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Monday, September 5, 2011

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (Quills, 2000, Fox Searchlight Pictures, 124min) Direção: Phillip Kaufman. Roteiro: Doug Wright, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Peter Boyle. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Des McAnuff, Sandra Schulberg, Rudolf Wiesmeier. Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman, Nick Wechsler. Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Stephen Moyer, Amelia Warner, Stephen Marcus. Estreia: 22/11/00

3 indicações ao Oscar: Ator (Geoffrey Rush), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Para T.

Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade foi um dos mais brilhantes escritores que a França conheceu. Aristocrata de nascimento,  Sade tinha no Napoleão Bonaparte um de seus inimigos mais ferrenhos, tendo sido aprisionado diversas vezes não apenas durante o regime do imperador, mas também pelos revolucionários de 1789 – que aparentemente tinham de rebeldes apenas o nome. Quem já teve a oportunidade de ler alguma de suas famigeradas obras – como “Os 120 dias de Sodoma”, “Justine” e “Contos libertinos” – comprovou, sem a menor sombra de dúvida, que mesmo nos dias devassos de hoje, o seu texto, extremamente detalhado e gráfico em suas descrições sexuais, é bastante forte e ainda chocante. Dá pra imaginar, então, o impacto que seus escritos tinham em sua época. E dá também para entender os motivos que levaram o escritor a ser internado em um sanatório e proibido de publicar seus textos. E é precisamente nesse período de sua biografia que se concentra o filme “Contos proibidos do Marquês de Sade”, dirigido com a elegância habitual de Philip Kaufman – que, a exemplo de um seus filmes mais célebres, “Henry & June”, usa o erotismo como aditivo a uma trama já explosiva o bastante.

Baseado em uma peça teatral homônima escrita pelo próprio roteirista Doug Wright, o filme de Kaufman mostra o Marquês (vivido com exuberância pelo ótimo Geoffrey Rush, indicado ao Oscar por seu magnífico trabalho) prisioneiro no asilo Chareton e impedido de publicar seus trabalhos. A proibição, porém, não surte maiores efeitos, pois o escritor consegue contrabandear suas histórias através da bela camareira Madeleine (a sempre excelente Kate Winslet), que, incentivada pela leitura do Marquês, encontra forças para declarar seu amor ao Abade Coulmier (Joaquin Phoenix), responsável pelo sanatório. A repressão ao trabalho do famoso hóspede recrudesce quando chega ao local o radical alienista Royer-Collard (Michael Caine, impecável), enviado pelo próprio Napoleão para calar de vez o escritor.


Amparados por diálogos inteligentes (herança de sua origem teatral) e por uma reconstituição de época competente, Kaufman dirige um elenco de sonhos. O trabalho sensacional de Rush encontra eco na sensível atuação de Kate Winslet, na performance irônica de Michael Caine e um elenco de coadjuvantes sem elos fracos. Até mesmo a edição de Peter Boyle consegue extrair um ritmo cinematográfico de um roteiro que tem nas palavras a base de sua qualidade. São as palavras do Marquês, em busca incessante de exercer seu direito à liberdade de expressão que envolvem as personagem em um ciclo de desejo, inveja e traição que nem mesmo a leveza de seu humor (nigérrimo, obviamente) consegue impedir de chegar a uma tragédia anunciada. São as palavras do autor – sempre verdadeiras, ainda que muitas vezes vulgares e até mesmo excitantes – que criam a atmosfera perfeita para uma desgraça em grande escala que vitima até mesmo as mais inocentes criaturas.

“Contos proibidos do Marquês de Sade” é, sem dúvida, um dos filmes mais impactantes da carreira de Philip Kaufman – e sendo ele o diretor de “A insustentável leveza do ser” isso não é pouca coisa. É um trabalho que consegue ser erótico, sedutor, engraçado e triste sem nunca deixar de ser o que promete desde suas primeiras cenas: um espetáculo ousado e inteligente.

