Showing posts with label KATE WINSLET. Show all posts
Showing posts with label KATE WINSLET. Show all posts

Monday, February 13, 2012

A VIDA DE DAVID GALE

A VIDA DE DAVID GALE (The life of David Gale, 2003, Universal Pictures, 130min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Charles Randolph. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Alex Parker, Jake Parker. Figurino: Jennifer Williams. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Renee Ehrlich Kalfus. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Cage, Alan Parker. Elenco: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney, Cleo King, Gabriel Mann, Matt Craven. Estreia: 21/02/03

Em seu currículo, o cineasta inglês Alan Parker conta com o raivoso “Expresso da meia-noite” (1978), que bradava contra o sistema jurídico e penal da Turquia e gerou controvérsias variadas na época de sua exibição. De lá pra cá, Parker novamente criou obras polêmicas (“Mississipi em chamas”), flertou com o musical (“Fama”, The Commitments, loucos pela fama" e “Evita”) e assinou um dos mais assustadores filmes de terror da história (“Coração satânico”). Dono de um talento inquestionável, ele no entanto amargou um fracasso crítico e de bilheteria com “A vida de David Gale”, que se pretendia um libelo poderoso contra a pena de morte mas acabou morrendo na praia de suas boas intenções. Com menos de 20 milhões de dólares de arrecadação nos EUA, o filme também foi ignorado nas cerimônias de premiações, apesar do elenco estelar, do tema forte e de suas qualidades, praticamente relevadas por seus detratores.   

   
O David Gale do título é um brilhante e respeitado professor de filosofia vivido por Kevin Spacey que vê sua vida virar de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Traído pela esposa e acusado de estupro por uma aluna mal-intencionada, ele perde o emprego e o casamento, deixando-se levar pelo desespero e por problemas com bebidas alcóolicas. Fragilizado, ele acaba se envolvendo com Constance Harraway (Laura Linney), que junto com ele faz parte de um comitê ativo contra a pena de morte. Quando Constance aparece estuprada e morta, Gale é considerado culpado e condenado à morte. Quatro dias antes da execução, ele pede para dar uma entrevista à ambiciosa Bitsey Bloom (Kate Winslet) e a jovem repórter começa a desconfiar que sua certeza acerca da culpa do professor pode estar completamente equivocada e que um inocente pode estar às vésperas de morrer por um crime que não cometeu.

 

Longe de ser um petardo emocional como “Os últimos passos de um homem”, que mexe com mais paixão no assunto da pena capital, “A vida de David Gale” deixa a emoção de lado por um bom tempo, concentrando-se nos mecanismos que levaram o protagonista à delicada situação em que se encontra. Para isso não hesita em apelar para alguns clichês do gênero policial, com reviravoltas finais e um suspense que funciona bastante bem em alguns momentos mas que carece de força em outros. É inegável, no entanto, que o seu final consegue surpreender, principalmente por não ser previsível – apesar de soar um tanto inverossímil em um primeiro olhar.
         
Também é inegável que a maior força de “A vida de David Gale” vem de seu elenco, liderado por atores há muito consagrados e admirados. Kevin Spacey nem precisa se esforçar muito pra mostrar porque é um dos melhores atores de sua geração, principalmente quando interpreta personagens pouco heróicos e bastante comuns. Laura Linney compõe sua Constance com medidas exatas entre lucidez, estoicismo e delicadeza, o que é fundamental para a compreensão de seu destino trágico. Mas é Kate Winslet quem rouba a cena. Na pele da ambiciosa repórter Bitsey Bloom, a atriz inglesa demonstra uma variedade de nuances em sua atuação, tornando crível a sua mudança de atitudes e pensamentos do início ao final do filme, o que talvez Nicole Kidman (a escolha inicial para o papel) não conseguisse com tanta facilidade.
          
“A vida de David Gale” está longe de ser uma obra-prima e nem perto de ser o melhor trabalho da carreira de Alan Parker, mas merece uma segunda chance de ser descoberto e apreciado por suas inúmeras qualidades. Produzido por Nicolas Cage, que acabou deixando o papel principal de lado (assim como o fez George Clooney), é um filme sério e adulto, que mexe com as certezas arraigadas da plateia. Não é todo mundo que faz isso!

