Showing posts with label TONI COLLETTE. Show all posts
Showing posts with label TONI COLLETTE. Show all posts

Thursday, November 24, 2011

UM GRANDE GAROTO

UM GRANDE GAROTO (About a boy, 2002, Universal Pictures, 101min) Direção: Chris Weitz, Paul Weitz. Roteiro: Peter Hedges, Chris Weitz, Paul Weitz, romance de Nick Hornby. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Nick Moore. Música: Badly Drawn Boy. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Lynn Harris, Nick Hornby. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert De Niro, Brad Epstein,Jane Rosenthal. Elenco: Hugh Grant, Toni Colette, Nicholas Hoult, Rachel Weisz, Natalia Tena. Estreia: 08/5/02

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

"Todo homem é uma ilha. Eu sou Ibiza!" Assim se descreve Will Freeman, protagonista de "Um grande garoto", mais uma obra de Nick Hornby adaptada para o cinema, depois do pouco visto "Febre de bola" e do (merecidamente) cultuado "Alta fidelidade". Levado para as telas pelas mãos dos irmãos Chris e Paul Weitz - cujo passado inclui o infame mas imensamente popular "American pie" - o romance que fala da amizade inesperada entre Freeman - um solteirão convicto, rico e superficial - e o pré-adolescente Marcus Brewer- deslocado, solitário e desajustado - transformou-se em um filme legitimamente engraçado, surpreendentemente delicado e melhor ainda, palatável a todos os tipos de plateia.

Will Freeman é um bon-vivant que passa seus dias dedicando-se à pessoa que mais ama no mundo: ele mesmo. Vivendo dos direitos autorais de uma canção natalina composta por seu falecido pai, Freeman é também um mulherengo incorrigível, incapaz de envolver-se em um relacionamento sério (mais por opção do que por qualquer outro motivo). Quando o filme começa, ele tem a brilhante ideia de frequentar clubes de mães solteiras (ou abandonadas), com o objetivo de encontrar sexo fácil. O que poderia ser divertido, porém, torna-se mais complicado quando, durante um passeio dominical, ele trava conhecimento com Marcus (Nicholas Hoult), o filho da amiga de uma paquera. A mãe de Marcus, Fiona (Toni Colette, sempre competente), é depressiva com tendências suicidas e o jovem vê em Freeman a figura paterna que nunca teve. Chantageando-o após descobrir suas mentiras para conquistar as mulheres do clube, Marcus passa a frequentar o apartamento descolado de Will, que aos poucos inicia um processo de amadurecimento e conexão com o menino e sua mãe. Quando se apaixona por Rachel (Rachel Weisz), o eterno solitário percebe de vez que "ilhas fazem parte de arquipélagos".



É surpreendente que "Um grande garoto" tenha sido dirigido pelos irmãos Weitz: sua sutileza e elegância estão a anos-luz do humor vulgar e escatológico de "American pie", que a despeito de seu sucesso comercial não passa de uma chanchada adolescente. Nessa adaptação do livro de Hornby os cineastas demonstram uma mão leve ao tratar de assuntos espinhosos - depressão, suicídio, bulliyng - e um sofisticado timing cômico (o que deve ser muito legado ao trabalho extraordinário do escritor inglês ao tratar de relações humanas de maneira pop). Nada em "Um grande garoto" é exagerado ou de mau-gosto e, se as piadas podem não ser engraçadíssimas de um ponto de vista mais raso, elas são esplendidamente adequadas à trama e às personagens, tratadas com especial carinho pelo roteiro bastante fiel à sua origem literária, um dos melhores livros do homem que viria a escrever o excelente roteiro de "Educação", em 2009. Poucos escritores são tão simples e sarcásticos quanto Hornby quando se trata de pessoas de verdade, e isso fica lógico quando se lê seus trabalhos ou até quando se assiste a suas adaptações, mesmo quando alguns pontos cruciais são modificados.

