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Wednesday, November 9, 2011

DIRIGINDO NO ESCURO

DIRIGINDO NO ESCURO (Hollywood ending, 2002, DreamWorks SKG, 112min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Wedigo von Schultzendorff. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenembaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Téa Leoni, Treat Williams, Mark Rydell, George Hamilton, Debra Messing, Aaron Stanford. Estreia: 03/5/02

Quando Woody Allen resolve falar sério e evoca um de seus ídolos máximos, Ingmar Bergman, ele conquista pela profundidade e por seu surpreendente entendimento da alma humana. Quando pretende apenas fazer rir, no entanto, é que o diretor nova-iorquino mostra porque é um dos mais prestigiados cineastas em atividade, capaz de arregimentar astros de todos os quilates para suas produções. Em "Dirigindo no escuro", ele não apenas faz rir como utiliza sua experiência de mais de três décadas no mundo do cinema para alfinetar a própria indústria.

O próprio Allen vive o protagonista, Val Waxman, um cineasta vencedor de dois Oscar que, em desgraça devido a seus ataques de estrelismo, tem a grande chance de voltar ao topo ao ser contratado para dirigir uma nova - e cara - produção. A princípio relutante em aceitar o trabalho - o produtor do filme, Hal Yaeger (Treat Williams) é o novo marido de sua ex-mulher (Téa Leoni) - Waxman acaba embarcando no projeto, disposto a tentar a ressurreição de sua carreira. Depois de contratar toda a equipe (inclusive um diretor de fotografia asiático cheio de manias e que não fala nenhuma palavra em inglês), ele descobre, na véspera do início das filmagens, que ficou cego. Impedido por seu agente (o cineasta Mark Rydell, de "A rosa") de desistir do trabalho, Waxman dá início à produção do filme, sem contar à ninguém sua condição, contando apenas com a ajuda do intérprete contratado para auxiliar na comunicação com o fotógrafo.


É difícil ficar incólume a "Dirigindo no escuro", especialmente quando se é fã de cinema e percebe nele referências nominais - aos irmãs Weinstein, donos da então poderosa Miramax, por exemplo - e piadas geniais sobre a própria Hollywood e suas engrenagens mercenárias. Ao eleger como protagonista um cineasta que conduz um filme sem enxergar absolutamente nada, Allen mostra, com seu característico senso de humor, que nem é preciso ter uso de todos os cinco sentidos para ser um cineasta na terra do cinema.


Com um final irônico e à altura do desenvolvimento do roteiro, repleto de diálogos engraçadíssimos e piadas visuais há muito ausente das obras de Woody Allen - e com um elenco que conta com Debra Messing, a gracinha protagonista do seriado "Will & Grace" - "Dirigindo no escuro" pode não ser o mais popular entre seus filmes, mas está (como sempre) muito à frente de comédias sem-graça que são servidas semanalmente ao público. Hilariante!

Friday, August 19, 2011

TRAPACEIROS

TRAPACEIROS (Small time crooks, 2000, Dreamworks SKG, 94min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Zhao Fei. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Tracey Ulman, Hugh Grant, Elaine May,  Michael Rapaport, Jon Lovitz. Estreia: 19/5/00

Woody Allen não é um cineasta de polpudas bilheterias, e a comemoração em torno dos 50 milhões de arrecadação de seu recente "Meia-noite em Paris" como seu maior sucesso comercial apenas reitera essa afirmação. Levando-se em conta sua carreira brilhante e sua espetacular média de pelo menos um filme por ano sem nunca cair na mediocridade (até mesmo suas obras menores são dignas de nota) não deixa de ser surpreendente que um de seus maiores êxitos populares tenha sido justamente "Trapaceiros", seu primeiro filme distribuído pela Dreamworks de Steven Spielberg. Talvez tenha sido influência do nome do Midas do cinema, mas o fato é que "Trapaceiros" fez mais sucesso do que se esperava, mesmo que esteja longe de ser um dos melhores trabalhos de Allen.




“Trapaceiros”, na verdade, conta várias histórias em seu desenrolar. Começa como um filme de assalto, ao estilo “Um dia de cão”. Ray Winkler (o mesmo Woody Allen de sempre) é um escroque sem maiores talentos que tem a idéia de roubar um banco através de um túnel subterrâneo. Para isso, ele conta com a ajuda da esposa Frenchy (a ótima Tracey Ullman) para que ela sirva de fachada em uma loja de biscoitos. O que ele não poderia imaginar é que a confeitaria pudesse fazer sucesso, o que os torna milionários em questão de poucos meses. Começa aí a segunda história: cheia da grana mas sem a menor classe, Frenchy contrata os serviços do galante David (Hugh Grant, divertindo-se claramente no papel) para ensiná-la a ser uma dama. Apaixonada por ele, ela não percebe que ele está querendo é seu dinheiro. A terceira trama advém da crise no casamento de Ray e Frenchy: sentindo-se abandonado, ele convence a prima de sua mulher, a desligada May (a cineasta Elaine May roubando a cena) a participar do roubo de um colar caríssimo.

É preciso ser fã da obra de Woody Allen para se gostar de "Trapaceiros", uma vez que as maiores características de suas comédias estão presentes em todo o desenrolar da trama. Calcada basicamente em situações inusitadas e em diálogos inteligentes e sofisticados (ainda que a personagem de Tracey Ullman frequentemente esbarre em um humor mais popular), o filme carece de uma estrutura mais sólida (algumas vezes não se sabe exatamente qual é o foco da história) mas compensa lindamente esse pequeno pecado com as atuações hilárias de Ullman e Elaine May. Apesar de seu ritmo irregular, é um produto típico de seu criador. Para os convertidos é mais um filme acima da média. Para os neófitos, apenas uma comédia com alguns dos diálogos mais engraçados e saborosos de sua época.

Wednesday, June 15, 2011

CELEBRIDADES

CELEBRIDADES (Celebrity, 1998, Sweetland Films/Magnolia Productions, 113min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benziger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman. Produção executiva: J.E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Kenneth Branagh, Winona Ryder, Judy Davis, Charlize Theron, Leonardo DiCaprio, Famke Janssen, Dylan Baker, Gretchen Moll, Sam Rockwell, Michael Lerner, Dylan Baker, Debra Messing, Adrian Grenier, Hank Azaria. Estreia: 20/11/98

Alguém já disse que é possível analisar uma sociedade através das pessoas que ela escolhe como celebridades. Exagero ou não, foi seguindo exatamente essa afirmação que Woody Allen teve a ideia para "Celebridades", longa-metragem que é uma homenagem pouco disfarçada a "A doce vida", de Fellini. Assim como o protagonista do filme do cineasta italiano, o jornalista vivido aqui por Kenneth Branagh se vê envolvido em uma roda-viva de pessoas famosas, festas, coquetéis e acontecimentos sociais de todo tipo enquanto tenta manter o centro de sua própria vida. Assim como na mais famosa colaboração de Marcello Mastroiani com o pai de "Amarcord", a fotografia é em preto-e-branco (aqui cortesia de Sven Nykvist, habitual parceiro de Ingmar Bergman, outra influência de Allen). E, bem como no vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 1960, são principalmente as mulheres que transformarão a vida da personagem central em um misto de inferno e paraíso.

