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Monday, February 20, 2012

ABAIXO O AMOR

ABAIXO O AMOR (Down with love, 2003, Fox 2000 Pictures, 101min) Direção: Peyton Reed. Roteiro: Eve Ahlert, Dennis Drake. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Larry Bock. Música: Marc Shaiman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Paddy Cullen, Arnon Milchan. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Renee Zellweger, Ewan McGregor, Sarah Paulson, David Hyde Pierce, Tony Randall. Estreia: 09/5/03

Nova York, década de 60. O feminismo ainda é um ideal para a maioria das mulheres americanas, esmagadas pelo machismo latente e nada velado. É nesse ambiente um tanto em combustão que chega a escritora Barbara Novak (Renée Zellwegger), vinda do interior do país para lançar seu livro “Abaixo o amor”, onde incentiva as mulheres a tomarem as rédeas de suas vidas amorosas, profissionais e – por que não? – sexuais. Contando com o apoio de sua editora e amiga Vikki Hiller (Sarah Paulson), ela quase que imediatamente vira sensação na cidade que nunca dorme, principalmente quando vai a uma rede de televisão e dá o nome de um exemplo a ser combatido pela raça fêmea: o repórter, playboy e conquistador Catcher Block (Ewan McGregor). Sentindo-se pessoalmente atingido, uma vez que sua taxa de sedução cai astronomicamente depois da declaração de Barbara, Catcher resolve então virar o jogo: assumindo o nome e a personalidade do astronauta Zip Martin, ele tenta seduzir a escritora, para assim desmascará-la como mais uma mulher que, no fundo, busca o que todas buscam: a felicidade nos braços de um homem.
       
Uma pena que esta divertida comédia romântica tenha se dado tão mal nas bilheterias americanas. Engraçada, criativa e inteligente, ela não conquistou o público ianque, tão mal acostumado a besteiras como as estreladas por rappers e afins. O filme, dirigido pelo pouco conhecido Peyton Reed, na verdade é uma bela e justa homenagem às comédias estreladas por Rock Hudson e Doris Day, nos anos 50, em que uma história de amor quase boba disfarçava, às vezes bem mal, piadas de duplo sentido embaladas em um visual exagerado e que beirava o kitsch. Está tudo isso em “Abaixo o amor”. O roteiro, com ótimos diálogos e situações rocambolescas , a direção de arte cafona e over, o figurino extremamente espirituoso, o visual retrô (a tela dividida em duas quando os personagens estão no telefone, por exemplo), a trilha sonora com standards do jazz da época (em que até Astrud Gilberto dá uma canja, cantando “Fly me to the moon”), os coadjuvantes engraçadinhos (a dupla de amigos, vivida por David Hyde Pierce e Sarah Paulson tem ótimos momentos) e a dupla central, entrosada e com boa química, divertindo-se notadamente com suas atuações afetadas (Renee ainda não havia ganho o Oscar de coadjuvante por “Cold Mountain”, mas já era uma queridinha da crítica americana), além inclusive do logotipo da Fox com seu visual anos 60 e a presença do ator Tony Randall, companheiro fixo de Day e Hudson em seus filmes do gênero.


O que não deu certo, então? Novamente, a falta de boa vontade do público, que não entrou no espírito da brincadeira, não comprou a idéia de um romance aparentemente ingênuo e com sabor de sessão da tarde das antigas. Nem mesmo o capricho da produção (com o figurino confecionado especialmente para o filme e a direção de arte espirituosa) conseguiu chamar a atenção, relegando o trabalho de Reed ao indesejável rol dos injustos fracassos comerciais. Tudo culpa de uma plateia mal-acostumada a produções formulaicas que não ousam com medo de perder público.
Afinal, só mesmo em um filme como “Abaixo o amor”, que não se preocupa com verossimilhança e bobagens do tipo, o final feliz pode ser tão debochado, irônico e até nostálgico. Um filme que merece ser descoberto e apreciado! É só entrar no clima nostálgico e se deliciar.