Em "Um grande garoto" acontece uma dessas mudanças que, feitas de maneira leviana, poderia ser o tiro de misericórdia ao trabalho. Felizmente os roteiristas conseguiram evitar a tragédia de maneira criativa e, se não ficou tão bom quanto poderia, ao menos salvaram-se todos no final. Explica-se: o clímax do livro de Hornby acontece com o suicídio de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana que era o ídolo de Ellie (Nat Gastian Tena), colega de escola por quem Marcus é apaixonado. A trama se encaminha para o final a partir daí (e o título original do livro é uma homenagem a uma canção do grupo, "About a girl"). Provavelmente devido a problemas de direitos autorais (Courteney Love, por exemplo) toda e qualquer menção a Cobain e sua banda foram devidamente limadas, e a menina virou fã de rap. Certamente a mudança enfraqueceu o universo do romance original, mas é preciso que se dê a mão à palmatória: o filme continua sendo muito bom.

E, logicamente seria injusto não louvar a atuação de Hugh Grant, perfeito no papel central - que chegou a ser oferecido a Brad Pitt. Will Freeman parece ter sido escrito especialmente para Grant, que se sai muito melhor que a encomenda com uma interpretação confortável e muito, mas muito engraçada. Sua parceria com o ótimo Nicholas Hoult é encantadora, assim como suas cenas com Rachel Weisz e Toni Colette, mais uma vez ameaçando roubar todas as sequências em que aparece. A trilha sonora moderna comenta a estória de forma suave e é difícil não se emocionar com o desfecho de toda a aventura romântico-pessoal de Will Freeman. A história é "sobre um garoto". Mas talvez este garoto não seja o adolescente Marcus e sim o eterno meninão Freeman, que se apaixona pela vida ao perceber como ela pode ser melhor quando dividida. Um belo filme, para ver e rever!

Monday, July 4, 2011

O SEXTO SENTIDO

O SEXTO SENTIDO (The sixth sense, 1999, Hollywood Pictures/Spyglass Entertainment, 107min) Direção e roteiro: M.Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Andrew Mondshein. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowatt. Produção executiva: Sam Mercer. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry Mendel. Elenco: Bruce Willis, Olivia Williams, Haley Joel Osment, Toni Colette. Estreia: 06/8/99

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (M.Night Shyamalan), Ator Coadjuvante (Haley Joel Osment), Atriz Coadjuvante (Toni Colette), Roteiro Original, Montagem

Esqueça ectoplasmas arrastando correntes e mansões vitorianas assombradas. Depois de "O sexto sentido", os filmes de fantasmas atingiram um novo patamar de qualidade, deixando de lado os vícios perpetuados pelos filmes clássicos do gênero. Tirando a poeira do estilo e o arejando com uma modernidade que nunca lhe tira a tensão e o medo característicos, o filme de M. Night Shyamalan conquistou o mundo sem fazer muito esforço. Estreando com pouco alarde, o filme estrelado por Bruce Willis arrecadou mais de 600 milhões de dólares pelo mundo, conquistou seis indicações ao Oscar (inclusive as cobiçadas de filme, diretor e roteiro original) e de quebra revelou o garotinho Haley Joel Osment, que depois de ter protagonizado o encontro entre Steven Spielberg e Stanley Kubrick em "Inteligência artificial", desapareceu como a maioria dos atores mirins. Mas mais do que qualquer outra coisa, "O sexto sentido" devolveu ao espectador o prazer inigualável de assistir a uma história bem contada, inteligente e, o mais importante, extremamente humana, a despeito de ter algumas almas penadas como personagens.

O filme já começa com a adrenalina em alta. Voltando para casa depois de ser homenageado pela prefeitura da Filadélfia, onde mora, o psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, muito eficiente) descobre que ela foi invadida por um ex-cliente, agora um jovem desequilibrado (um irreconhecível e assustador Donnie Wahlberg) que, em desespero lhe dá um tiro e se suicida em seguida. Alguns meses depois, Crowe encontra sua chance de redimir-se do fracasso em lidar com o jovem ao ter a possibilidade de tratar do pequeno Cole Sears (Haley Joel Osmente, nunca aquém de espetacular), um menino de oito anos que enfrenta problemas na escola e em casa. Isolado e solitário, Cole é criado pela mãe Lynn (Toni Colette, de "O casamento de Muriel", bem mais magra, ótima atriz e indicada ao Oscar de coadjuvante) e apresenta hematomas e comportamento arredio. Depois de algumas conversas com o garotinho, Malcolm descobre que seu problema não é doméstico: ele tem o dom (ou a maldição, dependendo do ponto de vista) de ver e falar com fantasmas, que lhe utilizam para resolver situações pendentes. Enquanto tenta ajudar Cole, o médico precisa também recuperar a relação com a esposa (Olivia Williams), abalada desde o atentado.

