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Wednesday, February 22, 2012

AOS TREZE

AOS TREZE (Thirteen, 2003, Fox Searchlight Pictures, 100min) Direção: Catherine Hardwicke. Roteiro: Catherine Hardwicke, Nikki Reed. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Nancy Richardson. Música: Mark Mothersbaugh, Brian Zarate. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Carol Strober/Dorit Oberman. Produção executiva: Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Holly Hunter. Produção: Jeffrey Levy-Hinte, Michael London. Elenco: Evan Rachel Wood, Nikki Reed, Holly Hunter, Jeremy Sisto, Deborah Kara Unger. Estreia: 12/6/03

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Holly Hunter)

Ao contrário de “Kids”, de Larry Clark, que em 1994 mostrou-se mais marketing do que cinema, este “Aos treze” é um chocante retrato da adolescência média não só americana, mas ocidental. Sem perder tempo com julgamentos morais, a câmera da diretora Catherine Hardwicke - que depois perderia o respeito assinando o primeiro filme da série "Crepúsculo" - percorre a trilha de suas protagonistas como uma testemunha muda, vacilante e talvez até chocada, para o que contribui a inspirada fotografia de Elliot Davis, estourada em certos momentos para dar o clima quase claustrofóbico que se instala em determinados momentos da ação.
          
Aos treze anos de idade, a sensível Tracey (Evan Rachel-Wood) é um exemplo de dedicação aos estudos e é o orgulho de sua mãe, Melanie (Holly Hunter), uma cabeleireira ex-alcóolatra que vive um romance com um rapaz mais jovem (Jeremy Sisto) com problemas com drogas. Sentindo-se rejeitada pelas colegas mais descoladas, Tracey faz amizade com Evie (Nikki Reed), a garota mais popular da escola. Acontece que Evie não é nenhuma flor que se cheire. Sexy e independente, ela consome e vende drogas, usa o sexo como argumento em todas as ocasiões possíveis, bebe e não é exatamente um exemplo a ser seguido. Mas é ela que Tracey escolhe como modelo de vida, o que a acaba levando para um caminho aparentemente sem volta.
        
O roteiro do filme, feito a quatro mãos pela diretora e pela atriz Nikki Reed, que interpreta a má companhia Evie, não tenta buscar explicações para o que acontece, não justifica os atos das personagens e nem força um final feliz. Foi escrito com veracidade, força e energia, elementos que transparecem em cada cena. E, se o roteiro é marcante, muito mais são as atuações do elenco. Se Evan Rachel Wood aparece como uma refrescante atriz adolescente a surgir em Hollywood, é a também produtora executiva do filme, Holly Hunter (indicada ao Oscar por sua irrepreensível interpretação) que brilha a cada vez que aparece em cena, demonstrando que seu talento é inversamente proporcional a sua baixa estatura.
        
Para quem quer assistir a um filme importante mas sem o ranço politicamente correto que assola o cinema americano, “Aos treze” é garantia de 100 minutos de qualidade artística e relevância social. Imperdível.

Tuesday, February 21, 2012

AS INVASÕES BÁRBARAS

AS INVASÕES BÁRBARAS (Les invasions barbares, 2003, Canadá, 99min) Direção e roteiro: Denys Arcand. Fotografia: Guy Dufaux. Montagem: Isabelle Dedieu. Música: Pierre Aviat. Figurino: Denis Sperdouklis. Direção de arte/cenários: François Séguin/Patrice Bengle, Annika Krausz. Produção: Daniel Louis, Denise Robert. Elenco: Rémy Girard, Stéphane Rousseau, Marie-Josée Croze, Marina Hands, Yves Jacques. Estreia: 21/5/03 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Festival de Cannes: Melhor Atriz (Marie-Josée Croze), Melhor Roteiro

Normalmente, quando vai escolher o vencedor do Oscar na categoria de Melhor Produção Estrangeira a Academia de Hollywood gosta de praticar a política de boa vizinhança ou optar por filmes de países cuja relevância política e/ou social esteja em voga no momento. Felizmente quando este “As invasões bárbaras” estava no páreo não houve nenhum tipo de polêmica. Um dos mais belos produtos cinematográficos do ano, o filme do canadense Denys Arcand emociona e faz pensar sem apelar para sentimentalismos baratos, graças a um roteiro equilibrado e atuações acima de quaisquer críticas.

