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Tuesday, December 6, 2011

POR UM FIO

POR UM FIO (Phone booth, 2002, Fox 2000 Pictures, 81min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Larry Cohen. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Gil Netter, David Zucker. Elenco: Colin Farrell, Forest Whitaker, Katie Holmes, Rhada Mitchell, Kiefer Sutherland. Estreia: 10/9/02 (Festival de Toronto)

Em 2001, Joel Schumacher deu ao ator irlandês Colin Farrell sua primeira grande chance no cinema, escolhendo-o para ser o protagonista de "Tigerland, a caminho da guerra", que agradou aos críticos mas foi ignorado pelo público (boa parte devido a sua péssima distribuição nos cinemas americanos). Um ano depois, Farrell retribuiu o favor, estrelando uma produção barata (13 milhões de dólares) dirigida por Schumacher que tornou-se um sucesso inesperado. Depois de ter seu lançamento adiado nos EUA por cinco meses (estreou no Festival de Toronto em setembro de 2002 e só chegou às salas ianques em abril de 2003), "Por um fio" arrecadou quase cem milhões só no mercado americano e, em se tratando de uma obra de Joel Schumacher surpreendeu também por ter uma consistência rara.

Filmado em apenas duas semanas - e em ordem cronológica - "Por um fio" é um one man-show de Farrell, que carrega nas costas todo o suspense e o drama da história criada por Larry Cohen, também autor do roteiro de "Celular", estrelado por Kim Basinger e Chris Evans pouco tempo depois. Substituindo Jim Carrey, Mel Gibson e Will Smith (todos interessados no papel), o jovem ator mostra uma segurança ímpar na pele de Stuart Shepard, um divulgador de entretenimento que mora em Nova York com a esposa Kelly (Radha Mitchell) e que vive de humilhar o assistente, de passar a perna nos clientes e tentar se dar bem sem fazer muito esforço. Sua arrogância e egocentrismo não lhe bastam, porém, quando ele acaba caindo em uma armadilha inesperada: depois de falar com a aspirante a atriz Pam (Katie Holmes) - que ele quer levar para a cama o mais rápido possível com promessas de conseguir-lhe uma chance no cinema - de uma cabine telefônica ele atende o telefone e acaba sendo feito de refém por um misterioso atirador que sabe tudo de sua vida e ameaça matá-lo ou à sua mulher se ele desligar. O que parecia uma brincadeira de péssimo gosto vira um pesadelo quando o atirador (com a voz de Kiefer Sutherland) mata um gigolô na frente de testemunhas e Stu torna-se o principal suspeito do crime. Quando a mídia chega ao local, juntamente com o Capitão Ed Ramey (o sempre competente Forest Whitaker), o circo está armado.



Contado em enxutos 81 minutos - o que elimina cenas supérfluas e dá ao filme um ritmo extremamente ágil mas nunca apressado - "Por um fio" mais uma vez mostra que Joel Schumacher se dá muito melhor quando é menos ambicioso. Assim como em "Tigerland" (que também contava com a mesma equipe técnica), ele foca sua atenção no desempenho dos atores e não em mirabolantes pirotecnias ou marketing excessivo."Por um fio" é tenso na medida certa e surpreende a audiência com uma história que foge do previsível sempre que pode - o que em termos de filme de suspense é um ingrediente cada vez mais difícil de encontrar. O duelo entre Farrell e Sutherland (cuja voz foi acrescentada na pós-produção) é empolgante e muito dessa eletricidade vem do trabalho impecável de Colin, cujo personagem passa da arrogância e da auto-confiança ao desespero e ao medo em um piscar de olhos, sem que seja necessário muito mais do que puro e simples talento.

"Por um fio" não mudou a história do cinema e provavelmente com um ator menos capaz que Farrel seria apenas mais um filme a ser reprisado nas sessões noturnas da TV aberta. Mas graças à força que o ator imprime em sua atuação torna-se um produto acima da média em seu gênero.

