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Thursday, November 17, 2011

FALCÃO NEGRO EM PERIGO

FALCÃO NEGRO EM PARIS (Black Hawk down, 2001, Jerry Bruckheimer Studios, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ken Nolan, livro de Mark Bowden. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Pietro Scalia. Música: Hans Zimmer. Figurino: David Murphy, Sammy Howarth-Sheldon. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Eli Griff. Produção executiva: Branko Lustig, Chad Oman, Mike Stenson, Simon West. Produção: Jerry Bruckheimer, Ridley Scott. Elenco: Josh Hartnett, Ewan McGregor, Tom Sizemore, Eric Bana, William Fichtner, Ewen Bremner, Sam Shepard, Ron Eldard, Ioan Gruffud, Thomas Guiry, Jason Isaacs, Zeljo Ivanek, Orlando Bloom, Tom Hardy. Estreia: 28/12/01

4 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som

Depois de perder um Oscar quase certo pela direção de "Gladiador" - que levou pra casa os prêmios de Melhor Filme e Ator (Russell Crowe) - o cineasta inglês Ridley Scott embarcou numa canoa furada que parecia auspiciosa, a continuação de "O silêncio dos inocentes" chamada simplesmente "Hannibal". Apesar do sucesso comercial, porém, a crítica não gostou nem um pouco da sequência (e estava coberta de razão, uma vez que o filme é tenebroso na pior acepção do termo) e o homem que havia legado ao mundo filmes do porte de "Alien, o oitavo passageiro", "Blade Runner, o caçador de andróides" e "Thelma & Louise" estava em um perigoso momento da carreira (ainda que não pudesse reclamar da bilheteria de seus filmes). Foi então que mais uma vez surpreendeu os fãs com um imponente, violento e realista filme de guerra baseado em fatos reais. "Falcão negro em perigo" não apenas lhe devolveu elogios e uma bela carreira financeira, mas também lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de direção.

Filmado no Marrocos (que faz o papel de Mogadishu, Somália), "Falcão negro em perigo" é um filme caro, produzido por Jerry Bruckheimer, que leu o livro escrito pelo jornalista Mark Bowden antes de sua publicação e adquiriu os direitos imediatamente. Dirigido com realismo e crueza por Scott, é também uma obra que não faz muitas concessões ao comercial, apresentando sequências dolorosas e chocantes e fugindo do tradicional final feliz. "Falcão negro em perigo" não é um filme de Oliver Stone, portanto não há sentimentalismo no roteiro de Ken Nolan, que faz o possível para reduzir 18 horas de combate em palatáveis 144 minutos de duração - e cerca de 100 personagens em aceitáveis 39, vividos por um elenco excelente onde não há protagonistas, ainda que alguns nomes não precisem fazer muito esforço para se destacar.


O principal destaque do elenco de "Falcão negro em perigo" é o australiano Eric Bana, fazendo sua estreia em Hollywood. Recomendado a Scott por Russell Crowe, Bana consegue chamar a atenção da plateia sempre que entra em cena, mesmo que sua personagem não seja exatamente protagonista. Seu carisma esmaga Josh Hartnett (cujo rosto estampa o cartaz, provavelmente na expectativa de chamar a atenção do público feminino) a tal ponto que seu trabalho lhe rendeu convites para protagonizar o "Hulk" de Ang Lee e antagonizar Brad Pitt em "Tróia" (onde mais uma vez roubou a cena com uma personagem e uma atuação muito mais interessantes do que o galã máximo da América). Mas não é apenas o nome de Bana que enfeita os créditos de "Falcão negro em perigo". A seu lado estão nomes fortes como Ewan McGregor, Tom Sizemore, Sam Shepard e Orlando Bloom (além dos ainda pouco conhecidos Ioan Gruffud, Tom Hardy, Jeremy Piven e Hugh Dancy), todos envolvidos em uma trama tão empolgante e tensa que é difícil de crer que realmente tenha acontecido.

Tudo acontece no dia 03 de outubro de 1993, em Mogadishu, na Somália dominada pelo ditador Mohammed Farah Aidid. Um grupo de soldados americanos comandado pelo Major William Garrison (Sam Shepard) é escalado para fazer de reféns dois homens de confiança do ditador, em uma missão que a princípio levaria apenas uma hora. Quando um dos aviões americanos - um Falcão Negro - é abatido, porém, as coisas se complicam e quase 24 horas se passam até que os soldados sejam resgatados das mãos da milícia somali.

É difícil resumir tudo que acontece em "Falcão negro em perigo". O roteiro eletrizante de Nolan, somado à direção inspirada de Scott - chamado pelo elenco de "maestro do caos" durante as filmagens - e à equipe técnica impecável (justamente premiada com os Oscar de edição e som) fazem dele um programa obrigatório aos aficcionados do gênero e àqueles que sabem reconhecer bom cinema.