Espécie de continuação de “O declínio do império americano”, realizado por Arcand em 1986 – cujos personagens retornam aqui, mais velhos e um tanto mais cínicos – o filme que ganhou dois prêmios em Cannes – roteiro e atriz (Marie-Josée Croze) – conta uma história triste e melancólica, mas com um senso de esperança raramente visto em produções comerciais, sejam elas de que país forem. E talvez justamente por tratar de temas tão universais como amor entre amigos, família e aos ideais, “As invasões bárbaras” tenha conquistado tanta atenção e provocado tantas lágrimas.

 

A trama começa quando o bem-sucedido empresário Sebastien (Stephane Rousseau), que trabalha no mercado financeiro de Londres, é chamado de volta ao Canadá por sua mãe, que o avisa que seu pai está seriamente doente, precisando de um tratamento para seus últimos momentos. O pai de Sebastien é Remy (o extraordinário Remy Girard), um professor universitário socialista que já teve seus dias de conquistador e que agora vive um casamento quase de aparência com sua nem tão compreensiva mulher. Mesmo sentindo que seus dias estão no fim, ele reluta em aceitar a ajuda do filho – que em sua concepção não passa de um materialista colonizador - em pagar seu tratamento. No entanto, as coisas começam a mudar quando recebe a visita de seu grupo de antigos amigos, todos intelectuais tentando lidar com a passagem do tempo e com a destruição de seus sonhos políticos e sociais. Entre lembranças divertidas com seus amigos e discussões ferrenhas com o filho, Remy ainda faz duas amizades no hospital: uma enfermeira paciente e dedicada e a filha de uma amiga, uma jovem viciada em heroína que encontra nele a inspiração para deixar as drogas.

O roteiro de “As invasões bárbaras” é um primor de delicadeza, inteligência e de um eruditismo que nem de longe soa como pedante. Ao confrontar suas personagens – mais maduras e consequentementes com suas próprias cargas de perdas pessoais e espirituais – com a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte, Denys Arcand de uma certa forma faz o inventário de uma geração, sem precisar apelar para lágrimas fáceis. Nem mesmo as cenas entre pai e filho, de uma beleza pungente, consegue tirar a sensação de uma pequena obra-prima sobre as coisas boas da vida. Um filme para ver e rever sempre!

Monday, February 20, 2012

ABAIXO O AMOR

ABAIXO O AMOR (Down with love, 2003, Fox 2000 Pictures, 101min) Direção: Peyton Reed. Roteiro: Eve Ahlert, Dennis Drake. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Larry Bock. Música: Marc Shaiman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Paddy Cullen, Arnon Milchan. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Renee Zellweger, Ewan McGregor, Sarah Paulson, David Hyde Pierce, Tony Randall. Estreia: 09/5/03

Nova York, década de 60. O feminismo ainda é um ideal para a maioria das mulheres americanas, esmagadas pelo machismo latente e nada velado. É nesse ambiente um tanto em combustão que chega a escritora Barbara Novak (Renée Zellwegger), vinda do interior do país para lançar seu livro “Abaixo o amor”, onde incentiva as mulheres a tomarem as rédeas de suas vidas amorosas, profissionais e – por que não? – sexuais. Contando com o apoio de sua editora e amiga Vikki Hiller (Sarah Paulson), ela quase que imediatamente vira sensação na cidade que nunca dorme, principalmente quando vai a uma rede de televisão e dá o nome de um exemplo a ser combatido pela raça fêmea: o repórter, playboy e conquistador Catcher Block (Ewan McGregor). Sentindo-se pessoalmente atingido, uma vez que sua taxa de sedução cai astronomicamente depois da declaração de Barbara, Catcher resolve então virar o jogo: assumindo o nome e a personalidade do astronauta Zip Martin, ele tenta seduzir a escritora, para assim desmascará-la como mais uma mulher que, no fundo, busca o que todas buscam: a felicidade nos braços de um homem.
       
