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Monday, February 6, 2012

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a dangerous mind, 2002, Miramax, 113min) Direção: George Clooney. Roteiro: Charlie Kaufman, livro de Chuck Barris. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alex Wurman. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Louis Dandonneau, Anne Galléa, Robert Greenfield. Produção executiva: Stephen Evans, Jonathan Gordon, Rand Ravich, Steven Soderbergh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Julia Roberts, Drew Barrymore, Maggie Gyllenhaal, Rutger Hauer. Estreia: 31/12/02

Urso de Ouro Melhor Ator (Festival de Berlim): Sam Rockwell

Normalmente o que leva um ator a assumir a cadeira de diretor é a vaidade. Somada à megalomania, ela pode levar a obras como "Dança com lobos" - que encantou milhares de pessoas e os votantes do Oscar de 1991, que o escolheram em detrimento do extremamente superior "Os bons companheiros" - ou "Coração valente" - que supreendeu todo mundo mostrando que Mel Gibson tinha mais talento como cineasta do que como ator dramático. Em 2003 um outro ator uniu-se à galeria de novos diretores - que inclui também Robert Redford, Danny DeVito, Robert DeNiro, Sean Penn, Edward Norton, Orson Welles e inúmeros outros menos cotados - e, para alívio geral, saiu-se muito melhor do que a encomenda. Já famoso como ator e galã, George Clooney assumiu as rédeas de "Confissões de uma mente perigosa", alucinante (e alucinada) versão para o cinema das memórias de Chuck Barris, um produtor de TV americano que, nas horas vagas, trabalhava como agente secreto da CIA. Brilhantemente escrito pelo demente (no bom sentido) Charlie Kaufman e apresentando um trabalho excepcional de Sam Rockwell no papel central, o filme colecionou elogios e prêmios - melhor ator no Festival de Berlim, melhor roteiro pelo National Board of Review - e confirmou Clooney como um diretor extremamente talentoso.

Dono de um apurado senso de humor, Clooney encontrou no tom sarcástico do script de Kaufman o material perfeito para sua estreia. Mesmo contando uma história séria, com toques de violência e até mesmo lances de grande dramaticidade, ele transformou seu filme em uma comédia original, criativa e imprevisível, que em nenhum momento dá pistas de tratar-se da obra de um iniciante. O ex-galã (que arrumou ainda espaço para uma participação como ator, talvez como chamariz de bilheteria) se utiliza de soluções bastante inteligentes no desenvolvimento da trama, demonstrando uma segurança ímpar. Contando ainda com a edição do experiente Stephen Mirrione (colaborador de seu amigo Steven Soderbergh), ele faz de "Confissões de uma mente perigosa" um divertido filme de espionagem onde a espionagem é quase uma coadjuvante de luxo. Nada é exatamente o que parece em seu filme, e é justamente aí que está toda a graça.



Sam Rockweel deita e rola como Chuck, um produtor de programas de televisão (criador do famoso "Namoro na TV") que é recrutado pelo misterioso Jim Byrd (Clooney) para trabalhar na CIA. A princípio pensando tratar-se de uma brincadeira, logo ele começa a perceber que está realmente envolvido em violentos trabalhos em várias partes do mundo, sempre acompanhado da bela Patricia Watson (Julia Roberts, se divertindo perceptivelmente no papel) e do sinistro Keeler (Rutger Hauer). Ao tentar equilibrar suas duas personalidades - empresário do show business e matador a serviço do governo - ele acaba entrando em um surto psicótico que o afasta da mulher que ama, Penny (Drew Barrymore).

Contando a coisa parece muito séria, mas não é. Realizado com um senso de ritmo invejável - para o que o roteiro magistral de Kaufman (que não gostou da maneira com que o cineasta tratou seu trabalho no corte final) colabora lindamente - "Confissões" não deixa a peteca cair em momento algum, surpreendendo a plateia constantemente (seja nas reviravoltas da trama ou na participação afetiva de Matt Damon e Brad Pitt em uma sequência hilariante). Fotografado com discrição por Newton Thomas Sigel (que assina a fotografia dos filmes de Bryan Singer) em tons pastéis que contrastam com o colorido exagerado dos cenários televisivos dos programas de Barris, o filme só peca em um detalhe: não é histericamente engraçado nem tampouco é um policial tradicional, e essa indecisão (ou transgressão das regras, o que soa mais apropriado) acabou lhe custando caro. Ao custo de quase 30 milhões de dólares, sua renda doméstica mal chegou aos 16. Felizmente o fracasso comercial não abalou o George Clooney diretor, que depois presentearia a plateia com filmes mais sérios e ainda mais elogiados, como "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011).

