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Tuesday, July 26, 2011

UM DOMINGO QUALQUER

UM DOMINGO QUALQUER (Any given sunday, 1999, Warner Bros, 150min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, John Logan, história de John Logan e Daniel Pyne. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Stuart Levy, Tom Nordberg, Keith Salmon, Stuart Waks. Música: Richard Horowitz, Paul Kelly. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Ron Reiss, Ford Wheeler. Produção executiva: Richard Donner, Oliver Stone. Produção: Dan Halstead, Lauren Shuler Donner, Clayton Towsend. Elenco: Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, Jamie Foxx, Anne-Margret, Charlton Heston, James Woods, LL Cool J, Matthew Modine, Lauren Holly, Aaron Eckhart. Estreia: 22/12/99

Oliver Stone pode ser considerado o mais americano dos cineastas. Basta dar uma olhada para trás em sua filmografia para constatar sua obsessão com temas intimamente ligados ao interesse de seu país natal. Filmes como “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” versavam sobre a guerra do Vietnã. “JFK” contava a conspiração que culminou na morte do presidente John Kennedy e “Assassinos por natureza” brincava com a fascinação pela violência – talvez seu filme com maior alcance universal. Em “Um domingo qualquer” mais uma vez Stone utiliza um tema tipicamente ianque – o futebol americano – para exibir sua técnica invejável, mesmo que para contar uma história sem maiores novidades.

Al Pacino (em mais uma de suas atuações nervosas) vive Tony D’Amato, o técnico do Miami Sharks, um time que anda em uma maré de derrotas consecutivas. Não bastasse os problemas em campo, como o acidente com o capitão do time (um surpreendente Dennis Quaid), ele ainda tem que enfrentar a pressão da dona do time, a ganaciosa Christina Pagliacci (Cameron Diaz canastra ao extremo), que precisa de uma vitória para acalmar seus investidores e a arrogância do novo astro do time, o talentoso mas arredio Will Beamean (Jamie Foxx, espetacular).



Ao situar sua trama em um terreno praticamente desconhecido do público não-americano, Stone acaba perdendo muito da identificação que talvez pudesse ambicionar com os demais espectadores. Apesar de muitas situações serem plenamente similares com outros esportes – e os personagens-clichês abundam, desde o médico mau-caráter vivido por James Woods à esposa ambiciosa do jogador afastado, interpretada por Lauren Holly – o filme ainda tem uma personalidade extremamente nacionalista que incomoda mais do que agrada. O inegável talento de Stone, no entanto, deixa tudo mais atraente ao consumidor normal. Tudo que o diretor se acostumou a entregar à platéia está em doses quase exageradas.

A fotografia realista de Salvatore Totino, a edição alucinada e o desenho de som acachapante fazem com que se tenha a impressão de estar no meio do gramado, junto com os jogadores. O ritmo, alucinante em alguns momentos e quase contemplativo em outros, pode deixar os mais sensíveis tontos - e Stone nem se importa em mostrar um jogador perdendo um olho durante um jogo ou esportistas cheirando cocaína e fazendo sexo com prostitutas em festas regadas à álcool e drogas. As metáforas estão por toda parte – a citação ao clássico “Ben-hur” chega ao requinte de contar com o próprio astro do filme, Charlton Heston, em participação especial – e o trabalho de Pacino, Foxx e Quaid equilibram como podem os exageros histriônicos de Cameron Diaz. O final chega perto do clichê, mas espertamente consegue fugir dele com classe e ironia.

“Um domingo qualquer” não é nem de longe o melhor trabalho de Oliver Stone mas tem qualidades suficientes para garantir o interesse por suas longas duas horas e meia. Basta ter um pouco de paciência.