Uma pena que esta divertida comédia romântica tenha se dado tão mal nas bilheterias americanas. Engraçada, criativa e inteligente, ela não conquistou o público ianque, tão mal acostumado a besteiras como as estreladas por rappers e afins. O filme, dirigido pelo pouco conhecido Peyton Reed, na verdade é uma bela e justa homenagem às comédias estreladas por Rock Hudson e Doris Day, nos anos 50, em que uma história de amor quase boba disfarçava, às vezes bem mal, piadas de duplo sentido embaladas em um visual exagerado e que beirava o kitsch. Está tudo isso em “Abaixo o amor”. O roteiro, com ótimos diálogos e situações rocambolescas , a direção de arte cafona e over, o figurino extremamente espirituoso, o visual retrô (a tela dividida em duas quando os personagens estão no telefone, por exemplo), a trilha sonora com standards do jazz da época (em que até Astrud Gilberto dá uma canja, cantando “Fly me to the moon”), os coadjuvantes engraçadinhos (a dupla de amigos, vivida por David Hyde Pierce e Sarah Paulson tem ótimos momentos) e a dupla central, entrosada e com boa química, divertindo-se notadamente com suas atuações afetadas (Renee ainda não havia ganho o Oscar de coadjuvante por “Cold Mountain”, mas já era uma queridinha da crítica americana), além inclusive do logotipo da Fox com seu visual anos 60 e a presença do ator Tony Randall, companheiro fixo de Day e Hudson em seus filmes do gênero.


O que não deu certo, então? Novamente, a falta de boa vontade do público, que não entrou no espírito da brincadeira, não comprou a idéia de um romance aparentemente ingênuo e com sabor de sessão da tarde das antigas. Nem mesmo o capricho da produção (com o figurino confecionado especialmente para o filme e a direção de arte espirituosa) conseguiu chamar a atenção, relegando o trabalho de Reed ao indesejável rol dos injustos fracassos comerciais. Tudo culpa de uma plateia mal-acostumada a produções formulaicas que não ousam com medo de perder público.
Afinal, só mesmo em um filme como “Abaixo o amor”, que não se preocupa com verossimilhança e bobagens do tipo, o final feliz pode ser tão debochado, irônico e até nostálgico. Um filme que merece ser descoberto e apreciado! É só entrar no clima nostálgico e se deliciar.

Thursday, February 16, 2012

X-MEN 2

X-MEN 2 (X2, 2003, 20th Century Fox, 133min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, David Hayter, estória de Zak Penn, David Hayter, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Stan Lee, Bryan Singer. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Famke Janssen, James Marsden, Brian Cox, Rebecca Romjin-Stamos, Anna Paquin, Ellen Page, Alan Cumming, Aaron Stanford, Shawn Ashmore. Estreia: 28/4/03

Nada como um sucesso arrebatador de crítica e público pra dar confiança a um diretor ainda hesitante. Quando dirigiu o primeiro “X-Men” Bryan Singer ainda titubeava em sua busca de agradar aos fãs – fanáticos seria uma palavra mais adequada – dos quadrinhos e atingir a uma plateia maior, cujo acesso às histórias publicadas em revistas é mais restrito. O resultado foi elogiado por gregos e troianos, rendeu milhares de dólares e deu ao cineasta – cujo talento já havia sido reconhecido massivamente com “Os suspeitos” – a confiança necessária para que, na continuação inevitável ele realmente fizesse o filme que sonhava. Da maneira que está, “X-Men 2” não é apenas o filme que ELE sonhava e sim o filme que todos os fãs esperavam ansiosamente.

Sem a necessidade de apresentar seus personagens, já conhecidos e aprovados em seus respectivos intérpretes, a trama já começa a todo vapor. A invasão da Casa Branca por um novo mutante – vivido por Alan Cumming – empurra a narrativa em várias direções, todas absolutamente bem dosadas e equilibradas pelo roteiro extraordinário. Graças a este roteiro, várias histórias paralelas começam e terminam – algumas de maneira bastante instigantes – sem que nunca nenhuma delas perca o interesse do público. Sendo assim, vemos desde o início da transformação de Jean Grey (Famke Jansen) em Fênix até a união efêmera mas crucial entre os mutantes do mal, liderados por Magneto (o esplêndido Ian McKellen) com a turma pacífica do Professor Xavier (Patrick Stewart) para impedir que as ideias malévolas do cientista William Striker (Brian Cox) os destruam. Striker, aliás, é uma das personagens mais importantes do novo longa, uma vez que tem ligação com a origem de Wolverine (Hugh Jackman, ainda roubando a cena), que finalmente tem a oportunidade de mostrar toda a sua raiva contida em cenas de mais absoluta adrenalina.