Thursday, November 17, 2011

FALCÃO NEGRO EM PERIGO

FALCÃO NEGRO EM PARIS (Black Hawk down, 2001, Jerry Bruckheimer Studios, 144min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ken Nolan, livro de Mark Bowden. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Pietro Scalia. Música: Hans Zimmer. Figurino: David Murphy, Sammy Howarth-Sheldon. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Eli Griff. Produção executiva: Branko Lustig, Chad Oman, Mike Stenson, Simon West. Produção: Jerry Bruckheimer, Ridley Scott. Elenco: Josh Hartnett, Ewan McGregor, Tom Sizemore, Eric Bana, William Fichtner, Ewen Bremner, Sam Shepard, Ron Eldard, Ioan Gruffud, Thomas Guiry, Jason Isaacs, Zeljo Ivanek, Orlando Bloom, Tom Hardy. Estreia: 28/12/01

4 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som

Depois de perder um Oscar quase certo pela direção de "Gladiador" - que levou pra casa os prêmios de Melhor Filme e Ator (Russell Crowe) - o cineasta inglês Ridley Scott embarcou numa canoa furada que parecia auspiciosa, a continuação de "O silêncio dos inocentes" chamada simplesmente "Hannibal". Apesar do sucesso comercial, porém, a crítica não gostou nem um pouco da sequência (e estava coberta de razão, uma vez que o filme é tenebroso na pior acepção do termo) e o homem que havia legado ao mundo filmes do porte de "Alien, o oitavo passageiro", "Blade Runner, o caçador de andróides" e "Thelma & Louise" estava em um perigoso momento da carreira (ainda que não pudesse reclamar da bilheteria de seus filmes). Foi então que mais uma vez surpreendeu os fãs com um imponente, violento e realista filme de guerra baseado em fatos reais. "Falcão negro em perigo" não apenas lhe devolveu elogios e uma bela carreira financeira, mas também lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de direção.

Filmado no Marrocos (que faz o papel de Mogadishu, Somália), "Falcão negro em perigo" é um filme caro, produzido por Jerry Bruckheimer, que leu o livro escrito pelo jornalista Mark Bowden antes de sua publicação e adquiriu os direitos imediatamente. Dirigido com realismo e crueza por Scott, é também uma obra que não faz muitas concessões ao comercial, apresentando sequências dolorosas e chocantes e fugindo do tradicional final feliz. "Falcão negro em perigo" não é um filme de Oliver Stone, portanto não há sentimentalismo no roteiro de Ken Nolan, que faz o possível para reduzir 18 horas de combate em palatáveis 144 minutos de duração - e cerca de 100 personagens em aceitáveis 39, vividos por um elenco excelente onde não há protagonistas, ainda que alguns nomes não precisem fazer muito esforço para se destacar.


O principal destaque do elenco de "Falcão negro em perigo" é o australiano Eric Bana, fazendo sua estreia em Hollywood. Recomendado a Scott por Russell Crowe, Bana consegue chamar a atenção da plateia sempre que entra em cena, mesmo que sua personagem não seja exatamente protagonista. Seu carisma esmaga Josh Hartnett (cujo rosto estampa o cartaz, provavelmente na expectativa de chamar a atenção do público feminino) a tal ponto que seu trabalho lhe rendeu convites para protagonizar o "Hulk" de Ang Lee e antagonizar Brad Pitt em "Tróia" (onde mais uma vez roubou a cena com uma personagem e uma atuação muito mais interessantes do que o galã máximo da América). Mas não é apenas o nome de Bana que enfeita os créditos de "Falcão negro em perigo". A seu lado estão nomes fortes como Ewan McGregor, Tom Sizemore, Sam Shepard e Orlando Bloom (além dos ainda pouco conhecidos Ioan Gruffud, Tom Hardy, Jeremy Piven e Hugh Dancy), todos envolvidos em uma trama tão empolgante e tensa que é difícil de crer que realmente tenha acontecido.

Tudo acontece no dia 03 de outubro de 1993, em Mogadishu, na Somália dominada pelo ditador Mohammed Farah Aidid. Um grupo de soldados americanos comandado pelo Major William Garrison (Sam Shepard) é escalado para fazer de reféns dois homens de confiança do ditador, em uma missão que a princípio levaria apenas uma hora. Quando um dos aviões americanos - um Falcão Negro - é abatido, porém, as coisas se complicam e quase 24 horas se passam até que os soldados sejam resgatados das mãos da milícia somali.