Lee Simon (vivido com competência pelo irlandês Branagh, famoso por suas adaptações shakesperianas) é um jornalista que, em sua tentativa de vender um roteiro de cinema, se aproxima da atriz Nicole Oliver (Melanie Griffith) e do rebelde Brandon Narrow (Leonardo DiCaprio). Em sua luta para ser reconhecido como escritor, ele se envolve também com a editora Bonnie (Famke Janssen), apesar de estar atraído por Nola (Winona Ryder), uma aspirante a atriz. Sua ex-mulher, Robin (Judy Davis), inconsolável com o fim do casamento, acaba se tornando uma apresentadora de TV, apoiada pelo novo namorado, o produtor Tony Gardella (Joe Mantegna) e os caminhos dos dois acaba se cruzando em mais de uma ocasião.


"Celebridades" é um filme irregular, mas como é normal nas obras de Allen, tem momentos de pura inspiração, em especial em relação a alguns diálogos engraçadíssimos e de extrema ironia. Robin Simon, por exemplo (em grande atuação de Judy Davis) dispara em determinado momento: "estou me tornando uma daquelas pessoas que sempre desprezei. E estou adorando!" Charlize Theron, em rápida aparição, quase rouba a cena como uma modelo que atinge o orgasmo com qualquer toque e Winona Ryder tem o tom ideal de delicadeza e independência que o papel exige. Kenneth Branagh se sai como uma espécie de alterego do cineasta (ainda que o mesmo se recuse a admitir, os trejeitos do ator são inegavelmente woodyallenianos). Somente Leonardo DiCaprio em seu primeiro papel pós-"Titanic" é que não convence com sua interpretação desleixada do problemático astro de cinema inspirado em Johnny Depp e afins. Até mesmo Melanie Griffith se sai melhor, com um timing cômico bastante apropriado.

"Celebridades" não é dos melhores Woody Allen. É mais longo do que de costume em seu currículo, vez ou outra perde o foco e não atinge a maturidade de suas obras-primas. Mas quem gosta do seu estilo certamente vai adorar.

Friday, March 18, 2011

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

Monday, February 14, 2011

PODEROSA AFRODITE

PODEROSA AFRODITE (Mighty Aphrodite, 1995, Miramax Films/Magnolia Pictures/Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Helena Bonham-Carter, Mira Sorvino, Peter Weller, Michael Rapaport, F. Murray Abraham, Olympia Dukakis, Jack Warden, Paul Giamatti. Estreia: 27/10/95


2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)

Por mais paradoxal que seja essa afirmação, o escândalo envolvendo o nome de Woody Allen no início dos anos 90 - quando trocou a parceira amorosa e profissional Mia Farrow pela adolescente Sun-Yi Previn, filha adotiva dela - fez dele um cineasta mais leve. Filmes como "Misterioso assassinato em Manhattan" e "Tiros na Broadway" devolveram ao público o diretor bem-humorado de obras-primas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig", em contraponto ao baixo-astral e pessimismo de "Crimes e pecados" e "Setembro", que por melhores que sejam, deixavam um gosto agridoce ao final da sessão. Essa fase 'de bem com a vida' de Allen encontra em "Poderosa Afrodite" seu auge. Otimista e alegre - sem nunca perder, no entanto, o olhar irônico do cineasta - o filme deu a Mira Sorvino o Oscar de atriz coadjuvante e agradou gregos e troianos. E sem trocadilho, é justamente um coro de tragédia grega que comenta e narra a curiosa história de Lenny Weintraub e sua busca pela mãe biológica de seu filho adotivo.

O próprio Allen interpreta o protagonista, depois de uma pausa em que foi substituído por John Cusack em "Tiros na Broadway". Lenny Weintraub é um comentarista esportivo que vive um casamento estável e amoroso com a marchand Amanda (Helena Bonham-Carter). Sua família se completa quando eles adotam Max, que, na infância, demonstra uma inteligência ímpar. Curioso a respeito das origens do filho, Lenny chega até sua mãe verdadeira, a bela Linda Ash (Mira Sorvino), uma ex-atriz de filmes pornô que ganha a vida como prostituta. Apesar de sexy e atraente, Linda é bastante limitada intelectualmente, o que não impede que uma atração surja entre ela e Lenny, que passa por uma crise em seu relacionamento. Para não cair na tentação, o jornalista resolve então bancar o cupido e arrumar um marido para Linda e tirá-la da vida fácil. O escolhido é o boxeador Kevin (Michael Rapaport), também pouco dotado de inteligência.


Assim como acontece nos melhores filmes do cineasta, "Poderosa Afrodite" é uma crítica ácida e sarcástica sobre as relações humanas. Sem a sofisticação de "Hannah e suas irmãs", por exemplo, é uma comédia que pode ser considerada romântica, ainda que esteja a anos luz de todas as características que regem o gênero. Pra começo de conversa, o romance entre Lenny e Linda não pode jamais ser chamado de uma história de amor, ao menos no sentido convencional do termo. O que acontece entre os dois é um belo golpe do destino - tema recorrente da obra do diretor - narrado por um genial coro de tragédia grega (o oráculo, por sua vez, assume a forma de um mendigo cego vivido por Jack Warden). Como acontece frequentemente nos filmes de Allen, um ciclo é fechado quando os créditos finais iniciam - e aqui isso acontece deliciosamente com a canção "When you smile". No mínimo, otimista!

E mais uma vez Woody Allen cercou-se de atores geniais. Helena-Bonham Carter sai do século XIX - cenário da vasta maioria de sua filmografia - para encarnar uma Amanda moderna, ciosa dos deveres de mãe, mas preocupada com os rumos de sua carreira e casamento (principalmente quando se envolve com outro homem, vivido pelo Robocop em pessoa, Peter Weller). Michael Rapaport é encantador como Kevin, alternando uma ingenuidade ululante com uma masculinidade latente. E Mira Sorvino rouba todas as cenas em que aparece com a genial construção de sua Linda Ash. Aproveitando cada hilária linha de diálogo oferecida por Allen, a filha do ator Paul Sorvino - que foi mais uma vítima da temível "síndrome do Oscar" - deita e rola com uma personagem que lhe cabe como uma luva. A voz estridente, o jeito de andar e até o visual de Linda foram ideias da atriz, acatadas com entusiasmo por Allen, que, assim, reafirma seu status de grande diretor de coadjuvantes.

"Poderosa Afrodite" é um dos filmes mais alto-astral da carreira de Woody Allen, e isso fica patente no humor que escorre de cada cena, de cada personagem, de cada situação. Allen estava feliz e fez sua plateia sorrir alegremente. Como diz a canção dos créditos finais, "quando você sorri, o mundo todo sorri com você...."

Wednesday, November 10, 2010

NEBLINA E SOMBRAS

NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and fog, 1991, Orion Pictures, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr., Amy Marshall. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, John Malkovich, Madonna, Donald Pleasance, Lily Tomlin, Jodie Foster, Kathy Bates, John Cusack, John C. Reilly, Philip Bosco, Kurtwood Smith, Kate Nelligan, Fred Gwyne, William H. Macy, Wallace Shawn. Estreia: 05/12/91

Os detratores adoram dizer que os filmes de Woody Allen são repetitivos, que seu estilo não é exatamente criativo e que seu humor judaico/neurótico/nova-iorquino/sofisticado não sai do chove-não molha. No entanto, se o diretor não estivesse no elenco de "Neblina e sombras" - seu filme de maior orçamento até hoje - era bem pouco provável que qualquer crítico do cineasta pudesse reconhecer no filme qualquer das características que marcaram sua carreira. Com exceção da inteligência - e da marca registrada de usar nomes famosos em papéis pequenos ou quase pontas - nada nessa bela homenagem ao expressionismo alemão do início do século XX aponta para o fato que seu diretor é Allen.