Tuesday, February 22, 2011

NIXON

NIXON (Nixon, 1995, Cinergi Pictures/Hollywood Pictures, 192min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: John Williams. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Oliver Stone, Clayton Townsend, Andrew G. Vajna. Elenco: Anthony Hopkins, Joan Allen, Powers Boothe, Ed Harris, Bob Hoskins, E.G. Marshall, David Paymer, Paul Sorvino, Mary Steenburgen, David Hyde Pierce, J.T.Walsh, James Woods, Dan Hedaya, Saul Rubinek. Estreia: 20/12/95

4 indicações ao Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Original, Trilha Sonora Original

Oliver Stone tem a obsessão de dissecar a alma ianque através de seus ídolos ("The Doors"), seus traumas ("Platoon" e "Nascido em 4 de julho") e - a julgar pelo recente "W" e por "Nixon", lançado em 1995 - de seus líderes. Polêmico como sempre, o cineasta vencedor de dois Oscar de direção encontrou na história do mais controverso dos presidentes norte-americanos o material ideal para exercitar seus radicais pontos de vista. Apedrejado pelos puristas - que o acusaram de distorcer fatos históricos em prol de suas teorias - o filme tampouco encontrou seu público, não rendendo nem metade de seu orçamento e dividindo a crítica. Apesar disso - e da sua duração excessiva - é um importante e interessante documento sobre uma das figuras mais complexas da história dos EUA, que comandou seu país durante alguns de seus mais sombrios momentos.

O roteiro do filme, indicado ao Oscar por sua complexa estrutura - que apresenta acontecimentos verídicos mesclados com uma grande parcela de licenças poéticas - começa às vésperas da renúncia do presidente Richard Nixon (Anthony Hopkins), consequência direta do malfadado escândalo Watergate. Enquanto fica remoendo suas culpas e tentando encontrar uma maneira de sair intacto do processo de impeachment pelo qual está passando, Nixon passa em revista toda a sua vida, desde a infância pobre - e a perda precoce dos dois irmãos - até a reeleição para presidente da República, passando pelos inúmeros fracassos políticos e pelo relacionamento com seu porto seguro, a esposa Pat (Joan Allen). Extremamente talentoso como orador, Nixon sofria, no entanto, de uma rejeição grande por parte do eleitorado. Como diz um de seus assessores em determinado momento, "é de se imaginar o quão grande ele seria se as pessoas gostassem dele."

O retrato que Oliver Stone faz de seu biografado não é exatamente agradável, ainda que tente, em certas ocasiões, fugir da crítica explícita. O que provavelmente desagradou aos fãs do ex-presidente foi sua caracterização como um homem inseguro, egocêntrico e por vezes até mesmo covarde. Como um Narciso às avessas, Nixon, apesar de considerar-se (e ser) o homem mais poderoso do mundo jamais conseguiu desvencilhar-se do misto de admiração e inveja que sentia por John Kennedy. Em uma sintomática afirmação, ele declara a um quadro do mais querido líder da história americana: "Quando eles olham pra você, eles veem o que querem ser. Quando olham para mim, veem o que eles são." Na voz poderosa e na atuação inacreditável de Anthony Hopkins, essa talvez seja a frase que melhor define a personalidade dúbia do homem que, mesmo depois de ter sido praticamente escorraçado da Casa Branca, foi enterrado com pompas de grande estadista.


Usando e abusando de seu estilo próprio de contar uma história - estilo este que tem tantos fãs ardorosos quanto detratores aguerridos - Oliver Stone transforma "Nixon" em um exercício de paciência. São mais de três horas de duração que, ao contrário de "JFK", não passam voando. A trajetória de Nixon é tão repleta de acontecimentos importantes que fez-se necessário ao roteiro um número infindo de detalhes que, para quem não é especialista em história dos EUA (ou seja, a maioria esmagadora da audiência) soam como grego. Ao fugir do didatismo, Stone esbarra justamente nesse grande senão: são tantos nomes, tantas personagens e tantas datas que fica difícil ao público médio acompanhar tudo da maneira ideal. Enquanto o filme trata da vida pessoal do protagonista - em um belo preto-e-branco - não há maiores problemas, mas toda vez que o roteiro se concentra nas reuniões políticas entre o presidente e seus correligionários a coisa começa a ficar lenta demais, mesmo com a edição ágil e a trilha sonora impecável de John Williams ajudando o máximo possível. Dirigindo o filme como se fosse um suspense, Stone mais uma vez acerta na técnica, mas peca no excesso de informações.