Monday, September 5, 2011

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (Quills, 2000, Fox Searchlight Pictures, 124min) Direção: Phillip Kaufman. Roteiro: Doug Wright, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Peter Boyle. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Des McAnuff, Sandra Schulberg, Rudolf Wiesmeier. Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman, Nick Wechsler. Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Stephen Moyer, Amelia Warner, Stephen Marcus. Estreia: 22/11/00

3 indicações ao Oscar: Ator (Geoffrey Rush), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Para T.

Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade foi um dos mais brilhantes escritores que a França conheceu. Aristocrata de nascimento,  Sade tinha no Napoleão Bonaparte um de seus inimigos mais ferrenhos, tendo sido aprisionado diversas vezes não apenas durante o regime do imperador, mas também pelos revolucionários de 1789 – que aparentemente tinham de rebeldes apenas o nome. Quem já teve a oportunidade de ler alguma de suas famigeradas obras – como “Os 120 dias de Sodoma”, “Justine” e “Contos libertinos” – comprovou, sem a menor sombra de dúvida, que mesmo nos dias devassos de hoje, o seu texto, extremamente detalhado e gráfico em suas descrições sexuais, é bastante forte e ainda chocante. Dá pra imaginar, então, o impacto que seus escritos tinham em sua época. E dá também para entender os motivos que levaram o escritor a ser internado em um sanatório e proibido de publicar seus textos. E é precisamente nesse período de sua biografia que se concentra o filme “Contos proibidos do Marquês de Sade”, dirigido com a elegância habitual de Philip Kaufman – que, a exemplo de um seus filmes mais célebres, “Henry & June”, usa o erotismo como aditivo a uma trama já explosiva o bastante.

Baseado em uma peça teatral homônima escrita pelo próprio roteirista Doug Wright, o filme de Kaufman mostra o Marquês (vivido com exuberância pelo ótimo Geoffrey Rush, indicado ao Oscar por seu magnífico trabalho) prisioneiro no asilo Chareton e impedido de publicar seus trabalhos. A proibição, porém, não surte maiores efeitos, pois o escritor consegue contrabandear suas histórias através da bela camareira Madeleine (a sempre excelente Kate Winslet), que, incentivada pela leitura do Marquês, encontra forças para declarar seu amor ao Abade Coulmier (Joaquin Phoenix), responsável pelo sanatório. A repressão ao trabalho do famoso hóspede recrudesce quando chega ao local o radical alienista Royer-Collard (Michael Caine, impecável), enviado pelo próprio Napoleão para calar de vez o escritor.


Amparados por diálogos inteligentes (herança de sua origem teatral) e por uma reconstituição de época competente, Kaufman dirige um elenco de sonhos. O trabalho sensacional de Rush encontra eco na sensível atuação de Kate Winslet, na performance irônica de Michael Caine e um elenco de coadjuvantes sem elos fracos. Até mesmo a edição de Peter Boyle consegue extrair um ritmo cinematográfico de um roteiro que tem nas palavras a base de sua qualidade. São as palavras do Marquês, em busca incessante de exercer seu direito à liberdade de expressão que envolvem as personagem em um ciclo de desejo, inveja e traição que nem mesmo a leveza de seu humor (nigérrimo, obviamente) consegue impedir de chegar a uma tragédia anunciada. São as palavras do autor – sempre verdadeiras, ainda que muitas vezes vulgares e até mesmo excitantes – que criam a atmosfera perfeita para uma desgraça em grande escala que vitima até mesmo as mais inocentes criaturas.

“Contos proibidos do Marquês de Sade” é, sem dúvida, um dos filmes mais impactantes da carreira de Philip Kaufman – e sendo ele o diretor de “A insustentável leveza do ser” isso não é pouca coisa. É um trabalho que consegue ser erótico, sedutor, engraçado e triste sem nunca deixar de ser o que promete desde suas primeiras cenas: um espetáculo ousado e inteligente.