Thursday, September 29, 2011

PEARL HARBOR


PEARL HARBOR (Pearl Harbor, 2001, Touchstone Pictures, 183min) Direção: Michael Bay. Roteiro: Randall Wallace. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Roger Barton, Mark Goldblatt, Chris Lebenzon, Steven Rosenblum. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mitzi Haralson, Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Jennifer Williams. Produção executiva: Bruce Hendricks, Chad Oman, Mike Stenson, Barry Waldman, Randall Wallace. Produção: Michael Bay, Jerry Bruckheimer. Elenco: Ben Affleck, Josh Hartnett, Kate Becksinsale, Alec Baldwin, Ewen Bremner, Jennifer Garner, Jon Voight, Cuba Gooding Jr., Michael Shannon, Dan Ayckroyd, Colm Feore, William Fichtner, Tom Sizemore. Estreia: 21/5/01

4 indicações ao Oscar: Canção Original ("There you'll be"), Som, Edição de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Edição de Som

“Titanic” faz escola. Inspirado no sucesso de bilheteria e de crítica de James Cameron, o diretor Michael Bay resolveu comandar seu próprio “projeto dos sonhos”, mirando nos cobiçados prêmios da Academia. No entanto, falta a ele e a seu produto final um elemento que Cameron provou ter: talento. “Pearl Harbor”, o tal filme com que Bay, mais conhecido por petardos de adrenalina como “A rocha” e “Con Air” quis fazer sua transição para o rol dos cineastas sérios é assustadoramente competente em termos técnicos, mas uma nulidade dramática poucas vezes vista em produções com suas ambições.
Assim como em “Titanic”, seu irmão mais velho e bem-sucedido, o filme conta uma história de amor tendo como pano de fundo um acontecimento marcante da história americana. O naufrágio ocorrido no início do século dá lugar aqui à invasão japonesa ocorrida na ilha de Pearl Harbor, em 1942, que obrigou os EUA a entrarem na II Guerra Mundial. Amigos desde a infância, os aviadores Raffe (Ben Affleck) e Danny (Josh Hartnett) seguem caminhos quase opostos durante a Guerra. Raffe vai voar na Inglaterra, voluntariamente, e é obrigado a deixar para trás a enfermeira por quem é apaixonado (a bela e apática Kate Beckinsale). Depois que ele é dado como morto em combate, Danny acaba se aproximando da inconsolável namorada do melhor amigo e eles iniciam um idílico romance, interrompido por dois fatos inesperados: o retorno de Raffe e a invasão japonesa à ilha onde todos estão trabalhando.


É inegável a qualidade da produção de “Pearl Harbor”. Da deslumbrante fotografia de John Schwartzman à trilha grandiloquente de Hans Zimmer, tudo funciona à perfeição, com o clima épico pretendido pelo diretor sendo atingido a cada fotograma. As cenas de batalha, especialmente o clímax do filme – a invasão que ocorre depois de uma hora e meia de projeção – são de encher os olhos e os ouvidos, com uma qualidade de som espetacular. Tudo caríssimo e bem cuidado. Mas Michael Bay demonstra seus maiores defeitos onde James Cameron soube sobressair-se inteligentemente: na direção de atores. A cada cena roubada por um ótimo Jon Voigt como Roosevelt existem no mínimo cinco constrangedoras envolvendo justamente aqueles em quem a trama se apóia. É quase inacreditável a falta de talento dos dois protagonistas masculinos do filme, que não emocionam nem em cenas construídas especialmente para arrancar lágrimas do espectador.

No final das três horas de duração do filme - que, em mais uma comparação com "Titanic" passam demoradamente frente aos olhos do público - fica uma sensação clara e contundente: "Titanic" pode ter seus detratores, mas pelo tinha um diretor visionário e um par romântico formado por atores de talento. Felizmente a Academia percebeu esse detalhe e ignorou "Pearl Harbor" em sua premiação. Qualidade técnica não significa qualidade emocional e isso fica provado em cada minuto do elefante branco de Michael Bay.

Friday, September 23, 2011

CÍRCULO DE FOGO

CÍRCULO DE FOGO (Enemy at the gates, 2001, Paramount Pictures, 131min) Direção: Jean-Jacques Annaud. Roteiro: Jean-Jacques Annaud, Alain Godard. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Noelle Boisson, Humprhey Dixon. Música: James Horner. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Simon Wakefield. Produção executiva: Alain Godard, Roland Pellegrino, Jorg Reichl, Alisa Tager. Produção: Jean-Jacques Annaud, John D. Schofield. Elenco: Jude Law, Joseph Fiennes, Rachel Weisz, Ed Harris, Bob Hoskins, Ron Pearlman. Estreia: 07/02/01 (Festival de Berlim)

Acostumado que está a ver a II Guerra Mundial pelos olhos de seus cineastas, o público americano não ficou exatamente empolgado com a recriação do diretor francês Jean-Jacques Annaud de uma parte importante da história do conflito, passada na Rússia. Dono de um orçamento de quase 70 milhões de dólares - o mais caro filme europeu até então - "Círculo de fogo" nem chegou a se pagar no mercado ianque (e foi praticamente ignorado no Festival de Berlim, onde os alemães não gostaram nem um pouco de se verem como os vilões da trama). No entanto, é inegável que é um dos mais excitantes e inteligentes filmes de guerra da história.