A primeira diferença entre "Neblina e sombras" e o resto da filmografia de Woody diz respeito à geografia. Enquanto a vasta maioria de seus filmes se passa em Nova York e arredores, aqui a história acontece em uma pequena cidade da Alemanha aterrorizada por um assassino serial que mata suas vítimas estranguladas. Para caçar o criminoso vários grupos se formam, com moradores buscando resolver a situação com as próprias mãos, uma vez que o governo parece não se importar com os trágicos acontecimentos. Kleinman (vivido pelo diretor) é um homem comum - preocupado em ser deixado em uma promoção no trabalho - que é escalado por uma dessas facções, que pedem sua ajuda, sem nunca lhe explicar sua missão. Enquanto vaga pela cidade, envolta em neblina e sombras como o título do filme sugere, ele dá de cara com Irmy (Mia Farrow), a engolidora de espadas de um circo que está se apresentando na cidade. Depois de flagrar o marido, o palhaço do circo (John Malkovich) nos braços de sua sedutora colega Marie (Madonna), Irmy encontra abrigo no bordel da cidade, onde desperta o desejo do jovem estudante Jack (John Cusack). Ao lado de Kleinman, ela tentará manter-se longe do assassino e reconstruir sua vida.



Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Carlo Di Palma, "Neblina e sombras" também foge do estilo forjado pelo cineasta em décadas de experiência ao evitar piadas intelectualizadas demais - talvez Allen já soubesse que o projeto em si já era suficientemente arriscado comercialmente para que ele confiasse na fidelidade cega de seu público. Ao misturar um humor muito disfarçado e um suspense sem sustos, ele criou um gênero híbrido que, obviamente, não encontrou sua audiência e nem encantou a crítica. Motivos não faltam para essa frieza toda, mas não deixa de ser um exagero essa absoluta apatia em relação ao filme.

Sem dúvida nenhuma, "Neblina e sombras" não é nem de longe um Woody Allen das melhores safras: não é particularmente engraçado, nem denso ou mesmo leve. Mas é inteligente como qualquer trabalho seu - com ecos de "O processo", de Kafka e do filme "M, o vampiro de Dusseldorf", de Fritz Lang -, é extraordinariamente bem realizado - os sets foram construídos especificamente - e só o fato de reunir o elenco que reuniu é de aplaudir entusiasticamente: ao lado dos já citados, desfilam pela tela Jodie Foster, Kathy Bates, Kate Nelligan, Lily Tomlin e Donald Pleasance. Mas aparenta ser mais longo, talvez culpa da morosidade do roteiro e tem um clímax um tanto quanto fraco em relação ao que promete em seu promissor começo.

Para os fãs de Woody Allen, é obrigatório como todos os seus filmes. Para aqueles que acreditam que ele é sempre o mesmo, é necessário. Mas para quem simplesmente não gosta do diretor, não é a maneira correta de começar a gostar.

Wednesday, October 27, 2010

SIMPLESMENTE ALICE

SIMPLESMENTE ALICE (Alice, 1990, Orion Pictures, 102min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Alec Baldwin, Blythe Danner, Judy Davis, William Hurt, Joe Mantegna, Cybill Sheperd, Gwen Verdon, Julie Kavner. Estreia: 25/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é um cineasta autoral, independente e criativo todo mundo sabe! Dono de uma carreira que, a despeito de não ter nenhum êxito comercial retumbante é absolutamente respeitada pela integridade, ele é capaz de equilibrar pequenas obras-primas como "Crimes e pecados" com filmes que não obtiveram o mesmo sucesso entre a crítica e o público, como é o caso de "Simplesmente Alice". Mesmo tendo sido indicado ao Oscar de roteiro original, o 21º longa-metragem de Allen não tem o mesmo frescor que a maioria de seus trabalhos, utilizando elementos de outros filmes com a sua assinatura ao lado de um elemento novo:a fantasia.

Mia Farrow é novamente a protagonista em "Simplesmente Alice". Ela vive Alice Tate, uma mulher que vive dividida entre compromissos sociais, visitas ao shopping e aos salões de beleza e um casamento morno com o bem-sucedido Doug (William Hurt). Sofrendo de constantes dores nas costas, ela visita o afamado Dr. Yang (Keye Luke), acunpunturista recomendado por todas as suas amigas. Surpreendida pelo tratamento do médico oriental, que lhe oferece os mais variados tipos de ervas naturais - que permitem que ela fique invisível, que fale com um ex-namorado morto (Alec Baldwin) e que se torne menos tímida - ela aproveita o momento para levar adiante um hesitante romance com Joe Ruffalo (Joe Mantegna), músico divorciado, pai de uma colega de seus filhos pequenos. Além disso, passa a questionar suas escolhas em abandonar tudo para tornar-se esposa e mãe.

A trama lembra "A outra", filme bastante superior dirigido por Allen em 1988. No entanto, o cineasta não é feliz em lançar mão de alguns artifícios que não combinam com seu estilo. Ver Alice voando sobre Nova York ao lado do falecido namorado não encanta como deveria e sim torna-se bobo. Até mesmo o fato de conseguir ficar invisível para espionar a vida do amante, das melhores amigas e do marido infiel soa como uma solução fácil e sem imaginação. Suas dúvidas a respeito de seguir uma nova carreira como escritora e sua relação mal-resolvida com a irmã advogada (Blythe Danner, mãe da atriz Gwyneth Paltrow) são extremamente semelhantes às questões levantadas por Gena Rowlands em "A outra", mas sem o peso e a densidade do filme anterior.

Sendo assim, "Simplesmente Alice" é um filme ruim? De jeito nenhum. Woody Allen é incapaz de criar alguma coisa que seja menos do que interessante. Mia Farrow novamente entrega uma atuação consistente, mesmo quando sua personagem passa por situações quase inverossímeis. O elenco coadjuvante também não atrapalha nem um pouco - até mesmo Joe Mantegna consegue apagar sua imagem de "gângster" e William Hurt, apesar de não ter muito o que fazer, pontua com correção mais uma grande interpretação de Mia. Nem mesmo o final um tanto abrupto consegue esconder o fato, no entanto, de que Allen tem o que dizer em qualquer trabalho que assine.

"Simplesmente Alice" não é um dos mais populares trabalhos de Woody Allen. Ao assistí-lo logo se vê os motivos. Não é particularmente engraçado nem especialmente sério. Mas é Woody Allen é sempre Woody Allen, quer seja para o bem ou para o mal.

Thursday, September 30, 2010

CRIMES E PECADOS

CRIMES E PECADOS (Crimes and misdemeanors, 1989, Orion Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Claire Bloom, Sam Waterston, Jerry Orbach. Estreia: 13/10/89

3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original

Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua ... Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.

Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.

As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.

Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!

