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Monday, February 6, 2012

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a dangerous mind, 2002, Miramax, 113min) Direção: George Clooney. Roteiro: Charlie Kaufman, livro de Chuck Barris. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alex Wurman. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Louis Dandonneau, Anne Galléa, Robert Greenfield. Produção executiva: Stephen Evans, Jonathan Gordon, Rand Ravich, Steven Soderbergh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Julia Roberts, Drew Barrymore, Maggie Gyllenhaal, Rutger Hauer. Estreia: 31/12/02

Urso de Ouro Melhor Ator (Festival de Berlim): Sam Rockwell

Normalmente o que leva um ator a assumir a cadeira de diretor é a vaidade. Somada à megalomania, ela pode levar a obras como "Dança com lobos" - que encantou milhares de pessoas e os votantes do Oscar de 1991, que o escolheram em detrimento do extremamente superior "Os bons companheiros" - ou "Coração valente" - que supreendeu todo mundo mostrando que Mel Gibson tinha mais talento como cineasta do que como ator dramático. Em 2003 um outro ator uniu-se à galeria de novos diretores - que inclui também Robert Redford, Danny DeVito, Robert DeNiro, Sean Penn, Edward Norton, Orson Welles e inúmeros outros menos cotados - e, para alívio geral, saiu-se muito melhor do que a encomenda. Já famoso como ator e galã, George Clooney assumiu as rédeas de "Confissões de uma mente perigosa", alucinante (e alucinada) versão para o cinema das memórias de Chuck Barris, um produtor de TV americano que, nas horas vagas, trabalhava como agente secreto da CIA. Brilhantemente escrito pelo demente (no bom sentido) Charlie Kaufman e apresentando um trabalho excepcional de Sam Rockwell no papel central, o filme colecionou elogios e prêmios - melhor ator no Festival de Berlim, melhor roteiro pelo National Board of Review - e confirmou Clooney como um diretor extremamente talentoso.

Dono de um apurado senso de humor, Clooney encontrou no tom sarcástico do script de Kaufman o material perfeito para sua estreia. Mesmo contando uma história séria, com toques de violência e até mesmo lances de grande dramaticidade, ele transformou seu filme em uma comédia original, criativa e imprevisível, que em nenhum momento dá pistas de tratar-se da obra de um iniciante. O ex-galã (que arrumou ainda espaço para uma participação como ator, talvez como chamariz de bilheteria) se utiliza de soluções bastante inteligentes no desenvolvimento da trama, demonstrando uma segurança ímpar. Contando ainda com a edição do experiente Stephen Mirrione (colaborador de seu amigo Steven Soderbergh), ele faz de "Confissões de uma mente perigosa" um divertido filme de espionagem onde a espionagem é quase uma coadjuvante de luxo. Nada é exatamente o que parece em seu filme, e é justamente aí que está toda a graça.



Sam Rockweel deita e rola como Chuck, um produtor de programas de televisão (criador do famoso "Namoro na TV") que é recrutado pelo misterioso Jim Byrd (Clooney) para trabalhar na CIA. A princípio pensando tratar-se de uma brincadeira, logo ele começa a perceber que está realmente envolvido em violentos trabalhos em várias partes do mundo, sempre acompanhado da bela Patricia Watson (Julia Roberts, se divertindo perceptivelmente no papel) e do sinistro Keeler (Rutger Hauer). Ao tentar equilibrar suas duas personalidades - empresário do show business e matador a serviço do governo - ele acaba entrando em um surto psicótico que o afasta da mulher que ama, Penny (Drew Barrymore).

Contando a coisa parece muito séria, mas não é. Realizado com um senso de ritmo invejável - para o que o roteiro magistral de Kaufman (que não gostou da maneira com que o cineasta tratou seu trabalho no corte final) colabora lindamente - "Confissões" não deixa a peteca cair em momento algum, surpreendendo a plateia constantemente (seja nas reviravoltas da trama ou na participação afetiva de Matt Damon e Brad Pitt em uma sequência hilariante). Fotografado com discrição por Newton Thomas Sigel (que assina a fotografia dos filmes de Bryan Singer) em tons pastéis que contrastam com o colorido exagerado dos cenários televisivos dos programas de Barris, o filme só peca em um detalhe: não é histericamente engraçado nem tampouco é um policial tradicional, e essa indecisão (ou transgressão das regras, o que soa mais apropriado) acabou lhe custando caro. Ao custo de quase 30 milhões de dólares, sua renda doméstica mal chegou aos 16. Felizmente o fracasso comercial não abalou o George Clooney diretor, que depois presentearia a plateia com filmes mais sérios e ainda mais elogiados, como "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011).