A ação se passa em 1942, quando a cidade de Stalingrado é a última resistência contra a invasão nazista. Espertamente sabendo que os cidadãos precisam de um incentivo para continuar sua luta, o jornalista Danilov (Joseph Fiennes) passa a descrever, em seus artigos, os feitos heróicos de seu melhor amigo, o atirador Vassili Zaitsev (Jude Law), que vem matando atiradores nazistas um a um de forma sistemática. Quando a fama de Vassili atinge os ouvidos alemães, eles não demoram a mandar seu melhor artilheiro, o Major Konig (Ed Harris) para detê-lo. Enquanto os dois homens passam a caçar um ao outro, Danilov tenta seduzir a bela Tania (Rachel Weisz), uma ativista militar apaixonada por Vassili.


Ao situar sua trama em um momento crucial da história da II Guerra Mundial, o diretor Annaud e seu co-roteirista Alain Godard teceram um rico painel sobre classes sociais e paixões de vários tipos - pela pátria, pelos amigos, por ideiais. Em suas duas horas de duração o filme conta várias histórias, todas interessantes e muito bem resolvidas. A amizade entre Danilov e Vassili, ameaçada pela paixão de ambos por Tania é a ponta romântica do roteiro (ainda que alguns insistam em ver algo homoerótico na admiração do jornalista pelo atirador). A iminência da invasão da Rússia pelas tropas de Hitler cumpre a parte de ação do projeto. Mas é a disputa de vaidade e idealismo entre Vassili e Konig que leva "Círculo de fogo" - mais um título nacional inexplicável, diga-se de passagem - a um nível de inteligência e qualidade que o separa dos filmes de guerra mais corriqueiros.
      
O que o roteiro faz, na verdade, é reduzir uma guerra de proporções gigantescas a uma batalha entre dois homens, ambos capazes, talentosos e certos de seus ideais. É uma metáfora talvez óbvia, mas que funciona à perfeição graças aos talentos envolvidos. Com frequentes closes nos olhos azuis de Ed Harris e Jude Law, a fotografia impressionante de Robert Fraisse tem mais sucesso em jogar o espectador dentro do campo de batalha do que os enquadramentos épicos de filmes como "Coração valente" e "Gladiador", competentíssimos mas um tanto quanto distantes dos sentidos do público. No filme de Annaud, a impressão que se tem é que se está ao lado de Vassili em seu jogo de gato e rato com Konig, impressão tornada ainda mais forte devido ao trabalho espetacular dos dois atores, em atuações irretocáveis - que fazem da interpretação rasa de Rachel Weisz ainda mais gritante.

"Círculo de fogo" tem todas as qualidades de um épicp hollywoodiano e consegue fugir com esperteza dos defeitos de seus congêneres. Enxuto (tem pouco mais de duas horas, enquanto a regra do cinema americano para filmes desse porte manda a duração chegar a três), conciso e quase minimalista, é um filme forte e honesto, que merece ser descoberto e louvado como um dos melhores de seu estilo.

Monday, August 29, 2011

TIGERLAND

TIGERLAND, A CAMINHO DA GUERRA (Tigerland, 2000, New Regency Pictures, 101min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ross Klavan, Michael McGruther. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Nathan Larson. Figurino: Thomas Stokes. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Shawn R. McFall. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Beau Flynn, Steven Haft, Arnon Milchan. Elenco: Colin Farrell, Matthew Davis, Clifton Collins Jr., Tom Guiry, Shea Whigham, Russell Richardson, Michael Shannon, Cole Hauser. Estreia: 06/10/00

Normalmente quando o diretor Joel Schumacher tem dinheiro em mãos comete bombas como os dois “Batman” assinados por ele. Quando conta com estrelas do porte de Julia Roberts entrega obras totalmente dispensáveis como o xaroposo “Tudo por amor”. E quando tem roteiros com a griffe de John Grisham varia entre o correto “O cliente” e o quase ótimo “Tempo de matar”. Mas é quando surge despretensioso, barato e com um elenco de atores – e não astros – que o cineasta que já realizou o sensacional “Um dia de fúria” - com Michael Douglas em seu melhor trabalho - demonstra que de vez em quando ele sabe ser um bom diretor.

“Tigerland, a caminho da guerra” é o melhor exemplo dessa teoria. Feito com um orçamento minúsculo, sem alarde e com um elenco praticamente desconhecido, o filme pode não ter feito um sucesso estrondoso – muito longe disso, aliás – mas recolheu elogios calorosos e o que não é nem um pouco ruim, um prêmio da Associação de Críticos de Boston para seu protagonista, o irlandês Colin Farrell. Farrell, estreante em cinema, mereceu o prêmio e os elogios. Com uma postura rebelde na vida real, ele cabe como uma luva no papel de Roland Bozz, um recruta com sérios problemas disciplinares que, no ano de 1971 vai para um campo de treinamento chamado Tigerland, a última parada dos soldados americanos antes de serem enviados para o Vietnã. Líder por natureza, Bozz imediatamente esbarra na autoridade retratada por seus superiores e na antipatia causada entre alguns colegas, que não aceitam sua maneira de lidar com suas idéias pacifistas. Aos poucos, Bozz transforma-se na esperança dos soldados que querem fugir da guerra.