Wednesday, September 22, 2010

CONTOS DE NOVA YORK


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, 1989, Touchstone Pictures, 124min) Estreia: 01/3/89

"Lições de vida" (Life lessons) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Thelma Schoonmaker. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina F. Ramsey. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara DeFina. Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi

"A vida sem Zoe" (Life without Zoe") Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola & Sofia Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Barry Malkin. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George DeTitta Jr. Casting: Aleta Chappelle. Produção executiva: Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Heather McComb, Talia Shire, Giancarlo Giannini

"Édipo arrasado" (Oedipus wrecks) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel


A ideia parecia genial e infalível: reunir 3 dos maiores cineastas americanos em atividade no mesmo filme, cada um contando uma história curta passada no mesmo cenário natural preferido por 10 entre 10 diretores, a bela Nova York. No entanto, mesmo com o talento inegável dos escolhidos para a empreitada, "Contos de Nova York" sofre do mesmo mal de quase todos os filmes do mesmo formato: irregularidade. E se Francis Ford Copolla e Martin Scorsese tiveram a coragem de afastar-se dos estilos pelos quais ficaram consagrados, é Woody Allen quem se sai melhor, justamente por apresentar mais do mesmo de maneira engraçada e refrescante.

O filme começa bem, com a belíssima canção "A whiter shade of pale", do grupo Procol Harum, tocando durante os créditos de abertura de "Lições de vida", orquestrado por Scorsese. Dessa vez, o nova-iorquino que mostra o lado obscuro da Grande Maçã conta uma história de amor e criatividade: o pintor Lionel Dobie (vivido com garra por Nick Nolte) não consegue superar o fim de seu relacionamento com a aprendiz e assistente (Rosanna Arquette), que o abandonou para ficar com um performer (o ótimo Steve Buscemi). Ainda dividindo com ela o enorme loft que habita, ele trabalha furiosamente como forma de sublimar o despeito e o sofrimento. Contando com a ajuda de uma caprichada trilha sonora (que inclui Rolling Stones, entre outros), Scorsese deixa de lado a violência e a vida marginal de seus protagonistas anteriores para mergulhar na mente de um homem talentoso mas um tanto auto-destrutivo, que vê no amor sua maior inspiração. Apesar da forma elegante com que o diretor conta sua história, no entanto, ela não consegue seduzir a audiência, em parte pela falta de carisma de Lionel Dobie, um anti-herói romântico, que busca conquistar a amada da maneira menos adequada possível. Também não ajuda a quase apatia de Rosanna Arquette, insípida como sempre. É um Scorsese com qualidades, mas bastante aquém do esperado.

Coppola, por sua vez, apela para um tom infanto-juvenil em seu segmento. Em seu roteiro, "A vida sem Zoe", co-escrito por sua filha Sofia - que levaria um Oscar quinze anos depois por "Encontros e desencontros" - ele utiliza elementos de fábula ao contar a história da pré-adolescente Zoe (Heather McComb), que vive confortavelmente em um hotel de Manhattan enquanto seus ocupados e milionários pais - um flautista internacional e uma fotógrafa - vivem em constantes viagens. Quando faz amizade com um novo colega de escola - mais rico ainda do que ela -, Zoe tem a oportunidade de salvar o casamento dos pais. Simplista e quase raso, o desenvolver da trama é sonolento, prejudicado por uma protagonista sem carisma e uma trama sem maiores interesses. O visual também não é exatamente atraente, o que deixa no público a sensação de que falta alguma coisa, quando finalmente os créditos finais aparecem. É, das três histórias a menos bem-sucedida, ainda que não deixe de ser simpática, em certos momentos.

E chegamos a Woody Allen e seu "Édipo arrasado". Desde o início, com os créditos inconfundíveis de seus filmes, percebe-se que Allen não quis inovar em absolutamente nada: temática, elenco e equipe técnicas de seus trabalhos anteriores comparecem fielmente e dão à plateia os melhores momentos do longa. A trama busca o surreal, mas ainda assim, o estilo claro do diretor é facilmente percebível. O próprio Allen interpreta o protagonista, um advogado relativamente bem-sucedido que no entanto não consegue livrar-se do assédio exagerado da mãe (Mae Questel), uma típica mãe judia que o super-protege e lhe causa extremos embaraços. Um dia, em um programa familiar com ela, sua nova namorada (Mia Farrow) e os filhos pequenos desta, ele vê seus sonhos se realizarem: sua mãe desaparece durante um truque de mágica. Mas como nada é perfeito, ela reaparece, nos céus de Nova York, falando com ele e quem quiser ouvir, além de mostrar fotos e contar histórias vergonhosas de sua infância. Só quem parece poder lhe ajudar é uma confusa esotérica (Julie Kavner). Às vésperas de lançar "Crimes e pecados", uma de suas obras-primas um tanto pessimistas, Allen brinca com sua persona cinematográfica, levando a plateia ao riso fácil e descompromissado do início de sua carreira, e dando à ótima Julie Kavner a oportunidade de demonstrar seu grande talento (como já havia feito em "A era do rádio").

No final das contas, "Contos de Nova York" não é exatamente um filme genial, a despeito de seus créditos. Mas é sempre interessante perceber que até mesmo os mais talentosos cineastas do mundo conseguem ser simples e delicados.

Tuesday, September 7, 2010

A OUTRA


A OUTRA (Another woman, 1988, Orion Pictures, 81min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Gene Hackman, Blythe Danner Martha Plimpton, Frances Conroy, Sandy Dennis, Philip Bosco, Betty Buckley. Estreia: 18/11/88

Emulando mais uma vez Ingmar Bergman, um de seus ídolos máximos (de quem conseguiu inclusive o diretor de fotografia Sven Nykvist), Woody Allen entrega, em “A outra” um de seus mais interessantes trabalhos de sua fase “séria”. Deixando de lado seu humor paranóico-judeu, o cineasta nova-iorquino criou uma pequena obra-prima (e pequena também é sua duração – meros 81 minutos, pouco menos de duas sessões de tearapia).

É justamente sobre terapia seu filme. A protagonista é Marion Post (uma sensacional Gena Rowlands), uma especialista em filosofia, que vive um segundo casamento estável e leva uma vida tranqüila e sem maiores sobressaltos. Para escrever seu novo livro, ela aluga um pequeno apartamento em uma rua tranqüila de Nova York. Para sua surpresa, no entanto, pelo aparelho de ventilação do apartamento, ela consegue ouvir todas as consultas do psicanalista que trabalha ao lado. A princípio incomodada com o fato, ela logo muda de idéia quando começa a ouvir o trabalho do médico com uma jovem grávida (Mia Farrow, que não poderia faltar), cujos problemas refletem aqueles que ela mesma tem e deixa guardados em seu inconsciente. A partir daí, Marion começa a examinar sua vida atual e pregressa, tentando resolver sua relação com o irmão, com o ex-marido, o pai e principalmente revendo seu casamento e seu acabado caso de amor com o melhor amigo de seu marido (em participação pequena mas marcante de Gene Hackman).

Allen consegue, em menos de hora e meia, levar o espectador para dentro da mente da personagem de Rowlands (ajudado, é claro pela performance espetacular da atriz), utilizando de idéias criativas, como uma peça de teatro e idas e vindas no tempo, bem ao gosto de seu mentor Bergman. Pode parecer difícil e pesado. Certamente, leve e divertido como a maioria dos trabalhos do diretor não é. Mas “A outra” tem uma qualidade redentora, além de seu roteiro brilhante e de seu elenco perfeito – é inteligente, faz pensar e não sai da mente do espectador por um bom tempo, como uma boa consulta ao terapeuta.