Saturday, April 30, 2011

TITANIC

TITANIC (Titanic, 1997, 20th Century Fox/Paramount Pictures/Lighstorm Entertainment, 194min) Direção e roteiro: James Cameron. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: James Cameron, Richard A. Harris, Conrad Buff. Música: James Horner. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Michael Ford. Produção executiva: Rae Sanchini. Produção: James Cameron, Jon Landau. Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Billy Zane, Gloria Stuart, Bill Paxton, Frances Fisher, Suzy Amis, Victor Garber. Estreia: 14/12/97

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Atriz (Kate Winslet), Atriz Coadjuvante (Gloria Stuart), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 11 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Cameron), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Canção Original ("My heart will go on"), Figurino, Direção de arte/cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (James Cameron), Trilha Sonora Original, Canção Original ("My heart will go on")

Impossível falar em "Titanic" e não afogar-se em números, com o perdão do infame trocadilho. O mais caro filme da história (ao custo de cerca de 200 milhões de dólares), o mais rentável (quase 2 bilhões arrecadados pelo mundo), o recordista em indicações ao Oscar (14, empatado com "A malvada"), o recordista em estatuetas (11, ao lado de "Ben-hur" e "O retorno do rei")... Números e recordes à parte, no entanto, a obra-prima de James Cameron também é, necessário reconhecer, uma das provas de tudo que Hollywood pode oferecer em termos de entretenimento de qualidade. Pode-se falar mal à vontade, mas a história de amor entre o pobretão Jack Dawson e a socialite falida Rose DeWitt Butaker mexe com o coração dos mais sensíveis e o trágico naufrágio oferece adrenalina suficiente aos fãs de filmes de ação. E é justamente esse equilíbrio entre o romance e a catástrofe o ingrediente secreto que transformou o filme de Cameron em fenômeno.

À luz da distância é fácil falar mal de "Titanic". Muitos críticos torcem o nariz para o que consideram uma historinha de amor e tragédia realizada com assustadora competência técnica mas vazia de conteúdo emocional (como se a morte de centenas de pessoas não fosse dramático o bastante). É lógico que, para aqueles que procuram dramas com psicologismos complexos, "Titanic" é absurdamente frívolo, quase banal. Porém, para aqueles que, como a maioria esmagadora dos frequentadores de cinema, procura apenas uma boa história contada de maneira impecável, o romance narrado por Cameron (demonstrando-se um diretor sensível que petardos de ação como os primeiros "O exterminador do futuro" pouco deixavam à mostra) é uma obra-prima absoluta, capaz de emocionar e impressionar em medidas idênticas.



Para quem não sabe - ou seja, para quem voltou à Terra de algum outro planeta - o filme conta a história de amor entre Jack Dawson (Leonardo DiCaprio, em uma atuação carismática) e Rose De Witt Buttaker (Kate Winslet, linda e convincente). Ele é um artista que vive um dia da cada vez, ela uma socialite em vias de entrar em um casamento por conveniência. Eles se conhecem a bordo do Titanic, o maior transatlântico do mundo, em sua viagem inaugural. Enquanto vivem um romance de sonhos - ainda que ameaçado pela diferença social e pelo noivo violento de Rose - eles nem imaginam que o inafundável navio está prestes a morrer no fundo do mar. Ao esbarrar em um iceberg, o Titanic naufraga inexoravelmente, fazendo centenas de vítimas (a maior parte nas classes menos favorecidas). Mais do que proteger seu amor, portanto, Jack e Rose lutam pela própria sobrevivência, testemunhando uma das maiores catástrofes da história.

James Cameron foi de extrema inteligência ao contar sua história da maneira mais simples possível, com uma linguagem que atinge a todo tipo de plateia, independente de classe social ou cultural. A simplicidade do roteiro também dá espaço ao que realmente chama a atenção em "Titanic": a sua supremacia absoluta em termos técnicos e visuais. É difícil ficar indiferente aos efeitos especiais concebidos pelo diretor - que já os havia revolucionado com "O segredo do abismo" e "O exterminador do futuro 2" - e pela grandiosidade do projeto em si. A fotografia exuberante, a reconstituição de época detalhista e o som impecável ficam menores quando assistidos sem o clima de uma sala de cinema (problemas que Blu-ray e TVS de alta definição estão resolvendo maravilhosamente), mas é inegável que tudo no filme é feito para impressionar, para deixar de queixo caído até o mais assíduo cinéfilo. E, convenhamos, o faz com perfeição.