Talvez uma das maiores qualidades de “Tigerland” seja o fato de ele ser um filme de guerra sem guerra. Toda sua trama se passa antes que suas personagens sejam de fato enviadas ao Vietnã, o que passa uma sensação de tensão que normalmente não se vê em produções do gênero. O treinamento de Bozz e seus colegas geram cenas bastante fortes, que nunca fogem do clichê, mas que o utilizam com inteligência e sensibilidade. Essa sensibilidade fica clara em momentos mais emotivos, como as conversas do protagonista com Cantwell (Tom Guiry), jovem que deixou mulher e quatro filhos em casa e um dos líderes do pelotão, Miter (o ótimo Clifton Collins Jr.) que decidiu ir pra guerra para morrer como um homem e provar à família que é corajoso.

“Tigerland” é um pequeno filme de guerra, sem maiores arroubos de criatividade, com qualidades gritantes. A fotografia de Matthew Libatique, o roteiro surpreendente e conciso e a direção sem tiques de Schumacher contam preciosos pontos para seu resultado geral, mas é a empolgante atuação de Colin Farrell que o eleva ao status de pérola a ser descoberta. Em seu primeiro grande papel, Farrell - uma das maiores promessas do início do século - deita e rola, em uma interpretação na medida exata entre a rebeldia e a doçura. Não fosse o trabalho impecável do ator, era bem provável que esse pequeno drama de guerra passasse absolutamente despercebido. 

Thursday, July 7, 2011

TRÊS REIS

TRÊS REIS (Three kings, 1999, Warner Bros., 114min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, história de John Ridley. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Carter Burwell. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Gregory Goodman, Kelly Smith-Wait. Produção: Paul Junger Witt, Edward L. McDonnell, Charles Roven. Elenco: George Clooney, Mark Wahlberg, Ice Cube, Spike Jonze, Cliff Curtis, Nora Dunn, Jamie Kennedy, Mykelti Williamson, Judy Greer. Estreia: 01/10/99

Tudo que o povo americano conseguiu visualizar da Guerra do Golfo foram as imagens transmitidas pelas emissoras de televisão. Uma guerra totalmente midiática, sem heróis nem vítimas – pelo menos nos conceitos consagrados como tais – que, se deixou um gosto de vazio nas bocas ianques, mas que pelo menos legou “Três reis”, um dos filmes mais alucinados de 1999, que brinca no tênue limite entre o deboche inteligente e a seriedade que um tema como tal merece. Dirigido pelo desconhecido David O. Russell, que também assina o roteiro - e conseguiu a chance de ser indicado ao Oscar de diretor em 2011 por "O vencedor" - o filme consegue ser chocante, engraçado e dar uma visão completamente inusitada do conflito que jogou americanos em territórios árabes.

Na verdade, o filme começa quando a guerra termina. Às vésperas de embarcar de volta pra casa, o Coronel Archer (George Clooney, cada vez mais à vontade nas telas) junta-se a outros três soldados em uma cruzada pessoal. Ele, o pai de primeira viagem Troy (Mark Whalberg, escolhendo seus papéis com a firmeza de um veterano), o engajado (Ice Cube, hilário) e o atrapalhado (o video-clipeiro que brinca de cineasta Spike Jonze) descobrem um mapa – escondido em um lugar surreal – que dá a exata localização de todo o ouro roubado por Sadam Hussein do povo do Kwait. Dispostos a mudar de vida, eles resolvem buscar o tesouro, batendo de frente com a miséria do povo do Iraque, com a violência com a qual pouco contato tiveram durante as batalhas e com a verdade sobre a guerra criada pelo presidente do país mais poderoso do mundo.



"Três reis" destaca-se também por não pretender levantar nenhuma bandeira politicamente correta. Os protagonistas não são heróis imaculados (muito pelo contrário) e nem tampouco os normalmente vilões na visão norte-americana (os oponentes) são poços de crueldade, ainda que em determinados momentos quase o sejam. Felizmente o humor alucinado do roteiro não permite que a coisa toda seja levada demasiadamente a sério - e a presença de um sensacional George Clooney apenas reitera o tom de brincadeira do filme, cuja edição ágil impede o tédio e foge do tradicional esquema dos filmes de guerra, onde as batalhas são o centro da ação. Talvez incomode os fãs mais aguerridos do gênero, mas pode conquistar a plateia mais afeita a novidades estilísticas.