É difícil resumir tudo que acontece em "Falcão negro em perigo". O roteiro eletrizante de Nolan, somado à direção inspirada de Scott - chamado pelo elenco de "maestro do caos" durante as filmagens - e à equipe técnica impecável (justamente premiada com os Oscar de edição e som) fazem dele um programa obrigatório aos aficcionados do gênero e àqueles que sabem reconhecer bom cinema.

Wednesday, September 28, 2011

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge, 2001, 20th Century Fox, 127min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin, Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Fred Baron, Martin Brown, Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Kyle Minogue. Estreia: 09/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original

É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.

Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.


Na verdade, o roteiro de Luhrmann e Craig Pearce é apenas uma desculpa para o seu show visual e auditivo. A fotografia de Donald McAlpine aproveita cada ângulo de cada cena para surpreender e entontecer a platéia, deixando-a sem fôlego em números musicais quase inacreditáveis, editados por um insano Jill Bilcock – não à toa tanto a fotografia quanto a montagem foram indicados ao Oscar. O uso quase exaustivo de cores berrantes pode até mesmo ferir uma retina mais sensível, mas a coragem do diretor em abdicar de sutilezas em nome da diversão e do inesperado vale cada minuto. E a direção de arte – de uma criatividade ímpar e premiada com o Oscar, assim como o figurino caprichado – cumpre seu papel com louvor, nunca deixando o público esquecer que está defronte de uma das maiores manifestações de tudo que o cinema de entretenimento pode oferecer - ainda que seja "over" em inúmeros momentos.

E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.

Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.

Tuesday, June 14, 2011

VELVET GOLDMINE

VELVET GOLDMINE (Velvet Goldmine, 1998, Channel Four Films/Goldywn Films/Killer Films/Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Todd Haynes. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: James Lyons. Música: Carter Burwell, Craig Wedren. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Christopher Hobbs. Produção executiva: Scott Meeks, Sandy Stern, Michael Stipe, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Christine Vachon. Elenco: Ewan McGregor, Christian Bale, Toni Colette, Jonathan Rhys-Meyers. Estreia: 06/11/98

Indicado ao Oscar de Figurino

Houve uma época em que o rock - baluarte da rebeldia e da transgressão social/sexual/musical - deixou de ser apenas diversão para exibir sua tendência revolucionária. Espalhafatoso, andrógino e influente, o movimento que convencionou-se chamar de "glam rock" legou ao mundo nomes indispensáveis para o mundo pop, como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed. Esse efervescente período, cuja influência é sentida até hoje nas apresentações de Lady Gaga, por exemplo, é o pano de fundo para um dos mais criativos e excêntricos filmes ingleses dos anos 90. Dirigido pelo ousado Todd Haynes, o misto de drama e musical "Velvet goldmine" disfarça as trajetórias de Bowie, Pop e Reed em um roteiro que mistura rock, liberdade sexual e Oscar Wilde no mesmo pacote. Pode parecer estranho - e é - mas é também fascinante.

Em 1984, Arthur Stuart, um repórter inglês vivido por Christian Bale antes de tornar-se astro, é escalado por seus superiores para descobrir o paradeiro de um antigo astro de rock chamado Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers), que caiu em desgraça no início dos anos 70 depois de forjar a própria morte no palco. A missão aparentemente fútil que o jovem recebe, porém, o faz lembrar de sua adolescência, quando, fã absoluto de Slade, descobriu através dele a sexualidade e a liberdade de expressão e vida. Fascinado com a possibilidade de reviver esse período de sua vida, ele parte atrás das pessoas que podem saber algo sobre o cantor (que desapareceu desde sua falsa morte). Em sua lista estão principalmente Mandy (Toni Colette), a ex-mulher de Slade, e o roqueiro Curt Wild (Ewan McGregor), que teve um tumultuado e criativo relacionamento com ele.