Monday, August 16, 2010

SETEMBRO


SETEMBRO (September, 1987, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Denholm Elliott, Mia Farrow, Dianne Wiest, Jack Warden, Sam Waterston, Elaine Stritch. Estreia: 18/12/87

É inegável que, como diretor e roteirista de comédias sofisticadas e inteligentes, Woody Allen é imbatível. No entanto, seu lado mais sombrio, profundo e melancólico muitas vezes agrada a crítica mas afugenta a audiência. Foi assim com "Interiores", de 1978 e o mesmo repetiu-se com "Setembro", feito quase uma década depois. Filmado quase como uma peça de teatro - sem muitos closes e com muitos planos longos - o 18º longa da carreira de Allen é um de seus menos louvados. Injustamente!

A trama de "Setembro" se passa em uma casa de praia em Vermont, no final de verão particularmente desgastante emocionalmente para a frágil Lane (Mia Farrow), que, recém-saída de uma profunda crise nervosa se apaixona pelo escritor Peter (Sam Waterston), que alugou a casa para escrever seu novo livro. Assediado pela mãe de Lane, a ex-modelo Diane (Elaine Stritch) - cujo passado conta com uma tragédia que abalou a vida da filha - para que escreva sua biografia, Peter se encanta com Stephanie (Dianne Wiest), a melhor amiga de Lane, uma mulher casada e romanticamente confusa. Enquanto tenta lidar com sua problemática relação com a mãe e tenta conquistar o amor de Peter, Lane desperta a paixão de um vizinho mais velho, Howard (Denholm Elliott).

A ciranda amorosa-romântica criada por Allen até pode lembrar alguns de seus filmes anteriores, mais notadamente "Hannah e suas irmãs", também estrelado por Farrow e Wiest. Mas em "Setembro" o senso de humor do cineasta é deixado de lado, o que colabora para o clima quase claustrofóbico imposto pela sóbria fotografia de Carlo Di Palma. As personagens, aqui, não relaxam frequentando museus ou visitando o Central Park. Na opressiva trama escrita por Allen na casa de verão de sua então mulher Mia Farrow, viver é complicado, tomar decisões é sacrificante, encarar a realidade é difícil. Lane tem que conviver com um trauma do passado, que praticamente destruiu sua vida, e a impede de ter uma relação saudável com sua mãe, que, em contrapartida, não deixa que nenhum problema a atinja com a devida força. Stephanie luta contra o desejo por Peter, porque não quer magoar Lane nem destruiur seu próprio casamento. E Howard, apaixonado por Lane, deseja arrancá-la da tristeza e da prostação emocional, mas esbarra na fragilidade da própria moça.

Woody Allen filmou "Setembro" duas vezes por achar a primeira versão insatisfatória. Substituiu Maureen O'Sullivan (mãe de Farrow na vida real) por Elaine Stricht (que entregou uma performance bastante distinta de sua personagem), Charles Durning por Denholm Elliot e Sam Shepard por Sam Waterston (sendo que Shepard já substituía Christopher Walken). Ainda achando que o filme não estava à altura do que imaginava, pensou em refilmar uma terceira versão. Ainda bem que não o fez!

"Setembro" tem diálogos belíssimos, interpretações intensas e uma melancolia deslumbrante. Não é para ser assistido em momentos de crise emocional, mas é um trabalho fascinante de um diretor extremamente inteligente e talentoso.

Tuesday, August 3, 2010

A ERA DO RÁDIO


A ERA DO RÁDIO (Radio days, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Les Bloom, Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Seth Green, Mia Farrow, Dianne Wiest, Danny Aiello, Wallace Shawn, Julie Kavner, Mike Starr. Estreia: 30/01/87

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Direção de arte/cenários

Nada como um bom Woody Allen engraçado e nostálgico! Emulando o Fellini de "Amarcord", o cineasta nova-iorquino, acostumado a presentear seus fãs com sofisticadas e neuróticas comédias de costumes e/ou densos e profundos dramas psicológicos mostra, em "A era do rádio", que sabe como poucos ter também a saudável melancolia que as memórias de infância sempre proporcionam. "A era do rádio" é um dos mais deliciosos filmes de Allen, mesclando um humor inocente com um delicado retrato de uma época que, apesar dos pesares - e uma grande guerra mundial está entre eles - legou à humanidade muitos talentos artísticos.

O alter-ego de Allen em "A era do rádio" é Joe, um garotinho judeu criado com dificuldades econômicas mas muito amor pelos pais e pela numerosa família, que inclui a casadoira tia Bea (Dianne Wiest, colaboradora constante do cineasta). Vivido por Seth Green - que na década de 90 ficaria conhecido como Scott Evil na série "Austin Powers" - com um misto de ingenuidade e deslumbramento, Joe é testemunha de fatos marcantes (ao menos para seu universo restrito), como a tragédia que envolve uma menina presa em um bueiro e os programas radiofônicos que encantavam sua família. É Joe - adulto, e em uma narração inteligente - que conta também a história de Sally White (Mia Farrow), uma vendedora de cigarros que sonha com o estrelato.

"A era do rádio" é nostalgia pura! Ao evocar um período específico de tempo, Woody Allen destrincha carinhosamente os sentimentos das pessoas da época, retratando a família de Joe de forma emocionante e extremamente engraçada - graças principalmente aos diálogos geniais e o elenco em ótima forma. Apesar de não haver exatamente um protagonista em cena, o diretor dá espaço a excelentes coadjuvantes e participaçõe especialíssimas: rapidamente aparecem no filme Diane Keaton, Jeff Bridges e Danny Aiello, entre outros. Até mesmo o Brasil é homenageado no filme: Denise Dummont aparece cantando "Tico-tico no fubá" e uma cena alto-astral ouve-se a voz de Carmen Miranda...

"A era do rádio" é mais uma pequena obra-prima de Woody Allen, para se assistir com um enorme sorriso no rosto e talvez uma ou outra lágrima nos olhos...

Monday, July 19, 2010

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários

Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.

"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

Wednesday, July 14, 2010

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.

Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

Sunday, July 4, 2010

BROADWAY DANNY ROSE


BROADWAY DANNY ROSE (Broadway Danny Rose, 1984, Orion Pictures, 84 min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Nick Apollo Forte. Estreia: 27/01/84

2 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original

Depois de ser extremamente elogiado com "Zelig", um dos melhores filmes de sua carreira, Woody Allen resolveu que queria fazer uma comédia italiana ao estilo dos anos 50. Contando com o apoio de seu habitual diretor de fotografia Gordon Willis - que compreendeu exatamente o sentido da coisa toda, em termos pictórios - ele realizou então "Broadway Danny Rose", um feliz encontro entre a latinidade passional dos "carcamanos" com a intelectualidade sarcástica dos nova-iorquinos típicos.

