Showing posts with label CHRISTOPHER WALKEN. Show all posts
Showing posts with label CHRISTOPHER WALKEN. Show all posts

Wednesday, February 1, 2012

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ (Catch me if you can, 2002, Dreamworks SKG, 141min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeff Nathanson, livro de Frank Abgnale Jr., Stan Redding. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Claudette Didul, Leslie A. Pope. Produção executiva: Barry Kemp, Laurie MacDonald, Tony Romano, Michael Shane. Produção: Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Leonardo DiCaprio, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams, Jennifer Garner, James Brolin. Estreia: 25/12/02

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Trilha Sonora Original

Juntar no mesmo filme Steven Spielberg, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio não tinha como dar errado. E não deu. No entanto, apesar da renda mundial de mais de 350 milhões de dólares, "Prenda-me se for capaz" desconcertou a crítica por sua mistura de gêneros. Ora uma comédia despretensiosa, ora um filme de ação com momentos dramáticos, a transposição para as telas da história real do Frank Abgnale Jr. não conquistou tantos prêmios quanto merecia. No mesmo ano em que "Chicago" fez a festa na cerimônia do Oscar, o filme de Spielberg teve que contentar-se com meras duas indicações: ator coadjuvante para Christopher Walken e trilha sonora original para o veterano John Williams.

Realizado por Spielberg logo depois de "A.I. - Inteligência artificial", "Prenda-me se for capaz" é nitidamente menos ambicioso em termos visuais e dramáticos. Assumindo a direção depois da desistência de David Fincher, Gore Verbinski, Cameron Crowe e Lasse Halstrom, o cineasta demonstra ter retomado o tom leve e divertido do início de sua carreira, deixando de lado os temas pesados de seus filmes dramáticos e com intenções a Oscar - incluindo aí o malfadado "Amistad", que morreu na praia de suas boas intenções. Da música espirituosa de Williams à fotografia esplêndida de Janusz Kaminski (que evita as sombras e apresenta um filme solar e alto-astral) tudo parece dizer ao público que sim, o diretor é o mesmo homem que esteve por trás (como produtor) de filmes essenciais ao entretenimento dos anos 80 e 90 que visavam a diversão pura e simples.



Baseado no livro autobiográfico escrito por Abgnale e Stan Redding, "Prenda-me se for capaz" começa em 1963, quando o jovem Frank (Leonardo DiCaprio) está com 19 anos e seus pais (Christopher Walken e Nathalie Baye) se separam. Abalado com a situação, o rapaz foge para Nova York, onde começa uma carreira como falsificador utilizando cheques que ganhou de presente de seu pai, a quem idolatra. Em pouco tempo ele consegue mais de 2 milhões de dólares e passa a ser perseguido pelo FBI, na figura de Carl Hanrattu (Tom Hanks), que fica obcecado em caçá-lo. Para fugir da polícia - e continuar sua vida de luxo e conforto- Frank se faz passar por piloto da Pan Am e médico, chegando a ficar noivo da tímida Brenda (Amy Adams). Entre ele e Hanratty surge, surpreendentemente, uma relação de admiração mútua.

É interessante como o roteiro de Jeff Nathanson tenta estabelecer uma espécie de relação paternal entre seus dois protagonistas, sem que para isso precise apelar para conceitos freudianos que fatalmente afastariam o grande público. Nas mãos experientes de Spielberg tudo soa menos sério e mais divertido. Mesmo que não seja exatamente uma comédia - ao menos não uma comédia de gargalhadas - "Prenda-me se for capaz" tem um clima de sessão da tarde descompromissada. O humor impresso por Nathanson é sutil e irônico e encontra no timing perfeito de Tom Hanks um intérprete ideal, enquanto DiCaprio deita e rola com uma personagem que é o sonho de qualquer jovem ator. Mesmo que contracenem bem pouco, os dois protagonistas são os principais responsáveis por elevar o nível de qualidade do filme, em performances exatas, seguradas por um elenco coadjuvante que jamais deixa a peteca cair: não apenas ChristopherWalken está soberbo como Frank Abgnale pai, mas também Nathalie Baye e Martin Sheen apresentam trabalhos dignos de nota - e até mesmo a participação rápida de Jennifer Garner não deixa de ser uma delícia.