No final das contas, "Confissões de uma mente perigosa" é um dos mais empolgantes filmes de estreia que se tem notícia, que cresce a cada revisão. Quem não conhece não pode perder tempo! E, além do mais... quem pode resistir ao carinho do ator tornado diretor com a família, ao escolher uma canção de sua tia Rosemary Clooney para encerrar a projeção?

Friday, November 11, 2011

ONZE HOMENS E UM SEGREDO

ONZE HOMENS E UM SEGREDO (Ocean's eleven, 2001, Warner Bros, 116min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Ted Griffin, roteiro original de Harry Brown, Charles Lederer. Fotografia: Steven Soderbergh (Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: David Holmes. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Phillip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Bruce Berman, Susan Ekins, John Hardy. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Matt Damon, Andy Garcia, Bernie Mac, Elliott Gould, Casey Affleck, Scott Caan, Carl Reiner, Don Cheadle, Angie Dickinson. Estreia: 05/12/01

A impressão que alguns filmes passam ao espectador é a de que o elenco está se divertindo tanto quanto o público. Em alguns casos isso é problemático, mas de vez em quando acaba se tornando um prazer a mais, como se a plateia estivesse sendo convidada a participar de uma festa particular - e muito animada. É mais ou menos isso que acontece com "Onze homens e um segredo", grande sucesso de bilheteria dirigido por Steven Soderbergh logo após seu Oscar pelo sério e compenetrado "Traffic". Refilmagem (muito) livre de um clássico estrelado por Frank Sinatra e Dean Martin em 1960, essa nova versão rendeu quase 200 milhões de dólares só no mercado americano e comprovou o talento versátil do cineasta que derrotou a si mesmo na festa da Academia (ele concorria também por "Erin Brockovich, uma mulher de talento").

A princípio (e sejamos honestos, é exatamente isto) "Onze homens e um segredo" é mais um filme sobre grandes golpes em que a plateia é levada a torcer fervorosamente pelo criminoso (e quando o criminoso é George Clooney fica tudo muito mais fácil). Clooney exercita todo o charme mezzo cafajeste/mezzo carente na pele de Danny Ocean, um bandido boa-pinta que sai em liberdade condicional já de olho em uma nova forma de burlar a lei - e, no caso, seu desafeto Terry Benedict (Andy Garcia), que, além de dono de três cassinos em Las Vegas casou-se com sua ex-mulher, Tess (Julia Roberts em um generoso e bem-humorado segundo plano). Para roubar os três cassinos na mesma noite - durante uma luta de boxe disputadíssima - ele sai em busca do time perfeito, que inclui seu braço-direito Rusty Ryan (um Brad Pitt encantador e hilário), o financiador do golpe Reuben Tishkoff (Elliot Gould, sensacional) e o golpista Linus Caldwell (Matt Damon). Quando a equipe chega a onze pessoas é hora de partir para a ação.


O mais divertido de "Onze homens e um segredo" nem é tanto o desenvolvimento da trama, mesmo porque no fundo todo mundo sabe "o que" irá acontecer (ainda que talvez não desconfiem "como"), mas sim a forma com que Soderbergh parece ter deixado o elenco improvisar e brincar em cima de uma história que se presta lindamente a esse tipo de brincadeira. O próprio filme original era um veículo para o chamado "Rat Pack" (grupo de amigos que incluía, além de Sinatra e Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop). A atualização do bando não poderia ser mais acertada, uma vez que é nítida a química entre os atores - e que suas duas continuações confirmaram ainda mais. Unindo o charme de Clooney ao humor debochado de Pitt e a sensualidade de Julia Roberts não tinha como dar errado. E não deu.