No final das contas, "Confissões de uma mente perigosa" é um dos mais empolgantes filmes de estreia que se tem notícia, que cresce a cada revisão. Quem não conhece não pode perder tempo! E, além do mais... quem pode resistir ao carinho do ator tornado diretor com a família, ao escolher uma canção de sua tia Rosemary Clooney para encerrar a projeção?

Thursday, October 20, 2011

DONNIE DARKO

DONNIE DARKO (Donnie Darko, 2001, Pandora Cinema/Flower Films, 113min) Direção e roteiro: Ricjard Kelly. Fotografia: Steven Poster. Montagem: Sam Bauer, Eric Strand. Música: Michael Andrews. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Alexander Hammond/Jennie Harris. Produção executiva: Chris J. Ball, Drew Barrymore, Casey La Scala, Hunt Lowry, Aaron Ryder, William Tyrer. Produção: Adam Fields, Nancy Juvonen, Sean McKittrick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Noah Wyle, Mary McDonnell, Seth Rogen. Estreia: 19/01/01 (Sundance Festival)

"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.

É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.



"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.

No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.

Tuesday, June 28, 2011

NUNCA FUI BEIJADA

NUNCA FUI BEIJADA (Never been kissed, 1999, Fox 2000 Pictures, 107min) Direção: Raja Gosnell. Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein. Fotografia: Alex Nepomniaschy. Montagem: Debra Chiate, Marcelo Sansevieri. Música: David Newman. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven J. Jordan/Suzette Sheets. Produção executiva: Drew Barrymore. Produção: Sandy Isaac, Nancy Juvonen. Elenco: Drew Barrymore, Michael Vartan, David Arquette, John C. Reilly, Molly Shanon, Garry Marshall, Leelee Sobieski, Jessica Alba, James Franco. Estreia: 09/4/99

Drew Barrymore, a garotinha Gertie de “ET, o extra-terrestre” cresceu e apareceu. Em “Nunca fui beijada” ela não só é a protagonista absoluta como ainda aparece como produtora executiva, através de sua produtora, a Flower Films. E dando mostras de que sabe muito bem de suas limitações como atriz, ela não quis buscar profundos dramas existenciais para voltar às telas. “Nunca fui beijada” é uma comédia romântica sem maiores novidades e talvez por isso mesmo funcione e cumpra tão bem seus objetivos de divertir sem exigir muito exercício da massa cinzenta. E é bastante engraçado, especialmente para aqueles que já conseguiram superar os traumas de uma adolescência conturbada.
     
No filme, dirigido por Raja Gosnell (que depois cometeria a versão live action de "Scooby Doo"), Drew – deixando pra trás um sério problema com vícios em drogas e álcool e uma tentativa de ressuscitar a carreira como símbolo sexual em filmes sofríveis – vive Josie Geller, a competente revisora de um jornal de Chicago que torce desesperadamente pela chance de virar repórter. Essa chance chega quando recebe de seu chefe (um surpreendente Garry Marshall, o diretor de “Uma linda mulher”) a incumbência de disfarçar-se de estudante secundarista para escrever uma reportagem sobre a juventude contemporânea. Mesmo desestimulada por seu amigo e editor Gus (John C. Reilly), Josie matricula-se em uma escola, e tão logo chega começa a lembrar-se de que seu período como adolescente não foi dos melhores. Renegada pelas patricinhas e ridicularizada pelos galãs de plantão, ela encontra amizade apenas com uma nerd, Aldys (Leelee Sobieski) - com quem se identifica de imediato - e com o professor de literatura Sam Coulson (Michael Vartan), por quem se apaixona perdidamente. As coisas começam a melhorar quando seu irmão Rob (David Arquette) também entra na escola e, popular como em seu tempo de estudante, a ajuda a galgar posições mais altas no status estudantil.
        