Adrenalina, aliás, é o que não falta em “X-Men 2”. Repleto de cenas espetaculares de ação – incluindo uma luta entre Wolverine e a bela e fatal Lady Letal e um clímax extremamente mais potente do que o mostrado no primeiro filme –, a obra de Singer não decepciona nem aos mais afoitos fãs do material original. E se não bastasse corrigir tudo que não era perfeito no primeiro capítulo – efeitos mais elaborados, uma duração maior, mais cenas de ação – o roteiro da segunda parte ainda se dá ao luxo de criar cenas de relevância muito maior do que poderia se esperar, dando ressonância àquele que é provavelmente o subtema mais importante de toda a série: a tolerância às diferenças, tão perfeitamente representadas pelos mutantes e de forma tão divertida.

Mostrando-se uma gloriosa exceção à regra, “X-Men 2” consegue ser ainda melhor que sua primeira parte e escancarou as portas para uma nova continuação. Um filme de ação absolutamente perfeito!

Tuesday, February 14, 2012

IDENTIDADE

IDENTIDADE (Identity, 2003, Columbia Pictures, 90min) Direção: James Mangold. Roteiro: Michael Cooney. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: David Brenner. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cindy Carr. Produção executiva: Stuart Besser. Produção: Cathy Konrad. Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, Rebecca de Mornay, John Hawkes, Alfred Molina, Clea DuVall, John C. McGinley, William Lee Scott, Jake Busey. Estreia: 25/4/03

Como fazer para transformar o que potencialmente seria mais um filme de terror ao estilo da série “Pânico”, em que pessoas morrem violentamente atacadas por um assassino misterioso, em um produto com alcance mais amplo – ou seja, um público acima de 16 anos, que normalmente lota esse tipo de produção? A resposta parece vir em “Identidade”, que, a mortes bem encenadas e um clima de puro suspense, acrescenta um elenco interessante e um roteiro que foge das resoluções fáceis que são o tiro de misericórdia do gênero.
As escolhas não óbvias de “Identidade” já começam pela escalação de seus atores. Liderando uma equipe de bons atores – ao contrário do pastiches de terror recheado de adolescentes sarados e sem conteúdo dramático – está o sempre confiável John Cusack. Na pele de Edward, o chofer de Caroline Suzanne (Rebecca de Mornay, em uma atuação auto-paródica), uma atriz decadente atrás de um novo sucesso, ele mantém a discrição, deixando que a trama, forte e assutadora o bastante, seja o principal elemento de atenção do filme. No roteiro bem orquestrado de Michael Cooney, ele e sua patroa são obrigados a parar em um hotel de beira de estrada durante uma tempestade que não arrefece. No hotel, eles travam conhecimento com um grupo de pessoas bastante diferentes em si: estão lá um jovem casal recém-casado, Giny e Louis (Cléa Duvall e William Lee Scott), a prostituta Paris (Amanda Peet), o gerente falastrão Larry (John Hawkes), um policial escoltando um criminoso (Ray Liotta e Gary Busey) e uma família cuja mãe está ferida devido a um acidente automobilístico na estrada (John C. McGinley, Leila Kenzle e o garoto Bret Loher). Presos no hotel por causa do mau tempo, eles começam a morrer misteriosamente, enquanto passam a descobrir que na verdade podem não estar ali reunidos por coincidência.

