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Friday, September 23, 2011

CÍRCULO DE FOGO

CÍRCULO DE FOGO (Enemy at the gates, 2001, Paramount Pictures, 131min) Direção: Jean-Jacques Annaud. Roteiro: Jean-Jacques Annaud, Alain Godard. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Noelle Boisson, Humprhey Dixon. Música: James Horner. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Simon Wakefield. Produção executiva: Alain Godard, Roland Pellegrino, Jorg Reichl, Alisa Tager. Produção: Jean-Jacques Annaud, John D. Schofield. Elenco: Jude Law, Joseph Fiennes, Rachel Weisz, Ed Harris, Bob Hoskins, Ron Pearlman. Estreia: 07/02/01 (Festival de Berlim)

Acostumado que está a ver a II Guerra Mundial pelos olhos de seus cineastas, o público americano não ficou exatamente empolgado com a recriação do diretor francês Jean-Jacques Annaud de uma parte importante da história do conflito, passada na Rússia. Dono de um orçamento de quase 70 milhões de dólares - o mais caro filme europeu até então - "Círculo de fogo" nem chegou a se pagar no mercado ianque (e foi praticamente ignorado no Festival de Berlim, onde os alemães não gostaram nem um pouco de se verem como os vilões da trama). No entanto, é inegável que é um dos mais excitantes e inteligentes filmes de guerra da história.

A ação se passa em 1942, quando a cidade de Stalingrado é a última resistência contra a invasão nazista. Espertamente sabendo que os cidadãos precisam de um incentivo para continuar sua luta, o jornalista Danilov (Joseph Fiennes) passa a descrever, em seus artigos, os feitos heróicos de seu melhor amigo, o atirador Vassili Zaitsev (Jude Law), que vem matando atiradores nazistas um a um de forma sistemática. Quando a fama de Vassili atinge os ouvidos alemães, eles não demoram a mandar seu melhor artilheiro, o Major Konig (Ed Harris) para detê-lo. Enquanto os dois homens passam a caçar um ao outro, Danilov tenta seduzir a bela Tania (Rachel Weisz), uma ativista militar apaixonada por Vassili.


Ao situar sua trama em um momento crucial da história da II Guerra Mundial, o diretor Annaud e seu co-roteirista Alain Godard teceram um rico painel sobre classes sociais e paixões de vários tipos - pela pátria, pelos amigos, por ideiais. Em suas duas horas de duração o filme conta várias histórias, todas interessantes e muito bem resolvidas. A amizade entre Danilov e Vassili, ameaçada pela paixão de ambos por Tania é a ponta romântica do roteiro (ainda que alguns insistam em ver algo homoerótico na admiração do jornalista pelo atirador). A iminência da invasão da Rússia pelas tropas de Hitler cumpre a parte de ação do projeto. Mas é a disputa de vaidade e idealismo entre Vassili e Konig que leva "Círculo de fogo" - mais um título nacional inexplicável, diga-se de passagem - a um nível de inteligência e qualidade que o separa dos filmes de guerra mais corriqueiros.
      
O que o roteiro faz, na verdade, é reduzir uma guerra de proporções gigantescas a uma batalha entre dois homens, ambos capazes, talentosos e certos de seus ideais. É uma metáfora talvez óbvia, mas que funciona à perfeição graças aos talentos envolvidos. Com frequentes closes nos olhos azuis de Ed Harris e Jude Law, a fotografia impressionante de Robert Fraisse tem mais sucesso em jogar o espectador dentro do campo de batalha do que os enquadramentos épicos de filmes como "Coração valente" e "Gladiador", competentíssimos mas um tanto quanto distantes dos sentidos do público. No filme de Annaud, a impressão que se tem é que se está ao lado de Vassili em seu jogo de gato e rato com Konig, impressão tornada ainda mais forte devido ao trabalho espetacular dos dois atores, em atuações irretocáveis - que fazem da interpretação rasa de Rachel Weisz ainda mais gritante.

"Círculo de fogo" tem todas as qualidades de um épicp hollywoodiano e consegue fugir com esperteza dos defeitos de seus congêneres. Enxuto (tem pouco mais de duas horas, enquanto a regra do cinema americano para filmes desse porte manda a duração chegar a três), conciso e quase minimalista, é um filme forte e honesto, que merece ser descoberto e louvado como um dos melhores de seu estilo.