        

A maior inteligência do roteiro redondinho de Shyamalan - descendente de indianos cujo primeiro filme, "Olhos abertos" foi solenemente ignorado por todo mundo - é a sua opção em sugerir bem mais do que mostrar. Durante toda a sua primeira metade, "O sexto sentido" é lento, discreto, quase contemplativo, contando com uma trilha sonora impactante mas sutil de James Newton Howard. Após a revelação do dom de Cole, a trama atinge níveis de suspense e tensão capazes de arrepiar até o mais cético dos espectadores. É a partir daí que fantasmas cruzam a tela em momentos inesperados (ainda que pistas de sua aparição surjam constantemente) e que, de drama familiar, o filme passe a um terror psicológico dos melhores. A escolha por não exagerar em maquiagem e efeitos visuais também colabora para que o filme não fique datado e esteja tão fresco hoje quando de sua estreia, já há doze anos. Tudo isso somado ao talento do cineasta/roteirista em criar diálogos simples mas profundos e dirigir seus atores com maestria faz com que, mais do que um filme de terror feito para apavorar plateias, "O sexto sentido" atinja um outro nível emocional e artístico. Mesmo quem não gosta de levar sustos é capaz de se perceber chorando ao final da projeção, graças à delicadeza com que tudo se desenrola - e à cena magistral em que Cole finalmente conta seu segredo à sua mãe.

Já em "O sexto sentido" M. Night Shyamalan utilizava-se de algumas de suas marcas registradas (a importância dada à cor vermelha, a trilha sonora de James Newton Howard, a inteligência da edição de som, o cuidado com o desenvolvimento da trama). Criador ainda de uma outra obra-prima ("Corpo fechado"), um filme excelente ("Sinais") e vários filmes que dividiram crítica e público (entre eles o sofrível "A vila" e o subapreciado "A dama da água"), Shyamalan pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ter sido elogiado à toa. "O sexto sentido" mereceu todo o sucesso que fez, por ter devolvido ao público a fé no bom cinema de suspense sem ter que apelar para a violência explícita.

Tuesday, June 14, 2011

VELVET GOLDMINE

VELVET GOLDMINE (Velvet Goldmine, 1998, Channel Four Films/Goldywn Films/Killer Films/Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Todd Haynes. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: James Lyons. Música: Carter Burwell, Craig Wedren. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Christopher Hobbs. Produção executiva: Scott Meeks, Sandy Stern, Michael Stipe, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Christine Vachon. Elenco: Ewan McGregor, Christian Bale, Toni Colette, Jonathan Rhys-Meyers. Estreia: 06/11/98

Indicado ao Oscar de Figurino

Houve uma época em que o rock - baluarte da rebeldia e da transgressão social/sexual/musical - deixou de ser apenas diversão para exibir sua tendência revolucionária. Espalhafatoso, andrógino e influente, o movimento que convencionou-se chamar de "glam rock" legou ao mundo nomes indispensáveis para o mundo pop, como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed. Esse efervescente período, cuja influência é sentida até hoje nas apresentações de Lady Gaga, por exemplo, é o pano de fundo para um dos mais criativos e excêntricos filmes ingleses dos anos 90. Dirigido pelo ousado Todd Haynes, o misto de drama e musical "Velvet goldmine" disfarça as trajetórias de Bowie, Pop e Reed em um roteiro que mistura rock, liberdade sexual e Oscar Wilde no mesmo pacote. Pode parecer estranho - e é - mas é também fascinante.

