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Wednesday, December 7, 2011

SINAIS

SINAIS (Signs, 2002, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Barbara Tulliver. Música: James Newton Howard. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowat. Produção executiva: Kathleen Kennedy. Produção: Frank Marshall, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Cherry Jones, Rory Culkin, Abigail Breslin, M. Night Shyamalan. Estreia: 29/7/02

Em primeiro lugar é necessário elogiar o talento que o diretor/roteirista/produtor (e neste filme também ator) M. Night Shyamalan tem em criar climas aterradores. Desde que encantou o mundo com "O sexto sentido", o cineasta indiano (mas criado perto da Filadélfia) encontrou a fórmula para criar, através do som e de imagens cuidadosamente desenhadas, um patamar de suspense que poucos diretores conseguiram atingir. Ainda que tenha sofrido uma queda vertiginosa de qualidade em sua filmografia a partir de "A vila", de 2004, Shyamalan não pode ser acusado de trair suas referências no gênero. E elas estão claramente presentes em "Sinais", seu último filme até hoje que foi realmente capaz de empolgar os cinéfilos (ou ao menos parte deles).

Mais uma vez o clima é o principal elemento que Shyamalan utiliza para estarrecer a audiência e deixá-la grudada na poltrona. Sem apelar para sustos desnecessários (mas nunca evitando a tensão que explode em pulos do sofá) ou para monstros sanguinários, o cineasta volta a provar o grande poder da sugestão em detrimento do explícito. Ao preferir concentrar-se na complexidade dramática de suas personagens (sempre bem escritas e desenvolvidas com delicadeza) e na maneira com que elas agem em circunstâncias adversas (e "adversas" aqui é até eufemismo), o homem que revelou Haley Joel Osment ao mundo exige de sua plateia apenas a empatia necessária para que se embarque na trama sem pestanejar. E faz isso aos poucos, delicadamente, dando tempo para que todas as circunstâncias se apresentem (e façam todo o sentido do mundo nas cenas finais). Cada diálogo escrito por Shyamalan, cada detalhe visual e cada minuto de filme não estão ali à toa. Poucos cineastas conseguem ser tão enxutos sem ser apressados quanto ele. E isso faz toda a diferença.



"Sinais" começa quando os dois filhos pequenos de Graham Hess (Mel Gibson em uma das melhores atuações de sua carreira) descobrem, na plantação de milho de sua fazenda no interior da Pensilvânia, círculos misteriosos semelhantes a outros que estão sendo descobertos pelo mundo todo. A princípio descrente da ameaça que o mistério pode representar, o ex-reverendo (que abandonou a batina após o acidente de carro que matou sua mulher, seis meses antes) aos poucos se deixa convencer pela mídia e por seu irmão caçula Merrill (Joaquin Phoenix) de que tudo é a preparação para uma invasão alienígena de grande porte e violência. Sozinho na fazenda com sua família, ele tenta reencontrar a fé perdida para sobreviver à tragédia.

É interessante perceber, em "Sinais", a forma com que o roteiro se desenrola diante dos olhos do espectador sem que ele se dê conta exatamente do que está acontecendo (o grande trunfo também de "O sexto sentido"). Até perto dos créditos de encerramento tudo leva a crer que trata-se de um suspense de ficção científica que abdica de efeitos especiais exorbitantes (e é inegável que o orçamento generoso de mais de 70 milhões de dólares pagaria por um visual menos pobre dos alienígenas) para homenagear clássicos do gênero, como a primeira versão de "Invasores de corpos". Seu desfecho, porém, mostra uma ambição maior de seu diretor: ele quer questionar a fé de seu público, assim como questionou de suas personagens. Explicar a forma com que ele lança a pergunta ao público seria estragar a surpresa de quem ainda não o assistiu, mas não há problema em dizer que NADA que aconteceu na vida de Hess foi por acaso e tudo estava apenas o levando à situação extrema em que ele se encontra.

Desde sua abertura - com a trilha sonora tonitruante de James Newton Howard emulando o melhor Bernard Herrman de "Psicose" - até suas cenas finais, "Sinais" é (mais) um belo exemplo da seriedade com que M. Night Shyamalan trata o cinema e seu público. O cuidado na direção de atores - incluindo um Mel Gibson em sua melhor forma, em um papel rejuvenescido para combinar com sua idade (Paul Newman e Clint Eastwood foram pensados para o projeto), um Joaquin Phoenix bastante diferente do vilão que interpretou em "Gladiador" e dois atores mirins em ótima forma (Rory Culkin, irmão de Macaulay, e Abigail Breslin, que despontaria para a fama quatro anos depois no ótimo "Pequena Miss Sunshine") - a inteligência na utilização do som e a opção em contar toda a história pelo restrito ponto de vista de uma pequena família comprovam o enorme talento de seu criador. Torçamos para que ele volte a nos encantar novamente muito em breve!

Friday, September 2, 2011

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00

O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errôneas a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas – ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M.Night Shyamalan Depois do impressionante êxito comercial e crítico de “O sexto sentido”, todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu sucesso maior. Para surpresa de todos, porém, ele lançou “Corpo fechado”, no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, “Corpo fechado” ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for jamais lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de “O sexto sentido” – o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense – “Corpo fechado” é, na verdade, um excelente filme de super-herói, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando nem em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo – ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante).
Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn – que trabalha como segurança em um estádio de futebol – relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.


