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Friday, September 9, 2011

O TIGRE E O DRAGÃO

O TIGRE E O DRAGÃO (Crouching tiger, hidden dragon, 2000, Sony Pictures Classic, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai, romance de Du Lu Wang. Fotografia: Peter Pau. Montagem: Tim Squyres. Música: Tan Dun. Figurino: Tim Yip. Direção de arte/cenários: Tim Yip/Jian-Quo Wang. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ang Lee. Elenco: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Ziyi Zhang, Pei-pei Cheng, Chen Chang, Sihung Lung. Estreia: 09/10/00

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("A love before time"), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee)

Foi preciso um diretor de Taiwan para devolver aos fãs de cinema a magia com que a sétima arte sempre brindou seu público. Depois de bem sucedidas incursões ao cinema de Hollywood - em especial os belos "Razão e sensibilidade" e "Tempestade de gelo", que captaram com inteligência as culturas inglesa e americana, respectivamente - o cineasta Ang Lee não foi feliz com o pouco visto e muito criticado "Cavalgada com o diabo" e resolveu retornar às origens. Para isso, assumiu as rédeas da adaptação do quarto volume de uma pentalogia chamada Crane/Iron, escrita por Du Lu Wang, um conhecido mestre chinês de kung-fu. Tendo seu habitual parceiro James Schamus entre os roteiristas, Lee construiu uma fábula majestosa e emocionante que recebeu o título ocidental de "Crouching tiger, hidden dragon", ou, como conhecido no Brasil, "O tigre e o dragão".

Não é difícil compreender o porquê da comoção em torno do filme de Lee desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2000, quando foi ovacionado por uma legião de críticos deslumbrados. Sua obra simplesmente tira o espectador de sua zona de conforto, jogando-o em um universo particular, em que personagens ignoram a lei da gravidade e onde todas as excepcionalmente bem coreografadas lutas não são apenas desnecessários desvios da ação e sim parte integrante e indispensável da narrativa, repleta de poesia visual - cortesia da magnífica fotografia de Peter Pau, vencedor do Oscar da categoria. Não foi à toa que "O tigre e o dragão" tornou-se o primeiro filme de língua não-inglesa a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação em território americano, além de sair vitorioso em 4 categorias na festa do Oscar de 2001. O filme de Ang Lee é uma festa para os olhos e um admirável espetáculo para todos que consideram o cinema como um refúgio.




Passado em uma China antiga, "O tigre e o dragão" começa com o retorno do famoso guerreiro Li Mui Bai (Chow Yun-Fat) à terra de seus antepassados. Aposentado, ele dá de presente a um velho amigo sua poderosa espada, a Destino Verde, que logo em seguida é roubada. Enquanto tenta recuperá-la, ele não consegue deixar de lado o desejo de vingar a morte de seu mestre pelas mãos da temida Jade Fox (Pei-pei Cheng). Contando com a ajuda da mulher que ama em segredo, Shu Lien (Michelle Yeoh), ele também encontra, em seu caminho, a bela Jiao Long Yu (Ziyi Zhang), filha de uma respeitada família e que, mesmo em vias de casar-se, mantém um amor explosivo por um cigano do deserto.

Dirigido com maestria por um Ang Lee extremamente à vontade e no auge de sua criatividade como cineasta, "O tigre e o dragão" tem a seu favor, além de tudo, uma equipe que transmite paixão a cada polegada de celulóide. O elenco é impecável - com destaque para Michelle Yeoh, cujo rosto expressivo casa com naturalidade com uma força física impressionante - e é impossível não admirar a belíssima trilha sonora (composta em apenas duas semanas por Tin Dau, que acabou com uma estatueta do Oscar), a fotografia etérea e a direção de arte caprichada. No fundo uma bela história de amor emoldurada por uma trama que envolve sentimentos como honra, lealdade e amizade à toda prova - e um discreto discurso feminista - "O tigre e o dragão" é uma obra-prima incontestável e um dos melhores filmes já produzidos fora de Hollywood.

Friday, April 8, 2011

TEMPESTADE DE GELO

TEMPESTADE DE GELO (The ice storm, 1997, Fox Searchlights Pictures, 112min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, romance de Rick Moody. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção: Ted Hope, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood, Adam Hann-Byrd, Jamey Sheridan, Henry Czerny, Allison Janey, Katie Holmes. Estreia: 27/9/97

Vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes

Em 1995, o taiwanês Ang Lee surpreendeu a crítica ao fazer de "Razão e sensibilidade" a melhor adaptação para o cinema de um livro da escritora absolutamente inglesa Jane Austen. Em "Tempestade de gelo", seu projeto seguinte, ele continua a missão de penetrar em culturas diferentes da sua: é difícil acreditar em um filme tão tipicamente americano quanto sua brilhante visão do romance de Rick Moody. Mergulhando sem medo no âmago de duas famílias do interior do país em plena efervescência cultural e sexual dos anos 70, Lee entrega ao público um estudo delicado e cortante sobre as relações familiares. É triste e melancólico, mas é também mais uma obra-prima com sua assinatura.