Tuesday, November 8, 2011

O QUARTO DO PÂNICO

O QUARTO DO PÂNICO (Panic room, 2002, Columbia Pictures, 112min) Direção: David Fincher. Roteiro: David Koepp. Fotografia: Conrad L. Hall, Darius Khondji. Montagem: James Haygood, Angus Wall. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Jon Danniells, Garrett Lewis. Produção: Cean Chaffin, Judy Hofflund, David Koepp, Gavin Polone. Elenco: Jodie Foster, Forest Whitaker, Kristen Stewart, Jared Leto, Dwight Yoakam. Estreia: 29/3/02

É impressionante a diferença que faz um bom diretor! Nas mãos de um operário-padrão qualquer de Hollywood, "O quarto do pânico" seria apenas mais um filme de suspense perfeitamente esquecível depois dos letreiros finais. Porém, sob o comando do sempre competente David Fincher - que tem no currículo as obras-primas "Seven" e "Clube da luta" e o subestimado "Vidas em jogo" - o jogo de gato-e-rato criado pelo roteirista David Koepp em apenas seis dias (o primeiro tratamento, logicamente) não só prende a atenção de seus espectadores como ainda por cima se eleva vários degraus acima de seus congêneres, equilibrando com maestria um clima hitchcockiano e inovações técnicas utilizadas com inteligência e parcimônia.

A trama tem início quando a recém-divorciada Meg Altman (Jodie Foster, grávida durante as filmagens), abandonada pelo marido milionário, compra uma gigantesca casa em Manhattan para morar com a filha pré-adolescente Sarah (Kirsten Stewart pré-"Crepúsculo"). A casa - uma impressionante criação do diretor de arte Arthur Max - tem até mesmo uma espécie de bunker, apelidado pelo antigo morador de "quarto do pânico": o tal quarto tem até mesmo um sistema exclusivo de câmeras de vigilância. O que seria apenas mais um cômodo, no entanto, vira a principal forma de defesa de mãe e filha quando três homens armados, liderados pelo descontrolado Junior (Jared Leto), invadem a casa na madrugada, atrás de milhões de dólares escondidos justamente no quarto onde elas se escondem. Para proteger a filha e a si mesma, Meg tem que usar toda a sua inteligência e força emocional, principalmente quando os criminosos - que incluem o racional Burnham (Forest Whitaker) e o violento Raoul (Dwight Yoakam) - resolvem apelar para a violência para obrigá-las a abandonar o famigerado aposento.


"O quarto do pânico" é um típico produto de sua época. Os criativos movimentos de câmera de Fincher, o desenho de som e as inovações técnicas que ele apresenta são tão ou mais importantes que a história que o diretor conta. Mesmo sem ser exatamente original e/ou empolgante em uma primeira visão, o roteiro de Koepp consegue facilmente envolver e causar tensão durante seu tempo de duração, o que já é bastante raro em um gênero mortalmente previsível quanto o suspense. Fugindo dos clichês das obras mais convencionais, a obra de Fincher cria momentos de tensão genuína, envolvendo o público na jornada de Meg, personificada com força e determinação por um Jodie Foster nunca aquém de excelente. Substituindo Nicole Kidman na última hora (que abandonou o projeto por ter se machucado nas filmagens de "Moulin Rouge"), Foster não deixa de ser uma bênção ao projeto: talvez a fragilidade física de Kidman não combinasse com a protagonista, uma personagem que cabe como uma luva no histórico de mulheres fortes interpretadas por Jodie.

"O quarto do pânico" está longe de ser o melhor trabalho de David Fincher. Ainda assim, é forte, inteligente e jamais previsível, além de tratar seu público com respeito e em nenhum momento apelar para soluções fáceis e triviais. É um excelente programa para quem gosta de suspense e para aqueles que esperam por bons filmes dirigidos com elegância e talento.