Para sua sorte - e da plateia - novamente o cineasta escalou um elenco acima de qualquer crítica. Joan Allen foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu retrato de Pat Nixon, mesmo que, segundo pessoas próximas da real primeira-dama tenham discordado da forma com que o roteiro a tratou. Paul Sorvino - irreconhecível sob pesada maquiagem - vive com absurda propriedade Henry Kissinger e Bob Hoskins rouba a cena na pele do chefão do FBI J. Edgar Hoover. Mas nada é mais impressionante do que a interpretação extraordinária de Hopkins no papel-título. Mesmo sendo britânico - o que causou uma onda de protestos - Hopkins deixou pra trás americanos típicos para ficar com o papel central e não apenas conquistou elogios rasgados como também concorreu ao Oscar. Dificilmente Jack Nicholson, John Malkovich, Tom Hanks, Robin Williams e Warren Beatty, por melhores atores que sejam, seriam capazes da entrega que Hopkins apresenta em cena. As sequências em que, tal como uma trágica personagem shakespereana, o presidente sente-se traído, solitário e abandonado mostram um dos grandes atores do mundo em um de seus trabalhos mais ricos.

"Nixon" talvez não interesse à grande maioria do público, aquela que lota as salas de cinema em busca de divertimento. É um filme forte, realizado com um senso estético apurado e um tema relevante e controverso. Pode não dialogar o tempo todo com a verdade, mas até mesmo essa dubiedade combina com a personalidade que retrata.

Saturday, January 15, 2011

ASSASSINOS POR NATUREZA

ASSASSINOS POR NATUREZA (Natural born killers, 1994, Warner Bros/Regency Enterprises, 118min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, David S. Veloz, Richard Rutowski, história de Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: Brent Lewis. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Arnon Milchan, Don Murphy, Clayton Townsend. Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones, Tom Sizemore, Rodney Dangerfield, Arliss Howard, Balthazar Getty. Estreia: 26/8/94

Não existe nada parecido com "Assassinos por natureza". Vagamente baseado em uma história original de Quentin Tarantino, bastante modificada no roteiro final, a história de um casal de assassinos que torna-se fenômeno da mídia encontrou no polêmico Oliver Stone seu diretor ideal. Mesmo acostumado com controvérsias - afinal, ele tem "Nascido em 4 de julho" e "JFK" no currículo - Stone jamais poderia imaginar o verdadeiro escândalo que seu ... longa causaria junto à imprensa, à crítica e até mesmo à justiça. Eleito pela revista americana Premiere como "O Filme Mais Perigoso de Todos os Tempos", "Assassinos por natureza" chegou a colocar seu diretor no banco dos réus, acusado de incitar a violência e inspirar assassinatos. Mas, afinal de contas, é ou não um filme tão perigoso quanto pintam?

Sem dúvida, "Assassinos por natureza" é um filme diferente de tudo que foi visto no cinema comercial americano, e passados 16 anos de sua estreia, mantém sua extrema capacidade de surpreender, chocar e fazer pensar. Utilizando 18 formatos diferentes de filmagem e quase 3000 cortes - que tomaram 11 meses de trabalho dos editores Brian Berdan e Hank Corwin - a trajetória sanguinária de Mickey e Mallory Knox foge dos padrões convencionais de se contar uma história e, com isso, conseguiu tanto fãs inveterados quanto detratores tão violentos quanto seus protagonistas. O escritor John Grisham, por exemplo, comprou briga com Oliver Stone ao acusá-lo de ser o responsável indireto por uma tentativa de homicídio cuja vítima era seu amigo: o casal que atirou na vítima havia assistido ao filme depois de uma sessão de alucinógenos e, depois de matar uma pessoa, deixou outra presa em uma cadeira de rodas. Stone foi absolvido somente em 2002, mas o episódio apenas reitera o poder do filme junto a audiência. O fato de ter sido solenemente ignorado nas cerimônias de premiação do ano - apesar de muitas críticas entusiasmadas - é sintomático: mesmo no ano em que "Pulp fiction" (não exatamente um filme familiar) chegou perto de ganhar o Oscar, "Assassinos por natureza" foi rechaçado e julgado transgressor além da conta.  O que, de certa forma, não deixa de ser um elogio e tanto...