Em 1984, Arthur Stuart, um repórter inglês vivido por Christian Bale antes de tornar-se astro, é escalado por seus superiores para descobrir o paradeiro de um antigo astro de rock chamado Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers), que caiu em desgraça no início dos anos 70 depois de forjar a própria morte no palco. A missão aparentemente fútil que o jovem recebe, porém, o faz lembrar de sua adolescência, quando, fã absoluto de Slade, descobriu através dele a sexualidade e a liberdade de expressão e vida. Fascinado com a possibilidade de reviver esse período de sua vida, ele parte atrás das pessoas que podem saber algo sobre o cantor (que desapareceu desde sua falsa morte). Em sua lista estão principalmente Mandy (Toni Colette), a ex-mulher de Slade, e o roqueiro Curt Wild (Ewan McGregor), que teve um tumultuado e criativo relacionamento com ele.

Contando sua história dividindo o presente (1984) com o passado (década de 70), Haynes construiu uma espécie de quebra-cabeça não apenas para seu protagonista mas também para o público, que aos poucos vai descobrindo os acontecimentos que uniram Slade, Mandy e Curt em uma relação tão complexa. Misturando uma estética fake de videoclip (com números musicais excêntricos e sexualmente chamativos) com um drama a respeito da busca pela personalidade, "Velvet goldmine" usa e abusa de seu direito de ser extravagante, embaralhando suas cartas de modo quase anárquico, para o que colabora a engenhosa edição de James Lyons. É somente em sua reta final que a audiência fica realmente sabendo a razão de todo o interesse de Arthur pelo paradeiro de Slade - e o final um tanto ambíguo talvez incomode alguma parcela do público, ainda que desde o início fique claro de que não se trata de um filme convencional.


E convencional é o último adjetivo que pode ser aplicado a "Velvet goldmine". Desde suas primeiras cenas a plateia é convidada a fazer parte da viagem quase surreal proposta pelo cineasta, que começa a contar sua história mostrando a infância de Oscar Wilde (cujos textos estão espalhados pelo roteiro) e depois dando um salto de cem anos à frente. E se Haynes teve coragem de criar um espetáculo tão reluzente teve também a sorte de contar com uma equipe de profissionais acima de qualquer crítica, a começar pelo produtor executivo Michael Stipe, líder e vocalista da banda de rock REM. O figurino genial de Sandy Powell é espalhafatoso como convém (e concorreu merecidamente ao Oscar), a trilha sonora celebra com exatidão o som de sua época e o elenco se entrega com coragem e tesão na brincadeira. Se Toni Colette dá um banho como a complacente e posteriormente amargurada Mandy Slade e Jonathan Rhys-Meyers se sai muito bem em seu primeiro papel de destaque (em uma atuação tão afetada que tem ecos até hoje), são Ewan McGregor e Christian Bale quem se destacam. Bale vive com perfeição as duas fases de sua personagem (de adolescente deslumbrado com as potencialidades de seus desejos ao jornalista quase tímido) e McGregor canta e encanta como o polêmico e sexy Curt Wild. Sem medo algum, o ator de "Trainspotting" se desnuda fisicamente, solta a voz e dá profundidade a uma personagem complexa e controversa.

"Velvet goldmine" definitivamente não é para qualquer público. É necessário interesse no tema, no período retratado, no elenco ou em suas qualidades artísticas para que seja possível admirar todo o conjunto. Mas é um filme que merece ser conhecido nem que seja para não gostar.

Thursday, March 3, 2011

EMMA

EMMA (Emma, 1996, Miramax Films, 121min) Direção: Douglas McGrath. Roteiro: Douglas McGrath, romance de Jane Austen. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Lesley Walker. Música: Rachel Portman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Michael Howells/Totty Whately. Produção executiva: Donna Gigliotti, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Steven Haft. Elenco: Gwyneth Paltrow, Jeremy Northam, Ewan McGregor, Greta Scaachi, Toni Colette, Alan Cumming, Polly Walker, Juliet Stevenson, Phyllida Law. Estreia: 02/8/96

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical

"Não há nada no mundo mais bonito do que um casal bem formado." Com essa afirmação no mínimo questionável começa "Emma", mais uma adaptação de Jane Austen lançada na década de 90, logo após o sucesso de "Razão e sensibilidade". Adaptado e dirigido por Douglas McGrath - que não passa nem perto do talento de Ang Lee, diretor da produção estrelada por Emma Thompson e Kate Winslet - "Emma" fez uma bilheteria bastante razoável - principalmente se for considerado seu orçamento pequeno - e serviu basicamente para dar a primeira grande chance a Gwyneth Paltrow, que, a despeito de seus detratores, sai-se muito bem no papel-título, uma jovem e simpática alcoviteira que não percebe o amor que está debaixo do seu nariz.