Nada em “Nunca fui beijada” é novidade. Quando Josie encontra-se pela primeira vez com seu professor, é óbvio que irá apaixonar-se por ele. Quando começam os preparativos para o Baile de Formatura, é claro que ele será o palco do clímax, quando as verdades virão à tona. E quando a jovem jornalista marca um encontro com seu amado em pleno campo de futebol todos sabem o que acontecerá. Mas a simpatia e o timing cômico de Barrymore, a trilha sonora recheada de bons nomes (John Lennon, REM, The Smiths, Cardigans), as citações pop (que vão de “Negócio arriscado”, com Tom Cruise a “Carrie, a estranha”, de Brian de Palma, passando por Shakespeare e Barbie), o elenco de apoio (que conta com a ótima Molly Shannon) e alguns bons momentos de humor compensam a falta de criatividade.

No final das contas, esse primeiro filme de Drew Barrymore como produtora executiva é uma deliciosa e bobinha sessão da tarde, que diverte sem fazer esforço e traz algumas cenas destinadas a clássicas do gênero (a protagonista em sua versão anos 80, ao som de "Like a prayer", de Madonna é hilária). Pode não ter mudado a história do cinema, mas é pop de qualidade, além de contar com as participações de Jessica Alba e James Franco em início de carreira. E é, acima de tudo, extremamente romântico para aqueles que acreditam em contos de fada!

Friday, March 18, 2011

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

Monday, January 31, 2011

SOMENTE ELAS


SOMENTE ELAS (Boys on the side, 1995, Warner Bros, 115min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Don Roos. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Michael R. Miller. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Rick Simpson. Produção executiva: Patricia Karlan, Don Roos. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther, Herbert Ross. Elenco: Whoopi Goldberg, Mary-Louise Parker, Drew Barrymore, Matthew McConaughey, James Remar, Estelle Parsons. Estreia: 03/02/95

Não seria exagero afirmar que o cineasta Herbert Ross tinha um jeito todo especial de falar sobre mulheres em seus filmes. Duas de suas mais conhecidas obras, por exemplo, tem personagens femininas fortes e podem ser considerados "filmes de mulher": "Momento de decisão", que punha Shirley MacLaine e Anne Bancroft frente a frente para resolver diferenças do passado, e "Flores de aço", drama choroso com grande elenco de atrizes e que deu a primeira indicação ao Oscar de Julia Roberts. "Somente elas", seu último filme, também, como o título sugere, concentra toda sua atenção em representantes fortes do sexo frágil. No rastro do bem-sucedido "Thelma & Louise", que ressuscitou o interesse do público por mulheres em situações menos "domésticas", o filme escrito por Don Roos - que depois partiria para a carreira de diretor dos injustamente desconhecidos "O oposto do sexo" e "Finais felizes" - mistura elementos de humor, drama e road-movie em um resultado bastante agradável e competente, ainda que longe de ser brilhante.

Quando o filme começa, a cantora Jane de Luca (Whoopi Goldberg) acaba de abandonar o bar onde fazia suas apresentações - e era ignorada pela plateia - e, desejando mudar-se para a Califórnia, responde a um anúncio de jornal da jovem Robin (Mary-Louise Parker), que precisa de companhia na viagem. No meio do caminho, as duas encontram a amalucada Holly (Drew Barrymore), amiga de Jane que acaba de descobrir-se grávida - sem saber se o pai é ou não seu namorado drogado e violento. Quando o namorado de Holly é encontrado morto, as três apressam a jornada, mas resolvem estabelecer-se em uma cidade do Texas. A vida simples e tranquila das três amigas sofre uma reviravolta quando Holly cai de amores por Abe (Matthew McConaughey), um policial honesto e dedicado e Jane se descobre apaixonada por Robin, que é soropositiva e tenta fugir das lembranças da morte do irmão pequeno.


"Somente elas" não foge dos clichês do gênero, mas os apresenta de maneira leve e fluente, sem forçar a barra, ao menos até seu terço final, quando a doença de Robin avança e todas são obrigadas a lidar com as consequências da morte do namorado de Holly. Esse terceiro ato talvez seja o que mais se aproxima dos dramalhões que o cinema americano adora produzir, mas não convenceu muito a crítica, falhando no que talvez fosse seu maior objetivo: ganhar certas estatuetas. Mary-Louise Parker é uma boa atriz, como a série de TV "Weeds" viria a comprovar, mas soa repetitiva em muitos momentos, não conquistando a plateia com sua personagem, ao contrário do que acontece com Drew Barrymore, dona de uma simpatia e um carisma irresistíveis que disfarçam suas pequenas falhas como atriz dramática: sua Holly parece ter sido escrita para ela, tamanha a identificação com o papel. E Whoopi Goldberg dispensa comentários. Dona de um perfeito timing cômico e um grande talento dramático, é ela quem conduz com maestria o filme de Ross, fazendo com o que o público perdoe certos exageros da trama.