"Prenda-me se for capaz" é mais uma prova de que Steven Spielberg é um diretor versátil, capaz de cativar o espectador contando qualquer tipo de história. E é um dos mais divertidos filmes de 2002, injustamente esquecido pelo Oscar.

Monday, July 18, 2011

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.

Friday, June 4, 2010

O FRANCO-ATIRADOR


O FRANCO-ATIRADOR (The deer hunter, 1978, Universal Pictures, 182min) Direção: Michael Cimino. Roteiro: Deric Washburn, baseado em uma história de Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Peter Zinner. Música: Stanley Myers. Casting: Cis Corman. Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall, Barry Spikings. Elenco: Robert DeNiro, John Savage, John Cazale, Christopher Walken, Meryl Streep, George Dzunza, Chuck Aspegren. Estreia: 08/12/78

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Montagem, Som

Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Michael Cimino)


A guerra do Vietnã acabou em 1975 e não demorou muito para que alguns - corajosos - cineastas resolvessem mexer nas feridas ainda abertas do povo americano em relação à tragédia. Em 1978, nada menos do que dois filmes bastante interessantes e bem-sucedidos deram voz aos veteranos de um dos mais absurdos conflitos bélicos da história (se é que algum conflito bélico é menos do que absurdo...) Dirigido por Hal Ashby, "Amargo regresso" deu Oscars a Jane Fonda e Jon Voight, mas "O franco-atirador", de Michael Cimino, saiu-se ainda melhor, levando pra casa 5 estatuetas concedidas pela Academia, entre as quais as de Melhor Filme, Direção e Ator Coadjuvante. Em comum, os dois filmes tem, além da temática, uma visão humanista e a preocupação com as consequências psicológicas da guerra, tanto em quem lutou nela quanto nas pessoas que os rodeiam.

A trama de "O franco-atirador" passa-se basicamente em uma pequena cidade da Pensilvânia, que tem a indústria do aço como principal meio de subsistência. É lá que moram três amigos que estão às vésperas de embarcar para o Vietnã. Mike (Robert DeNiro), Nick (Christopher Walken) e Steven(John Savage) aproveitam o casamento do último para realizar uma espécie de festa de despedida antes do embarque - que só acontecerá depois de uma última caçada de cervos, um de seus hobbies e, talvez, um de seus últimos encontros com os amigos. Já na guerra, os amigos são feitos reféns, sofrem torturas físicas e psicológicas - em especial uma roleta-russa apavorante que virou marca registrada do filme. Depois de conseguirem fugir, no entanto, eles não mais parecem unidos. Steven volta pra casa sem as duas pernas e praticamente abandona a esposa e o filho pequeno. E ao chegar em sua cidade natal, Mike descobre que Nick não retornou do conflito e resolve buscá-lo, mesmo sendo apaixonado pela noiva dele, Linda (Meryl Streep). Chegando novamente no Vietnã, ele encontra seu melhor amigo em total desequilíbrio emocional.

O melhor em "O franco-atirador" não são suas cenas de guerra - ainda que sejam extremamente bem-feitas e realistas. O que mais chama atenção no filme de Cimino (que desfrutou de alguns momentos de glória antes de ver sua carreira afundar com o megalomaníaco "O portal do paraíso") é sua profunda compreensão humana, sua sensibilidade em lidar com as relações interpessoais traumáticas das personagens sem soar piegas ou exagerado. E para isso conta com um elenco nunca aquém do espetacular. Na pele de Mike, Robert DeNiro mais uma vez demonstra seu talento além do normal. Todas as suas cenas dramáticas são dignas de figurar entre os momentos de maior destaque na sua carreira: seu romance hesitante com Linda, sua relação de culpa com Steven e sua busca de redenção com Nick fecham um círculo de sentimentos que só mesmo alguém com o cacife de DeNiro poderia encarar com tal segurança. E cercado dos atores que ele está, não há como ter erro.

