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Tuesday, April 26, 2011

MELHOR É IMPOSSÍVEL


MELHOR É IMPOSSÍVEL (As good as it gets, 1997, TriStar Pictures/Gracie Films, 139min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, Mark Andrus, história de Mark Andrus. Fotografia: John Bailey. Montagem: Richard Marks. Música: Hans Zimmer. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Bill Brzeski/Clay A. Griffith. Produção executiva: Laura Ziskin, Laurence Mark, Richard Sakai. Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson. Kristi Zea. Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Shirley Knight, Harold Ramis, Timothy Olyphant, Jamie Kennedy. Estreia: 25/12/97

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt), Ator Coadjuvante (Greg Kinnear), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz (Helen Hunt)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Jack Nicholson), Atriz/Comédia ou Musical (Helen Hunt)

Em 1983, o cineasta James L. Brooks fez a festa na cerimônia do Oscar com "Laços de ternura", um misto de comédia de costumes com melodrama familiar que arrancou elogios da crítica e lágrimas do público. Em 1988, ele falhou em conseguir um bicampeonato com "Nos bastidores da notícia", uma comédia romântica ácida que criticava a falta de ética nos telejornais. Levou quase uma década - período em que criou a mega bem-sucedida série de TV "Os Simpsons" - até que Brooks voltasse a ver um filho seu na disputa pela estatueta mais cobiçada de Hollywood. E quando isso aconteceu, não poderia ter sido de melhor forma. "Melhor é impossível" é um filme adorável, que mais uma vez mostra o dom de seu diretor/roteirista/produtor em equilibrar drama e comédia em histórias humanas com personagens extremamente próximas da realidade. Indicado a 6 Oscar - incluindo Melhor Filme mas não Melhor Diretor - o ... longa de Brooks bateu de frente com "Titanic", mas ainda assim seus intérpretes não podem se queixar da recepção que tiveram junto aos membros da Academia. Tanto Jack Nicholson quanto Helen Hunt, seus protagonistas, foram (merecidamente) oscarizados.

"Melhor é impossível" segue o estilo elegante e simples de Brooks, que faz rir de situações cotidianas sem forçar gargalhadas e cria personagens que falam ao público de maneira simples. Os diálogos inteligentes/engraçados/dramáticos nunca soam como diálogos de filme e sim como conversas de gente normal. As personagens parecem pessoas comuns (ainda que entre elas encontre-se um escritor famoso e um artista plástico gay). E as situações, mesmo que pareçam um tanto forçadas, funcionam perfeitamente a seus objetivos dramáticos.

 

Melvin Udall (Jack Nicholson em mais um papel antológico de sua carreira) é um escritor bem-sucedido profissionalmente mas com sérios problemas em relação à convivência com outros seres humanos. Sofrendo de transtorno obsessivo-compulsivo, ele vive recluso em seu apartamento luxuoso, vivendo em constante conflito com os vizinhos, em especial Simon (Greg Kinnear, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), artista plástico homossexual por quem ele nutre uma antipatia gratuita. Dono de rígidas regras de comportamento, Melvin lava as mãos com água fervendo, pula as rachaduras das ruas de Nova York e tranca a porta de casa dezenas de vezes antes de dar-se por satisfeito e leva sua vida confortavelmente. Sua rotina necessária é quebrada quando, ao frequentar o mesmo restaurante de sempre e sentar-se à mesma mesa de sempre, ele descobre que sua garçonete preferida, a doce Carol (Helen Hunt) faltou ao trabalho para cuidar do filho pequeno, portador de uma doença crônica. Para não perder seu hábito adquirido, Melvin resolve pagar o tratamento da criança e se descobre apaixonado por Carol, uma mulher batalhadora que esconde sua carência e seu romantismo por trás de uma máscara de força e estoicismo. Depois que Simon é violentamente espancado por um grupo de drogados, Carol convence Melvin a viajar com ele até a casa de sua família e um real relacionamento de amizade e carinho surge entre eles, aproximando-o da mulher que ama.

Ainda que a trama acene com a possibilidade de um forte melodrama ou situações forçadas por um roteiro necessitado de emoções, "Melhor é impossível" paira acima dos clichês por uma razão muito simples: tem um diálogo direto com o espectador, não tenta falar bonito nem busca complexidades psicológicas. A doença de Melvin - que tornou-se bem mais conhecida após o filme - é apenas um elemento a mais na trama, não ocupando mais espaço do que o necessário (assim como os problemas de saúde do filho de Carol e das relações familiares de Simon). O que interessa a Brooks é a interrelação entre as personagens, como suas vidas podem ser transformadas quando em contato com outras. E nisso o roteiro é pródigo, ainda que muitos considerem um tanto "simples demais". Na verdade, essa simplicidade é que faz dele tão especial. O público se identifica com as personagens e é aí que reside seu charme maior. E ter um elenco como o escalado pelo diretor ajuda bastante.
 