"Onze homens e um segredo" não é um filme para quem busca entretenimento sério e cerebral. É uma piada interna que funciona como diversão inofensiva - além de extremamente bem produzida e surpreendentemente bem escrita (alguns diálogos são engraçadíssimos). Bem fotografado (pelo próprio diretor sob o pseudônimo de Peter Andrews), agilmente editado e inteligente, é quase tudo que se espera de um filme com suas (des)pretensões.

Thursday, July 7, 2011

TRÊS REIS

TRÊS REIS (Three kings, 1999, Warner Bros., 114min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, história de John Ridley. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Carter Burwell. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Gregory Goodman, Kelly Smith-Wait. Produção: Paul Junger Witt, Edward L. McDonnell, Charles Roven. Elenco: George Clooney, Mark Wahlberg, Ice Cube, Spike Jonze, Cliff Curtis, Nora Dunn, Jamie Kennedy, Mykelti Williamson, Judy Greer. Estreia: 01/10/99

Tudo que o povo americano conseguiu visualizar da Guerra do Golfo foram as imagens transmitidas pelas emissoras de televisão. Uma guerra totalmente midiática, sem heróis nem vítimas – pelo menos nos conceitos consagrados como tais – que, se deixou um gosto de vazio nas bocas ianques, mas que pelo menos legou “Três reis”, um dos filmes mais alucinados de 1999, que brinca no tênue limite entre o deboche inteligente e a seriedade que um tema como tal merece. Dirigido pelo desconhecido David O. Russell, que também assina o roteiro - e conseguiu a chance de ser indicado ao Oscar de diretor em 2011 por "O vencedor" - o filme consegue ser chocante, engraçado e dar uma visão completamente inusitada do conflito que jogou americanos em territórios árabes.

Na verdade, o filme começa quando a guerra termina. Às vésperas de embarcar de volta pra casa, o Coronel Archer (George Clooney, cada vez mais à vontade nas telas) junta-se a outros três soldados em uma cruzada pessoal. Ele, o pai de primeira viagem Troy (Mark Whalberg, escolhendo seus papéis com a firmeza de um veterano), o engajado (Ice Cube, hilário) e o atrapalhado (o video-clipeiro que brinca de cineasta Spike Jonze) descobrem um mapa – escondido em um lugar surreal – que dá a exata localização de todo o ouro roubado por Sadam Hussein do povo do Kwait. Dispostos a mudar de vida, eles resolvem buscar o tesouro, batendo de frente com a miséria do povo do Iraque, com a violência com a qual pouco contato tiveram durante as batalhas e com a verdade sobre a guerra criada pelo presidente do país mais poderoso do mundo.



"Três reis" destaca-se também por não pretender levantar nenhuma bandeira politicamente correta. Os protagonistas não são heróis imaculados (muito pelo contrário) e nem tampouco os normalmente vilões na visão norte-americana (os oponentes) são poços de crueldade, ainda que em determinados momentos quase o sejam. Felizmente o humor alucinado do roteiro não permite que a coisa toda seja levada demasiadamente a sério - e a presença de um sensacional George Clooney apenas reitera o tom de brincadeira do filme, cuja edição ágil impede o tédio e foge do tradicional esquema dos filmes de guerra, onde as batalhas são o centro da ação. Talvez incomode os fãs mais aguerridos do gênero, mas pode conquistar a plateia mais afeita a novidades estilísticas.

Longe de ser diversão fácil – ainda que contenha todos os ingredientes necessários a um sucesso de bilheteria (leia-se ação, tiros, humor e atores conhecidos) – “Três reis” destaca-se principalmente por sua coragem em lidar com um tema sério de maneira irreverente, sem nunca deixar-se cair na tentação de apelar para a piada fácil ou tiroteios desnecessários. A violência do filme é cuidadosamente encaixada em momentos-chave para que nunca resvale para o banal e a fotografia estourada de Newton Thomas Sigel colabora para a sensação de calor e sufocamento que o deserto iraquiano passa ao espectador. Mesmo o humor tem seu senso de ironia e amargura que pouco é encontrado em filmes americanos, especialmente nos de guerra. O relativo heroísmo dos soldados, no final, não soa como patriotada barata e sim como questão de humanidade. E a bela canção “In God’s country”, da banda irlandesa U2 fecha a obra com chave de ouro