Narrado de forma não-convencional, "Assassinos por natureza" conta a história de Mickey e Mallory Knox, vividos com intensidade e com uma química explosiva por Woody Harrelson e Juliette Lewis. Depois de matarem os pais da jovem - que abusava sexualmente dela -, eles partem em uma viagem pelos EUA, cometendo assassinatos a esmo e tornando-se conhecidos da população graças principalmente a programas sensacionalistas de TV. Transformados em ídolos de uma parcela da audiência jovem e desiludida não apenas americana, mas mundial, eles acabam sendo presos pelo igualmente psicótico Jack Scagnetti (Tom Sizemore) - traumatizado pela morte violenta da mãe. Às vésperas de ser mandado para uma lobotomia, Mickey aceita dar uma entrevista exclusiva e ao vivo para o repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr., espetacular), a ser transmitida direto do presídio de segurança máxima onde está preso a um ano. Durante o programa, uma rebelião começa e, com a câmera na mão, Gale acompanha Mickey e Mallory em sua eletrizante fuga, mostrada ao vivo para o país inteiro.



Dividido claramente em duas partes, "Assassinos por natureza" tem ritmos distintos para cada uma delas, que se completam com maestria. Na primeira hora do filme, a audiência acompanha os fatos que levaram o casal à prisão, narrados de forma quase anárquica e psicodélica por Stone e seus editores - a profusão de cores, de sons e de efeitos que distorcem as imagens soam como a maneira com que os protagonistas vêem o mundo. A entrevista de Mickey com Wayne Gale é fotografada com claridade e cores vivas e a rebelião em um claustrofóbico preto-e-branco. É seguro dizer que, apesar de ter detestado o roteiro do filme, o premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" - realizou aqui um dos melhores e mais desafiadores trabalhos de sua carreira. Alternando-se entre formatos dos mais variados - até mesmo animação e super 8 - a fotografia é mais um dos pontos altos do filme, uma vez que a visão de Stone é muito particular, em especial a quase afirmar, através de imagens quase surreais, que Mickey e Mallory são na verdade anjos exterminadores em um mundo caótico - e o hipnotizante diálogo entre o assassino e seu entrevistador reitera essa posição.
E se a maneira sui generis de Oliver Stone enxergar seus protagonistas encontra excelência na fotografia e na edição, é impossível negar que sua criatividade atinge o ápice em algumas das geniais sequências criadas por seu roteiro delirante. A sofrida vida doméstica de Mallory antes de seu encontro com Mickey, por exemplo, é retratada em forma de um episódio de sitcom (com direito a gargalhadas fake ao fundo e palavrões omitidos), com o humorista Rodney Dangerfield no papel de um pai escroto e cruel. A busca de Mickey por soro antiofídico em uma drogaria deserta é mostrada em forma de desenho animado. E, inseridos entre cenas de violência explícita, comerciais de Coca-cola e imagens de arquivo da televisão americana dos anos 60. Misturadas a uma trilha sonora pulsante - que inclui desde Patti Smith, Nine Inch Nails e Bob Dylan a um extraordinário Leonard Cohen (cujas canções abrem e encerram o filme) essas ideias fora do comum demonstram o poder de Oliver Stone em passar, através de seus filmes, ideologias e discursos no mínimo polêmicos.
 
Mas falar de "Assassinos por natureza" sem tecer loas a seu elenco seria no mínimo injusto, uma vez que é crucial para o filme que ele seja interpretado da maneira correta, sob pena de sair da sátira e da crítica para transformar-se em uma comédia involuntária. Sendo assim, a escolha por Woody Harrelson (saindo imediatamente de "Proposta indecente") e Juliette Lewis (nunca menos do que fantástica) mostrou-se muito acertada, assim como dar ao ótimo Robert Downey Jr. o crucial papel de Wayne Gale (que o autor da história, Quentin Tarantino, queria para si nos primórdios do projeto). Por incrível que pareça é o premiado Tommy Lee Jones quem destoa do conjunto. Oscarizado por "O fugitivo", ele parece confundir ironia com palhaçada, quase estragando o clímax do filme com uma atuação exagerada e fora de contexto. Felizmente sua participação é relegada a segundo plano quando a violência e a tensão assumem a protagonização da história, em detrimento de seu sarcasmo.
 