Em mais uma prova de que segundas opções podem ser extremamente benéficas em termos hollywoodianos, o elenco de "Melhor é impossível" que encantou público e crítica poderia não ter feito o filme. Melvin Udall, que acabou tornando-se um dos papéis mais representativos da carreira de Jack Nicholson (que levou um terceiro e justo Oscar), foi oferecido inicialmente a John Travolta. Carol, que elevou o status de Helen Hunt (em uma atuação delicada e sutil) de atriz de TV a estrela de cinema, poderia ter ido parar nas mãos de Holly Hunter ou (Deus nos proteja!) Courtney Love. E Simon, que fez de Greg Kinnear um ator respeitado depois de bombas com a refilmagem de "Sabrina", com Julia Ormond, quase esteve nas mãos de John Cusack, que saiu do projeto devido a seus compromissos com a comédia de humor negro "Matador em conflito". Juntos, os três apresentam uma química invejável, o que reitera a teoria de que certos filmes tem a hora certa de acontecer.

"Melhor é impossível" é um filme delicioso, sofisticado e que se pode assistir com prazer diversas vezes. Seu alto-astral e sua inteligência, aliados à inconfundível música de Hans Zimmer e a seu elenco impecável fazem dele um clássico dos anos 90. Poucas vezes um título soou tão adequado.

Monday, March 28, 2011

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (My best friend's wedding, 1997, TriStar Pictures, 105min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Ronald Bass. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Garth Craven, Lisa Fruchtman. Música: James Newton Howard. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/William Kemper Wright. Produção executiva: Gil Netter, Patricia Whitcher. Produção: Ronald Bass, Jerry Zucker. Elenco: Julia Roberts, Cameron Diaz, Dermot Mulroney, Rupert Everett, Rachel Griffiths, Philip Bosco, Paul Giamatti. Estreia: 20/6/97

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

O sucesso repentino não fez muito bem à Julia Roberts. Alçada da noite para o dia à condição de maior e mais bem paga estrela de Hollywood no início da década de 90, ela cometeu uma sucessão de escolhas profissionais equivocadas e tornou-se a matéria-prima preferida de tablóides sensacionalistas, graças principalmente ao fim de seu noivado com o ator Kiefer Sutherland e seu casamento-relâmpago com o cantor country Lyle Lovett. Tendo sua vida pessoal devassada pela imprensa marrom e seus trabalhos ignorados pelo público - e massacrados pela crítica - só restava a ela dar uma pausa para respirar antes de voltar à ribalta. O enorme sucesso de bilheteria de seu retorno, a comédia "O casamento do meu melhor amigo", a despeito das qualidades do filme, provou o que todos já sabiam: a plateia estava com muita saudade não da Julia Roberts triste de "Tudo por amor" e "O segredo de Mary Reilly", mas da carismática e sorridente estrela de "Uma linda mulher".

Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - que também comandou o tragicômico "O casamento de Muriel", de 1995 - o filme que devolveu a atriz às boas graças do público foge do tradicional modelo das comédias românticas ao não contar uma história de amor onde moça encontra rapaz, se apaixona por ele, come o pão que o diabo amassou e finalmente consegue viver a seu lado, feliz para sempre. Utilizando uma alta dose de sarcasmo, o roteiro de Ronald Bass - que tem um Oscar em casa pelo script de "Rain Man" - criou uma protagonista que, ao contrário do que se espera de uma mocinha íntegra e passional, tem defeitos gritantes e, mais do que tudo, não mede esforços para atingir seus objetivos. Aqui, outra novidade: ela não quer apenas conquistar o homem que ama, mas sim roubá-lo da mulher com quem ele está prestes a se casar. Mezzo heroína/mezzo vilã, a personagem de Julia Roberts conquista exatamente por estar muito mais perto das espectadoras do que as sonhadoras moçoilas que são ícones de um dos gêneros mais queridos pelo público - e, paradoxalmente ou não - desprezados pela crítica.

Roberts, desprovida do glamour exagerado de "Uma linda mulher" mas ainda assim apresentando seu sorriso matador, vive Julianne Potter, uma respeitada crítica gastronômica que, às vésperas de completar 28 anos, recebe um telefonema inesperado de um ex-namorado e atual melhor amigo. O jornalista esportivo Michael O'Neal (Dermot Mulroney), por telefone, lhe comunica seu iminente casamento com a doce e milionária Kimberly Wallace (Cameron Diaz) e lhe pede que seja a dama-de-honra da noiva. Julianne, estupefacta, aceita o convite, mas seus planos são bem mais diabólicos do que simplesmente acompanhar a cerimônia de enlace entre o casal: sentindo-se no direito de reivindicar a promessa feita por Michael anos antes, de que se casaria com ela se ambos estivessem solteiros aos 28, a jovem resolve viajar para Chicago com a intenção de impedir o casamento. Descobrindo-se apaixonada por Michael (ou sentindo apenas o amargo gosto do orgulho ferido), ela arma inúmeras situações para separá-lo de Kimberly, que, inocente, nem desconfia que sua confiável nova amiga quer na verdade afastá-la do noivo que ama profundamente.