Thursday, June 16, 2011

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

Tuesday, June 7, 2011

ELIZABETH

ELIZABETH (Elizabeth, the Virgin Queen, 1998, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Productions, 124min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasian. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: John Myhre/Peter Howitt. Produção: Tim Beavan, Eric Fellner, Alison Owen. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Joseph Fiennes, Christopher Eccleston, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Vincent Cassell, Daniel Craig, Kelly MacDonald, Emily Mortimer, Eric Cantona, Kathy Burke. Estreia: 13/10/98

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Cate Blanchett), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Cate Blanchett)

É impressionante a capacidade que Hollywood tem de surpreender os fãs de cinema e apresentar astros e estrelas (ou ainda melhor, atores e atrizes de verdade) que surgem aparentemente do nada e se revelam a partir de então indispensáveis. Em 1999 isso aconteceu com uma irlandesa de nome Cate Blanchett. Protagonista de filmes pouco vistos pelo grande público - como "Oscar & Lucinda", com Ralph Fiennes - ela assombrou as plateias com sua impecável atuação em "Elizabeth", dirigido pelo indiano Shekhar Kapur. Na pele de uma das mais conhecidas monarcas do mundo, ela arrebatou um Golden Globe de melhor atriz dramática e deve estar até hoje se perguntando como é que foi perder o Oscar para Gwyneth Paltrow em "Shakespeare apaixonado". Dona de uma beleza não particularmente óbvia, Blanchett é o corpo e a alma do trabalho de Kapur, que, com um roteiro ágil de Michael Hirst, injeta adrenalina e sensualidade em um gênero que sofre grande preconceito da plateia mais jovem: os filmes de época.

Em 1558, a Inglaterra está em um período de grave crise econômica e religiosa, com a divisão violenta entre católicos e protestante. Quando a rainha Mary (Kathy Burke), católica, morre, ela deixa o trono nas mãos de sua irmã bastarda, Elizabeth (Cate Blanchett), filha de Henrique VIII e Ana Bolena. Protestante e portanto considerada herege, a jovem monarca passa a sofrer pressões para casar-se e ter filhos, para afirmar-se como líder de país em vias de entrar em conflito armado. Contando com o apoio do misterioso Sir Francis Walsingham (Geoffrey Rush) e a inimizade declarada do cruel Duque de Norfolk (Christopher Eccleston), ela desdenha da ideia de tornar-se esposa de qualquer homem que não seja aquele por quem é apaixonada, Robert Dudley (Joseph Fiennes).


O roteiro de Hirst acerta em concentrar seu foco nas intrigas palacianas mais do que nos problemas políticos da Inglaterra do período, o que poderia tornar tudo muito enfadonho para quem não tem domínio do assunto. Enquanto Norfolk trama sangrentas campanhas para destituir Elizabeth do trono, ela se deixa fragilizar pelo amor que sente por Dudley, um amor que será fundamental para que ela consiga perceber a importância da lealdade e da fidelidade. A transformação de Elizabeth - de jovem quase ingênua a uma das mulheres mais poderosas do mundo - é o grande trunfo do filme, e essa transição é interpretada com uma segurança ímpar por Blanchett, que lidera um elenco espetacular com desenvoltura e paixão. Ao lado de um discreto Geoffrey Rush (cuja personagem se mantém interessantemente dúbia por boa parte da projeção), de um sedutor Joseph Fiennes e de um assustador Christopher Eccleston, ela comanda um show de história e boa dramaturgia.

A caprichada reconstituição de época de "Elizabeth" é outro destaque do filme. O figurino impecável de Alexandra Byrne e a direção de arte de John Myhre (ambos indicados ao Oscar) não chamam a atenção para si mesmos, o que sempre é bastante elogiável, uma vez que filmes de época em muitas ocasiões dão mais atenção ao visual do que à trama. O castelo da rainha, os calabouços e todos os demais cenários são brilhantes exatamente porque parecem reais e não apenas construções artificiais. E a força da música original de David Hirschfelder dá o tom perfeito para a força da história desde as cenas iniciais que mostram os efeitos da Inquisição até seu desenlace, quando acontece definitivamente o nascimento da Rainha Elizabeth que liderou a Inglaterra até seu áureo período, chamado de "A era de ouro" - e que deu origem a uma sequência, realizada em 2007 sem a mesma qualidade do primeiro capítulo.

"Elizabeth" é um filme adulto, que trata a plateia com respeito e inteligência, sem romancear excessivamente o lado romântico da história e, ao mesmo tempo, buscando a aprovação de um público mais exigente. E é também um dos mais interessantes retratos de uma época fascinante em termos históricos e sociais. Contando ainda com uma avassaladora atuação da grandiosa Cate Blanchett, é programa obrigatório para os fãs do bom cinema histórico.