Thursday, May 26, 2011

IRRESISTÍVEL PAIXÃO

IRRESISTÍVEL PAIXÃO (Out of sight, 1998, Universal Pictures, 123min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Frank, romance de Elmore Leonard. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Anne V. Coates. Música: David Holmes. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Gary Frutkoff/Maggie Martin. Produção executiva: Barry Sonnenfeld, John Hardy. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Don Cheadle, Catherine Keener, Steve Zahn, Dennis Farina, Albert Brooks, Luis Guzman, Viola Davis. Estreia: 26/6/98

Em 1998, o escritor norte-americano Elmore Leonard estava na crista da onda. Barry Levinson havia dirigido "O nome do jogo", elogiado pela crítica e premiado com um Golden Globe. O cultuado Quentin Tarantino tinha realizado "Jackie Brown" baseado em seu romance "Run Punch" e feito um trabalho excepcional. Para completar o quadro só faltava mesmo um diretor cult: Steven Soderbergh, premiado em Cannes com seu "sexo, mentiras e videotape" em 1988 deu às tramas de Leonard a sofisticação que faltava ao humor negro de Levinson e à violência de Tarantino. "Irresistível paixão" é um policial romântico com alto grau de sensualidade, tudo graças à química impecável entre Jennifer Lopez e George Clooney.

Jack Foley (vivido com o charme habitual de Clooney, exercitando seu lado Cary Grant anos 90) é um assaltante de bancos profissional. Durante uma fuga de uma de suas condenações, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Buddy Bragg (Ving Rhames), ele acaba ficando preso no porta-malas de um carro junto com Karen Sisco (a belíssima Lopez, melhor atriz do que se poderia esperar), uma agente do FBI que estava na penitenciária por acaso. Surge uma atração irresistível entre eles, mas logicamente eles se afastam sem consumar o desejo nascido de maneira tão absurda. Sem conseguir esquecer um do outro, eles vêem seus caminhos novamente cruzados quando, no processo de dar um de seus grandes golpes, Foley esbarra novamente em Karen, que, fascinada, se divide entre os novos sentimentos e os deveres profissionais.


Não é preciso ser um expert em cinema para perceber que "Irresistível paixão" foge dos padrões habituais do cinema policial. Primeiro, não há um herói típico, de moral ilibada e incorruptível. Depois, o mocinho é um criminoso, apesar de esbanjar charme e não abusar da violência. E por fim, em muitos momentos a plateia se vê torcendo por ele e por seu romance complicado com a policial. Além disso, o filme de Soderbergh deita e rola em uma edição inteligente, que privilegia as idas e voltas do roteiro, deixando o público sempre à espera dos próximos acontecimentos (que além de tudo são bastante imprevisíveis). E além da trama divertida e envolvente, o cineasta mostra-se, mais uma vez, um exímio diretor de atores, todos eles fantásticos (com a exceção, novamente, de Michael Keaton, que repete sua atuação pifia de "Jackie Brown" na pele do mesmo policial Ray Nicolette).

O elenco coadjuvante de "Irresistível paixão" é um de seus maiores trunfos. Um irreconhecível Albert Brooks vive um milionário que, depois de passar uma temporada na prisão, torna-se uma vítima em potencial das armações de Foley; Don Cheadle brilha como o marginal Maurice Miller e Steve Zahn volta a divertir a audiência como o atrapalhado Glenn Michaels. Mas não há como falar do filme sem que venha imediatamente à mente o excelente trabalho de sua dupla central. Linda, sensual e convincente mesmo como uma policial, Jennifer Lopez tem aqui um dos maiores destaques de sua carreira. E Clooney aproveita a desenvoltura da parceira para construir um Jack Foley que ele mesmo considera uma de suas melhores atuações.

"Irresistível paixão" é um divertido entretenimento de classe e categoria. Inteligente, sarcasticamente engraçado e absolutamente sexy, é um filme que, apesar da bilheteria decepcionante, merece ser descoberto e aplaudido por sua criatividade e por seu elenco impecável.