 

A atmosfera de “Identidade”, que busca surpreender a plateia não com mortes criativas e sim com viradas realmente empolgantes, é em boa parte cortesia de um visual úmido criado com cuidado pelo diretor James Mangold, que a julgar por seu currículo – ele dirigiu também o drama “Garota, interrompida” e o romance “Kate & Leopold” – transita facilmente entre os mais variados gêneros. E a criação de uma misteriosa trama paralela – onde um assassino condenado à morte (vivido pelo sempre assustador Pruitt Taylor Vince) tenta provar sua insanidade para escapar da execução – apenas soma ainda mais à tensão já existente, uma vez que tentar adivinhar como essa história aparentemente desconexa tem ligação à principal é outro exercício a que a complexa narrativa obriga a plateia, que chega aos créditos finais agradecida por ter sido tratada com um mínimo de inteligência sem que os padrões estéticos do gênero tenham sido agredidos.

Aliás, o respeito com que Mangold trata o gênero suspense é uma das maiores qualidades de "Identidade". Mesmo que seja mais inteligente do que a média, o filme não tem medo de abusar dos clichês, mas sempre tratando-os com cuidado e prendendo a atenção do público. Se a presença de John Cusack no elenco pode sugerir que ele é o herói da trama (o que não é exatamente verdade, uma vez que não há personagens 100% puros na história), o roteiro consegue surpreender com uma reviravolta bastante surpreendente (e que dá espaço para um final impactante mas um tanto forçado). Em "Identidade" nada é exatamente o que parece. E isso é que faz dele um produto capaz de agradar aos fãs do gênero e a quem gosta de um bom entretenimento.

Monday, February 13, 2012

A VIDA DE DAVID GALE

A VIDA DE DAVID GALE (The life of David Gale, 2003, Universal Pictures, 130min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Charles Randolph. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Alex Parker, Jake Parker. Figurino: Jennifer Williams. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Renee Ehrlich Kalfus. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Cage, Alan Parker. Elenco: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney, Cleo King, Gabriel Mann, Matt Craven. Estreia: 21/02/03

Em seu currículo, o cineasta inglês Alan Parker conta com o raivoso “Expresso da meia-noite” (1978), que bradava contra o sistema jurídico e penal da Turquia e gerou controvérsias variadas na época de sua exibição. De lá pra cá, Parker novamente criou obras polêmicas (“Mississipi em chamas”), flertou com o musical (“Fama”, The Commitments, loucos pela fama" e “Evita”) e assinou um dos mais assustadores filmes de terror da história (“Coração satânico”). Dono de um talento inquestionável, ele no entanto amargou um fracasso crítico e de bilheteria com “A vida de David Gale”, que se pretendia um libelo poderoso contra a pena de morte mas acabou morrendo na praia de suas boas intenções. Com menos de 20 milhões de dólares de arrecadação nos EUA, o filme também foi ignorado nas cerimônias de premiações, apesar do elenco estelar, do tema forte e de suas qualidades, praticamente relevadas por seus detratores.   

   
O David Gale do título é um brilhante e respeitado professor de filosofia vivido por Kevin Spacey que vê sua vida virar de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Traído pela esposa e acusado de estupro por uma aluna mal-intencionada, ele perde o emprego e o casamento, deixando-se levar pelo desespero e por problemas com bebidas alcóolicas. Fragilizado, ele acaba se envolvendo com Constance Harraway (Laura Linney), que junto com ele faz parte de um comitê ativo contra a pena de morte. Quando Constance aparece estuprada e morta, Gale é considerado culpado e condenado à morte. Quatro dias antes da execução, ele pede para dar uma entrevista à ambiciosa Bitsey Bloom (Kate Winslet) e a jovem repórter começa a desconfiar que sua certeza acerca da culpa do professor pode estar completamente equivocada e que um inocente pode estar às vésperas de morrer por um crime que não cometeu.

 

Longe de ser um petardo emocional como “Os últimos passos de um homem”, que mexe com mais paixão no assunto da pena capital, “A vida de David Gale” deixa a emoção de lado por um bom tempo, concentrando-se nos mecanismos que levaram o protagonista à delicada situação em que se encontra. Para isso não hesita em apelar para alguns clichês do gênero policial, com reviravoltas finais e um suspense que funciona bastante bem em alguns momentos mas que carece de força em outros. É inegável, no entanto, que o seu final consegue surpreender, principalmente por não ser previsível – apesar de soar um tanto inverossímil em um primeiro olhar.
         