Thursday, June 16, 2011

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

Tuesday, June 7, 2011

ELIZABETH

ELIZABETH (Elizabeth, the Virgin Queen, 1998, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Productions, 124min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasian. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: John Myhre/Peter Howitt. Produção: Tim Beavan, Eric Fellner, Alison Owen. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Joseph Fiennes, Christopher Eccleston, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Vincent Cassell, Daniel Craig, Kelly MacDonald, Emily Mortimer, Eric Cantona, Kathy Burke. Estreia: 13/10/98

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Cate Blanchett), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Cate Blanchett)

É impressionante a capacidade que Hollywood tem de surpreender os fãs de cinema e apresentar astros e estrelas (ou ainda melhor, atores e atrizes de verdade) que surgem aparentemente do nada e se revelam a partir de então indispensáveis. Em 1999 isso aconteceu com uma irlandesa de nome Cate Blanchett. Protagonista de filmes pouco vistos pelo grande público - como "Oscar & Lucinda", com Ralph Fiennes - ela assombrou as plateias com sua impecável atuação em "Elizabeth", dirigido pelo indiano Shekhar Kapur. Na pele de uma das mais conhecidas monarcas do mundo, ela arrebatou um Golden Globe de melhor atriz dramática e deve estar até hoje se perguntando como é que foi perder o Oscar para Gwyneth Paltrow em "Shakespeare apaixonado". Dona de uma beleza não particularmente óbvia, Blanchett é o corpo e a alma do trabalho de Kapur, que, com um roteiro ágil de Michael Hirst, injeta adrenalina e sensualidade em um gênero que sofre grande preconceito da plateia mais jovem: os filmes de época.

Em 1558, a Inglaterra está em um período de grave crise econômica e religiosa, com a divisão violenta entre católicos e protestante. Quando a rainha Mary (Kathy Burke), católica, morre, ela deixa o trono nas mãos de sua irmã bastarda, Elizabeth (Cate Blanchett), filha de Henrique VIII e Ana Bolena. Protestante e portanto considerada herege, a jovem monarca passa a sofrer pressões para casar-se e ter filhos, para afirmar-se como líder de país em vias de entrar em conflito armado. Contando com o apoio do misterioso Sir Francis Walsingham (Geoffrey Rush) e a inimizade declarada do cruel Duque de Norfolk (Christopher Eccleston), ela desdenha da ideia de tornar-se esposa de qualquer homem que não seja aquele por quem é apaixonada, Robert Dudley (Joseph Fiennes).


O roteiro de Hirst acerta em concentrar seu foco nas intrigas palacianas mais do que nos problemas políticos da Inglaterra do período, o que poderia tornar tudo muito enfadonho para quem não tem domínio do assunto. Enquanto Norfolk trama sangrentas campanhas para destituir Elizabeth do trono, ela se deixa fragilizar pelo amor que sente por Dudley, um amor que será fundamental para que ela consiga perceber a importância da lealdade e da fidelidade. A transformação de Elizabeth - de jovem quase ingênua a uma das mulheres mais poderosas do mundo - é o grande trunfo do filme, e essa transição é interpretada com uma segurança ímpar por Blanchett, que lidera um elenco espetacular com desenvoltura e paixão. Ao lado de um discreto Geoffrey Rush (cuja personagem se mantém interessantemente dúbia por boa parte da projeção), de um sedutor Joseph Fiennes e de um assustador Christopher Eccleston, ela comanda um show de história e boa dramaturgia.

A caprichada reconstituição de época de "Elizabeth" é outro destaque do filme. O figurino impecável de Alexandra Byrne e a direção de arte de John Myhre (ambos indicados ao Oscar) não chamam a atenção para si mesmos, o que sempre é bastante elogiável, uma vez que filmes de época em muitas ocasiões dão mais atenção ao visual do que à trama. O castelo da rainha, os calabouços e todos os demais cenários são brilhantes exatamente porque parecem reais e não apenas construções artificiais. E a força da música original de David Hirschfelder dá o tom perfeito para a força da história desde as cenas iniciais que mostram os efeitos da Inquisição até seu desenlace, quando acontece definitivamente o nascimento da Rainha Elizabeth que liderou a Inglaterra até seu áureo período, chamado de "A era de ouro" - e que deu origem a uma sequência, realizada em 2007 sem a mesma qualidade do primeiro capítulo.

"Elizabeth" é um filme adulto, que trata a plateia com respeito e inteligência, sem romancear excessivamente o lado romântico da história e, ao mesmo tempo, buscando a aprovação de um público mais exigente. E é também um dos mais interessantes retratos de uma época fascinante em termos históricos e sociais. Contando ainda com uma avassaladora atuação da grandiosa Cate Blanchett, é programa obrigatório para os fãs do bom cinema histórico.