula e inverossímil. As sistemáticas recusas das atrizes citadas, no entanto, podem ser consideradas um golpe de sorte; com Ryan no principal papel feminino e Tom Hanks como seu par romântico, "Sintonia de amor" foi um dos mais surpreendentes sucessos de bilheteria de 1993 e encantou milhares de corações enamorados. A premissa pode, sim, ser um tanto inacreditável, mas isso não atrapalhou nem um pouco no grande êxito comercial e crítico de uma das comédias românticas mais simpáticas da história.

Embalado por uma trilha sonora irretocável composta por standards do cancioneiro romântico/popular americano - de "As time goes by" a "When I fall in love" - o filme de Nora Ephron mantém o tom irônico e bem-humorado de "Harry & Sally", mas não tem medo de ir fundo no romantismo, certamente inspirado no clássico "Tarde demais para esquecer", homenageado carinhosamente pelo roteiro - apesar de ser citado sempre pela parcela feminina do elenco enquanto é desprezado pelas personagens masculinas, o romance entre Cary Grant e Deborah Kerr é a maior influência de "Sintonia de amor" e foi redescoberto pelo público graças a ele.


Quando o filme começa, o arquiteto Sam Baldwin (Tom Hanks no auge da simpatia e em vias de ser muito levado a sério pela crítica) acaba de ficar viúvo e, entristecido com a perda, abandona Chicago e leva o filho pequeno, Jonah (o ótimo Ross Malinger) para Seattle, disposto a recomeçar a vida. Um ano e meio depois, preocupado com a solidão do pai, o menino telefona para um programa de rádio, em busca de uma namorada para ele. Apesar das centenas de cartas que lhe chegam, em resposta ao pedido, ele se interessa pela carta da jornalista Annie Reed (Meg Ryan), moradora de Baltimore - ou seja, do outro lado do país. Mesmo que recém tenha ficado noiva do dentista Walter (Bill Pullman), ela não reconhece nele alguém capaz de despertar-lhe uma paixão como a de seus pais, e, com a ajuda de sua editora, Becky (a divertida Rosie O'Donnell), tenta contato com o "Insone de Seattle" (o pseudônimo de Sam no programa de rádio). Desacreditando nas possibilidades de um encontro com Annie (por ao menos uma boa razão), Sam tenta seguir a vida, mas Jonah não parece capaz de desistir de reuní-lo à bela repórter.


"Sintonia de amor" é uma delícia. Engraçado, romântico e extremamente agradável, é um perfeito exemplo de como se fazer uma comédia romântica. A química entre Hanks e Ryan - previamente testada no fracassado "Joe contra o vulcão" - é invejável, principalmente se for levado em conta que dividem a cena por menos de cinco minutos no total. A expectativa que se cria em torno de seu encontro é pontuada com diálogos saborosos e personagens criados com carinho por um elenco coadjuvante afiado (que inclui o cineasta Rob Reiner, a esposa de Hanks, Rita Wilson e até mesmo Frances Conroy, que ficaria famosa pela série "A sete palmos" quase uma década depois). As diferenças culturais entre homens e mulheres é trabalhada com humor e não com um ranço sexista, e nem mesmo o fato de realmente a história ser meio capenga incomoda a plateia - vale lembrar que, à época do filme, a Internet ainda não era o que é hoje (mas a dupla Hanks/Ryan também faria um filme sobre isso, "Mensagem para você", novamente sob a direção de Nora Ephron).

Mesmo com tantas qualidades, o melhor de "Sintonia de amor" é mesmo seu clima absolutamente romântico. Desaconselhável para quem não é fã do gênero - uma vez que é sua quintessência - é um filme para aquecer os corações daqueles que acreditam que o grande amor de sua vida pode ser um completo desconhecido que mora há milhares de quilômetros. É deixar a razão de lado e mergulhar.