A versão fiel do romance "Emma" - publicado em 1815 - chegou às telas americanas quase um ano depois que sua adaptação modernizada, "As patricinhas de Beverly Hills", alçou Alicia Silverstone à categoria de ídolo adolescente. Bem mais formal e clássico, o filme de McGrath tem um público-alvo mais sofisticado, deixando de lado os modernismos do cinema à MTV para concentrar-se basicamente na história a ser contada. Sua falta de ousadia combina com a suavidade da obra de Jane Austen, mas faz falta o senso delicado de humor de Ang Lee e da roteirista Emma Thompson, que emularam com perfeição a ironia e o sarcasmo adjacentes nos livros da escritora inglesa. "Emma" é bastante fiel ao livro que lhe deu origem, mas, apesar de ser bastante competente, não encanta como "Razão e sensibilidade".

Noiva de Brad Pitt à época das filmagens, Gwyneth Paltrow vive Emma Woodhouse, uma jovem bem-nascida, inteligente e de bom coração que tem como hobby juntar os corações solitários que a rodeiam. Sua principal missão é encontrar o par perfeito para sua amiga Harriet Smith (Toni Collette), que não tem seu mesmo nível financeiro e intelectual. Depois da frustrada tentativa de uní-la ao Reverendo Elton (Alan Cumming), ela insiste em sua busca através das pessoas de seu círculo social, sem perceber que isso a impede de achar um amor para si mesma. Quando a jovem demonstra interesse em um surpreendente pretendente é que Emma descobre que já está apaixonada por ele.



Quem leu o livro de Austen ou assistiu à comédia de Amy Heckerling sabe o desfecho de "Emma". Isso, porém, não impede o espectador de apreciar as inúmeras qualidades do filme de McGrath, que vão desde a belíssima fotografia de Ian Wilson à precisa reconstituição de época - sem contar a trilha sonora vencedora do Oscar. É um filme delicado e sensível, com diálogos engraçados e um elenco notável. Paltrow demonstra uma segurança ímpar no papel central e é cercada de atores que parecem prontos a roubar a cena a qualquer momento. Toni Colette está a quilômetros de distância de seu famoso papel de estreia na comédia dramática "O casamento de Muriel", Ewan McGregor - em vias de tornar-se astro por causa de "Trainspotting" - exercita um lado romântico sedutor inédito em sua carreira e Jeremy Northam abandona a persona cafajeste que vinha demonstrando em uma atuação sutil e encantadora. E seria injusto não citar a química excepcional entre Phylida Law e Juliet Stevenson - mãe e irmã de Emma Thompson na vida real - nos papéis de mãe e filha: enquanto a mãe não fala absolutamente nada o filme todo, a filha é uma matraca incurável e responsável por uma das cenas mais tocantes do longa.

"Emma" é uma deliciosa e fiel adaptação de um dos romances mais queridos da literatura inglesa, que mantém seu frescor até mesmo nos cínicos anos do século XXI. Estrelado por uma Gwyneth Paltrow cuja carreira ascenderia a ponto de lhe dar um Oscar quase inexplicável poucos anos depois, é também um filme capaz de agradar justamente por sua falta de ambições maiores do que simplesmente contar uma bela história de amor.

Tuesday, February 1, 2011

O CASAMENTO DE MURIEL


O CASAMENTO DE MURIEL (Muriel's wedding, 1994, Film Victoria/House & Moorhouse Films, 106min) Direção e roteiro: P.J. Hogan. Fotografia: Martin McGrath. Montagem: Jill Bilcock. Música: Peter Best. Figurino: Terry Ryan. Direção de arte/cenários: Patrick Reardon/Glen W. Johnson, Jane Murphy. Produção: Lynda House, Jocelyn Moorhouse. Elenco: Toni Collette, Bill Hunter, Rachel Griffiths, Jeanie Drynan, Gennie Nevinson, Matt Day, Daniel Lapaine. Estreia EUA: 10/3/95