Apesar de ter em mãos uma personagem um tanto quanto malévola, Roberts dá humanidade e simpatia a ela, que desperta a compaixão e até mesmo a torcida da audiência, apesar do fato de não ser exatamente uma pessoa confiável. Talvez levado pela máxima que diz que "o amor justifica tudo", o público aceita as armações de Julianne sem rejeitá-la, no que o trabalho de Julia tem influência gigantesca. Ao fugir do maniqueísmo, a atriz encontra no texto inteligente de Bass o veículo ideal para desenvolver uma personagem que não é totalmente má nem completamente boa. Julianne Potter comete erros grotescos, mas também sofre as suas consequências, e seus planos, ainda que aparentemente infalíveis, sempre acabam sendo malogrados por um fato incontestável: apesar de adorá-la, Michael ama, na verdade, sua noiva e nem mesmo todas as armadilhas do mundo mudam isso. É essa certeza que o público tem, mas Julianne não, que faz toda a diferença. Antes de ser uma vilã, Potter é uma mulher equivocada e confusa e respeito de seus sentimentos.


E, se Julianne não sabe com certeza o que se passa dentro de seu coração, é seu grilo falante quem lhe dá todas as dicas - e de quebra, rouba absolutamente todas as cenas das quais participa. O inglês Rupert Everett dá um show particular de bom humor e carisma na pele de George Downes, o editor de Julianne que lhe serve de ombro amigo e que, nas melhores cenas do filme, vai até ela com a missão de fazê-la desistir de seus planos. Homossexual assumido - assim como sua personagem - Everett é o protagonista da já clássica sequência em que comanda um improvisado coral em um restaurante lotado em uma versão de "I say a little prayer". Sua química com Julia Roberts é tamanha que, após exibições-teste, os produtores resolveram lhe dar um espaço maior nas cenas finais - cortando, assim, a participação do ator John Corbett, que adiaria por alguns anos a relativa fama conquistada no filme "Casamento grego" e na série "Sex and the city" - cuja atriz central, Sarah Jessica Parker era a primeira escolha para liderar o filme de P.J. Hogan.

Hogan, aliás, merece boa parte dos créditos pelo sucesso de "O casamento do meu melhor amigo". Aparentemente fascinado pela cafonice intrínseca das cerimônias matrimonias - haja visto seu currículo que inclui o ótimo "O casamento de Muriel" - o australiano compartilha com o conterrâneo Baz Luhrmann o talento em selecionar uma trilha sonora impecável para seus projetos. Enquanto em seu primeiro filme ele usava e abusava de canções do grupo sueco ABBA, aqui ele varia o cardápio, comentando a ação com pérolas do compositor Burt Bacharach e iniciando a projeção com uma irônica sequência musical com a inacreditável "Wishing and hoping" dublada por uma ansiosa noiva. Esses primeiros minutos dão o tom exato do que virá pela frente: um filme agradável, divertido e que não se leva exatamente a sério. Ou seja, um programa perfeito para marcar o retorno de Julia aos holofotes sem que tenha sido para falar de sua vida particular.

"O casamento do meu melhor amigo" não é, e nem tenta ser, um filme para ser louvado pela crítica especializada ou homenageado por cerimônias de premiação. Mas é um passatempo que não ofende a inteligência do público e que serviu como uma luva para que a estrela de Julia Roberts voltasse a brilhar, dessa vez em definitivo.

Monday, March 21, 2011

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA (Jerry Maguire, 1996, TriStar Pictures, 139min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Joe Hutsching. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Stephen Lineweaver/Clay A. Griffith. Produção executiva: Bridget Johnson. Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark, Richard Sakai. Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renee Zelwegger, Kelly Preston, Bonnie Hunt, Regina King, Jonathan Lipnicki, Beau Bridges, Jay Mohr, Jerry O'Connell, Todd Louiso. Estreia: 13/12/96

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Tom Cruise), Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Cruise)
Vencedor do Screen Actors Guild Award de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)