Tuesday, November 2, 2010

THE DOORS

THE DOORS (The Doors, 1991, Carolco Pictures, 140min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, J. Randal Johnson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Nicholas Clainos, Brian Grazer, Mario Kassar. Produção: Bill Graham, Sasha Harari, A. Kitman Ho. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan, Debi Mazar, Mimi Rogers, Crispin Glover. Estreia: 23/02/91

Só mesmo um cineasta como Oliver Stone conseguiria realizar um filme como "The Doors". Ainda cheio de moral devido ao sucesso de seus filmes sobre a guerra do Vietnã, Stone conseguiu convencer os produtores a bancarem um projeto de quase 40 milhões de dólares sobre um roqueiro polêmico, sem um grande astro como chamariz de bilheteria e, pior ainda, com grandes possibilidades de desagradar os fãs e os familiares do protagonista. Quando finalmente o filme estreou, no início de 1991, algumas das previsões se mostraram corretas: o filme não pagou seu custo dentro dos EUA, a família de Pamela Courson (namorada da personagem principal) não gostou do resultado final (assim como Ray Manzarek, integrante do grupo) e a crítica se dividiu perante a visão do diretor sobre Jim Morrison e sua banda. Apenas um  fator foi quase unanimidade entre crítica, público e fãs ocasionais: o trabalho meticuloso de Val Kilmer como Morrison.

Na pele de Jim Morrison - o vocalista, líder e sex-symbol da banda de rock "The Doors", que morreu de ataque cardíaco aos 27 anos em 1971 - Kilmer apresenta a atuação de sua vida. Dedicado ao extremo ao papel, a ponto de viver como Morrison por quase um ano antes mesmo do início das filmagens, o ator de coisas tão díspares quanto "Top Secret" (1984) e "Willow, na terra da magia" (1988) praticamente metamorfoseou-se no cantor. O jeito de andar, de falar, de dançar e de se movimentar de Morrison está todo na interpretação de Kilmer. O problema maior de tudo é que, para os não-fãs da banda em particular, em dado momento, todo esse perfeccionismo acaba tornando-se um pouco chato por um motivo bastante simples: Jim Morrison não era uma pessoa exatamente agradável - ao menos é o que depreende-se do filme de Stone - e àqueles para quem os Doors não representam nada mais do que um grupo de rock como os outros as mais de duas horas de projeção beiram uma tortura.

Tudo começa quando Morrison ainda é uma criança e testemunha um acidente de carro que vitima um grupo indígena. Não seria importante se anos depois, já famoso como líder da banda "The Doors" - assim batizada em homenagem a Adouls Huxley e suas "Portas da percepção" - ele não assumisse, vez ou outra, um espírito xamânico (ou seja, entrava em um transe que lhe permitia ter contato com a natureza, seres de outras dimensões, etc e tal). Apresentado a esse mundo pela jornalista Patricia Kennealy (Kathleen Quinlan), de quem torna-se amante, Morrison o utiliza em sua arte. Ex-estudante de Cinema na Universidade da Califórnia, ele une-se a Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon) para formar sua própria banda de rock. Porém, conforme o sucesso do grupo vai aumentando, o total desprezo de seu líder pelo convencional e pelo pré-determinado começa a minar a união entre eles. Alcóolatra, drogado, mulherengo e com tendências auto-destrutivas, Morrison escandaliza a sociedade americana dos anos 60, mesmo estando ela em plena efervescência cultural pré-Woodstock, inclusive sendo preso durante um show, acusado de comportamento obsceno.


A forma com que Oliver Stone conduz sua homenagem a um grupo que idolatra é bastante coerente com a própria obra da banda. O visual imposto por Stone e seu diretor de fotografia Robert Richardson é perfeito no que se propõe, dando a nítida impressão do psicodelismo e da distância da realidade com que Morrison vivia sua trajetória errática. Apesar de cansar em alguns pontos - e até diminuir o impacto de algumas cenas, como a que Jim quase mata a namorada Pam (Meg Ryan) queimada - a forma encontrada pelo diretor de traduzir em imagens distorcidas a mente de seu protagonista não deixa de ser criativa e admirável - ainda que ele tenha alcançado resultado melhor em "Assassinos por natureza" (1994). E ao dar importância suprema a Val Kilmer e seu show particular, Stone relega a segundo plano algumas atuações que mereciam um pouco mais de atenção.


Meg Ryan, por exemplo, é pouco lembrada por seu trabalho como Pamela Courson, a namorada de longo prazo e muitas aventuras de Jim Morrison. Quando fez "Em carne viva", em 2003, a imprensa logo fez questão de destacar sua nudez e sua coragem em romper com a imagem de "namoradinha da América" que havia construído em suas comédias românticas. No entanto, em "The Doors", ela já demonstrava que é capaz de bem mais do que fazer caras e bocas ao lado de Tom Hanks. Não é uma atuação sensacional, mas que prova que o brilho intenso de Kilmer no filme fez sombra a todas as qualidades do filme.