Longe de ser diversão fácil – ainda que contenha todos os ingredientes necessários a um sucesso de bilheteria (leia-se ação, tiros, humor e atores conhecidos) – “Três reis” destaca-se principalmente por sua coragem em lidar com um tema sério de maneira irreverente, sem nunca deixar-se cair na tentação de apelar para a piada fácil ou tiroteios desnecessários. A violência do filme é cuidadosamente encaixada em momentos-chave para que nunca resvale para o banal e a fotografia estourada de Newton Thomas Sigel colabora para a sensação de calor e sufocamento que o deserto iraquiano passa ao espectador. Mesmo o humor tem seu senso de ironia e amargura que pouco é encontrado em filmes americanos, especialmente nos de guerra. O relativo heroísmo dos soldados, no final, não soa como patriotada barata e sim como questão de humanidade. E a bela canção “In God’s country”, da banda irlandesa U2 fecha a obra com chave de ouro

Monday, May 30, 2011

O RESGATE DO SOLDADO RYAN

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving Private Ryan, 1998, Amblin Entertainment/DreamWorks Pictures, 169min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Robert Rodat. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean Kavanaugh. Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Matt Damon, Jeremy Davies, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Dennis Farina, Paul Giamatti, Ted Danson, Adam Goldberg. Estreia: 24/7/98

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg)

Depois de ter ganho seus esperados (e merecidíssimos!) Oscar por "A lista de Schindler", era esperado que Steven Spielberg entrasse naquele limbo que muitas vezes aprisiona os escolhidos da Academia. A desnecessária continuação de "Jurassic Park" e o sonolento "Amistad" também acenavam em direção a essa possibilidade. Mas eis que, surpreendendo a todos, o homem que foi chamado de "o Peter Pan do cinema" mostrou que sua maturidade artística ainda estava por vir. Novamente visitando a II Guerra Mundial, mas sob uma nova ótica,  Spielberg lançou "O resgate do soldado Ryan", um dos mais espetaculares filmes de guerra da história. Indicado a 11 Oscar e favorito ao prêmio máximo, o assustador retrato do conflito que matou milhares de pessoas pelo mundo bateu de frente com o bonitinho "Shakespeare apaixonado" e foi relegado apenas a quatro prêmios técnicos e a estatueta de melhor diretor. Ainda que o vencedor do ano seja simpático e inteligente, são as imagens fortes e dolorosas de "Ryan" que vão ficar marcadas na história do cinema.

E essas imagens fortes e dolorosas já atingem a plateia em seus primeiros momentos, contrariando a regra de deixar-se o clímax para o final. São vinte minutos de extrema violência mostrada sem poesia e retoques: um pelotão de soldados americanos desembarca na Normandia em de junho de 1945, no famigerado Dia D, e a câmera nervosa de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski jogam o público em um confronto onde sangue, suor, mar e areia se confundem. E é nessa sequência impecável que é apresentando o protagonista, o Capitão John Miller, vivido por um intenso e discreto Tom Hanks, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator. É a Miller que caberá a missão que dará origem à verdadeira trama do filme, escrita com precisão por Robert Rodat (também concorrente à estatueta): como uma espécie de jogada de relações públicas, o exército norte-americano resolve tirar do conflito o único sobrevivente de uma família cujos filhos foram todos vitimados na mesma campanha. Para isso, ordena a Miller que, juntamente com um grupo de soldados escolhidos a dedo, saia à procura do jovem James Francis Ryan (Matt Damon). Mesmo questionando a lógica da missão (arriscar a vida de oito homens para salvar apenas um), Miller tem integridade o bastante para cumprí-la. Sendo assim, une-se a o Sargento Mike Horrath (Tom Sizemore) e a outros recrutas em busca do rapaz.



Como normalmente acontece em filmes de guerra, o destino não é tão importante quanto o percurso. Buscando o paradeiro de Ryan, o Capitão Miller e seus subordinados testemunham os horrores da guerra (como se já não o tivessem sofrido na pele, anteriormente), experimentando toda a sua glória e suas mesquinharias, sua grandiosidade e sua covardia. É sintomático que os próprios soldados tenham personalidades paradoxais, o que incentiva o conflito entre eles mesmo que eles precisem desesperadamente de uma união, por mais frágil que ela possa parecer. Sendo assim estão reunidos o fervoroso católico Daniel Jackson (Barry Pepper) e o furioso judeu Stanley Mellish (Adam Goldberg), o beligerante Adrian Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel de destaque) e o inexperiente Timothy Upham (Jeremy Davies), o médico Irwin Wade (Giovanni Ribisi) e o implicante nova-iorquino Richard Reiben (o diretor e roteirista Edward Burns, muito bem em cena). Unidos como pelotão e sozinhos em suas individualidades, eles apresentam à audiência um retrato fiel e assustador da guerra, deixando pouco espaço para o sentimentalismo típico do cineasta.