Estivesse Frank Capra vivo e em atividade em 1996 certamente ele assinaria com prazer a comédia romântica "Jerry Maguire, a grande virada". Repleto do otimismo e do humanismo que eram suas marcas registradas, o filme escrito e dirigido por Cameron Crowe nadou contra a corrente dos filmes encharcados de cinismo da década de 90 ao contar uma história de amor e redenção com um protagonista que caberia facilmente no currículo de James Stewart. Não à toa, Tom Hanks - a encarnação atual do ator preferido de Capra - foi cotado para o papel de Maguire, um agente esportivo que, depois de uma crise de consciência, toma contato com uma nova forma de enxergar a vida e os relacionamentos. Quinto filme consecutivo de Tom Cruise a ultrapassar a marca de cem milhões de dólares de arrecadação, provou, além disso, que o galã preferido da época também sabia atuar longe dos filmes de guerra e dos dramas de tribunal: o então ainda marido de Nicole Kidman arrebatou sua segunda indicação ao Oscar.


O Jerry Maguire do título é um bem-sucedido agente de esportistas, que mede seu sucesso pelo número de telefonemas que atende diariamente e pelos contratos milionários que assina para seus clientes. Um belo dia, sentindo-se culpado e ganancioso, ele escreve uma declaração de metas onde sugere que todos os seus colegas (ele inclusive) passem a dedicar-se a menos clientes, dando-lhes a devida atenção. Aplaudido pela frente e criticado pelas costas (afinal sua ideia significa menos dinheiro à empresa onde trabalha), ele é demitido por Bob Sugar (Jay Mohr), que o tinha como mentor. Não se deixando desesperançar, ele conta com a ajuda da contadora Dorothy Boyd (René Zelwegger) para recomeçar do zero, Mãe solteira e apaixonada por Jerry, Dorothy entra de cabeça na nova agência do rapaz, que conta com apenas um cliente, o falastrão e encrenqueiro Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.), que tem talento tanto para jogar futebol quanto para reclamar de seus péssimos contratos.


"Jerry Maguire" é delicioso. Tem um roteiro impecável, recheado de diálogos brilhantes por sua simplicidade e verdade. Tem uma trilha sonora agradável que inclui Paul McCartney, Tom Petty e Bruce Springsteen - cuja belíssima "Secret garden" embala o romance central de maneira comovente. E conta com um elenco que, apesar de não ser formado de primeiras escolhas, não só dá conta do recado como conquista a audiência desde seus primeiros momentos. Para o papel título, nomes como os de Tom Hanks e John Travolta foram sondados. Para interpretar Rod Tidwell foi testado Jamie Foxx. Para o papel de Avery, a ambiciosa noiva do protagonista (vivida por Kelly Preston) foram pensadas Diane Lane, Jennifer Connely e Meg Ryan. E para o papel da romântica Dorothy Boyd, o diretor Cameron Crowe considerou atrizes que iam de Winona Ryder e Mira Sorvino a Janeane Garofalo a Courtney Love. Sorte da texana Rene Zelwegger, que não apenas conquistou o papel mas também o coração da audiência, com uma atuação doce e engraçada.


A química entre Cruise e Zelwegger, aliás, é outro ponto alto do filme. Dificilmente a história de amor entre Jerry e Dorothy emocionaria tanto o público se outros atores estivessem em seus lugares. Se Cruise até exagera em certos momentos - não a ponto de incomodar, mas o suficiente para ser notado - a quase novata Zelwegger está absolutamente impecável com sua estóica contadora: suas cenas com Bonnie Hunt (como sua irmã Laurel) e com o pequeno Jonathan Lipnicki (na pele do encantador Ray) são dotadas de uma veracidade delicada e tocante. Transitando entre o dramático e o cômico com segurança ímpar, a futura Bridget Jones apresenta uma das melhores interpretações de sua carreira. Merecia muito mais o Oscar de coadjuvante feminina do que Cuba Gooding Jr. merecia o de masculino. Gooding Jr. - que saiu vitorioso no ano em que Edward Norton causou impacto com sua estreia em "As duas faces de um crime" - tem uma atuação histérica e bastante irritante, que destoa da sutileza do restante do elenco. E é de se imaginar como seria se Billy Wilder (ele mesmo, o diretor de "Quanto mais quente melhor") tivesse aceito interpretar o mentor de Maguire, cujas inserções durante o filme dão o tom e a "moral" da história.


Em última análise, "Jerry Maguire" é uma pequena obra-prima de seu gênero. Romântico sem ser bobo, engraçado sem ser pateta e com uma certa dose de ingenuidade e otimismo que sempre faz bem ao coração, é também o filme que revelou Rene Zelwegger ao grande público. Imperdível para quem ainda acredita no ser humano!