Também é preciso aplaudir o senso de ritmo do cineasta e roteirista. Mesmo que "Titanic" utilize mais de três horas para contar sua história, em nenhum momento torna-se monótono ou cansativo. Logicamente sua primeira parte é mais lenta, ao apresentar as personagens e estabelecer o tom romântico da narrativa - e é nessa primeira hora que DiCaprio e Kate Winslet brilham com suas inspiradas atuações. Quando o naufrágio assume a protagonização, na segunda metade da projeção, o público já está apaixonado por Jack e Rose e embarca sem medo em sua aventura rumo a uma tragédia de proporções gigantescas. E, se deixar a racionalidade de lado, provavelmente irá se emocionar às lágrimas com seu desfecho.

"Titanic" é um clássico de nascimento. Poucas vezes o cinema americano conseguiu unir com tanto talento uma narrativa clássica, uma história real, personagens carismáticos e uma técnica tão brilhante. Falar sobre seu efeito junto à cultura mundial e analisar friamente suas qualidades e defeitos (que existem, é claro) não interfere em absoluto em sua importância na história da sétima arte. É um filme de cabeceira para românticos inveterados.

Friday, February 18, 2011

RAZÃO E SENSIBILIDADE

RAZÃO E SENSIBILIDADE (Sense and sensibility, 1995, Columbia Pictures, 136min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Emma Thompson, romance de Jane Austen. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva. Sydney Pollack. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Emma Thompson, Hugh Grant, Kate Winslet, Alan Rickman, Greg Wise, Gemma Jones, Tom Wilkinson, Emilie François, Imelda Staunton, Hugh Laurie, Imogen Stubbs. Estreia: 13/12/95

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Emma Thompson), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Roteiro


Exatos 184 anos separam a data da publicação do romance "Razão e sensibilidade", da inglesa Jane Austen, da estreia de sua bem-sucedida adaptação cinematográfica, lançada em 1995 e dirigida por um (pasmem!) taiuanês. Nesse meio tempo, a história de duas irmãs de personalidades opostas que buscavam a felicidade do amor teve uma versão para a televisão britância, mas somente com o filme dirigido pelo talentoso Ang Lee a trama tornou-se popular em todo o mundo, dando o pontapé inicial em uma série de vários filmes e minisséries adaptadas da obra da autora - que já havia sido lembrada por Amy Heckerling em "As patricinhas de Beverly Hills", uma mal-disfarçada adaptação de "Emma".

Escrito no longo período de quatro anos e meio, o roteiro de Thompson mantém intactos o romantismo e a ironia da obra de Austen, dando extremo valor à fidelidade ao original literário. Sarcástica como o texto que adaptou, Emma Thompson imprime leveza e modernidade a uma trama que poderia soar anacrônica ou poeirenta a uma plateia acostumada a invasões alienígenas e dinossauros em CGI. Ainda que não tenha chegado nem perto de ser um estrondoso sucesso de bilheteria - rendeu pouco menos de 43 milhões nos EUA - "Razão e sensibilidade" encontrou um lugar cativo junto aos fãs de boas histórias contadas com inteligência e delicadeza. Agradou também a crítica e os membros da Academia, que lhe deram 7 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Por razões que até hoje soam absolutamente idiossincráticas - e que vitimaram Christopher Nolan em 2011 - Ang Lee ficou de fora da briga pela estatueta de Melhor Diretor. Injustiça pura, pois é Lee, com seu olhar estrangeiro, que dá ainda mais consistência ao resultado final de um filme que, utilizando elementos do mais puro folhetim, faz uma crítica ao modo de vida de uma parcela considerável de ingleses vitorianos.