Contando sua história dividindo o presente (1984) com o passado (década de 70), Haynes construiu uma espécie de quebra-cabeça não apenas para seu protagonista mas também para o público, que aos poucos vai descobrindo os acontecimentos que uniram Slade, Mandy e Curt em uma relação tão complexa. Misturando uma estética fake de videoclip (com números musicais excêntricos e sexualmente chamativos) com um drama a respeito da busca pela personalidade, "Velvet goldmine" usa e abusa de seu direito de ser extravagante, embaralhando suas cartas de modo quase anárquico, para o que colabora a engenhosa edição de James Lyons. É somente em sua reta final que a audiência fica realmente sabendo a razão de todo o interesse de Arthur pelo paradeiro de Slade - e o final um tanto ambíguo talvez incomode alguma parcela do público, ainda que desde o início fique claro de que não se trata de um filme convencional.


E convencional é o último adjetivo que pode ser aplicado a "Velvet goldmine". Desde suas primeiras cenas a plateia é convidada a fazer parte da viagem quase surreal proposta pelo cineasta, que começa a contar sua história mostrando a infância de Oscar Wilde (cujos textos estão espalhados pelo roteiro) e depois dando um salto de cem anos à frente. E se Haynes teve coragem de criar um espetáculo tão reluzente teve também a sorte de contar com uma equipe de profissionais acima de qualquer crítica, a começar pelo produtor executivo Michael Stipe, líder e vocalista da banda de rock REM. O figurino genial de Sandy Powell é espalhafatoso como convém (e concorreu merecidamente ao Oscar), a trilha sonora celebra com exatidão o som de sua época e o elenco se entrega com coragem e tesão na brincadeira. Se Toni Colette dá um banho como a complacente e posteriormente amargurada Mandy Slade e Jonathan Rhys-Meyers se sai muito bem em seu primeiro papel de destaque (em uma atuação tão afetada que tem ecos até hoje), são Ewan McGregor e Christian Bale quem se destacam. Bale vive com perfeição as duas fases de sua personagem (de adolescente deslumbrado com as potencialidades de seus desejos ao jornalista quase tímido) e McGregor canta e encanta como o polêmico e sexy Curt Wild. Sem medo algum, o ator de "Trainspotting" se desnuda fisicamente, solta a voz e dá profundidade a uma personagem complexa e controversa.

"Velvet goldmine" definitivamente não é para qualquer público. É necessário interesse no tema, no período retratado, no elenco ou em suas qualidades artísticas para que seja possível admirar todo o conjunto. Mas é um filme que merece ser conhecido nem que seja para não gostar.

Wednesday, April 13, 2011

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA

POR UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA (A life less ordinary, 1997, Channel Four Films/Polygram Filmed Entertainment, 103min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: David Arnold. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Marcia Calosio. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Cameron Diaz, Ewan McGregor, Ian Holm, Holly Hunter, Delroy Lindo, Dan Hedaya, Stanley Tucci, Tony Shalhoub, Timothy Olyphant. Estreia: 24/10/97

Robert Lewis (Ewan McGregor) é um sujeito de pouca sorte. Desacreditado em suas tentativas de tornar-se escritor de um romance trash, ele, no mesmo dia, é abandonado pela namorada (que o deixa pelo professor de aeróbica) e demitido do emprego de faxineiro de uma empresa (sendo substituído por um robô). Indignado com sua situação desesperadora, ele invade o escritório de seu chefe e, ao perceber que nada fará o frio empresário mudar de ideia a respeito de sua dispensa, faz a única coisa que lhe passa na cabeça: sequestra sua filha, a dondoca Celine Naville (Cameron Diaz). A moça, revoltada com o fato de ser obrigada a trabalhar para pagar por seus luxos, une-se então a Robert para arrancar dinheiro de seu pai. O que os dois jovens nem de longe sonham, porém, é que dois anjos bastante atrapalhados - O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo) - tem a difícil missão de fazê-los se apaixonarem um pelo outro, para que não sejam obrigados a viver na Terra pra sempre.
Com essa premissa de novela das sete, a dupla Danny Boyle (diretor) e John Hodge (roteirista) voltou às telas depois do estrondoso sucesso crítico de "Trainspotting", que colocaram seus nomes no mapa da indústria hollywoodiana. Contando ainda com o ator Ewan McGregor (com quem haviam trabalhado ainda em "Cova rasa"), Boyle e Hodge experimentaram, para seu desgosto, o amargo sabor do fracasso. Ignorado pelo público e malhado pela crítica, "Por uma vida menos ordinária" nem de longe causou o mesmo impacto de seus trabalhos anteriores e, pior ainda, foi rechaçado até mesmo pelos fãs mais fiéis do time até então vencedor. Mas afinal de contas, a comédia romântica de Boyle mereceu todo essa vaia generalizada?