A fúria com que "O resgate do soldado Ryan" atinge o espectador é comparável com o enorme sucesso de bilheteria do filme de Spielberg. Apesar de sua violência explícita, o filme arrecadou mais de 200 milhões de dólares somente no mercado americano, tendo mais do que dobrado sua renda ao redor do mundo. Dirigido com um domínio invejável da técnica cinematográfica - sem que a preocupação com as personagens fosse deixada de lado - e dotado de uma força dramática arrebatadora, é um dos filmes indispensáveis dos anos 90 e quiçá o melhor de seu gênero na história do cinema. É, também, o último grande filme de seu diretor até a data. Seu Oscar de direção foi mais do que merecido: foi obrigatório.

Wednesday, September 29, 2010

PECADOS DE GUERRA

PECADOS DE GUERRA (Casualties of war, 1989, Columbia Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Rabe, livro de Daniel Lang. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Peter Hancock, Hugh Scaife. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: Art Linson. Elenco: Michael J. Fox, Sean Penn, John C. Reilly, John Leguizamo, Don Harvey, Thuy Thu Le. Estreia: 18/8/89

Depois da chuva de Oscar e do sucesso de crítica e bilheteria de "Platoon", Hollywood abriu de vez as portas a filmes versando sobre o Vietnã, um tema até então tabu entre os estúdios - ainda que "O franco-atirador" e "Apocalypse now" tenham tido seu quinhão de prestígio. No mesmo ano em que o mesmo Oliver Stone de "Platoon" mostrou outro ângulo do conflito no contundente "Nascido em 4 de julho", outro cineasta de primeiro time embarcou na tendência. Ainda no embalo do merecido sucesso de "Os intocáveis", Brian DePalma comandou "Pecados de guerra", uma história real de crueldade e violência que, apesar de não fazer o devido barulho junto às cerimônias de premiação - nem tampouco nas caixas registradoras - é forte o bastante para ser considerada um dos pontos altos de sua carreira irregular.

No ar nos EUA como um dos protagonistas da série "Caras e caretas" e marcado como o adolescente Marty McFly dos filmes "De volta para o futuro", Michael J. Fox, tentou, em "Pecados de guerra" provar que não era um ator tão limitado quanto seus detratores alegavam (e Sean Penn, seu colega de elenco, utilizava dessas críticas nos bastidores, para provocar reações mais intensas na sua relação no filme, incentivado pelo diretor). Fox vive o jovem soldado Eriksson, mais um entre os milhares de americanos que foram lutar por seu país na guerra do Vietnã. Ético, pacífico e honrado, ele testemunha horrorizado as atrocidades que o conflito desperta na humanidade, tentando compreender o que acontece à sua volta. Sua indignação chega a extremos, no entanto, quando, liderados por um colega de pelotão, o sádico Meserve (Sean Penn), um grupo de soldados sequestra, estupra e mata uma jovem camponesa. Chocado, ele resolve levar a questão a instâncias superiores, mas esbarra na indiferença que norteia os crimes cometidos em nome da paz.

Deixando de lado os movimentos estonteantes de câmera que caracterizaram seus primeiros trabalhos, DePalma atinge, em "Pecados de guerra" um outro nível em sua obra. Confiando na força da história, das personagens e da mensagem pacifista como um todo, o homem que legou ao gênero suspense filmes como "Carrie, a estranha" e "Doublé de corpo" concentra-se mais em criar o clima de desesperança e angústia dos soldados envolvidos no incidente do que em uma edição picotada ou uma violência exarcebada. Apesar de tratar-se de um filme de guerra, o sangue que corre na história de Eriksson não é o sangue de soldados em batalha e sim de civis, de gente inocente vitimizada por um horror sem fim. Sintomaticamente, a cena mais sanguinolenta do filme é a morte estúpida da jovem raptada por Meserve e cia - que tem lugar justamente fora do front propriamente dito.

E em mais um reflexo de sua intenção primordial de escorar sua obra em pessoas reais e não em efeitos de fotografia, DePalma escolheu um elenco não apenas adequado, e sim extremamente inteligente. Se Michael J. Fox sai-se muito bem na pele do atarantado Eriksson, fugindo com competência da persona adolescente forjada por seus papéis mais famosos, seu elenco coadjuvante não fica atrás. John C. Reilly - estreando no cinema - e John Leguizamo - alguns anos antes de seu assustador "Benny Blanco from the Bronx", do filme "O pagamento final", também de DePalma - seguram bem a barra de servir de escada para o duelo entre o protagonista e o "vilão", interpretado por um já sensacional Sean Penn.

Ainda no início de sua carreira - e já dono de uma personalidade forte como intérprete - Penn assusta e fascina como o insensível Meserve, um rapaz transformado em quase-animal que vê na possibilidade de cometer atrocidades e ser perdoado por elas uma forma de legitimar sua falta de humanidade - ele é uma espécie de retrato de uma juventude inconsequente e cruel, vista com complacência por uma sociedade deturpada por valores morais e éticos equivocados.

Ao questionar não apenas a guerra em si mas também as engrenagens que levam humanos a tornarem-se armas beligerantes e amorais diante de situações extremas, "Pecados de guerra" merece ser louvado e admirado.