Crítica ácida à forma como a mídia transforma vilões em heróis, "Assassinos por natureza" não é um filme para qualquer público, mas justamente sua ousadia temática e visual é que faz dele uma das obras fundamentais do cinema americano dos anos 90.

Thursday, November 11, 2010

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (JFK, 1991, Warner Bros, 189min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar, livros "On the trail of assassins", de Jim Garrison e "Crossfire: the plot that killed Kennedy", de Jim Marrs. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Joe Hutsching, Pietro Scalia. Música: John Williams. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Crispian Sallis. Casting: Risa Bramon Garcia, Billy Hopkins, Heidi Levitt. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Kevin Costner, Sissy Spacek, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Jack Lemmon, Walter Matthau, Donald Sutherland, Kevin Bacon, Michael Rooker, John Candy, Sally Kirkland, Vincent D'Onofrio, Wayne Knight, Laurie Metcalf, Lolita Davidovich, Ron Rifkin. Estreia: 20/12/91

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Oliver Stone) 

Em 22 de novembro de 1963, em uma viagem a Dallas, o presidente John Fitzgerald Kennedy foi almejado fatalmente, para desespero de milhares de americanos que o idolatravam. Pouco tempo depois, a polícia apresentava o culpado, o jovem Lee Harvey Oswald. Antes de qualquer tipo de julgamento, o acusado foi assassinado, frente às câmeras de TV, por Jack Ruby, o dono de um bar de strippers, ligado à máfia. Uma comissão formada pelo governo para investigar o caso - a Comissão Warren - chegou à conclusão de que Oswald agiu por contra própria, por discordar das ideias de Kennedy a respeito de Cuba e Fidel Castro. A investigação teria tido um ponto final se Jim Garrison, o promotor público de Nova Orleans, não tivesse dado continuidade ao assunto. Com a ajuda de uma equipe dedicada e incorruptível, ele levou um empresário local ao banco de réus, acusando-o de conspiração. Segundo Garrison, a morte de Kennedy foi o ato final de uma conspiração gigantesca envolvendo o FBI, a CIA e até mesmo o próprio governo americano. E é justamente sua batalha atrás da verdade sobre o assassinato que mudou a história dos EUA que é retratada em "JFK, A pergunta que não quer calar", a obra-prima absoluta do polêmico cineasta Oliver Stone.

Utilizando dois livros como base para seu complexo e instingante roteiro - um escrito pelo próprio Jim Garrison e outro pelo jornalista Jim Marrs, nem sempre de teorias compatíveis - Oliver Stone construiu um dos thrillers políticos mais fascinantes da história do cinema. Ao eleger a investigação de Garrison como fio condutor para sua narrativa, Stone entrega ao público um trabalho detalhista e admiravelmente bem construído. O roteiro, repleto de camadas que escondem camadas que escondem camadas, é um primor de inteligência, que gruda o espectador na cadeira em seus primeiros minutos e não o deixa abandoná-la até seu final - na versão do diretor, mais de três horas depois.
 
Interpretado por um Kevin Costner discreto, que não se deixa engrandecer pela personagem - depois que Harrison Ford e Mel Gibson declinaram do papel - Jim Garrison é o mais próximo de um herói que a trama de "JFK" pode oferecer à plateia. Lembrando em certos momentos seu Elliot Ness de "Os intocáveis" - um homem honesto e quase obcecado em sua busca pela verdade - Garrison serve também como os olhos do público, incrédulos, chocados, absolutamente apavorados com a gama de mentiras que vão sendo desvendadas pouco a pouco. E a forma como as verdades - ou o mais perto possível delas - surgem diante dos olhos de Garrison e da audiência é nunca menos do que brilhante. Nas mãos de Oliver Stone, a morte de John Kennedy, um dos maiores traumas coletivos da história americana, transforma-se em um espetáculo dos mais empolgantes que o cinema pode proporcionar.