É preciso saber se o público - e até mesmo a imprensa - entendeu a proposta do cineasta e seus fiéis asseclas. O que se pode esperar de uma comédia romântica cujos autores deram ao mundo um suspense recheado de humor negro e um drama sobre drogas que foi acusado de glamourizá-las? Obviamente não há, em "Por uma vida menos ordinári"a, cenas daqueles romances melosos que Hollywood costuma empurrar a plateias sedentas por escapismo sentimental. Quando acontece de falarem de amor, logo somos lembrados - pela trilha sonora propositalmente piegas ou pelos absurdos do roteiro - de que estamos diante de um filme que fala de amor, sim, mas da maneira menos convencional possível. Robert e Celine não formam um típico par romântico ele é quase um banana, capaz de desmaiar ao ver sangue, e ela é uma riquinha mimada cujo hobby é brincar de Guilherme Tell (mesmo que corra o risco de ferir o próprio ex-namorado). E o fato de estarem à mercê de dois anjos nada dados a sentimentalismos e capazes de violência física para atingir seus objetivos apenas reitera o tom de brincadeira absoluta. É preciso que se compre a proposta de Por uma vida menos ordinária. E o público, infelizmente, dessa vez não comprou.

Logicamente nem tudo são flores... É necessário admitir que há muitos erros em "Por uma vida menos ordinária", a começar pelo roteiro que, apesar de alguns bons momentos, não chega nem aos pés do brilhantismo de "Trainspotting" e "Cova rasa". As personagens são mal delineadas (talvez de propósito, mas isso não fica exatamente claro) e certas situações não se desenvolvem a contento, dando a impressão de uma colagem de desventuras sem muita conexão. Mas Danny Boyle é visivelmente um diretor muito criativo e isso fica nítido em soluções visuais bastante interessantes, como o céu de um branco absoluto e na sequência musical em que Ewan McGregor e Cameron Diaz parecem se divertir a valer (McGregor inclusive voltaria a demonstrar seus dotes vocais nos filmes "Velvet Goldmine" e "Moulin Rouge"). Somados à atuação delirante de Holly Hunter (de longe a melhor coisa do filme) e à trilha sonora impecável (característica das obras do diretor), esses momentos de criatividade fazem do filme uma agradável experiência. Pode não ser um Danny Boyle dos melhores, mas está longe de ser um dos piores. E tem a simpatia contagiante de Ewan McGregor.

Thursday, March 3, 2011

EMMA

EMMA (Emma, 1996, Miramax Films, 121min) Direção: Douglas McGrath. Roteiro: Douglas McGrath, romance de Jane Austen. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Lesley Walker. Música: Rachel Portman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Michael Howells/Totty Whately. Produção executiva: Donna Gigliotti, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Steven Haft. Elenco: Gwyneth Paltrow, Jeremy Northam, Ewan McGregor, Greta Scaachi, Toni Colette, Alan Cumming, Polly Walker, Juliet Stevenson, Phyllida Law. Estreia: 02/8/96

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical

"Não há nada no mundo mais bonito do que um casal bem formado." Com essa afirmação no mínimo questionável começa "Emma", mais uma adaptação de Jane Austen lançada na década de 90, logo após o sucesso de "Razão e sensibilidade". Adaptado e dirigido por Douglas McGrath - que não passa nem perto do talento de Ang Lee, diretor da produção estrelada por Emma Thompson e Kate Winslet - "Emma" fez uma bilheteria bastante razoável - principalmente se for considerado seu orçamento pequeno - e serviu basicamente para dar a primeira grande chance a Gwyneth Paltrow, que, a despeito de seus detratores, sai-se muito bem no papel-título, uma jovem e simpática alcoviteira que não percebe o amor que está debaixo do seu nariz.