Wednesday, January 26, 2011

LENDAS DA PAIXÃO

 

LENDAS DA PAIXÃO (Legends of the fall, 1994, TriStar Pictures, 133min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Susan Shilliday, William D. Wittliff, romance de Jim Harrison. Fotografia: John Toll. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Deborah Scott. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Dorree Cooper. Produção executiva: Patrick Crowley. Produção: Marshall Herskovitz, William D. Wittliff, Edward Zwick. Elenco: Brad Pitt, Anthony Hopkins, Aidan Quinn, Julia Ormond, Henry Thomas, Karina Lombard, Christina Pickles. Estreia: 16/12/94

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia


Se naqueles livros que ensinam como escrever roteiros para cinema existisse um capítulo chamado "Como transformar um livro de homem em uma telenovela para mulheres" provavelmente ele estaria ilustrado com uma foto enorme do filme "Lendas da paixão". Baseado em um romance do escritor Jim Harrison - famoso por criar personagens fortes e rudes, que lidam com as adversidades do mundo rural de forma estóica - o filme de Edward Zwick transformou a história da família Ludlow e suas tragédias em um dramalhão água-com-açúcar cujo principal objetivo parece ser elevar o então ascendente Brad Pitt a astro de primeira grandeza. A julgar pela bilheteria generosa, pelos baldes de lágrimas vertidos pela plateia e pelo sucesso do ator junto ao público feminino, a missão foi plenamente cumprida. Pena que o resultado final enterre o espírito do livro junto com todas as personagens que morrem no decorrer do filme.

"Lendas da paixão" começa no início da I Guerra Mundial, quando o jovem Samuel Ludlow (Henry Thomas, o menininho de "ET", crescido e mau-ator) retorna à fazenda onde vivem seu pai, o Coronel aposentado William Ludlow (Anthony Hopkins) e seus dois irmãos mais velhos, o correto e maduro Alfred (Aidan Quinn) e o selvagem e rebelde Tristan (Brad Pitt). Mesmo ciente das contrariedades do pai a respeito do conflito que começa a tomar o mundo, o rapaz decide alistar-se e partir para a guerra. Para proteger o caçula, tanto Alfred quanto Tristan juntam-se a ele, mas a união aparentemente inquebrantável dos três irmãos sofre um abalo quando Alfred se apaixona por Susanna (Julia Ormond), a noiva de Samuel, que, por sua vez, não resiste aos encantos do indomável Tristan. Quando uma tragédia no campo de batalha muda drasticamente as relações entre Tristan e Alfred, a família inteira se vê envolvida em uma história de amor, lealdade e traição.


É inegável o cuidado da produção: a fotografia deslumbrante de John Toll - premiada com o Oscar - dá o tom exato entre o clima claustrofóbico da guerra e a vastidão das montanhas de Nevada (filmadas no Canadá). A imponente música de James Horner comenta a ação de maneira eficientíssima e a reconstituição de época é discreta e eficaz (não à toa também concorreu ao prêmio da Academia). Mas não dá para ignorar o fato de que Zwick, ao invés de privilegiar a interrelação entre os irmãos preferiu dar vazão ao romance entre Tristan e Susanna. Enquanto Pitt faz pouco mais do que deixar a longa cabeleira ao vento para seduzir a mulherada a péssima Julia Ormond tenta convencer a audiência de que uma mulher tão sem graça e sem carisma possa ter conquistado todos os homens da família Ludlow. Esse defeito é a maior pedra no sapato de "Lendas da paixão" e a que mais atrapalha em suas intenções de ser um trabalho inesquecível.

Projetado como veículo para Sean Connery e Tom Cruise - ou seja, poderia ser muito pior - "Lendas da paixão" é um filme que emociona e enche os olhos. Apesar de Anthony Hopkins estar no pior momento de sua carreira, o elenco conta com o ótimo Aidan Quinn, que tenta dar dignidade e consistência a uma personagem relegada a um melancólico segundo plano - ainda que seja responsável por algumas das mais comoventes cenas do filme. É um dramalhão realizado com tudo de melhor que Hollywood pode oferecer, mas que prefere o caminho mais fácil para atingir seu público. É bonito, mas poderia ter sido inesquecível!

Sunday, January 23, 2011

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY


FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (Mary Shelley's Frankenstein, 1994, TriStar Pictures, 123min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Frank Darabont, Steph Lady, romance de Mary Shelley. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Patrick Doyle. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Martin Childs. Produção executiva: Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart, John Veitch. Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Aidan Quinn, Tom Hulce, John Cleese, Hugh Bonneville, Richard Briers. Estreia: 04/11/94

Indicado ao Oscar de Maquiagem


Entusiasmado com o sucesso de bilheteria e crítica de "Drácula de Bram Stoker" - sua visão opulenta e operística de um clássico absoluto - o cineasta Francis Ford Coppola teve a ideia de reapresentar a um público carente de boas produções do gênero alguns outros "monstros" da literatura de terror. Antes de desistir de um filme sobre lobisomens (mesmo porque o tenebroso "Lobo", de Mike Nichols, matou qualquer interesse no assunto), o diretor de "O poderoso chefão" produziu,  através de sua Zoetrope, a versão mais intensa e fiel de um dos livros mais conhecidos do estilo. No entanto, dirigido pelo irlandês Kenneth Branagh (em alta depois de ser considerado um novo Laurence Olivier, graças a suas adaptações de obras de Shakespeare), "Frankenstein de Mary Shelley" não atingiu as altas expectativas em torno de si: fracassou nas bilheterias e não empolgou a crítica.