A história criada por Jane Austen - escritora que foi descoberta pelo cinema no final dos anos 90 - começa quando a Sra. Dashwood (Gemma Jones) fica viúva e vê, de uma hora pra outra, seu status social sofrer uma considerável queda. Obrigada a abandonar a propriedade onde morava com as três filhas, ela vai morar em um chalé no interior, sentindo-se humilhada principalmente por Fanny (Harriet Walter), a antipática esposa de seu enteado. Quem mais sofre com essa repentina mudança de classe social são suas filhas, que vêem suas possibilidades de arrumar um bom casamento seriamente ameaçadas. A mais velha, Elinor (Emma Thompson) é uma mulher racional, de bom-senso e discreta, que se apaixona, ao seu estilo calado, por Edward Ferrars (Hugh Grant), irmão de Fanny, sem saber que ele mantém um noivado secreto há alguns anos. A filha do meio, Marianne (Kate Winslet) é o oposto da irmã: passional e calorosa, ela não esconde de ninguém o amor avassalador que sente pelo jovem Wilhougby (Greg Wise), um rapaz de ética duvidosa, e não percebe que desperta sentimentos profundos no sério Coronel Brandon (Alan Rickman).
 
Ainda que a Taiwan do século XX e a Inglaterra do século XIX sejam tão semelhantes quanto água e vinho, Ang Lee - diretor do espetacular "O banquete de casamento", indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro - conseguiu um feito e tanto. É quase impossível acreditar que por trás de "Razão e sensibilidade" não esteja um inglês rigoroso, ao estilo James Ivory, tamanho o grau de verdade e conhecimento de causa impresso em cada cena do filme. Mergulhando sem medo na cultura inglesa da época de Austen, Ang Lee demonstra um absurdo senso de observação e crítica, ainda que carinhoso, das tradições e idiossincrasias de uma sociedade muito distante de sua realidade. E o faz contando com a ajuda de uma equipe de sonhos. A bela fotografia de Michael Coulter deslumbra a plateia mostrando uma Inglaterra bucólica e romântica, com vastos campos verdejantes servindo de cenário aos espirituosos diálogos. A trilha sonora discreta de Patrick Doyle comenta a ação sem roubar a atenção da trama e a reconstituição de época é primorosa - é de chamar a atenção a forma com que Ang Lee comenta, visualmente, a diferença entre as classes sociais do período em um baile de gala. É sutil, mas brilhante, assim como o elenco, escalado com perfeição.


Ainda que não esteja excepcional como costuma estar, Emma Thompson foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação como Elinor, a sensata irmã mais velha - saiu premiada da cerimônia, mas devido a seu roteiro impecável. Hugh Grant e Alan Rickman estão no tom exato de suas personagens, ainda que os homens nas histórias de Austen sejam apenas coadjuvantes de luxo (ou troféus disputados sofregamente). E até mesmo atores que mais tarde se tornariam importantes peças dentro de Hollywood - Hugh Laurie, Tom Wilkinson e Imelda Staunton - dão o ar da graça, em intervenções que vão do dramático ao cômico sem nunca soar exagerado. Mas é Kate Winslet quem se sobressai, dando vida a uma Marianne passional, apaixonada pela vida e incapaz de manter em fogo brando seus sentimentos, mesmo que isso ameaçe seu bem-estar e a maneira com que é vista pela preconceituosa sociedade que a rodeia. Merecidamente indicada à estatueta de atriz coadjuvante - que perdeu para Mira Sorvino, em "Poderosa Afrodite" - Winslet já demonstrava, aos 21 anos, todo o talento que viria a transformar-lhe em uma das mais respeitadas atrizes de sua geração.

"Razão e sensibilidade" é um filme de classe, realizado com capricho e delicadeza. É provavelmente a melhor adaptação de um romance de Jane Austen feita em Hollywood até hoje.

Monday, January 24, 2011

ALMAS GÊMEAS

ALMAS GÊMEAS (Heavenly creatures, 1994, Wingnut Films, 108min) Direção: Peter Jackson. Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh. Fotografia: Alun Bollinger. Montagem: James Selkirk. Figurino: Ngila Dickinson. Direção de arte/cenários: Grant Major/Jill Cormack. Produção executiva: Hanno Huth. Produção: Jim Booth. Elenco: Kate Winslet, Melanie Linskey, Sarah Peirse, Diana Kent, Clive Merrison, Simon O'Connor. Estreia: 16/11/94

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Leão de Prata do Festival de Veneza - Melhor Diretor (Peter Jackson)