A versão fiel do romance "Emma" - publicado em 1815 - chegou às telas americanas quase um ano depois que sua adaptação modernizada, "As patricinhas de Beverly Hills", alçou Alicia Silverstone à categoria de ídolo adolescente. Bem mais formal e clássico, o filme de McGrath tem um público-alvo mais sofisticado, deixando de lado os modernismos do cinema à MTV para concentrar-se basicamente na história a ser contada. Sua falta de ousadia combina com a suavidade da obra de Jane Austen, mas faz falta o senso delicado de humor de Ang Lee e da roteirista Emma Thompson, que emularam com perfeição a ironia e o sarcasmo adjacentes nos livros da escritora inglesa. "Emma" é bastante fiel ao livro que lhe deu origem, mas, apesar de ser bastante competente, não encanta como "Razão e sensibilidade".

Noiva de Brad Pitt à época das filmagens, Gwyneth Paltrow vive Emma Woodhouse, uma jovem bem-nascida, inteligente e de bom coração que tem como hobby juntar os corações solitários que a rodeiam. Sua principal missão é encontrar o par perfeito para sua amiga Harriet Smith (Toni Collette), que não tem seu mesmo nível financeiro e intelectual. Depois da frustrada tentativa de uní-la ao Reverendo Elton (Alan Cumming), ela insiste em sua busca através das pessoas de seu círculo social, sem perceber que isso a impede de achar um amor para si mesma. Quando a jovem demonstra interesse em um surpreendente pretendente é que Emma descobre que já está apaixonada por ele.



Quem leu o livro de Austen ou assistiu à comédia de Amy Heckerling sabe o desfecho de "Emma". Isso, porém, não impede o espectador de apreciar as inúmeras qualidades do filme de McGrath, que vão desde a belíssima fotografia de Ian Wilson à precisa reconstituição de época - sem contar a trilha sonora vencedora do Oscar. É um filme delicado e sensível, com diálogos engraçados e um elenco notável. Paltrow demonstra uma segurança ímpar no papel central e é cercada de atores que parecem prontos a roubar a cena a qualquer momento. Toni Colette está a quilômetros de distância de seu famoso papel de estreia na comédia dramática "O casamento de Muriel", Ewan McGregor - em vias de tornar-se astro por causa de "Trainspotting" - exercita um lado romântico sedutor inédito em sua carreira e Jeremy Northam abandona a persona cafajeste que vinha demonstrando em uma atuação sutil e encantadora. E seria injusto não citar a química excepcional entre Phylida Law e Juliet Stevenson - mãe e irmã de Emma Thompson na vida real - nos papéis de mãe e filha: enquanto a mãe não fala absolutamente nada o filme todo, a filha é uma matraca incurável e responsável por uma das cenas mais tocantes do longa.

"Emma" é uma deliciosa e fiel adaptação de um dos romances mais queridos da literatura inglesa, que mantém seu frescor até mesmo nos cínicos anos do século XXI. Estrelado por uma Gwyneth Paltrow cuja carreira ascenderia a ponto de lhe dar um Oscar quase inexplicável poucos anos depois, é também um filme capaz de agradar justamente por sua falta de ambições maiores do que simplesmente contar uma bela história de amor.

Tuesday, March 1, 2011

TRAINSPOTTING, SEM LIMITES

TRAINSPOTTING, SEM LIMITES (Trainspotting, 1996, Channel Four Films, 94min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge, romance de Irvine Welsh. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Tracey Gallacher. Produção: Andrew Macdonald. Elenco: Ewan McGregor, Robert Carlyle, Jonny Lee Miller, Ewen Bremner, Kevin McKidd, Kelly Macdonald. Estreia: 23/02/96

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Em 1995, o cineasta inglês Danny Boyle lançou "Cova rasa", um suspense recheado de humor negro que empolgou a crítica e revelou o talento do jovem ator Ewan McGregor. Ao respeitar as regras básicas do gênero incutindo nele referências pop e uma modernidade estilística, Boyle tornou-se um "nome a ser guardado e observado". Por mais ferrenhos que fossem seus admiradores de então, nem mesmo eles poderiam prever o que viria a seguir. "Trainspotting, sem limites", o segundo longa do diretor causou enorme furor já em sua estreia, no Festival de Cannes de 1996. Acusado de ser uma apologia às drogas, o filme chegou aos cinemas americanos cercado de uma controvérsia que só fez aumentar sua popularidade. Exageradamente apelidado de "o 'Laranja Mecânica' dos anos 90", reacendeu a polêmica sobre o papel do cinema na sociedade e sua má influência à juventude. Exagerada ou não, a discussão sobre sua ideologia quase ofuscou as qualidades da obra de Boyle como cinema propriamente dito. Felizmente, muita gente descobriu que, por trás de sua aparente subversão, "Trainspotting" é um grande filme.