Danny Rose (interpretado por Allen com a costumeira eficácia) é um agente de talentos cujos clientes estão longe de ser superstars: um escultor de balões, um hipnotizador ineficiente e um maestro de passarinhos estão em seu rol de contratados. Sua maior dedicação, no entanto, é ao cantor Lou Canova (Nick Apollo Forte), que teve seu momento de glória no passado e deseja voltar aos holofotes. Justamente na noite em que irá fazer uma apresentação que poderá devolver-lhe ao sucesso, Lou tem uma briga homérica com sua amante, a egoísta Tina Vitale (Mia Farrow) e exige que Danny a convença a assistir ao show, mesmo sabendo que sua mulher estará presente. Na tentativa de convencer a irredutível Tina, o agente acaba sendo confundido como seu amante pela vingativa família italiana de um apaixonado pela moça. Perseguido por gângsters e tentando arrastar a amante de seu agenciado para seu show, ele nem de longe desconfia que está sendo traído por ele, que, por intermédio de Tina, tenciona trocá-lo por um agente mais bem-relacionado.

Apesar de não ser um dos mais brilhantes trabalhos de Woody Allen, "Broadway Danny Rose" seduz por seu humor inteligente e pela imprevisibilidade de seu roteiro. Ao contar duas histórias paralelas - sua aventura com Tina e a traição de Lou - o cineasta/roteirista mistura gêneros com uma familiaridade invejável. Ainda que nem sempre funcione à perfeição - as cenas de ação soam um tanto forçadas - o desenvolvimento da história contada por ele (através da narração de um grupo de agentes que conheceu o protagonista) é suficientemente interessante para não deixar a peteca cair em momento algum - e para isso colabora muito a química perfeita entre ele e Mia Farrow.

Assim como acontecia com Diane Keaton em seus filmes anteriores, Allen encontrou em Farrow a musa perfeita de sua obra. Na pele de Tina Vitale, a atriz entrega um trabalho de composição que foge do seu padrão de atuação até então. Espalhafatosa, vulgar e sem um pingo de classe, sua Tina é uma espécie de mãe da Linda Ash que Mira Sorvino defendeu em "Poderosa Afrodite", dez anos mais tarde. Munida de um indefectível par de óculos escuros e um penteado exagerado, Farrow brilha como nunca e eleva a qualidade do filme, assim como Allen e um surpreendente Nick Apollo Forte - em um papel para o qual o cineasta pensou em Sylvester Stallone.

Dentre tantas obras-primas criadas por Woody Allen, "Broadway Danny Rose" quase se perde. Mas não deixa de ser admirável perceber que mesmo em seus filmes menos brilhantes ele consegue manter um nível de excelência com que a maioria dos cineastas apenas sonha

Thursday, July 1, 2010

ZELIG


ZELIG (Zelig, 1983, Orion Pictures, 79min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom, Janet Rosenbloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan, John Buckwalter. Estreia: 15/7/83

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino

Vencedor de Melhor Filme no Festival de Veneza


Os detratores de Woody Allen, que o acusam de ser repetitivo e sem criatividade provavelmente nunca assistiram a "Zelig", uma de suas mais sensacionais obras. Ao contar a história de seu protagonista através de um documentário fake mas absolutamente crível em formato e linguagem, ele adiantou em dez anos a tecnologia que faria a glória de Robert Zemeckis em "Forrest Gump" e de quebra mostrou que é muito mais do que um cineasta limitado ao circuito do humor judaico-intelectual-neurótico com o qual foi rotulado por parte da crítica - e até mesmo por alguns fãs.

O próprio Allen interpreta Leonard Zelig, um homem aparente comum, que, a partir do final dos anos 20, torna-se mania no mundo inteiro devido à sua condição médica: por algum motivo desconhecido, ele é capaz de metamorfosear-se em qualquer tipo de pessoa que esteja por perto. Ao lado de burgueses, ele é um deles. Perto de um obeso, torna-se obeso, e assim por diante. Intrigada com essa surpreendente novidade, a psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow) resolve tratá-lo e os dois acabam se apaixonando.

"Zelig" é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais criativos realizados em Hollywood nos anos 80. Irônico ao extremo e ao mesmo tempo carinhoso com seus protagonistas, o roteiro de Allen brinca com tudo que tem direito, sem nunca apelar para o riso escancarado: seu filme faz uma engraçada homenagem aos documentários, aos anos 20 de Fitzgerald e do charleston, ao nascimento da terapia, aos exageros da mídia e debocha descaradamente do nazismo e da busca por fama fácil. Além de tudo isso, ainda encontra espaço para questionar até que ponto os seres humanos podem chegar em sua procura por aceitação.

Se não bastasse seu roteiro espetacular, "Zelig" ainda conta com uma parte técnica além do excepcional. A fotografia de Gordon Willis (envelhecida propositalmente para dar o efeito de antiguidade) e a reconstituição de época são primorosas - não à toa, tanto Willis quanto o figurinista Santo Loquasto foram indicados ao Oscar por seus trabalhos. E é genial a maneira com que o diretor mistura seus protagonistas a celebridades verdadeiras (Charles Chaplin, por exemplo) e cenas de arquivo da época retratada, sem nunca perder o seu principal foco: a hilariante mas nunca pouco comovente história de Zelig e seu problema de auto-ajuste à sociedade.

"Zelig" é o perfeito exemplo de filme que merece ser visto para que se descubra suas vastas qualidades. Tudo que se disser a respeito dele sempre será incompleto, pois é, talvez, o trabalho de Woody Allen mais repleto de nuances e detalhes visuais e contextuais. Uma obra-prima irretocável!

Friday, June 18, 2010

MEMÓRIAS


MEMÓRIAS (Stardust memories, 1980, United Artists, 89min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Steven Jordan. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Marie-Christine Barrault, Tony Roberts. Estreia: 26/9/80

Há quem ache que a filmografia de Woody Allen é hermética. Até mesmo suas comédias mais populares e simples esbarram nessa crítica infundada de seus detratores, que não veem em sua obra concessões ao comercial (o que, diga-se de passagem, faz com que seu trabalho sempre esteja patamares acima do convencional). Mas quem acha que coisas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" são de difícil assimilação (talvez por sua inteligência e seu sarcasmo) deve ficar com o cérebro inchado ao assistir "Memórias", que, assim como "Interiores" não deixa espaço para simplificações banais. Talvez seja, sim, um tanto hermético. Mas, mais do que isso, é engraçadíssimo.

Decepcionado com artigos escritos sobre ele na imprensa e com a apática recepção da Academia de Hollywood a seu primeiro filme "sério", o drama "Interiores", Allen escreveu um roteiro ácido e crítico sobre a relação entre cineastas e jornalistas, bem como seu problemático relacionamento com o público. Ainda que o diretor negue veemente as origens autobriográficas de seu filme, é impossível não perceber nele algumas de suas mais marcantes características. E são justamente essas pequenas piadas internas que fazem de "Memórias" um dos filmes mais interessantes de Allen - não coincidentemente um de seus preferidos.

Em "Memórias", Allen interpreta Sandy Bates, um cineasta famoso por suas comédias de sucesso que recebe com surpresa a péssima recepção a seu primeiro trabalho dramático. Convidado para participar de uma espécie de retrospectiva de sua carreira em um festival de cinema, ele aproveita a oportunidade para refletir sobre seu legado artístico e sobre sua vida pessoal, seja nas lembranças de sua infância ou dos fracassados relacionamentos amorosos, principalmente com uma atriz psicologicamente desequilibrada, Dorrie (Charlotte Hampling). Perseguido por fãs, ele mal tem tempo para dedicar a sua nova namorada, a francesa Isobel (Marie-Christine Barrault), que acaba de deixar o marido por ele.