Antes de tornar-se milionário com a trilogia "O Senhor dos Anéis" - cujo último filme lhe rendeu inclusive um cobiçado Oscar de diretor - o neozelandês Peter Jackson mostrou ao mundo que, além de comandar batalhas grandiosas e convencer plateias a respeito da existência de hobbits, ele sabia falar de seres humanos. É difícil acreditar que o mesmo homem por trás do tenebroso "Fome animal" - um terror podreira repleto de vísceras e humor negro - é o mesmo responsável por "Almas gêmeas", um filme que mantém uma delicadeza feminina e etérea até mesmo em seus momentos mais crus e tensos. Baseado em um fato real e indicado ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o incensado "Pulp fiction" - "Almas gêmeas" é a obra-prima de um cineasta cujas criatividade e imaginação são absolutamente inegáveis.

A história de "Almas gêmeas" se passa em Christchurch, uma pequena cidade da Nova Zelândia, e começa em 1952. A adolescente Pauline Parker (Melanie Lynskey), tímida e retraída, conhece e se encanta por sua cosmopolita colega de classe, a bela, milionária e culta Juliet Hulme (Kate Winslet). Entre as duas nasce uma imediata identificação, apesar de seus modos de vida totalmente opostos - enquanto Pauline vive em uma pensão de propriedade de seus pais, Juliet conhece o mundo todo graças a seus pais, parte da alta sociedade do país. A amizade entre elas começa a ficar mais intensa à medida em que elas entram em uma sintonia cada vez maior, a ponto de criarem um mundo à parte, onde podem exercitar sua imaginação fértil e um tanto distorcida. No entanto, quando os pais de Juliet resolvem se divorciar e consequentemente separar as duas amigas, o relacionamento entre as duas adolescentes começa a preocupá-los. Decididas a nunca mais se separarem, Juliet e Pauline tem, então, uma terrível ideia: acreditando que o maior obstáculo a sua relação é Honora (Sarah Peirse), a mãe de Pauline, elas tomam a decisão de assassiná-la. Todos os detalhes do plano são contados por Pauline em seu diário.

O roteiro do filme, co-escrito por Jackson e Frances Walsh é de uma inventividade ímpar. Ao invés de simplesmente narrar os acontecimentos que levaram à tragédia, os roteiristas dissecam as personalidades doentias, românticas e desesperadas de suas protagonistas com um carinho tétrico, um olhar assombrado mas fascinado e principalmente deixam-se levar pela mais alucinada fantasia. Juliet e Pauline tem um universo particular, o Quarto Mundo, onde, segundo elas, só existe lugar para o prazer e a arte, esta última representada pela Santíssima Trindade - o tenor Mario Lanza, o ator James Mason e o adorado Orson Welles, por quem elas nutrem uma relação de amor e ódio (a sequência em que elas imaginam estar sendo perseguidas pela personagem de Welles no filme "O terceiro homem" é extraordinária e resulta em uma das mais criativas cenas de sexo dos anos 90.

As extraordinárias ideias de Jackson, porém, seriam inúteis se ele não estivesse cercado de gente de muito talento. Tendo a sorte de realizar seu filme na Nova Zelândia, livre de qualquer pressão de executivos tacanhos e mercenários, ele pode escolher seu elenco da maneira que bem quis e o resultado é avassalador: a estreante Melanie Lynskey (escolhida poucos dias antes do início das filmagens) consegue ser fria, assustadora e emotiva de acordo com o momento, comprovando que beleza não põe mesa. E Kate Winslet, que poucos anos depois se tornaria estrela de primeira grandeza (e uma das atrizes mais respeitadas de sua geração) faz uma estreia auspiciosa, injetando força e fragilidade a sua complexa personagem (que hoje em dia é uma escritora de livros policiais, chamada Anne Perry).

"Almas gêmeas" não é e nem quer ser um filme comum. Fala de um relacionamento homossexual, mas passa longe de ser um filme de apelo somente ao mundo GLS. Apresenta um assassinato cruel, mas jamais poderia ser taxado de um filme de suspense. Tem cenas de lágrimas, choros e desespero, mas enquadrá-lo como um drama podaria grande parte de seu poder de fascínio. É um filme para quem gosta de cinema e para quem se dispõe a, por duas horas, se deixar fascinar, encantar e chocar por uma história bem contada.