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Wednesday, September 28, 2011

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge, 2001, 20th Century Fox, 127min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin, Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Fred Baron, Martin Brown, Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Kyle Minogue. Estreia: 09/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original

É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.

Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.


Na verdade, o roteiro de Luhrmann e Craig Pearce é apenas uma desculpa para o seu show visual e auditivo. A fotografia de Donald McAlpine aproveita cada ângulo de cada cena para surpreender e entontecer a platéia, deixando-a sem fôlego em números musicais quase inacreditáveis, editados por um insano Jill Bilcock – não à toa tanto a fotografia quanto a montagem foram indicados ao Oscar. O uso quase exaustivo de cores berrantes pode até mesmo ferir uma retina mais sensível, mas a coragem do diretor em abdicar de sutilezas em nome da diversão e do inesperado vale cada minuto. E a direção de arte – de uma criatividade ímpar e premiada com o Oscar, assim como o figurino caprichado – cumpre seu papel com louvor, nunca deixando o público esquecer que está defronte de uma das maiores manifestações de tudo que o cinema de entretenimento pode oferecer - ainda que seja "over" em inúmeros momentos.

E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.

Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.

Saturday, March 12, 2011

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

Friday, December 3, 2010

VEM DANÇAR COMIGO

VEM DANÇAR COMIGO (Strictly ballroom, 1992, Miramax Films, 94min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Steve Mason. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin, Martin Brown. Casting: Faith Martin, Fiona McConaghy. Produção executiva: Antoinette Albert. Produção: Tristam Miall. Elenco: Paul Mercurio, Tara Morice, Bill Hunter, Pat Thomson. Estreia: 20/8/92

Uma frase repetida constantemente em "Vem dançar comigo" é "Viver com medo é viver pela metade!". A julgar pelo resultado final de seu primeiro longa-metragem, o diretor australiano Baz Luhrmann leva o ditado ao pé da letra. Poucas vezes se viu uma obra tão exagerada em todos os sentidos, desde o visual até a interpretação do elenco, passando por uma trilha sonora que mistura sem pudor música clássica, canções pop e ritmos latinos. O que é mais estranho, no entanto, é que essa mistura toda, ao invés de resultar num samba do crioulo doido, deu muito certo. Despretensioso, alegre e contagiante, "Vem dançar comigo" é um dos mais criativos musicais de sua época, e muito de sua qualidade vem justamente dessa diversidade toda.

Ao contar a velha história do patinho feio, dessa vez tendo como cenário o mundo da dança de salão, Luhrmann abraça com carinho e coragem todos os clichês possíveis e imagináveis, sem medo de ser cafona e redundante. A trama centra-se em Scott Hastings (o dançarino até então desconhecido Paul Mercurio), um jovem que sonha tornar-se campeão do Festival Pan-pacífico de Dança de Salão. Talentoso ele é, mas teimoso também: para desespero de sua mãe (a deliciosamente over Pat Thompson, que morreu antes da estreia do filme), ele insiste em utilizar, durante os concursos, passos inovadores e que fogem das tradições da austera Academia de Dança. Sem parceira para acompanhá-lo no concurso que se aproxima - todas fogem de sua criatividade exarcebada - ele acaba aceitando treinar a novata e feiosa Fran (a também novata e feiosa Tara Morice) e, juntos, o ídolo da escola de dança e a tímida descendente de uma família latina aparentemente rígida mas convenientemente apaixonada por música tentam romper a barreira do preconceito e surpresa... se apaixonam!


Desde as primeiras cenas nota-se que "Vem dançar comigo" irá subverter as regras que carinhosamente apresenta. Com uma fotografia inteligente de Steve Mason, que valoriza as cores quentes da cenografia e dos figurinos, ambos de uma estética kitsch de causar orgulho a Pedro Almodovar, o filme foge do lugar-comum ao evitar paisagens do entardecer e bobagens românticas afins. Os clichês utilizados por Luhrmann ficam por conta do roteiro melodramático e com reviravoltas dignas de novelas mexicanas, com suas personagens maniqueístas e com o esperado final feliz, onde todos se confraternizam em um clímax alto-astral, inclusive os vilões (que, diga-se de passagem, se regeneram como em todo bom e absurdo filme romântico).


Bem-humorado sem ser pateta, romântico sem ser meloso e repleto de clichês mas construído sem levar-se muito a sério, "Vem dançar comigo" ainda conta com uma trilha sonora costurada exemplarmente pelo diretor (que refinaria a receita até o magnífico "Moulin Rouge", oito anos mais tarde): ao lado de "Carmen", de Bizet, pode-se ouvir "Quizás, quizás, quizás" entoada por Doris Day, "Time after time", clássico de Cyndi Lauper em nova gravação e até mesmo a encantadora "Love is in the air" na voz do então sumido John Paul Young. A trama pode até não ser exatamente surpreendente, mas a criatividade do filme de Baz Luhrmann reside majestosa em seu visual e na sua coragem de assumir seu lado brega.