"Memórias" impressiona desde sua primeira sequência, claramente inspirada em "Fellini 8 1/2": em um opressivo preto-e-branco, um homem (vivido também por Allen) tenta desesperadamente sair de um trem em movimento, sendo impedido por um grupo de pessoas com feições bizarras e excêntricas (no trem ao lado, acenando para ele está uma jovem Sharon Stone estreando no cinema). A partir dessa cena - que é bem possível que tenha sido a responsável pela disseminação de que a obra do cineasta é "difícil" - Allen joga com uma espécie de metalinguagem ao mesmo tempo irônica e melancólica. É impossível não rir com alguns dos diálogos mais inspirados de sua carreira, assim como é bem pouco producente tentar evitar as comparações com a realidade vivida por ele e outros artistas que tentam sair do lugar-comum. É sintomático, inclusive, que o filme se encerre com comentários das personagens a respeito do "filme dentro do filme". Allen brinca com coisa séria, e os fãs agradecem.

Claramente felliniano (assim como "Interiores" era obviamente bergmaniano), "Memórias" tem uma fotografia inspirada de Gordon Willis (já habituado ao trabalho de Allen), que sufoca, brinca e encanta na medida certa. A química entre Allen e Charlotte Hampling funciona às mil maravilhas, proporcionando aos dois algumas das cenas mais bonitas do filme (e, segundo reza a lenda, a personagem de Hampling foi inspirada na primeira mulher do diretor, Louise Lasser). Ao equilibrar um humor dos mais inteligentes a uma crítica feroz ao "sistema", "Memórias" atinge um nível de qualidade ímpar na obra de Allen, ainda que seja um de seus filmes menos famosos.

Apesar de não ser tão premiado quanto "Noivo neurótico..." ou tão querido pelo público quanto "Manhattan", "Memórias" merece figurar entre os melhores filmes de Woody Allen, principalmente devido a suas entrelinhas nem tão disfarçadas assim. Coisa de gênio!

Monday, June 7, 2010

MANHATTAN


MANHATTAN (Manhattan, 1979, United Artists, 96min ) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne. Estreia: 25/4/79

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mariel Hemingway), Roteiro Original

Por incrível que pareça, um dos produtos mais bem-acabados da carreira do ator, roteirista e diretor Woody Allen é um do qual ele gosta tão pouco que chegou a sugerir à United Artists que nunca o lançasse, propondo inclusive dirigir um filme totalmente de graça para que isso acontecesse. Felizmente, o estúdio nem cogitou a possibilidade e proporcionou ao público um dos filmes mais queridos da carreira de Allen. Mesmo já tendo Oscar em casa por “Noivo neurótico, noiva nervosa”, é em “Manhattan” que ele demonstra a maturidade e o equilíbrio que marcariam os melhores momentos de sua trajetória como um dos mais íntegros e coerentes cineastas de sua geração. Filmado quase como uma declaração de amor à Nova York – a primeira de várias que se seguiriam -, “Manhattan” apresenta uma gloriosa fotografia de Gordon Willis como pano de fundo para a história de um quadrilátero amoroso encenado sob uma trilha sonora impecável, recheada de standards de um jazz da mais alta qualidade, em especial Gershwin.

Assim como em “Noivo neurótico”, Allen é quem lidera o elenco, na pele de Isaac Davis, um escritor de programas de televisão que não nutre exatamente um grande amor pela profissão. Na verdade, ele passa por uma crise, uma vez que foi abandonado pela esposa (Meryl Streep em uma participação pequena mas fundamental), que, além de trocá-lo por outra mulher ainda está terminando de escrever um livro contando detalhes de sua intimidade. Só quem o salva de seus problemas é seu namoro com a bela Tracy (Mariel Hemingway), uma jovem estudante de apenas 17 anos de idade e sua amizade com o professor universitário Yale (Michael Murphy), que tem um caso extra-conjugal com Mary (Diane Keaton). Enquanto dá apoio à bela e cultíssima Mary, que sofre com as dificuldades de seu romance impossível, Isaac acaba se apaixonando por ela, deixando de lado seu relacionamento com quem ele considera jovem demais.

Apesar de conter todas as características que definiriam o “estilo Woody Allen” para todo o sempre, “Manhattan” pode e deve ser visto como um romance à moda antiga, vestido com uma roupagem ainda moderna. Sim, os diálogos repletos de referências eruditas estão presentes, assim como o senso de humor neurótico e judeu. Mas poucas vezes o roteirista/diretor criou personagens tão densos e reais como os criados aqui, defendidos com unhas e dentes por atores excepcionais. Curiosamente, a mais fraca intérprete do elenco, Mariel Hemingway (em um papel que quase ficou com Jodie Foster) foi quem recebeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante – perdido para sua colega de elenco Meryl Streep, por sua atuação em “Kramer X Kramer”. Sua fragilidade como atriz fica ainda mais evidente na última cena do filme, de uma sensibilidade e uma preciosidade ímpares, que entraria certamente em qualquer antologia romântica caso tivesse uma atriz de verdade. Bela ela realmente era - a ponto de ser citada na lista que Isaac faz dos motivos pelos quais vale a pena viver - mas como atriz faltava-lhe substância.

“Manhattan” ainda é uma pequena obra-prima de um artista acostumado a criá-las. Para entrar na lista dos preferidos do diretor.

Thursday, June 3, 2010

INTERIORES


INTERIORES (Interiors, 1978, United Artists, 93min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Ralph Rosenblum. Figurino: Joel Schumacher. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Mario Mazzola. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Geraldine Page, Diane Keaton, Mary Beth Hurt, E.G. Marshall, Kristin Griffiths, Maureen Stapleton, Sam Waterston, Richard Jordan. Estreia: 02/8/78

5 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Atriz (Geraldine Page), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Direção de arte

Depois de sair consagrado da festa do Oscar com os prêmios de roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa", Woody Allen seguiu o único caminho que poderia surpreender os fãs de seu estilo: abandoná-lo e fazer um filme completamente diferente. Inspirado claramente na obra do cineasta sueco Ingmar Bergman, um dos seus maiores ídolos, "Interiores" pegou todo mundo - crítica e público - de surpresa, ao contar uma história sem o menor epaço para qualquer senso de humor e com um ritmo de cinema europeu. Desnecessário dizer que sua bilheteria foi ínfima.

No livro de entrevistas "Conversas com Woody Allen", de Eric Lax, o cineasta afirma que hoje em dia conseguiria fazer de "Interiores" um filme melhor. A questão é: por que? Do jeito que está, o nono filme de sua carreira é uma hipnotizante e sensível, ainda que muitas vezes árdua, história sobre as relações (ou a falta delas) entre pessoas da mesma família, que frequentemente não conseguem expressar a contento suas emoções. Com atuações sublimes de seus protagonistas e um roteiro que foge do lugar comum durante toda a sua projeção, "Interiores" é uma das mais bem-acabadas obras de Allen dentro de sua "fase bergmaniana".