É véspera do dia de Ação de Graças de 1973. O escândalo Watergate está no auge e os costumes sexuais e comportamentais estão em ebulição, mesmo em uma pequena cidade do interior de Connecticut chama Nova Canaan. É para lá que Paul Hood (Tobey Maguire) está retornando, para passar o feriado com a família. Seus pais, Ben (Kevin Kline) e Elena (Joan Allen) estão passando por uma crise no casamento, agravada pelo tédio e pelo caso secreto dele com Janey Carver (Sigourney Weaver), uma amiga do casal. A irmã de Paul, Wendy (Christina Ricci), por sua vez, experimenta o início de sua sexualidade brincando com os dois filhos de Janey, o tímido Mikey (Elijah Wood) e o desajeitado Sandy (Adam Hann-Byrd). Apesar da proximidade física, porém, existe um enorme distanciamento emocional entre todos eles.

A frieza nas relações interpessoais que Rick Moody criou em seu livro - e que foi retratada com perfeição pelo roteiro de James Schamus - encontra na inteligência e na sutileza de Ang Lee seu diretor ideal. Pródigo em dar tintas leves e discretas a dramas particulares, Lee conta a história das famílias Hood e Carver sem pressa, dando atenção a pequenos detalhes, como olhares tristes, suspiros disfarçados e atos desesperados. Os silêncios entre Elena e Ben dizem muito mais sobre os escombros de seu casamento do que as escapadas sexuais que ele dá com Jayne, uma mulher insatisfeita com a própria vida e que vê no seu caso extra-conjugal uma forma de escapar da monotonia. Jayne mal presta atenção nos filhos, que por sua vez não são capazes nem ao menos de perceber que seu pai saiu em viagem. Wendy é uma jovem um tanto desajustada, com forte visão política mas que é incapaz de lidar saudavelmente com seus instintos. E Paul, como alguém à parte de seu núcleo familiar, busca seu lugar no mundo sem sequer desconfiar do caos que reina em sua casa.


O gelo é uma imagem recorrente no filme de Lee. Volta e meia cubos de gelo invadem a tela, seja nas cozinhas suburbanas das personagens, no formato da casa de Jayne e principalmente na tempestade que dá nome ao filme e que origina uma tragédia que transforma definitivamente a vida de todos. A falta de calor humano entre maridos e mulheres e entre pais e filhos é o ponto central de "Tempestade de gelo", mas sua maior qualidade é justamente evitar cenas lacrimosas ou diálogos clichês. Como já dito, os silêncios na mesa dos Hood ou no relacionamento entre os Carver são mais eloquentes do que catarses emocionais repletas de choro e gritos. E é brilhante, dentro desse universo de coisas não ditas, a cena em que Ben carrega a filha Wendy nos braços, depois de flagrá-la em uma situação comprometedora com Mikey. Mesmo sem muitas falas, Kevin Kline e Christina Ricci transmitem toda a vastidão de sentimentos que a cena exige. Emocionar-se é mandatório!

Aliás, o elenco de "Tempestade de gelo" é dos melhores que Hollywood pode oferecer. Kevin Kline e Joan Allen estão fabulosos como um casal cuja falta de emoção os empurra em direção ao afastamento gradual. Sigourney Weaver, linda e sexy, tem sua melhor atuação como uma enfastiada esposa de classe média que busca em aventuras sexuais um motivo para passar seus dias iguais. E Christina Ricci demonstra que seu talento não ficou restrito às comédias que fez na infância, construindo uma Wendy que lida com sua sexualidade nascente de forma quieta mas agressiva. Somadas à fotografia - também gélida, de Frederick Elmes - e à trilha sonora poderosa de Mychael Danna, as interpretações do elenco elevam "Tempestade de gelo" a um patamar muito acima do corriqueiro. É um filme americano, que atinge a essência das famílias americanas e dos problemas americanos... mas tem cara e qualidade de cinema europeu. Simplesmente ignorado pelo Oscar e outras premiações menos conhecidas, é um filme extraordinariamente forte e emocionante, que merece ser descoberto e louvado.

Friday, February 18, 2011

RAZÃO E SENSIBILIDADE

RAZÃO E SENSIBILIDADE (Sense and sensibility, 1995, Columbia Pictures, 136min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Emma Thompson, romance de Jane Austen. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva. Sydney Pollack. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Emma Thompson, Hugh Grant, Kate Winslet, Alan Rickman, Greg Wise, Gemma Jones, Tom Wilkinson, Emilie François, Imelda Staunton, Hugh Laurie, Imogen Stubbs. Estreia: 13/12/95

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Emma Thompson), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Roteiro


Exatos 184 anos separam a data da publicação do romance "Razão e sensibilidade", da inglesa Jane Austen, da estreia de sua bem-sucedida adaptação cinematográfica, lançada em 1995 e dirigida por um (pasmem!) taiuanês. Nesse meio tempo, a história de duas irmãs de personalidades opostas que buscavam a felicidade do amor teve uma versão para a televisão britância, mas somente com o filme dirigido pelo talentoso Ang Lee a trama tornou-se popular em todo o mundo, dando o pontapé inicial em uma série de vários filmes e minisséries adaptadas da obra da autora - que já havia sido lembrada por Amy Heckerling em "As patricinhas de Beverly Hills", uma mal-disfarçada adaptação de "Emma".