Além do roteiro impecável - tão cheio de informações que é desaconselhável até mesmo uma piscadela - Stone também cercou-se de uma equipe excepcional. A edição nunca aquém de espetacular levou um merecidíssimo Oscar, ao alternar vídeos reais com cenas incrivelmente reconstituídas, e a fotografia de Robert Richardson, também oscarizada, se equilibra entre a cor, o preto-e-branco e 8mm (com as recorrentes cenas do filme de Abraham Zapruder, que testemunhou a tragédia, sendo apresentadas quase como uma personagem). A trilha sonora de John Williams comenta a ação com sabedoria, destacando com força os momentos mais tensos - trabalhando longe de Steven Spielberg, Williams criou uma de suas mais sensacionais trilhas, que dá o tom exato das intenções de Oliver Stone em manter intacta a atenção do público mesmo diante da quantidade de nomes, fatos e contradições que se espalham na tela. E se as informações são em número quase assustador, o elenco formado pelo cineasta é de tirar o fôlego. Trabalhando com cachês bem abaixo de seu normal, os atores de "JFK" são um show à parte.


Naturalmente, Kevin Costner lidera o elenco como protagonista absoluto.Mas, a seu lado, desfila um elenco de causar inveja a Robert Altman - em personagens maiores ou menores, eles sustentam com garra e elegância uma estrutura complexa que dá espaço para que todos brilhem em seu devido momento. Somente Tommy Lee Jones chegou a ser indicado ao Oscar, por sua atuação como Clancy Shaw, o único a ser julgado pela morte do presidente, mas sua indicação pode ter sido uma forma de a Academia homenagear todas as feras dirigidas por Stone. Como Lee Harvey Oswald, o inglês Gary Oldman transforma-se absurdamente (como já o havia feito em "Sid & Nancy, o amor mata", onde viveu o roqueiro Sid Vicious). Como o misterioso X, que dá dicas preciosas a Garrison, Donald Sutherland é dono de uma das sequências mais arrepiantes do longa. E além deles, estão presentes Kevin Bacon, Joe Pesci (magnífico), Sissy Spacek e os indescritíveis Jack Lemmon e Walter Matthau. Pode-se pedir mais de um elenco?


"JFK" é eletrizante, inteligente, fascinante e dirigido com uma paixão evidente. Graças a ele, documentos a respeito das investigações da Comissão Warren foram a público muito antes do previsto e, mais importante do que tudo, Oliver Stone conseguiu abalar as estruturas americanas com um filme que nunca deixa de ser também entretenimento da mais alta qualidade. Suas teorias talvez não sejam tão realistas quanto ele afirma, mas só o fato de fazer um trabalho tão impecável do ponto de vista cinematográfico já é motivo o bastante para que seja louvado. Infelizmente bateu de frente com "O silêncio dos inocentes" na corrida pelo Oscar. Ganhou duas estatuetas. Merecia muito mais.

Tuesday, November 2, 2010

THE DOORS

THE DOORS (The Doors, 1991, Carolco Pictures, 140min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, J. Randal Johnson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Nicholas Clainos, Brian Grazer, Mario Kassar. Produção: Bill Graham, Sasha Harari, A. Kitman Ho. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan, Debi Mazar, Mimi Rogers, Crispin Glover. Estreia: 23/02/91

Só mesmo um cineasta como Oliver Stone conseguiria realizar um filme como "The Doors". Ainda cheio de moral devido ao sucesso de seus filmes sobre a guerra do Vietnã, Stone conseguiu convencer os produtores a bancarem um projeto de quase 40 milhões de dólares sobre um roqueiro polêmico, sem um grande astro como chamariz de bilheteria e, pior ainda, com grandes possibilidades de desagradar os fãs e os familiares do protagonista. Quando finalmente o filme estreou, no início de 1991, algumas das previsões se mostraram corretas: o filme não pagou seu custo dentro dos EUA, a família de Pamela Courson (namorada da personagem principal) não gostou do resultado final (assim como Ray Manzarek, integrante do grupo) e a crítica se dividiu perante a visão do diretor sobre Jim Morrison e sua banda. Apenas um  fator foi quase unanimidade entre crítica, público e fãs ocasionais: o trabalho meticuloso de Val Kilmer como Morrison.