E "The Doors" tem inúmeras delas. Desde a parte técnica impecável (a edição caprichada já é marca registrada de Stone) até a trilha sonora apropriada (Doors do início ao fim, sempre com a música certa na hora certa) tudo no filme funciona para os aficcionados da banda, que não se cansam de assistí-lo. No entanto, para quem não nutre o mesmo entuasiasmo por Morrison e seus companheiros, é apenas um filme bem realizado, apaixonado e criativo, que parece longo demais.

Monday, September 27, 2010

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry met Sally, 1989, Castle Rock Entertainment, 96min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Nora Ephron. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Jane Musky/George R.Nelson, Sabrina Wright-Basile. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Rob Reiner, Andrew Schneiman. Elenco? Billy Cristal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby. Estreia: 21/7/89

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Não há dúvida de que "Harry e Sally, feitos um para o outro" deve muito a Woody Allen. Por mais que em sua essência o filme de Rob Reiner seja milhares de vezes mais romântico do que qualquer trabalho do veterano diretor nova-iorquino - com a possível exceção do doce "Manhattan" -, suas semelhanças são tão óbvias que só resta ao espectador - mesmo os detratores do cineasta - sorrir frente a essa carinhosa e bem-sucedida homenagem.

Escrito por Nora Ephron - que mais tarde seria a diretora de outras duas comédias românticas estreladas por Meg Ryan, "Sintonia de amor" e "Mensagem para você" - o roteiro de "Harry e Sally" é um perfeito equilíbrio entre uma engraçadíssima comédia de costumes (sociais, sentimentais) e uma doce (mas nunca piegas) história de amor. É um exemplo mais que perfeito de filme destinado a tornar-se clássico e atemporal, principalmente devido a seus diálogos luminosos, seus insights inspirados e à perfeita escalação da dupla central de atores. Em nenhum outro momento de suas carreiras, Meg Ryan e Billy Cristal foram tão felizes quanto aqui. Mais do que qualquer outra coisa, eles são, na memória do público, para sempre, Sally Albright e Harry Burns.

Sally Albright é uma jovem bonita, inteligente e com séria tendência a ser controladora - a ponto de fazer pedidos em restaurantes de forma extremamente detalhista. Harry Burns é um homem também inteligente, mas dado a crises de melancolia e pessimismo - a ponto de ler sempre a última página de um livro logo que o compra, para o caso de morrer antes de chegar ao seu final. Eles se conhecem em 1977, quando viajam no mesmo carro de Chicago a Nova York, para onde estão se mudando. Durante a viagem nenhum deles fica com a melhor das impressões do outro e se despedem sem maiores dramas. Cinco anos depois, já formada em jornalismo a namorada de um assessor político, Sally encontra Harry - de casamento marcado - em uma viagem de avião e novamente eles não se sentem particularmente tristes quando chegam a seu destino. É somente alguns anos depois que eles se reencontram e - contrariando a máxima de Harry que diz que homens e mulheres não podem ser amigos sem que haja sexo no meio - iniciam uma promissora amizade. Apoiando um ao outro em suas relações equivocadas, dividindo noites solitárias e sem querer promovendo casais, eles são os últimos a perceber que estão se apaixonando aos poucos.

Fotografada com uma beleza de tirar o fôlego em uma Nova York iluminada e cercada por uma trilha sonora repleta de standars do jazz cantadas por Harry Connick Jr., a história de amor entre Harry e Sally é contada com bom humor, leveza e as pitadas de sarcasmo e ironia de que a mente aguçada de Nora Ephron é capaz. Ao criar uma Sally bastante calcada em sua própria personalidade - reza a lenda que uma aeromoça perguntou-lhe se ela havia assistido ao filme quando ela começou a detalhar a maneira como queria seu prato durante um vôo - Ephron criou uma personagem cativante, simpaticamente irritante e dotada de uma voz própria, lindamente interpretada por Meg Ryan no auge de seu carisma e beleza. E Harry, do alto de sua auto-suficiência de macho, também é capaz de verter lágrimas pelo amor de uma mulher, o que o aproxima eficazmente do coração da plateia - seja ela masculina ou feminina. A química entre os quatro - personagens e atores - é de ouro, e são esses detalhes - roteiro esperto e um elenco impecável - que fazem com que "Harry e Sally" seja o modelo para todas as comédias românticas feitas desde então.

Dono de pelo menos uma cena antológica - a do falso orgasmo de Sally em um restaurante lotado - e repleto de diálogos que soam como música, "Harry e Sally" é provavelmente a melhor comédia romântica da história.