Escrito no longo período de quatro anos e meio, o roteiro de Thompson mantém intactos o romantismo e a ironia da obra de Austen, dando extremo valor à fidelidade ao original literário. Sarcástica como o texto que adaptou, Emma Thompson imprime leveza e modernidade a uma trama que poderia soar anacrônica ou poeirenta a uma plateia acostumada a invasões alienígenas e dinossauros em CGI. Ainda que não tenha chegado nem perto de ser um estrondoso sucesso de bilheteria - rendeu pouco menos de 43 milhões nos EUA - "Razão e sensibilidade" encontrou um lugar cativo junto aos fãs de boas histórias contadas com inteligência e delicadeza. Agradou também a crítica e os membros da Academia, que lhe deram 7 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Por razões que até hoje soam absolutamente idiossincráticas - e que vitimaram Christopher Nolan em 2011 - Ang Lee ficou de fora da briga pela estatueta de Melhor Diretor. Injustiça pura, pois é Lee, com seu olhar estrangeiro, que dá ainda mais consistência ao resultado final de um filme que, utilizando elementos do mais puro folhetim, faz uma crítica ao modo de vida de uma parcela considerável de ingleses vitorianos.

A história criada por Jane Austen - escritora que foi descoberta pelo cinema no final dos anos 90 - começa quando a Sra. Dashwood (Gemma Jones) fica viúva e vê, de uma hora pra outra, seu status social sofrer uma considerável queda. Obrigada a abandonar a propriedade onde morava com as três filhas, ela vai morar em um chalé no interior, sentindo-se humilhada principalmente por Fanny (Harriet Walter), a antipática esposa de seu enteado. Quem mais sofre com essa repentina mudança de classe social são suas filhas, que vêem suas possibilidades de arrumar um bom casamento seriamente ameaçadas. A mais velha, Elinor (Emma Thompson) é uma mulher racional, de bom-senso e discreta, que se apaixona, ao seu estilo calado, por Edward Ferrars (Hugh Grant), irmão de Fanny, sem saber que ele mantém um noivado secreto há alguns anos. A filha do meio, Marianne (Kate Winslet) é o oposto da irmã: passional e calorosa, ela não esconde de ninguém o amor avassalador que sente pelo jovem Wilhougby (Greg Wise), um rapaz de ética duvidosa, e não percebe que desperta sentimentos profundos no sério Coronel Brandon (Alan Rickman).
 
Ainda que a Taiwan do século XX e a Inglaterra do século XIX sejam tão semelhantes quanto água e vinho, Ang Lee - diretor do espetacular "O banquete de casamento", indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro - conseguiu um feito e tanto. É quase impossível acreditar que por trás de "Razão e sensibilidade" não esteja um inglês rigoroso, ao estilo James Ivory, tamanho o grau de verdade e conhecimento de causa impresso em cada cena do filme. Mergulhando sem medo na cultura inglesa da época de Austen, Ang Lee demonstra um absurdo senso de observação e crítica, ainda que carinhoso, das tradições e idiossincrasias de uma sociedade muito distante de sua realidade. E o faz contando com a ajuda de uma equipe de sonhos. A bela fotografia de Michael Coulter deslumbra a plateia mostrando uma Inglaterra bucólica e romântica, com vastos campos verdejantes servindo de cenário aos espirituosos diálogos. A trilha sonora discreta de Patrick Doyle comenta a ação sem roubar a atenção da trama e a reconstituição de época é primorosa - é de chamar a atenção a forma com que Ang Lee comenta, visualmente, a diferença entre as classes sociais do período em um baile de gala. É sutil, mas brilhante, assim como o elenco, escalado com perfeição.


Ainda que não esteja excepcional como costuma estar, Emma Thompson foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação como Elinor, a sensata irmã mais velha - saiu premiada da cerimônia, mas devido a seu roteiro impecável. Hugh Grant e Alan Rickman estão no tom exato de suas personagens, ainda que os homens nas histórias de Austen sejam apenas coadjuvantes de luxo (ou troféus disputados sofregamente). E até mesmo atores que mais tarde se tornariam importantes peças dentro de Hollywood - Hugh Laurie, Tom Wilkinson e Imelda Staunton - dão o ar da graça, em intervenções que vão do dramático ao cômico sem nunca soar exagerado. Mas é Kate Winslet quem se sobressai, dando vida a uma Marianne passional, apaixonada pela vida e incapaz de manter em fogo brando seus sentimentos, mesmo que isso ameaçe seu bem-estar e a maneira com que é vista pela preconceituosa sociedade que a rodeia. Merecidamente indicada à estatueta de atriz coadjuvante - que perdeu para Mira Sorvino, em "Poderosa Afrodite" - Winslet já demonstrava, aos 21 anos, todo o talento que viria a transformar-lhe em uma das mais respeitadas atrizes de sua geração.

"Razão e sensibilidade" é um filme de classe, realizado com capricho e delicadeza. É provavelmente a melhor adaptação de um romance de Jane Austen feita em Hollywood até hoje.