Saturday, November 27, 2010

TRAÍDOS PELO DESEJO

TRAÍDOS PELO DESEJO (The crying game, 1992, Miramax Films, 112min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Kant Pan. Música: Anne Dudley. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Martin Childs. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Nik Powell. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Stephen Rea, Miranda Richardson, Forest Whitaker, Jaye Davidson, Jim Broadbent. Estreia: 26/9/92

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Neil Jordan), Ator (Stephen Rea), Ator Coadjuvante (Jaye Davidson), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

No biênio 92/93, um dos filmes mais comentados entre os cinéfilos de bom gosto era uma produção irlandesa, realizada com uns trocados, sem astros nos papéis centrais e com uma polêmica reviravolta na sua segunda parte. Dirigido pelo talentoso mas não célebre Neil Jordan, "Traídos pelo desejo" pegou o mundo de surpresa ao provar que, antes de astros musculosos e efeitos visuais, uma história bem contada é o ingrediente mais importante de qualquer produção. Hollywood seria muito mais interessante se seu filme fosse regra e não exceção.


Indicado a 6 importantes Oscar - e vencedor merecido do prêmio de roteiro original - "Traídos pelo desejo" é um dos mais fascinantes estudos sobre lealdade e paixão que o cinema já proporcionou. Imprevisível, forte, adulto e interpretado com garra, o filme de Jordan conduz o público a um labirinto de emoções a que somente um roteiro consistente e um diretor com mão firme conseguem. Tudo começa quando Jody (Forest Whitaker), um soldado inglês, é sequestrado pelo IRA, em represália ao governo. Enquanto espera o desenlace da situação, ele inicia uma espécie de amizade com um dos seus carrascos, o sensível Fergus (Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor ator), e fala a ele sobre sua paixão pela namorada. Depois de um trágico fim para o sequestro, Fergus abandona a luta armada e tenta levar uma vida normal. Consumido pela culpa, ele procura a namorada do soldado, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson) e aos poucos eles iniciam um relacionamento. Depois de uma chocante revelação - que muda totalmente a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta a atormentá-lo: sua colega de exército, Judy (Miranda Richardson, absolutamente fabulosa) o procura e exige que ele faça parte de uma nova ação.


As idas e vindas do roteiro de "Traídos pelo desejo" são absolutamente surpreendentes e não parecem forçadas em momento algum, graças principalmente à inteligência de Neil Jordan em não apressar as situações. Tudo acontece no momento certo, da forma correta, e o elenco escalado por ele não poderia estar em melhores dias. Stephen Rea é um ator extraordinário, que consegue dividir suas cenas com generosidade ímpar: ele joga bem com Whitaker, com Richardson e principalmente com Davidson, em um papel cruel e ingrato, mas que lhe dá a oportunidade de uma carreira. E Miranda Richardson rouba qualquer cena em que aparece, equilibrando um ar psicopata com uma determinação ferrenha de cumprir sua missão - e de quebra reconquistar o amor de Fergus.

Mas e quanto ao grande segredo preparado por Jordan? Apesar de ser o divisor de águas do roteiro - e redirecionar a trama de maneira indelével - a reviravolta na história de amor entre Fergus e Dil é apenas um elemento a mais, ainda que importante, de uma história contada com sutileza e sobriedade. Causou controvérsia, e discussões são sempre saudáveis, mas relegar "Traídos pelo desejo" a um nicho específico de cinema é emburrecer a audiência. "Traídos pelo desejo" é um filme que melhora a cada revisão - e na segunda sessão já não há mais a tal surpresa, o que apenas comprova sua enorme qualidade. Humano, sério e fascinante.Como todo bom cinema!