Assim como em "Drácula de Bram Stoker" o filme de Branagh começa com um prólogo que suas versões anteriores dispensaram: no final do século XVIII, o explorador Robert Walton (Aidan Quinn) tenta descobrir novas terras, ignorando os perigos que a aventura proporciona. Durante uma viagem, ele encontra Victor Frankenstein (Kenneth Branagh), que lhe conta, sôfrego e apavorado, sua trágica história de desafio à ordem natural das coisas. Órfão de mãe desde a infância, ele sempre tentou encontrar uma maneira de reverter o processo da morte. Durante seu curso de Medicina - e depois de testemunhar a cruel morte de um mestre - ele finalmente tem a oportunidade que esperava: utilizando anotações de um professor, ele dá vida a uma criatura juntando partes de diversos corpos. Depois de rejeitá-la por considerá-la um erro, ele tenta continuar com sua vida normal ao lado da amada Elizabeth (Helena Bonham-Carter), mas o monstro criado por ele (Robert DeNiro) resolve vingar-se da rejeição da única maneira que conhece: com violência.

A história criada por Mary Shelley em uma única noite (segundo reza a lenda) tem inúmeras ressonâncias filosóficas e éticas que o roteiro de Steph Lady e Frank Darabont - este último diretor do ótimo "Um sonho de liberdade" - tenta manter, sem muito sucesso. O belo visual impresso pela fotografia imponente de Roger Pratt impressiona, mas a direção de Branagh esbarra em um erro crasso: a falta absoluta de sutileza. Não há espaço, nessa versão quase histérica, para momentos de silêncios ou discrição. Do início ao fim do filme, por exemplo, o ator Branagh surge em cena gritando, correndo e suando, enquanto seus colegas de elenco apenas tentam seguir seu ritmo acelerado (e não ágil, entenda-se). Helena Bonham-Carter, uma excelente atriz, pouco tem a fazer com sua Elizabeth, que nunca passa de uma expectadora passiva dos trágicos acontecimentos que ocorrem à sua volta até que torna-se vítima da ambição do amado. E Robert DeNiro, cujo currículo dispensa qualquer tipo de comentário, está no pior momento de sua carreira, restrito a caras e bocas exageradas que nem mesmo a maquiagem asquerosa (que concorreu merecidamente ao Oscar) consegue salvar.


Mas, então, o que "Frankenstein de Mary Shelley" tem de bom, que justifique uma sessão? Longe de ser uma porcaria, o filme de Branagh (diretor do interessante "Voltar a morrer" e da genial adaptação de "Hamlet" feita logo em seguida) não é uma obra-prima como "Drácula de Bram Stoker" mas está longe de ser de todo ruim. Como já foi dito, o visual é arrebatador, desde a fotografia sombria até a direção de arte caprichada e a trilha sonora de Patrick Doyle é sensível o suficiente para amenizar algumas sequências mais pesadas. E a história de Shelley por si mesma já é boa o bastante para prender a atenção, sem contar em algumas ideias muito interessantes do cineasta - a criação do monstro, por exemplo, apresenta uma espécie de útero em tamanho descomunal, com direito a líquido amniótico e tudo. Porém, a concepção do filme é melhor do que seu resultado final, conforme o próprio Coppola admitiu, retirando-se da divulgação do produto.

No final de contas, "Frankenstein de Mary Shelley" vale a pena por seu visual barroco e por sua história atemporal e repleta de questionamentos. Mas sem dúvida poderia ter sido um filme bem melhor.