Wednesday, April 6, 2011

O PACIFICADOR

O PACIFICADOR (The Peacemaker, 1997, Dreamworks SKG, 124min) Direção: Mimi Leder. Roteiro: Michael Schiffer, artigo de Leslie Cockburn, Andrew Cockburn. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: David Rosenbloom. Música: Hans Zimmer. Figurino: Shelley Komarov. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Michael Grillo, Laurie Macdonald. Produção: Branko Lustig, Walter Parkes. Elenco: Nicole Kidman, George Clooney, Armin Mueller-Stahl, Marcel Iures, Aleksandr Baluev, Goran Visnjic. Estreia: 26/9/97

Uma mulher dirigir um filme de ação é algo tão raro que, quando acontece, é visto com olhos atentos por todo mundo. No entanto, isso não aconteceu como deveria com "O pacificador", filme de estreia do estúdio DreamWorks SKG - de propriedade de Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen. Dirigido por Mimi Leder, que comandou vários episódios da série de TV "Plantão médico" - produzido por Spielberg - o filme estrelado por George Clooney e Nicole Kidman não fez o barulho esperado nas bilheterias americanas, apesar de suas qualidades. Diferentemente de outros filmes do gênero, que dão mais valor às cenas de explosões e tiroteios, o trabalho de Leder se concentra também na história e nas personagens, o que desacelera seu ritmo. Quem prefere um pouco de inteligência em vez de pura correria, no entanto, não tem do que reclamar. "O pacificador" é um filme de ação com cérebro.

Dois acontecimentos aparentemente sem conexão alguma dão partida à história: o assassinato de um diplomata iraniano e a trágica batida de dois trens em algum lugar da Rússia. O acidente causa a explosão de uma ogiva nuclear e logo a especialista Julia Kelly (Nicole Kidman) fica com a certeza de que tudo não passa de uma ação terrorista. Sua certeza é questionada pelo Tenente Coronel Thomas Devoe (George Clooney), que acredita que tudo é uma armação para esconder algo maior. Juntos, eles começam a investigar os rastros que o roubo de dez ogivas deixou para trás e descobrem que é tudo obra do iugoslavo Duan Gavri (Marcel Iure), que perdeu mulher e filha vítimas de um atirador de elite, em Sarajevo. Kelly e Devoe passam a dedicar-se, então, a impedir que ele detone uma bomba em uma conferência da ONU em Nova York.


Logicamente o público que prefere tiroteios sem sentido vai sentir falta de mais ação em "O pacificador", ainda que Mimi Leder dirija com segurança ímpar todas as sequências que exigem o máximo de adrenalina que o cinema americano pode oferecer. Ao contrário de produtos menos elaborados, porém, tudo aqui tem um motivo para acontecer, nenhuma cena é dispensável e os diálogos são tão importantes quanto os tiros. Ainda que não desenvolva as personagens psicologicamente - mesmo porque tal luxo não caberia na situação extrema pela qual todas estão passando - o roteiro se preocupa em não deixar que aconteça um romance entre os protagonistas (o que seria ridiculamente falso) e, melhor ainda, não forja nenhum tipo de heroísmo individual. Tudo que acontece em "O pacificador" soa real devido ao cuidado da diretora em jamais extrapolar na fantasia. E a escolha do elenco também foi acertada. Nicole Kidman, substituindo Annette Bening, tem o tipo ideal para a personagem, clássica e séria. E George Clooney - conhecido pela diretora através de "Plantão médico" - é o herói típico de filmes de ação, charmoso e dono de uma coragem à toda prova, em mais um papel que o elevou ao primeiro time de Hollywood.

Realizado de forma extremamente correta e competente, "O pacificador" pode até não empolgar a quem está mal-acostumado com a dieta de filmes sem conteúdo com que a indústria americana alimenta seu público. Mas é bastante superior - até mesmo em sua coragem em tocar em assuntos que ainda não eram tabu em Hollywood, como terrorismo - a qualquer subproduto que dispensa história e personagens em função de uma bilheteria mais gorda.