Monday, August 2, 2010

PLATOON


PLATOON (Platoon, 1986, Orion Pictures, 120min) Direção e roteiro: Oliver Stone. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Georges Delerue. Direção de arte: Bruno Rubeo. Casting: Pat Golden, Warren McLean, Bob Morones. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe, Keith David, Forest Whitaker, Kevin Dillon, Johnnny Depp. Estreia: 19/12/86

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger, Willem Dafoe), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Montagem, Som

Festival de Berlim: Melhor Diretor (Oliver Stone)

Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger)

Até 1986, a visão do público americano frequentador de cinema sobre a guerra do Vietnã havia sido do teor intimista de Michael Cimino e do estilo lisérgico de Francis Ford Coppola. Foi preciso que um ex-combatente de nome Oliver Stone (vencedor de um Oscar de roteiro por "O expresso da meia-noite") comandasse um filme sobre o assunto para que finalmente a plateia tivesse uma visão realista do conflito. Os elogios rasgados da crítica, o sucesso de bilheteria e os 4 Oscar conquistados (inclusive de filme e direção) por seu "Platoon" mostraram que já estava mais do que na hora.

Utilizando de sua experiência em combate e de suas lembranças pessoais, Stone carregou "Platoon" de um humanismo e uma violência física e psicológica que, ao contrário de filmes como "O franco-atirador" e "Apocalypse now" não busca subterfúgios românticos ou psicodélicos: seu ponto de vista da guerra mais vergonhosa perdida pelos EUA é seco e contundente, ainda que não totalmente desprovido de uma espécie de sentimentalismo que fala direto ao coração do público - em especial o americano.

"Platoon" é narrado através do ponto de vista do novato Chris Taylor (Charlie Sheen em papel que ecoa o trabalho de seu pai Martin em "Apocalypse"), um jovem voluntário que, tão logo chega ao Camboja, em setembro de 1967, vê o tamanho da encrenca em que se meteu. A princípio descrevendo o tédio e os horrores que dividem seu tempo em cartas à avó, ele desiste de mantê-la informada da real face da guerra quando percebe que, mais do que um violento conflito entre dois países, ele está testemunhando um drama bem mais pessoal: uma rixa pessoal entre o beligerante Sargento Barnes (Tom Berenger) e o ético Sargento Elias (Willem Dafoe).

O mais inteligente no roteiro de "Platoon" é a sua capacidade de equilibrar a disputa entre Barnes e Elias pela "alma" de Taylor e a maneira com que o rapaz vai tomando contato com toda a truculência e inutilidade da guerra. Cenas de grande impacto visual e emocional são apresentadas por Stone sem sentimentalismo, em tom quase documental, conduzindo o espectador a uma viagem sem escalas rumo a um inferno real e, pior ainda, quase palpável, graças à fotografia de Robert Richardson. A edição, também premiada com um Oscar, dá um ritmo angustiante à narrativa, assim como a trilha sonora escolhida pelo cineasta, que dialoga magistralmente com as imagens ora úmidas ora sufocantes captadas pela câmera nervosa de Stone.

Mas é em seu elenco que "Platoon" brilha ainda mais intensamente. Espertamente, Oliver Stone embaralhou as cartas na hora de escolher seus protagonistas, oferecendo ao galã Tom Berenger o papel mais odioso - um homem raivoso, cheio de cicatrizes e impiedoso - e ao normalmente vilão Willem Dafoe a compreensiva e honrada personagem que retratava o bem. Nitidamente à vontade, os dois conquistaram indicações ao Oscar por seu trabalho, e fascinam a audiência sempre que estão em cena.

"Platoon" é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema - e abriu a trilogia do diretor sobre o Vietnã (completada com "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra"). Feito com o coração mais do que com a técnica, é uma experiência que transcende o gosto da platéia pelo gênero: é cinema da mais alta qualidade.