Apesar da premissa um tanto nerd, “Corpo fechado” é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo – o que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock – de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

“Corpo fechado” é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

Monday, July 4, 2011

O SEXTO SENTIDO

O SEXTO SENTIDO (The sixth sense, 1999, Hollywood Pictures/Spyglass Entertainment, 107min) Direção e roteiro: M.Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Andrew Mondshein. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowatt. Produção executiva: Sam Mercer. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry Mendel. Elenco: Bruce Willis, Olivia Williams, Haley Joel Osment, Toni Colette. Estreia: 06/8/99

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (M.Night Shyamalan), Ator Coadjuvante (Haley Joel Osment), Atriz Coadjuvante (Toni Colette), Roteiro Original, Montagem

Esqueça ectoplasmas arrastando correntes e mansões vitorianas assombradas. Depois de "O sexto sentido", os filmes de fantasmas atingiram um novo patamar de qualidade, deixando de lado os vícios perpetuados pelos filmes clássicos do gênero. Tirando a poeira do estilo e o arejando com uma modernidade que nunca lhe tira a tensão e o medo característicos, o filme de M. Night Shyamalan conquistou o mundo sem fazer muito esforço. Estreando com pouco alarde, o filme estrelado por Bruce Willis arrecadou mais de 600 milhões de dólares pelo mundo, conquistou seis indicações ao Oscar (inclusive as cobiçadas de filme, diretor e roteiro original) e de quebra revelou o garotinho Haley Joel Osment, que depois de ter protagonizado o encontro entre Steven Spielberg e Stanley Kubrick em "Inteligência artificial", desapareceu como a maioria dos atores mirins. Mas mais do que qualquer outra coisa, "O sexto sentido" devolveu ao espectador o prazer inigualável de assistir a uma história bem contada, inteligente e, o mais importante, extremamente humana, a despeito de ter algumas almas penadas como personagens.

O filme já começa com a adrenalina em alta. Voltando para casa depois de ser homenageado pela prefeitura da Filadélfia, onde mora, o psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, muito eficiente) descobre que ela foi invadida por um ex-cliente, agora um jovem desequilibrado (um irreconhecível e assustador Donnie Wahlberg) que, em desespero lhe dá um tiro e se suicida em seguida. Alguns meses depois, Crowe encontra sua chance de redimir-se do fracasso em lidar com o jovem ao ter a possibilidade de tratar do pequeno Cole Sears (Haley Joel Osmente, nunca aquém de espetacular), um menino de oito anos que enfrenta problemas na escola e em casa. Isolado e solitário, Cole é criado pela mãe Lynn (Toni Colette, de "O casamento de Muriel", bem mais magra, ótima atriz e indicada ao Oscar de coadjuvante) e apresenta hematomas e comportamento arredio. Depois de algumas conversas com o garotinho, Malcolm descobre que seu problema não é doméstico: ele tem o dom (ou a maldição, dependendo do ponto de vista) de ver e falar com fantasmas, que lhe utilizam para resolver situações pendentes. Enquanto tenta ajudar Cole, o médico precisa também recuperar a relação com a esposa (Olivia Williams), abalada desde o atentado.

        

A maior inteligência do roteiro redondinho de Shyamalan - descendente de indianos cujo primeiro filme, "Olhos abertos" foi solenemente ignorado por todo mundo - é a sua opção em sugerir bem mais do que mostrar. Durante toda a sua primeira metade, "O sexto sentido" é lento, discreto, quase contemplativo, contando com uma trilha sonora impactante mas sutil de James Newton Howard. Após a revelação do dom de Cole, a trama atinge níveis de suspense e tensão capazes de arrepiar até o mais cético dos espectadores. É a partir daí que fantasmas cruzam a tela em momentos inesperados (ainda que pistas de sua aparição surjam constantemente) e que, de drama familiar, o filme passe a um terror psicológico dos melhores. A escolha por não exagerar em maquiagem e efeitos visuais também colabora para que o filme não fique datado e esteja tão fresco hoje quando de sua estreia, já há doze anos. Tudo isso somado ao talento do cineasta/roteirista em criar diálogos simples mas profundos e dirigir seus atores com maestria faz com que, mais do que um filme de terror feito para apavorar plateias, "O sexto sentido" atinja um outro nível emocional e artístico. Mesmo quem não gosta de levar sustos é capaz de se perceber chorando ao final da projeção, graças à delicadeza com que tudo se desenrola - e à cena magistral em que Cole finalmente conta seu segredo à sua mãe.

Já em "O sexto sentido" M. Night Shyamalan utilizava-se de algumas de suas marcas registradas (a importância dada à cor vermelha, a trilha sonora de James Newton Howard, a inteligência da edição de som, o cuidado com o desenvolvimento da trama). Criador ainda de uma outra obra-prima ("Corpo fechado"), um filme excelente ("Sinais") e vários filmes que dividiram crítica e público (entre eles o sofrível "A vila" e o subapreciado "A dama da água"), Shyamalan pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ter sido elogiado à toa. "O sexto sentido" mereceu todo o sucesso que fez, por ter devolvido ao público a fé no bom cinema de suspense sem ter que apelar para a violência explícita.