E o que falar da trilha sonora, então? Como o próprio título sugere, até mesmo as canções escolhidas para "Somente elas" são femininas. Desde a versão interpretada por Goldberg de "Piece of my heart" até sua devastadora interpretação de "You got it", de Roy Orbison (cuja gravação na voz de Bonnie Rait encerra o filme), o público é brindado com uma primorosa seleção de músicas cantadas por mulheres. Estão presentes Annie Lennox, Cranberries, Sheryl Crow, Pretenders e Indigo Girls, dentre outras menos conhecidas, o que faz com que "ouvir" o filme seja tão bom quanto assistí-lo.

"Somente elas" é um perfeito drama para quem gosta de encharcar lenços de papel. A amizade entre as três protagonistas parece real, ainda que aconteça de forma quase abrupta na primeira metade, e a química entre as atrizes é excelente. Alguns diálogos são bastante espertos - cortesia do humor corrosivo de Don Roos - e até mesmo o final quase depressivo (só não o é totalmente porque existe o eterno ciclo da vida se renovando com o bebê de Holly) funciona e atinge seus objetivos. Não é uma obra-prima, mas vale a pena ser visto, nem que seja para conferir o trabalho de equipe de Goldberg, Parker e Barrymore.

Friday, June 25, 2010

ET, O EXTRA-TERRESTRE


ET, O EXTRATERRESTRE (ET, the extra-terrestrial, 1982, Universal Pictures, 115min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Melissa Mathison. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Jackie Carr. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg. Elenco: Henry Thomas, Dee Wallace, Drew Barrymore, C. Thomas Howell, Peter Coyote, Robert MacNaughton. Estreia: 11/6/82

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora


De vez em quando, para se gostar de um filme, é necessário deixar de lado a razão e embarcar na proposta do diretor. É o que acontece com “ET, o extra-terrestre”, sucesso absoluto de Steven Spielberg. Quem começar o filme esperando ver uma ficção científica com elocubrações filosóficas sobre a origem do universo, vai perder duas horas da vida. Mas quem entrar no espírito da coisa e baixar a guarda provavelmente sairá da sessão com lágrimas nos olhos e uma sensação de paz e serenidade no coração. Exagero? Vai dizer isso pras milhões de pessoas que lotaram os cinemas mundo afora e se emocionaram a valer com a história da amizade entre o menino Elliot (Henry Thomas) e seu extra-terrestre de estimação.

Elliot, o protagonista do filme, é uma criança como outra qualquer. Ainda sofrendo com a separação dos pais, ele sente-se rejeitado pelo irmão mais velho e, sem ter amigos da sua idade para brincar, ele encontra, na garagem de sua casa, um extra-terrestre que ficou na Terra por engano. A princípio temeroso, aos poucos o menino deixa-se levar pelo carinho que sente por ET e o apresenta a sua irmãzinha Gertie (Drew Barrymore) e ao resto de sua família. A coisa começa a ficar complicada quando agentes do governo descobrem a existência do ser alienígena e resolvem caçá-lo. É a partir daí que a genialidade de Spielberg se revela.

Ao eleger a inocência infantil como a maior qualidade que um ser humano ou extra-terrestre pode ter, o diretor optou por rotular os adultos (que, com exceção da mãe de Elliot não tem seus rostos mostrados até o terço final) como vilões e, sem que se perceba de imediato, o público já voltou à infância, está torcendo por Elliot e sua turma e de jeito nenhum fica questionando se bicicletas podem voar. Por um par de horas o público, da idade que for, volta a ser criança. E a câmera, sempre do ponto de vista infantil, só ajuda no efeito, assim como a inesquecível música de John Williams.

“ET” levou quatro Oscar pra casa: efeitos visuais, trilha sonora, efeitos sonoros e som. Não ficou com a estatueta de melhor filme, que foi parar nas mãos da “adulta e séria” cinebiografia de Mahatma Gandhi. Os fãs da pequena obra-prima de Spielberg, no entanto não se importam. Crianças, de idade e de alma, não se importam com prêmios e sim com o que fica em sua memória. E não há quem assista a “ET” e esqueça de sua bela história, que, a despeito dos inspirados efeitos especiais, se mantem como seu principal ingrediente.