Na pele de Jim Morrison - o vocalista, líder e sex-symbol da banda de rock "The Doors", que morreu de ataque cardíaco aos 27 anos em 1971 - Kilmer apresenta a atuação de sua vida. Dedicado ao extremo ao papel, a ponto de viver como Morrison por quase um ano antes mesmo do início das filmagens, o ator de coisas tão díspares quanto "Top Secret" (1984) e "Willow, na terra da magia" (1988) praticamente metamorfoseou-se no cantor. O jeito de andar, de falar, de dançar e de se movimentar de Morrison está todo na interpretação de Kilmer. O problema maior de tudo é que, para os não-fãs da banda em particular, em dado momento, todo esse perfeccionismo acaba tornando-se um pouco chato por um motivo bastante simples: Jim Morrison não era uma pessoa exatamente agradável - ao menos é o que depreende-se do filme de Stone - e àqueles para quem os Doors não representam nada mais do que um grupo de rock como os outros as mais de duas horas de projeção beiram uma tortura.

Tudo começa quando Morrison ainda é uma criança e testemunha um acidente de carro que vitima um grupo indígena. Não seria importante se anos depois, já famoso como líder da banda "The Doors" - assim batizada em homenagem a Adouls Huxley e suas "Portas da percepção" - ele não assumisse, vez ou outra, um espírito xamânico (ou seja, entrava em um transe que lhe permitia ter contato com a natureza, seres de outras dimensões, etc e tal). Apresentado a esse mundo pela jornalista Patricia Kennealy (Kathleen Quinlan), de quem torna-se amante, Morrison o utiliza em sua arte. Ex-estudante de Cinema na Universidade da Califórnia, ele une-se a Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon) para formar sua própria banda de rock. Porém, conforme o sucesso do grupo vai aumentando, o total desprezo de seu líder pelo convencional e pelo pré-determinado começa a minar a união entre eles. Alcóolatra, drogado, mulherengo e com tendências auto-destrutivas, Morrison escandaliza a sociedade americana dos anos 60, mesmo estando ela em plena efervescência cultural pré-Woodstock, inclusive sendo preso durante um show, acusado de comportamento obsceno.


A forma com que Oliver Stone conduz sua homenagem a um grupo que idolatra é bastante coerente com a própria obra da banda. O visual imposto por Stone e seu diretor de fotografia Robert Richardson é perfeito no que se propõe, dando a nítida impressão do psicodelismo e da distância da realidade com que Morrison vivia sua trajetória errática. Apesar de cansar em alguns pontos - e até diminuir o impacto de algumas cenas, como a que Jim quase mata a namorada Pam (Meg Ryan) queimada - a forma encontrada pelo diretor de traduzir em imagens distorcidas a mente de seu protagonista não deixa de ser criativa e admirável - ainda que ele tenha alcançado resultado melhor em "Assassinos por natureza" (1994). E ao dar importância suprema a Val Kilmer e seu show particular, Stone relega a segundo plano algumas atuações que mereciam um pouco mais de atenção.


Meg Ryan, por exemplo, é pouco lembrada por seu trabalho como Pamela Courson, a namorada de longo prazo e muitas aventuras de Jim Morrison. Quando fez "Em carne viva", em 2003, a imprensa logo fez questão de destacar sua nudez e sua coragem em romper com a imagem de "namoradinha da América" que havia construído em suas comédias românticas. No entanto, em "The Doors", ela já demonstrava que é capaz de bem mais do que fazer caras e bocas ao lado de Tom Hanks. Não é uma atuação sensacional, mas que prova que o brilho intenso de Kilmer no filme fez sombra a todas as qualidades do filme.