Também é inegável que a maior força de “A vida de David Gale” vem de seu elenco, liderado por atores há muito consagrados e admirados. Kevin Spacey nem precisa se esforçar muito pra mostrar porque é um dos melhores atores de sua geração, principalmente quando interpreta personagens pouco heróicos e bastante comuns. Laura Linney compõe sua Constance com medidas exatas entre lucidez, estoicismo e delicadeza, o que é fundamental para a compreensão de seu destino trágico. Mas é Kate Winslet quem rouba a cena. Na pele da ambiciosa repórter Bitsey Bloom, a atriz inglesa demonstra uma variedade de nuances em sua atuação, tornando crível a sua mudança de atitudes e pensamentos do início ao final do filme, o que talvez Nicole Kidman (a escolha inicial para o papel) não conseguisse com tanta facilidade.
          
“A vida de David Gale” está longe de ser uma obra-prima e nem perto de ser o melhor trabalho da carreira de Alan Parker, mas merece uma segunda chance de ser descoberto e apreciado por suas inúmeras qualidades. Produzido por Nicolas Cage, que acabou deixando o papel principal de lado (assim como o fez George Clooney), é um filme sério e adulto, que mexe com as certezas arraigadas da plateia. Não é todo mundo que faz isso!

Friday, February 10, 2012

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS (How to lose a guy in 10 days, 2003, Paramount Pictures, 116min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Kristen Buckley, Brian Regan, Burr Steers, livro de Michele Alexander, Jeannie Long. Fotografia: John Bailey. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: David Newman. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez. Produção executiva: Richard Vane. Produção: Robert Evans, Christine Peters, Lynda Obst. Elenco: Kate Hudson, Matthew McConaughey, Adam Goldberg, Bebe Neuwirth, Celia Weston, Thomas Lennon, Michael Michele, Shalom Harlow. Estreia: 07/02/03

Uma das maiores dores-de-cabeça dos produtores de comédias românticas deve ser encontrar material que pareça novidade, uma vez que é raro, dentro do gênero, que uma história já não tenha sido contada uma infinidade de vezes, mesmo que de formas variadas. Por isso, não deixa de ser compreensível que a origem de “Como perder um homem em 10 dias” seja um bem-humorado livro de auto-ajuda escrito pelas jornalistas Michelle Alexander e Jeannie Long, que analisa os erros mais graves cometidos pelas mulheres quando iniciam um relacionamento amoroso. Adaptado com um senso de humor impecável e dirigido com relativo bom-gosto por Donald Petrie, o filme fez um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo mais de 100 milhões de dólares somente nos EUA, comprovando a tese de que comédias românticas – em especial as de qualidade – têm um público cativo.

A protagonista do filme é a jornalista Andie Anderson (Kate Hudson, a eterna Penny Lane de “Quase famosos”, substituindo a primeira escolha, Gwyneth Paltrow), que sonha escrever sobre assuntos socialmente relevantes mas que não consegue convencer sua chefe (a ótima Bebe Neuwirth) a liberá-la de seus artigos fúteis na revista feminina onde trabalha. Sua chance vem quando ela recebe a promessa de escolher o tema de seu próximo texto desde que consiga, com sucesso, escrever um artigo chamado “Como perder um homem em dez dias”. Para dar veracidade a sua dissertação, Andie resolve escolher um homem ao acaso, cometer as atrocidades que as mulheres de sua geração costumam cometer e afastá-lo no prazo de pouco mais de uma semana. A vítima escolhida, no entanto, não é o que parece à primeira vista. Benjamin Barry (Matthew McConaughey) é um publicitário que tenciona dar um salto na carreira, deixando pra trás os comerciais de produtos esportivos e assumindo a conta de uma joalheria sofisticada. Para isso ele precisa provar que é capaz de manter uma relação estável por no mínimo dez dias, o prazo proposto por seu chefe para que ele demonstre a capacidade de se envolver com uma mulher. Quando conhece Andie, ele acha que seus desejos se realizaram, mas logo descobre que por trás da carinha de anjo da jovem se esconde um monstro inseguro e obsessivo.
         