Na mesma época em que as drag-queens de "Priscilla, a rainha do deserto" conquistavam o público com seu humor sarcástico e fina ironia a respeito de intolerância e preconceito, outro filme australiano trilhava caminho semelhante, seduzindo a audiência por onde passava. Escrito e dirigido por P.J. Hogan, "O casamento de Muriel" é uma deliciosa comédia dramática que trata de forma leve e bem-humorada temas difíceis como inadequação social, solidão e depressão. No tom quase de deboche do roteiro de Hogan, há uma ácida e agridoce visão sobre sonhos e como eles servem de apoio e/ou empecilho para uma felicidade que parece impossível de alcançar. Por trás de tudo, no entanto, há o elogio rasgado à amizade e em como ela pode transformar uma vida.

Muriel Heslop, a protagonista vivida com propriedade pela ótima Toni Collette, é uma jovem que vive em uma pequena cidade da Austrália onde seu pai (Bill Hunter) é um conhecido vereador. Acima do peso, incapaz de manter-se empregada e apaixonada pelas canções do grupo ABBA - também citado com destaque em "Priscilla" - ela sonha em ter um casamento no estilo que vê nas revistas e na televisão, mesmo que não tenha sequer um pretendente. Enquanto é obrigada a conviver com uma família extremamente medíocre - os irmãos não fazem nada a não ser vegetar no sofá assistindo TV, a mãe é absolutamente apática e o pai um político corrupto e adúltero - Muriel tenta manter a amizade com um grupo de ex-colegas de escola, garotas populares que a desprezam e humilham em público. Revoltada com sua vida, Muriel dá um desfalque no pai e foge para Sydney, onde, com o nome alterado para Mariel, resolve reinventar-se. Dividindo um apartamento com uma nova melhor amiga, a liberada Rhonda (Rachel Griffiths), ela descobre os prazeres de uma vida nova, mas não consegue livrar-se completamente de seu passado. E quando finalmente tem a chance de realizar seu sonho de casar-se na igreja - com um nadador sul-africano que precisa de um green card - ela percebe que talvez as coisas não sejam exatamente como ela sempre imaginou que fossem.



Apesar da melancolia que perpassa todo o filme, "O casamento de Muriel" não deixa de ser uma experiência bastante agradável. Hogan - cujo fetiche por cerimônias matrimoniais encontraria o auge com "O casamento do meu melhor amigo", com Julia Roberts - escreveu um roteiro redondo, perfeito em sua forma irônica de criticar a sociedade australiana, afogada em sua hipocrisia e suas tradições. Até mesmo o fato de Rhonda ser de certa forma "punida" por sua liberdade sexual demonstra claramente que o cineasta conhece o universo que retrata: ao contrário do que se possa pensar, ele não castiga a personagem e sim a empurra em direção a uma real liberdade, a mesma que Muriel procura desesperadamente e julga encontrar na realização de seu casamento.

Aparentemente uma comédia boba e despretensiosa, "O casamento de Muriel" é, na verdade, um filme sobre pessoas lutando por sua felicidade, ainda que nem mesmo saibam de verdade onde procurá-la. Muriel é o retrato de uma sociedade sem maiores ambições, mas sua fuga de casa a salva da mediocridade na qual o resto de sua família vive mergulhada. Ela quer que sua vida seja tão boa quanto uma canção do ABBA e isso faz dela uma heroína pós-moderna, capaz de atos insensatos para atingir seus objetivos. Muriel é ingênua, é irresponsável e romântica, mas é verdadeira, humana e sensível. Isso faz toda a diferença, principalmente com a atuação irrepreensível de Toni Collette, que engordou para fazer o papel e depois tornou-se uma atriz de respeito em Hollywood, chegando a ser indicada ao Oscar de coadjuvante por "O sexto sentido". A seu lado, também brilha a radiante Rachel Griffiths, que apresenta todas as nuances de sua Rhonda com uma segurança ímpar - não é à toa que ela também já chegou perto de uma estatueta por "Hilary & Jackie" e tornou-se conhecida pelas ótimas séries "A sete palmos" e "Brothers and sisters".

Embalado por uma nostálgica e dançante trilha sonora e com uma protagonista encantadora, "O casamento de Muriel" é um cult-movie por excelência. Uma sessão da tarde saborosa e com muito mais consistência do que mostra à primeira vista.