Monday, August 2, 2010

PLATOON


PLATOON (Platoon, 1986, Orion Pictures, 120min) Direção e roteiro: Oliver Stone. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Georges Delerue. Direção de arte: Bruno Rubeo. Casting: Pat Golden, Warren McLean, Bob Morones. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe, Keith David, Forest Whitaker, Kevin Dillon, Johnnny Depp. Estreia: 19/12/86

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger, Willem Dafoe), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Montagem, Som

Festival de Berlim: Melhor Diretor (Oliver Stone)

Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger)

Até 1986, a visão do público americano frequentador de cinema sobre a guerra do Vietnã havia sido do teor intimista de Michael Cimino e do estilo lisérgico de Francis Ford Coppola. Foi preciso que um ex-combatente de nome Oliver Stone (vencedor de um Oscar de roteiro por "O expresso da meia-noite") comandasse um filme sobre o assunto para que finalmente a plateia tivesse uma visão realista do conflito. Os elogios rasgados da crítica, o sucesso de bilheteria e os 4 Oscar conquistados (inclusive de filme e direção) por seu "Platoon" mostraram que já estava mais do que na hora.

Utilizando de sua experiência em combate e de suas lembranças pessoais, Stone carregou "Platoon" de um humanismo e uma violência física e psicológica que, ao contrário de filmes como "O franco-atirador" e "Apocalypse now" não busca subterfúgios românticos ou psicodélicos: seu ponto de vista da guerra mais vergonhosa perdida pelos EUA é seco e contundente, ainda que não totalmente desprovido de uma espécie de sentimentalismo que fala direto ao coração do público - em especial o americano.

"Platoon" é narrado através do ponto de vista do novato Chris Taylor (Charlie Sheen em papel que ecoa o trabalho de seu pai Martin em "Apocalypse"), um jovem voluntário que, tão logo chega ao Camboja, em setembro de 1967, vê o tamanho da encrenca em que se meteu. A princípio descrevendo o tédio e os horrores que dividem seu tempo em cartas à avó, ele desiste de mantê-la informada da real face da guerra quando percebe que, mais do que um violento conflito entre dois países, ele está testemunhando um drama bem mais pessoal: uma rixa pessoal entre o beligerante Sargento Barnes (Tom Berenger) e o ético Sargento Elias (Willem Dafoe).

O mais inteligente no roteiro de "Platoon" é a sua capacidade de equilibrar a disputa entre Barnes e Elias pela "alma" de Taylor e a maneira com que o rapaz vai tomando contato com toda a truculência e inutilidade da guerra. Cenas de grande impacto visual e emocional são apresentadas por Stone sem sentimentalismo, em tom quase documental, conduzindo o espectador a uma viagem sem escalas rumo a um inferno real e, pior ainda, quase palpável, graças à fotografia de Robert Richardson. A edição, também premiada com um Oscar, dá um ritmo angustiante à narrativa, assim como a trilha sonora escolhida pelo cineasta, que dialoga magistralmente com as imagens ora úmidas ora sufocantes captadas pela câmera nervosa de Stone.

Mas é em seu elenco que "Platoon" brilha ainda mais intensamente. Espertamente, Oliver Stone embaralhou as cartas na hora de escolher seus protagonistas, oferecendo ao galã Tom Berenger o papel mais odioso - um homem raivoso, cheio de cicatrizes e impiedoso - e ao normalmente vilão Willem Dafoe a compreensiva e honrada personagem que retratava o bem. Nitidamente à vontade, os dois conquistaram indicações ao Oscar por seu trabalho, e fascinam a audiência sempre que estão em cena.

"Platoon" é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema - e abriu a trilogia do diretor sobre o Vietnã (completada com "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra"). Feito com o coração mais do que com a técnica, é uma experiência que transcende o gosto da platéia pelo gênero: é cinema da mais alta qualidade.

Wednesday, June 9, 2010

APOCALYPSE NOW


APOCALYPSE NOW (Apocalypse now, 1979, United Artists/Miramax, 202min) Direção e produção: Francis Ford Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch. Música: Carmine Coppola e Francis Ford Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R. Nelson. Casting: Terry Liebling, Vic Ramos. Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Harrison Ford. Estreia: 10/5/79

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som

Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Som

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes: Melhor Filme

Vencedor de 3 Golden Globes: Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Trilha Sonora


Alguns filmes tem bastidores tão ou mais interessantes do que o produto que chega às telas dos cinemas. Um exemplo óbvio dessa afirmação é "Apocalypse now", que, lançado no festival de Cannes de 1979 tornou-se o primeiro - e até hoje único - filme a abocanhar a Palma de Ouro sem estar terminado. E se for levado em consideração que as filmagens começaram em 1976 nas Filipinas e que foram mais turbulentas que a própria guerra do Vietnã que retrata, percebe-se claramente que a adaptação livre de Francis Ford Coppola do livro "O coração das trevas", de Joseph Conrad é uma das mais problemáticas que se tem notícia. O inferno, no entanto, nesse caso, levou ao paraíso. Eleito em 2007 pelo American Film Institute como o 30º melhor filme da história, além de frequentar com assiduidade as listas dos melhores de qualquer instituição especializada em cinema, "Apocalypse now" é um dos filmes mais importantes realizados em Hollywood, e uma prova do poder de fogo de seu diretor.