Tuesday, March 22, 2011

UM DIA ESPECIAL

UM DIA ESPECIAL (One fine day, 1996, Fox 2000 Pictures/20th Century Fox, 108min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Terrel Seltzer, Ellen Simon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anne Kuljian. Produção executiva: Kate Guinzburg, Michelle Pfeiffer. Produção: Lynda Obst. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Clooney, Mae Whitman, Alex D. Linz, Charles Durning, Amanda Peet, Ellen Greene. Estreia: 20/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("For the first time")

Em 1996, o ator George Clooney estava começando sua escalada rumo ao sucesso no cinema. Na TV ele já era ídolo: sua participação como Doug Ross, o pediatra don juan da série "Plantão médico" o colocava como símbolo sexual inquestionável entre o público feminino, que suspirava todas as semanas frente ao aparelho de televisão. Em sua ambição de tornar-se também um astro de cinema, nada mais natural do que não mexer em time que está ganhando. Depois de experimentar um pouco de ousadia com sua estreia nas telas - o terror "Um drink no inferno", roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Robert Rodriguez - Clooney presenteou as fãs com "Um dia especial", uma comédia romântica que pode ser definida por todos os adjetivos que filmes do gênero comportam: agradável, engraçadinha, fofa... e previsível.

Não que o público que tenha ido acorrido aos cinemas para ver George Clooney seja muito exigente - e foi um público razoável, a julgar pela bilheteria bem razoável de quase 50 milhões de dólares. Mas o fato é que, apesar de não apresentar nenhuma novidade, "Um dia especial" serviu perfeitamente aos objetivos do ator, que, ao lado de uma inspirada Michelle Pfeiffer - também produtora executiva - conquista a plateia sem precisar fazer muito esforço. E são os dois, belos e talentosos, que fazem com que o filme de Michael Hoffman seja um entretenimento inofensivo e divertido. Fotografado com capricho pelo veterano Oliver Stapleton, "Um dia especial" não é inesquecível, mas tem um charme que o diferencia de muitos outros exemplares do gênero.


Michelle Pfeiffer, linda como sempre e com um timing cômico na medida certa, vive Melanie Parker, uma arquiteta que divide seu tempo entre tentar uma promoção profissional e cuidar de Sammy (Alex D. Linz), seu filho com um músico itinerante que aparece apenas de vez em quando na vida do filho. Clooney interpreta Jack Taylor, conhecido jornalista que, além de procurar furos de reportagem, tenta provar à ex-mulher que sabe cuidar da filha pequena, Maggie (Mae Whitman). Justamente no dia em que Melanie tem uma apresentação importantíssima que pode lhe dar a sonhada promoção e Jack precisa comprovar os fatos de uma polêmica reportagem cujas consequências podem lhe tirar o emprego, seus filhos perdem o passeio de barco da escola e os dois adultos - de personalidades opostas e que nutrem uma antipatia à primeira vista em relação um ao outro - são obrigados a criar uma forma de resolver a situação e, é claro, acabam o dia apaixonados.

E é só isso. Com esse fiapo de história, Hoffman mantém a atenção da plateia usando a abusando dos clichês que fazem a glória das comédias românticas sem, no entanto, incomodar ou aborrecer. O ritmo mantido pelo cinesta combina com a bela trilha sonora de James Newton Howard e com a coloração de uma Nova York chuvosa em dias de uma beleza rara. As personagens secundárias não roubam a atenção da dupla central, surgindo em cena apenas quando o necessário para o desenvolvimento da trama - e são interpretados por gente boa, como o veterano Charles Durning e a bela Amanda Peet. Michael Hoffman concentra o foco de seu filme totalmente em Pfeiffer e Clooney, e acerta em fugir das tramas paralelas. A química entre o ótimo casal de protagonistas e as crianças que interpretam seus filhos é outro ponto alto do filme, uma sessão da tarde das mais encantadoras.

Logicamente o futuro de Clooney no cinema preparava voos maiores - inclusive uma carreira de diretor e um Oscar de coadjuvante - mas é impossível negar que "Um dia especial" jamais será uma mancha em seu currículo. Afinal, é um filme, como dito anteriormente, agradável, encantador e fofo. E tem Michelle Pfeiffer no elenco!