Até mesmo a sisuda Academia de Hollywood foi obrigada a dar o braço a torcer, indicando o roteiro de John Hodge - adaptado de um romance estranho e difícil de Irvine Welsh - ao Oscar. Mesmo que não tenha tido a menor chance de vitória - perdeu para o hoje esquecido "Na corda bamba", de Billy Bob Thornton - só o fato de ter rompido o preconceito contra um cinema quase marginal - pelo tema, em especial - já atesta a sua força. Ao encontrar uma linha narrativa em um livro de estrutura quase anárquica, que dá vozes a diversas personagens sem seguir um enredo sólido, Hodge realizou um trabalho impecável e, por incrível que pareça, fiel ao espírito transgressor da obra que lhe deu origem. E, obviamente, contar com a criatividade avassaladora de Danny Boyle na direção só ajudou.


À primeira vista, "Trainspotting" acompanha a trajetória de um grupo de jovens escoceses viciados em heroína. Uma análise mais cuidadosa, porém, revela uma poderosa crítica à sociedade de consumo e à hipocrisia reinante não apenas no país, mas de maneira geral. O protagonista, Mark Renton (Ewan McGregor) é um rapaz que tem como principal mote de sua existência o niilismo absoluto: usuário de drogas, ele se vê repentinamente se forçando a abandonar o vício ao ser preso pelo roubo em uma loja. Passando por uma tenebrosa crise de abstinência, ele conta com a ajuda (ou não) de seu grupo de amigos: o galã Sick Boy (Jonny Lee Miller), o psicótico Begbie (Robert Carlyle), o também viciado Spud (Ewen Bremner) e o romântico Tommy (Kevin McKidd). O filme mostra como Renton busca fugir da vida de drogado - e consequentemente mergulhar no capitalismo que tanto despreza - através de uma série de anedotas e acontecimentos engraçados/chocantes/trágicos.

O que talvez tenha incomodado tanto os censores de plantão seja a absoluta falta de vontade de Hodge, Welsh e Boyle de utilizar "Trainspotting" como uma lição de moral. Não é verdade que o filme exalte o uso de drogas, ainda que Renton descreva a sensação de estar chapado como "mil vezes melhor que seu melhor orgasmo". Tampouco é panfletário, mesmo que apresente algumas cenas chocantes e trágicas - algumas embaladas em um visual atraente e criativo, mas mesmo assim bastante fortes. Não existe certo e errado na história de Irvine Welsh, apenas situações que, extremas, obrigam suas personagens a tomar decisões quase definitivas. Mas é inegável que, por trás de bebês mortos e mergulhos em sanitários imundos, existe um fator que desequilibra a balança: ao utilizar uma trilha sonora vibrante, atores atraentes e um irresistível humor negro para contar sua história, Boyle de certa forma reveste de um certo glamour o mundo das drogas. Mas aí a velha questão volta a martelar: o cinema tem a obrigação de educar ou é apenas um espelho da sociedade? Ou ainda: depois de todo esse bafafá... "Trainspotting" é ou não um bom filme?

A resposta é clara: um sonoro SIM. "Trainspotting" tem um roteiro diferente do corriqueiro, um elenco brilhante (liderado por um magérrimo e dedicado Ewan McGregor), uma trilha sonora antenada (que não saiu das pistas de dança por bons meses) e uma edição desenfreada mas nunca confusa ou sufocante. Dirigido com firmeza por um Danny Boyle no auge de seu vigor criativo - que lhe daria um Oscar pelo bom mas menor "Quem quer ser um milionário?" - é um retrato de sua época e de uma juventude que não estava disposta a sentar em frente a uma TV se alimentando de comida enlatada. Se isso incomodou tanto, é porque tocou em uma ferida muito sensível da sociedade dos anos 90. Isso é cinema!

PS: Visitem meu outro blog e leiam uma outra visão minha do filme:

http://lennysmind.blogspot.com/2010/03/filmes-que-mudaram-minha-vida.html