Cheio de moral graças ao sucesso merecido dos dois primeiros capítulos da série "O poderoso chefão", Coppola viajou para as Filipinas - mesmo indo contra os conselhos de Roger Corman - para transformar a África do livro de Conrad no Vietnã, cuja guerra estava recém acabada e ainda dolorosamente na vida dos americanos. Seu plano era passar seis semanas filmando. Acabou passando 16 meses de crises pessoais, atrasos no cronograma, estouro de orçamento, imprevistos técnicos e artísticos e principalmente graves problemas de saúde - o ator principal, Martin Sheen, chegou a ter um enfarte (aos 36 anos), devidamente escondido dos executivos que produziam o filme. A epopeia de Coppola em realizar seu filme acabou devidamente registrado por sua esposa, Eleanor, que em 1991 lançou o documentário "O apocalipse de um cineasta", um precioso retrato de uma das mais complicadas filmagens da história do cinema.

Antes que Coppola assumisse o posto de diretor, "Apocalypse now" correu o sério risco de ser assinado por um George Lucas pré-"Star Wars", até que a demora em sua produção acabou empurrando o filme para seu colo. A demora em encontrar um protagonista - Steve McQueen, Al Pacino, Jeff Bridges e um entusiasmado Nick Nolte foram cogitados - seria o menor dos problemas que Coppola iria enfrentar. Mesmo com a saída de Harvey Keitel (substituído por Martin Sheen), as coisas não davam a impressão de que iriam transformar-se no rolo compressor que se tornaram; Sam Bottoms fez a maioria de suas cenas chapado (de speed, LSD ou maconha), Laurence Fishburne mentiu a idade para entrar no elenco(tinha apenas 14 anos), James Caan cobrou demais para participar (um jovem Harrison Ford assumiu seu papel) e Marlon Brando, escalado para o crucial papel de Kurtz foi provavelmente a causa maior do fato do cineasta ter pensado seriamente em suicídio.

A história de "Apocalypse now" começa em 1969. O capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) recebe a missão (absolutamente secreta) de localizar, no Cambodja, o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um genial e condecorado soldado americano que, alegam seus superiores, perdeu a sanidade mental e, liderando um grupo de nativos, vem armando atos de violência e terrorismo nas florestas asiáticas. Willard não apenas tem de encontrar Kurtz, mas também matá-lo. Acompanhado de um grupo de soldados, ele atravessa um rio que não conhece absolutamente - testemunhando atos enlouquecidos de guerra - e chega até as matas onde está seu alvo. Surpreendido e pego como refém, ele vê no homem que procura o retrato do absurdo do conflito.

Na pele do Coronel Kurtz, Marlon Brando mostra porque é um nome ímpar na história da sétima arte. Ao chegar às Filipinas muitos quilos mais gordo, careca e sem ter lido uma única linha do romance de Conrad, o ator despertou a ira de Coppola, mas é inegável que, no momento em que entra em cena, na escuridão planejada por Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia), ele rouba o filme descaradamente. Recitando T.S. Elliot, assustadoramente perturbado e expressando física e psicologicamente os horrores da guerra, seu Coronel Kurtz imediatamente gruda no inconsciente do público como uma das performances mais fascinantes do cinema, dando sentido ao que antes parecia uma viagem alucinógena de Coppola e cia.

Mas afinal de contas, "Apocalypse now" é realmente uma obra-prima? Sim. E não. Sim, porque qualquer filme que apresentasse a atuação arrebatadora de Brando e a fotografia deslumbrante de Storaro e gravasse na memória da audiência sequências tão brilhantes como o ataque aéreo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner mereceria o título. E não, porque obras-primas com falhas dificilmente podem ser chamadas assim. E "Apocalypse" tem algumas falhas. Entre os momentos de brilho absoluto encontram-se cenas simplesmente aborrecidas e lentas, que quebram o ritmo da narrativa - e nem mesmo a versão "Redux" lançada em Cannes em 2001 consegue salvar esses momentos. Seus trinta minutos finais - justamente aqueles em que Brando bota o filme no bolso, apesar do trabalho excelente de Martin Sheen, Dennis Hopper (como um fotógrafo de guerra) e Robert Duvall (como um militar metido a surfista) - compensam qualquer sono, mas ainda assim é um filme que requer mais paciência do que o habitual.

Claustrofóbico, lisérgico, aterrador... são palavras que descrevem o inferno imaginado por Francis Ford Coppola. Mas é a voz de Marlon Brando como Coronel Kurtz que nunca mais sai da mente da audiência: "O horror... o horror..." E dizem que este é o filme que mais perto chega da verdadeira guerra do Vietnã...