Friday, December 17, 2010

FILADÉLFIA

FILADÉLFIA (Philadelphia, 1993, TriStar Pictures, 125min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ron Nyswaner. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Ron Bozman, Gary Goetzman, Kenneth Utt. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Jason Robards, Mary Steenburgen, Antonio Banderas, Bradley Whitford, Joanne Woodward. Orçamento: U$ 26 milhões. Bilheteria doméstica: U$ 77.446.440. Estreia: 23/12/93


5 indicações ao Oscar: Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Canção Original ("Streets of Philadelphia", "Philadelphia"), Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")
Vencedor do Urso de Ouro de Melhor Ator (Tom Hanks) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")

Em 1993, Tom Hanks ainda não era levado muito a sério como ator dramático. Ser o primeiro nome nos créditos de filmes como "Quero ser grande" e "A última festa de solteiro" não lhe ajudavam muito nesse sentido - ainda que tenha sido indicado ao Oscar pelo primeiro. Suas tentativas de provar que seu talento iam além de provocar risadas não tinham obtido muito sucesso, como bem prova a equivocada versão cinematográfica de "A fogueira das vaidades", dirigido por Brian De Palma. Por essa razão não deixou de ser uma enorme surpresa para o público que ele tenha sido o ator mais premiado do ano por seu papel em "Filadélfia". Na pele de um advogado soropositivo que vai aos tribunais contra seus ex-empregadores, o simpático protagonista de "Sintonia de amor" e "Splash, uma sereia em minha vida" deu a virada definitiva em sua carreira, entrando pela porta da frente no rol dos atores respeitados pela crítica e por seus pares.

Levemente inspirado em uma história real, "Filadélfia" é dirigido por Jonathan Demme, cineasta que havia arrumado sérios problemas com a comunidade gay com seu filme anterior, o multi-premiado "O silêncio dos inocentes" - vale lembrar que o serial killer do filme tinha a frustração de não ter conseguido uma operação de mudança de sexo... Inconscientemente ou não, aqui ele tenta remediar a situação, elegendo como protagonista um homossexual bem-sucedido, inteligente e de boa formação familiar. Mesmo que tenha soado um tanto assépticas, as escolhas de Demme ao retratar o modo de vida gay serviu, ao menos, para aproximar das salas de cinema uma parcela do público que provavelmente jamais se interessaria por um assunto não exatamente festivo. Espertamente, o roteiro de Ron Nyswaner - indicado ao Oscar - une dois sub-gêneros de filmes bastante populares entre as audiências; um drama de tribunal junto com um filme sobre doenças terminais. Golpe de mestre para cativar o público e abocanhar prêmios. Sorte de todo mundo que Demme é um diretor talentoso, que foge do melodrama barato.

Andrew Beckett (Tom Hanks se saindo muito bem em um papel difícil e que poderia facilmente escorregar para o kitsch) é um advogado competente que, logo depois de tornar-se sócio da firma de direito em que trabalha, é demitido por alegada negligência em um caso importante. Julgando-se vítima de preconceito - por ser homossexual e portador de AIDS - ele procura um colega de profissão, Joe Miller (Denzel Washington) e lhe pede que o represente no tribunal contra seus antigos patrões. A princípio recusando a causa - por ser assumidamente ignorante em relação aos gays, quase um homofóbico - Miller acaba aceitando processar a tradicional firma.

"Filadélfia", a bem da verdade, não dispensa o uso de vários clichês que assolam os filmes de seus estilos - tanto um quanto o outro. No tribunal, o desenrolar do julgamento é tão interessante quanto as cenas que revelam o lado mais humano dos protagonistas - é quase impossível segurar as lágrimas durante a belíssima sequência ao som de "La Mamma Morta", ária interpretadapor Maria Callas. Não apenas a entrega de Hanks à cena é admirável mas também seu desfecho, onde pela primeira vez Joe Miller demonstra a fragilidade que sempre escondera. Aliás, é seguro dizer que "Filadélfia" apresenta o melhor trabalho da carreira de Washington, antes que ele se tornasse uma cópia de si mesmo. A cena em que ele tem seu primeiro contato com um Beckett doente é um primor de sutileza - bem como a demissão de Andrew, em que ele fica à distância de seus empregadores temerosos de um contágio. A agressividade silenciosa dessa cena dá o tom exato da elegância imposta por Demme a seu trabalho.

Motivos para críticas à visão dos produtores não faltam, em "Filadélfia": o parceiro de Andrew, Miguel (Antonio Banderas) poderia ser taxado de mais uma estereotipagem dos latinos nos EUA; a aceitação incondicional de sua família à sua opção sexual e a resiliência da mesma durante o julgamento soa um tanto cor-de-rosa; e a relação entre os dois amantes é praticamente desprovida de calor. Mas é preciso que se leve em consideração que "Filadélfia" é antes de tudo o produto de um grande estúdio (a TriStar) e, mais do que veracidade absoluta, buscava lucro e precisava atingir um grande público. E fazer com que milhares de pessoas voltasse sua atenção para um dos maiores problemas de saúde da história - ainda que uma década atrasada - já faz com que ele mereça ser admirado.