Uma das grandes sacadas do filme – e elas são muitas – é deixar com que o público saiba de antemão os objetivos de seus protagonistas, fazendo com que todo mundo se divirta ao máximo com os exageros de Andie e a paciência hercúlea de Benjamin, que, logicamente, se apaixonarão perdidamente durante o percurso para atingir suas expectativas profissionais. Sendo assim, os homens se identificarão com o desespero de Benjamin em perder suas partidas de basquete e suas noites com os amigos e as mulheres rirão de si mesmas ao perceber nas atitudes tresloucadas de Andie o quanto alguns erros são praticamente imperceptíveis em se tratanto de amor.
        
Mas sem dúvida nenhuma o grande trunfo de “Como perder um homem em 10 dias” é seu casal central. Mesmo que o visual moderno e atraente conferido pelo diretor seja extremamente responsável pelo clima romântico de sessão da tarde, é a química entre McConaughey – brilhando como no início de sua carreira – e Kate Hudson – que usa e abusa de seu carisma, improvisando em muitas cenas – que faz com que o filme decole com elegância e requinte. As cenas entre os dois – tanto as românticas quanto as cômicas, em que o timing de Hudson é absolutamente perfeito – são tão deliciosas que fica difícil tirar os olhos da tela. Uma das comédias românticas mais divertidas da última década, que ainda consegue brincar com propriedade com a famosa "You're so vain", de Carly Simon (composta como indireta ao ex Warren Beatty, segundo as más línguas).

PS - Pena que o casal protagonista se empolgou tanto com o sucesso desse filme que alguns anos depois realizou o tenebroso "Um amor de tesouro"...

Wednesday, February 8, 2012

PREMONIÇÃO 2

PREMONIÇÃO 2 (Final destination 2, 2003, New Line Cinema, 90min) Direção: David R. Ellis. Roteiro: J. Mackye Gruber, Eric Bress, estória de J. Mackye Gruber, Eric Bress, Jeffrey Reddick, personagens criados por Jeffrey Reddick. Fotografia: Gary Capo. Montagem: Eric Sears. Música: Shirley Walker. Figurino: Jori Woodman. Direção de arte/cenários: Michael Bolton/Louise Roper. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Matt Moore, Jeffrey Reddick. Produção: Craig Perry, Warren Zide. Elenco: A.J. Cook, Michael Landes, Ali Larter, Jonathan Cherry, Keegan Connor Tracy, Justina Machado. Estreia: 31/01/03

Um dos maiores problemas de um filme original e criativo ser bem-sucedido nas bilheterias é o fato de que em seguida, obrigatoriamente, ele é seguido por uma ou mais sequências que nem sempre cumprem sua premissa original e o que é ainda pior, consegue humilhar a primeira ideia e torná-la tão estúpida quanto qualquer outra. “Premonição 2”, que dá continuidade ao sucesso do primeiro filme, lançado em 2000, não chega a destruir a reputação de seu antecessor graças a alguns bons momentos, mas poderia tranquilamente ser menos clichê e mais apavorante.
        
A história da continuação se passa exatamente um ano depois do início do primeiro filme. Junto a um grupo de amigos, a jovem Kimberly Corman (a fraca A.J. Cook) está indo passar um final de semana no campo quando tem a visão de um enorme engavetamento em uma rodovia expressa, que causará a sua morte e de seus companheiros. Tentando impedir a tragédia, ela apenas consegue salvar a si mesma e algumas pessoas que estavam bloqueadas por sua van, que escapam de um violento acidente que ocorre frente aos olhos de todos. Apavorados e desconcertados, os sobreviventes começam a desesperar-se, no entanto, quando eles passam a morrer em acidentes bizarros e surge a teoria de que, se eles enganaram a morte uma vez, isso não se repetirá e todos irão encontrar um final trágico muito em breve.
         