E "The Doors" tem inúmeras delas. Desde a parte técnica impecável (a edição caprichada já é marca registrada de Stone) até a trilha sonora apropriada (Doors do início ao fim, sempre com a música certa na hora certa) tudo no filme funciona para os aficcionados da banda, que não se cansam de assistí-lo. No entanto, para quem não nutre o mesmo entuasiasmo por Morrison e seus companheiros, é apenas um filme bem realizado, apaixonado e criativo, que parece longo demais.

Monday, August 2, 2010

PLATOON


PLATOON (Platoon, 1986, Orion Pictures, 120min) Direção e roteiro: Oliver Stone. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Georges Delerue. Direção de arte: Bruno Rubeo. Casting: Pat Golden, Warren McLean, Bob Morones. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe, Keith David, Forest Whitaker, Kevin Dillon, Johnnny Depp. Estreia: 19/12/86

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger, Willem Dafoe), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Montagem, Som

Festival de Berlim: Melhor Diretor (Oliver Stone)

Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger)

Até 1986, a visão do público americano frequentador de cinema sobre a guerra do Vietnã havia sido do teor intimista de Michael Cimino e do estilo lisérgico de Francis Ford Coppola. Foi preciso que um ex-combatente de nome Oliver Stone (vencedor de um Oscar de roteiro por "O expresso da meia-noite") comandasse um filme sobre o assunto para que finalmente a plateia tivesse uma visão realista do conflito. Os elogios rasgados da crítica, o sucesso de bilheteria e os 4 Oscar conquistados (inclusive de filme e direção) por seu "Platoon" mostraram que já estava mais do que na hora.

Utilizando de sua experiência em combate e de suas lembranças pessoais, Stone carregou "Platoon" de um humanismo e uma violência física e psicológica que, ao contrário de filmes como "O franco-atirador" e "Apocalypse now" não busca subterfúgios românticos ou psicodélicos: seu ponto de vista da guerra mais vergonhosa perdida pelos EUA é seco e contundente, ainda que não totalmente desprovido de uma espécie de sentimentalismo que fala direto ao coração do público - em especial o americano.

"Platoon" é narrado através do ponto de vista do novato Chris Taylor (Charlie Sheen em papel que ecoa o trabalho de seu pai Martin em "Apocalypse"), um jovem voluntário que, tão logo chega ao Camboja, em setembro de 1967, vê o tamanho da encrenca em que se meteu. A princípio descrevendo o tédio e os horrores que dividem seu tempo em cartas à avó, ele desiste de mantê-la informada da real face da guerra quando percebe que, mais do que um violento conflito entre dois países, ele está testemunhando um drama bem mais pessoal: uma rixa pessoal entre o beligerante Sargento Barnes (Tom Berenger) e o ético Sargento Elias (Willem Dafoe).

O mais inteligente no roteiro de "Platoon" é a sua capacidade de equilibrar a disputa entre Barnes e Elias pela "alma" de Taylor e a maneira com que o rapaz vai tomando contato com toda a truculência e inutilidade da guerra. Cenas de grande impacto visual e emocional são apresentadas por Stone sem sentimentalismo, em tom quase documental, conduzindo o espectador a uma viagem sem escalas rumo a um inferno real e, pior ainda, quase palpável, graças à fotografia de Robert Richardson. A edição, também premiada com um Oscar, dá um ritmo angustiante à narrativa, assim como a trilha sonora escolhida pelo cineasta, que dialoga magistralmente com as imagens ora úmidas ora sufocantes captadas pela câmera nervosa de Stone.

Mas é em seu elenco que "Platoon" brilha ainda mais intensamente. Espertamente, Oliver Stone embaralhou as cartas na hora de escolher seus protagonistas, oferecendo ao galã Tom Berenger o papel mais odioso - um homem raivoso, cheio de cicatrizes e impiedoso - e ao normalmente vilão Willem Dafoe a compreensiva e honrada personagem que retratava o bem. Nitidamente à vontade, os dois conquistaram indicações ao Oscar por seu trabalho, e fascinam a audiência sempre que estão em cena.

"Platoon" é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema - e abriu a trilogia do diretor sobre o Vietnã (completada com "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra"). Feito com o coração mais do que com a técnica, é uma experiência que transcende o gosto da platéia pelo gênero: é cinema da mais alta qualidade.