Thursday, December 9, 2010

SINTONIA DE AMOR

SINTONIA DE AMOR (Sleepless in Seattle, 1993, TriStar Pictures, 105min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, David S. Ward, Jeff Arch, história de Jeff Arch. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Robert Reitano. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Clay Griffith. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Patrick Crowley, Delia Ephron, Lynda Obst. Produção: Gary Foster. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Rita Wilson, Victor Garber, Bill Pullman, Rosie O'Donnell, Carey Lowell, Ross Malinger, Gabby Hoffman, Rob Reiner, Frances Conroy, David Hyde Pierce. Estreia: 25/6/93

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção Original ("A wink and a smile")

Quando se sabe que Meg Ryan teve seu melhor papel em "Harry & Sally, feitos um para o outro", escrito por Nora Ephron e se assiste a sua atuação em "Sintonia de amor" - estreia da roteirista como cineasta - fica-se difícil imaginar outra atriz como protagonista. No entanto, antes que Ryan embarcasse no projeto, o papel da romântica jornalista Annie Reed foi oferecido a Julia Roberts, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer, Jodie Foster e Kim Basinger - que o recusou por considerar a premissa do roteiro ridícula e inverossímil. As sistemáticas recusas das atrizes citadas, no entanto, podem ser consideradas um golpe de sorte; com Ryan no principal papel feminino e Tom Hanks como seu par romântico, "Sintonia de amor" foi um dos mais surpreendentes sucessos de bilheteria de 1993 e encantou milhares de corações enamorados. A premissa pode, sim, ser um tanto inacreditável, mas isso não atrapalhou nem um pouco no grande êxito comercial e crítico de uma das comédias românticas mais simpáticas da história.

Embalado por uma trilha sonora irretocável composta por standards do cancioneiro romântico/popular americano - de "As time goes by" a "When I fall in love" - o filme de Nora Ephron mantém o tom irônico e bem-humorado de "Harry & Sally", mas não tem medo de ir fundo no romantismo, certamente inspirado no clássico "Tarde demais para esquecer", homenageado carinhosamente pelo roteiro - apesar de ser citado sempre pela parcela feminina do elenco enquanto é desprezado pelas personagens masculinas, o romance entre Cary Grant e Deborah Kerr é a maior influência de "Sintonia de amor" e foi redescoberto pelo público graças a ele.


Quando o filme começa, o arquiteto Sam Baldwin (Tom Hanks no auge da simpatia e em vias de ser muito levado a sério pela crítica) acaba de ficar viúvo e, entristecido com a perda, abandona Chicago e leva o filho pequeno, Jonah (o ótimo Ross Malinger) para Seattle, disposto a recomeçar a vida. Um ano e meio depois, preocupado com a solidão do pai, o menino telefona para um programa de rádio, em busca de uma namorada para ele. Apesar das centenas de cartas que lhe chegam, em resposta ao pedido, ele se interessa pela carta da jornalista Annie Reed (Meg Ryan), moradora de Baltimore - ou seja, do outro lado do país. Mesmo que recém tenha ficado noiva do dentista Walter (Bill Pullman), ela não reconhece nele alguém capaz de despertar-lhe uma paixão como a de seus pais, e, com a ajuda de sua editora, Becky (a divertida Rosie O'Donnell), tenta contato com o "Insone de Seattle" (o pseudônimo de Sam no programa de rádio). Desacreditando nas possibilidades de um encontro com Annie (por ao menos uma boa razão), Sam tenta seguir a vida, mas Jonah não parece capaz de desistir de reuní-lo à bela repórter.


"Sintonia de amor" é uma delícia. Engraçado, romântico e extremamente agradável, é um perfeito exemplo de como se fazer uma comédia romântica. A química entre Hanks e Ryan - previamente testada no fracassado "Joe contra o vulcão" - é invejável, principalmente se for levado em conta que dividem a cena por menos de cinco minutos no total. A expectativa que se cria em torno de seu encontro é pontuada com diálogos saborosos e personagens criados com carinho por um elenco coadjuvante afiado (que inclui o cineasta Rob Reiner, a esposa de Hanks, Rita Wilson e até mesmo Frances Conroy, que ficaria famosa pela série "A sete palmos" quase uma década depois). As diferenças culturais entre homens e mulheres é trabalhada com humor e não com um ranço sexista, e nem mesmo o fato de realmente a história ser meio capenga incomoda a plateia - vale lembrar que, à época do filme, a Internet ainda não era o que é hoje (mas a dupla Hanks/Ryan também faria um filme sobre isso, "Mensagem para você", novamente sob a direção de Nora Ephron).

Mesmo com tantas qualidades, o melhor de "Sintonia de amor" é mesmo seu clima absolutamente romântico. Desaconselhável para quem não é fã do gênero - uma vez que é sua quintessência - é um filme para aquecer os corações daqueles que acreditam que o grande amor de sua vida pode ser um completo desconhecido que mora há milhares de quilômetros. É deixar a razão de lado e mergulhar.