Em suma, a história de “Premonição 2” apenas repete a obra original. O que faz com que sua qualidade seja inferior é a necessidade quase adolescente do diretor e dos produtores em transformar o que era o diferencial – clima sombrio, tensão constante – em lembrança, dedicando-se quase exclusivamente em criar mortes violentas e bem mais gráficas, em detrimento de um roteiro consistente e verossímil. Apesar de contar com algumas cenas de grande impacto e suspense – apelando para medos primais como dentista e viagens em rodovias – o roteiro conta com alguns diálogos que beiram o medíocre e atuações abaixo da média. A própria conexão com o primeiro da série é bastante fraca, existindo quase que somente para justificar a volta de Clear Rivers (a tenebrosa Ali Larter). Nem mesmo o diálogo em que todas as personagens descobrem seus vínculos com a tragédia do avião mostrado no filme original consegue ser empolgante, já que não há desdobramentos nas cenas seguintes.

No final das contas, “Premonição 2” cumpre o que promete. Tem bastante sangue, muita violência, tensão à vontade e sustos nas horas certas. Mas que fica bem longe da qualidade do primeiro não há a menor dúvida.

Tuesday, February 7, 2012

O NOVATO

O NOVATO (The recruit, 2003, Touchstone Pictures, 115min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Roger Towne, Kurt Wimmer, Mitch Glazer. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Rosenbloom. Música: Klaus Badelt. Figurino: Beatrix Pasztor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Jonathan Glickman, Ric Kidney. Produção: Jeff Apple, Gary Barber, Roger Birnbaum. Elenco: Al Pacino, Colin Farrell, Bridget Moynahan, Gabriel Macht. Estreia: 28/01/03

Revelado por Joel Schumacher no injustamente ignorado “Tigerland – A caminho da guerra”, o irlandês Colin Farrell tornou-se uma das promessas mais quentes de Hollywood. Dirigido por Steven Spielberg em “Minority Report – A nova lei” – onde atuou ao lado de ninguém menos que Tom Cruise – e co-astro de Bruce Willis no drama de guerra militar “A guerra de Hart”, Farrell contracena, em “O novato”, com um dos maiores monstros sagrados do cinema,  Al Pacino. Demonstrando uma segurança ímpar, o jovem ator faz de seu duelo com o veterano astro a maior razão para se assistir a um filme que, a despeito de não ser o filmaço que poderia, cumpre bastante bem seu objetivo de entreter. Assinado pelo mesmo Roger Donaldson do surpreendente "Sem saída" (com um Kevin Costner pré-superapreciação), "O novato" é quase formulaico, mas envolve.

No roteiro, escrito por Robert Towne, Kurt Wimmer e Mitch Glazer, Farrell vive o jovem James Douglas Clayton, um gênio da informática que complementa a renda trabalhando como bartender. Sua vida começa a mudar quando ele é procurado por Walter Burke (um Al Pacino à vontade, mas repleto dos tiques e cacoetes que o vem acompanhando há alguns anos), um chefão da CIA que o recruta para um treinamento na agência. A princípio relutante em aceitar a proposta, Clayton topa o convite quando percebe que ele pode ser a sua chance de desvendar os segredos que cobrem a morte misteriosa de seu pai, que ele acredita ter sido também agente secreto.



 
Levado para o campo de treinamento da agência, conhecido como “A Fazenda”,  Clayton conhece e se envolve com uma colega, a misteriosa Layla Moore (a insípida Bridget Moynahan), enquanto toma conhecimento dos esquemas e das regras que são impostas pela CIA. Depois de ter falhado em uma missão de ensaio, ele volta a sua vida normal, até que Burke mais uma vez o procura, lhe oferecendo uma missão verdadeira, mas potencialmente perigosa: descobrir o nome de um agente duplo que anda contrabandeando informações sigilosas. Entrando no jogo, o rapaz descobre que a principal suspeita é justamente a mulher por quem está apaixonado.  

A bem da verdade, “O novato” começa muito bem, com um empolgante clima de espionagem e uma edição primorosa. O treinamento dos aspirantes a agentes são de deixar qualquer um grudado na poltrona, com diálogos interessantes e atuações hipnotizantes. A segunda metade do filme, no entanto, cai na besteira de tentar surpreender a audiência, com reviravoltas nem sempre bem sucedidas e um final bastante previsível. No entanto, o carisma de Pacino e a estrela ascendente de Farrell (esbanjando charme antes de começar a se perder em inúmeras escolhas equivocadas) seguram com dignidade o rojão e transformam um policial corriqueiro em um filme acima da média.