Sunday, August 1, 2010

A COR DO DINHEIRO


A COR DO DINHEIRO (The color of the money, 1986, Buena Vista Pictures, 119min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price, romance de Walter Tevis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Karen A. O'Hara. Casting: Gretchen Rennell. Produção: Irving Axelrad, Barbara De Fina. Elenco: Paul Newman, Tom Cruise, Mary Elizabeth Mastrantonio, Helen Shaver, John Turturro, Bill Cobbs. Estreia: 08/10/86

4 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Mary Elizabeth Mastrantonio), Roteiro Adaptado, Direção de arte

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Paul Newman)


Filmes sobre sinuca - ou bilhar ou qualquer assemelhado - normalmente não são sucessos de bilheteria nem fascinam as plateias que frequentam as salas de cinema. Por isso não é de se estranhar que "A cor do dinheiro", que deu o merecido Oscar de melhor ator a Paul Newman em 1986 não tenha tido uma brilhante carreira comercial, apesar do apelo jovem de um Tom Cruise ainda em sua fase de ídolo adolescente - status que ele começaria a mudar aqui e em "Rain Man" e confirmaria com "Nascido em 4 de julho". No entanto, rotular "A cor do dinheiro" como um filme de sinuca é o mesmo que restringir "Touro indomável" a um filme sobre boxe. Não é à toa que ambos os filmes sejam dirigidos pelo mesmo Martin Scorsese, que, com seu talento indiscutível, sempre conta histórias de homens lutando contra si mesmos.

Na verdade "A cor do dinheiro" é uma espécie de continuação de "Desafio à corrupção", lançado em 1961 e que também tinha como protagonista o mesmo Eddie Felson que Newman revive aqui. No filme de Scorsese, Felson é um jogador aposentado de uma variação de sinuca chamada "Bola 9", que vive da venda de bebidas alcóolicas. Seu passado de glória no esporte volta a lhe assombrar quando ele conhece o jovem Vincent Lauria (Tom Cruise), dono de um talento inegável, mas também de uma arrogância que apenas a inexperiência é capaz de construir. Empolgado com o rapaz, Eddie propõe a ele e sua ambiciosa namorada, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio) que eles se unam para ganhar muito dinheiro em uma competição em Atlantic City. O trato - Felson entraria com seus meandros e malandragem e Vincent com o talento e a disposição - começa a dar errado quando Vincent passa a não dar ouvidos aos conselhos de seu mentor, julgando-se capaz de vencer sozinho. Logo eles acabam sendo obrigados a jogar um contra o outro.

Conforme dito antes, é característica da obra de Scorsese colocar seus protagonistas diante do pior de seus inimigos: ele mesmo. Em "A cor do dinheiro" ele faz isso duplamente. Eddie Felson precisa lutar contra seu passado, contra o tempo que já não lhe é mais complacente e contra seus próprios princípios. O jovem Vincent necessita aprender a lidar com seu exibicionismo, com a sua efusividade juvenil, com a ambição e a pressa típicas de sua idade. E ambos são forçados também a lutar um contra o outro: como dois espelhos, eles se enxergam no parceiro... e provavelmente não gostam muito do que veem.

Como filme, "A cor do dinheiro" não está no mesmo patamar das obras-primas de Scorsese: tem alguns problemas de ritmo e, deixando de lado a atuação excepcional de Newman, não tem um protagonista carismático e/ou repulsivo como seus melhores trabalhos. No entanto, seduz o espectador com uma imprevisibilidade rara - o roteiro do escritor Richard Price foge dos clichês admiravelmente e ainda tem a ousadia de terminar em aberto - o que, para um filme sem pretensões de tornar-se o primeiro capítulo de uma série é uma temeridade comercial sem tamanho. E é inegável perceber o cuidado do cineasta em filmar cada sequência do esporte da maneira mais empolgante possível - e nessas cenas a edição de sua colaboradora habitual Thelma Schoonmaker é, como sempre, destaque absoluto.

Mas é Paul Newman o dono do filme. Sua interpretação delicada, discreta mas extremamente forte domina cada cena em que ele aparece, dando aulas prestimosas a Cruise, que em seguida tentaria direcionar sua carreira para escolhas de maior prestígio do que "Negócio arriscado" e "A lenda". Mais do que levar um Oscar por respeito a sua carreira sensacional, ele foi premiado pela qualidade altíssima de seu trabalho. Um prêmio absolutamente merecido!