É bastante provável que aqueles que se tornaram fãs do diretor devido a suas geniais comédias lançadas anteriormente se decepcionem com "Interiores", justamente porque ele é o extremo oposto da sua filmografia anterior, repleta de ironia e sarcasmo. Aqui a coisa é muito séria: depois de ser abandonada pelo marido - que cansou de levar uma vida tediosa e certinha - a dona de casa Eve (Geraldine Page) passa a dedicar-se a decorar a casa da filha do meio, Joey (Mary Beth Hurt), uma mulher indecisa quanto ao rumo a tomar em sua vida profissional. Temendo ferir os sentimentos da mãe, ela não para de dar-lhe esperanças sobre um possível arrependimento de seu pai. Essa tática não é aprovada por Renata (Diane Keaton), a filha mais velha, uma escritora relativamente bem-sucedida que tem um relacionamento conflituoso com o também escritor Frederick (Richard Jordan), que, em uma noite de exagero etílico tenta estuprar a cunhada caçula, a atriz Flyn (Kristin Griffith). A fragilidade psicológica de Eve entra em colapso quando seu ex-marido, Arthur (E.G.Marshall) anuncia seu casamento com a duplamente viúva Pearl (Maureen Stapleton).

Nada em "Interiores" é fácil, clichê e/ou de fácil assimilação. Allen não poupa sua plateia de mergulhar dentro dos pensamentos de personagens sofridos, densos, complexos e incapazes de lidar com suas próprias emoções. A fotografia em tom pastel - assim como os figurinos e os cenários - apenas reitera a total falta de passionalidade de suas personagens, trancadas em uma redoma de inseguranças e inaptidão em lidar com suas vidas. Nem mesmo as cenas de maior emoção do filme são exageradas, sendo apresentadas sempre em um tom médio, que remete diretamente à frieza estética do cinema sueco que inspirou seu roteiro e sua direção. Quando Flyn é quase violentada, não há uma música grandiloquente ou lágrimas derramadas a rodo. Todos ali são elegantes, sofisticados, empedernidos. Por dentro, no entanto, sofrem um turbilhão de sensações, nem todas elas agradáveis.

Acertadamente, Woody Allen declarou que as falas de "Interiores" soam mais como legendas do que diálogos naturais - ingrediente básico em suas comédias. Mas é inegável que essa ausência de naturalismo imposta por ele em seu roteiro empurra o resultado final mais para um drama discreto e quase silencioso do que para um catártico e emocional melodrama hollywoodiano. O público não gostou. A crítica, em sua maioria, aplaudiu vigorosamente.

E um dos motivos para esses aplausos merecidos da crítica atende pelo nome de Geraldine Page. Herdando um papel oferecido inicialmente a Ingrid Bergman - que o recusou porque iria fazer "Sonata de outono", dirigido pelo mestre de Allen - Page tem uma atuação exemplar, de uma economia inteligente e adequada. A cena em que ela tem um ataque de choro por achar que sua vida não tem nada de interessante é de arrepiar, assim como seu diálogo final com Joey, capaz de emocionar sem soar óbvio.

E é justamente por fugir do óbvio - em todos os sentidos - que "Interiores" é um dos filmes mais interessantes de Woody Allen. Não é para qualquer público, mas aqueles que se arriscam a assisti-lo sabendo de suas intenções tem pouquíssimas chances de se decepcionar.

Saturday, May 29, 2010

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA


NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977, United Artists, 93min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Ralph Rosenblum. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller, Justin Scoppa Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Shelley Duvall, Colleen Drewhurst, Christopher Walken. Estreia: 20/4/77

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Diane Keaton)


Quando lançou "Noivo neurótico, noiva nervosa", em 1977, Woody Allen já não era nenhum iniciante. Já havia lançado sete filmes, todos comédias bastante elogiadas pela crítica, mas relegadas à espécie de limbo que é reservado ao gênero. Foi preciso que o mais neurótico dos cineastas nova-iorquinos incluísse toques de romantismo em sua obra para finalmente levar pra casa o Oscar de melhor filme, direção e roteiro. Mesmo que tenha fugido do padrão de sua obra até então, normalmente direcionada a um público específico, "Noivo neurótico" talvez seja o filme que melhor define sua carreira a partir daí. Já estão presentes em sua deliciosa comédia romântica (sim, ele também tem uma alma romântica) todos os elementos que que o cineasta iria amadurecer em seus inúmeros trabalhos posteriores, em maior ou menor grau: o humor geralmente judeu, neurótico, erudito e sofisticado que angariou tanto fãs fiéis quando detratores ferozes.

Basicamente “Noivo neurótico, noiva nervosa” é uma história de amor, sem tirar nem pôr. O protagonista Alvyn Singer (o próprio Allen praticamente inaugurando sua persona mundialmente conhecida) é um humorista infeliz com sua carreira na TV que se apaixona pela levemente neurótica Annie Hall (Diane Keaton, que viveu um romance com o diretor, inspirou a personagem e levou o Oscar de melhor atriz), que tenta tornar-se cantora. O romance dos dois evolui à medida em que eles passam a se conhecer melhor, mas as diferenças entre os dois começam a tornar-se empecilhos no caminho de sua felicidade. Nesse meio tempo, ela conhece um empresário musical (vivido pelo cantor Paul Simon) e ele tenta reconhecer em seus relacionamentos passados os sinais que o levaram à crise.

O que diferencia “Annie Hall” (o título original soa infinitamente melhor do que o nome equivocado da versão nacional, uma vez que os protagonistas nunca foram noivos) das outras comédias românticas é o fato de que, além de Allen estar anos-luz da imagem do galã dos tradicionais exemplares do gênero, suas personagens enfrentam problemas mais próximos da realidade do que seus congêneres. Nada de tramas rocambolescas ou vilões estereotipados (apesar do primeiro esboço do roteiro falar sobre um crime em primeiro lugar e deixar o romance em segundo plano). O que leva o romance de Alvyn e Annie à exaustão é a própria vida, com seus caminhos às vezes tão complicados. E a dor do fim de um relacionamento também pode servir como motivo de criação, a exemplo do protagonista, que escreve uma peça de teatro tentando resolver sua conflituosa e ao mesmo tempo carinhosa relação com sua amada - o que de certa forma também foi feito por Woody, uma vez que Annie, sua protagonista feminina é claramente inspirada em Diane Keaton (cujo nome verdadeiro é Diane Hall e tem o apelido de Annie). Keaton, inclusive, utiliza de suas próprias roupas em cena (e seu figurino foi bastante imitado na época, diga-se de passagem).

A criatividade do roteiro de Allen fica evidente em momentos de grandes ideias, como o desenho animado que defende as madrastas das histórias infantis, as legendas explicando os pensamentos das personagens enquanto travam sua primeira conversa e a cena em que Annie está literalmente com o pensamento longe de sua transa com o namorado. Isso sem falar em alguns das tiradas mais inspiradas e engraçadas da carreira do diretor ("Em Los Angeles eles não jogam o lixo fora, eles reciclam em forma de programas de televisão", vocifera Alvyn quando obrigado a visitar a Califórnia).

Anos depois de seu lançamento, “Noivo neurótico, noiva nervosa” pode ter perdido parte de seu frescor e de seu senso de novidade, mas os diálogos espertos escritos por Woody Allen e a bela homenagem feita à Diane, em um papel sob medida continuam tão atuais quanto em sua estreia.