Meryl Streep (com sua primeira indicação ao Oscar) improvisou a maioria de suas falas, com o incentivo do diretor e transmite a intensidade de seus sentimentos contraditórios com a segurança de uma veterana - além de ter ameaçado abandonar o filme caso se concretizasse a ameaça de demissão do ator John Cazale, que estava morrendo de câncer durante a produção e de quem era noiva. Cazale terminou o filme (suas cenas foram as primeiras a ser filmadas) e morreu em seguida, deixando um legado de grandes filmes (os dois primeiros "O poderoso chefão" e "Um dia de cão" entre eles) e atuações intensas. John Savage, como Steven, passa a exata noção do desespero de um homem ao sentir-se privado de sua integridade física devido a uma violência sem razão e Christopher Walken levou sua estatueta de ator coadjuvante por seu trabalho impressionante como Nick, protagonista das duas cenas mais conhecidas do filme (e que foram responsáveis por uma onda de suicídios com roleta-russa nos anos subsequentes).

A longa sequência inicial de "O franco-atirador" não deixa de evocar as primeiras cenas de "O poderoso chefão" (que também começa com um casamento), mas ao contrário do filme de Copolla, aqui a violência que cobre o céu das personagens é menos glamourosa e mais crua e verdadeira. A guerra, em "O franco-atirador" é uma personagem a mais, um pesadelo constante na memória de seus veteranos e de seus familiares. Assim como o tiro único que deve matar o cervo do título original, ela é capaz de aniquilar a essência de felicidade dos seres humanos. A melancólica cena final, no bar em que os amigos costumavam se reunir, é de partir o coração. Não é de surpreender que tenha sido tão bem recebido na ocasião de seu lançamento: é um testamento vivo de um inconsciente coletivo em uma época marcada pela desilusão e pela tristeza.

Mais que um filme de guerra, "O franco-atirador" é um filme de pessoas lidando com ela e, como tal, um precioso estudo sobre a dor e a (falta de) esperança.

Saturday, May 29, 2010

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA


NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977, United Artists, 93min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Ralph Rosenblum. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller, Justin Scoppa Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Shelley Duvall, Colleen Drewhurst, Christopher Walken. Estreia: 20/4/77

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Diane Keaton)


Quando lançou "Noivo neurótico, noiva nervosa", em 1977, Woody Allen já não era nenhum iniciante. Já havia lançado sete filmes, todos comédias bastante elogiadas pela crítica, mas relegadas à espécie de limbo que é reservado ao gênero. Foi preciso que o mais neurótico dos cineastas nova-iorquinos incluísse toques de romantismo em sua obra para finalmente levar pra casa o Oscar de melhor filme, direção e roteiro. Mesmo que tenha fugido do padrão de sua obra até então, normalmente direcionada a um público específico, "Noivo neurótico" talvez seja o filme que melhor define sua carreira a partir daí. Já estão presentes em sua deliciosa comédia romântica (sim, ele também tem uma alma romântica) todos os elementos que que o cineasta iria amadurecer em seus inúmeros trabalhos posteriores, em maior ou menor grau: o humor geralmente judeu, neurótico, erudito e sofisticado que angariou tanto fãs fiéis quando detratores ferozes.

Basicamente “Noivo neurótico, noiva nervosa” é uma história de amor, sem tirar nem pôr. O protagonista Alvyn Singer (o próprio Allen praticamente inaugurando sua persona mundialmente conhecida) é um humorista infeliz com sua carreira na TV que se apaixona pela levemente neurótica Annie Hall (Diane Keaton, que viveu um romance com o diretor, inspirou a personagem e levou o Oscar de melhor atriz), que tenta tornar-se cantora. O romance dos dois evolui à medida em que eles passam a se conhecer melhor, mas as diferenças entre os dois começam a tornar-se empecilhos no caminho de sua felicidade. Nesse meio tempo, ela conhece um empresário musical (vivido pelo cantor Paul Simon) e ele tenta reconhecer em seus relacionamentos passados os sinais que o levaram à crise.

O que diferencia “Annie Hall” (o título original soa infinitamente melhor do que o nome equivocado da versão nacional, uma vez que os protagonistas nunca foram noivos) das outras comédias românticas é o fato de que, além de Allen estar anos-luz da imagem do galã dos tradicionais exemplares do gênero, suas personagens enfrentam problemas mais próximos da realidade do que seus congêneres. Nada de tramas rocambolescas ou vilões estereotipados (apesar do primeiro esboço do roteiro falar sobre um crime em primeiro lugar e deixar o romance em segundo plano). O que leva o romance de Alvyn e Annie à exaustão é a própria vida, com seus caminhos às vezes tão complicados. E a dor do fim de um relacionamento também pode servir como motivo de criação, a exemplo do protagonista, que escreve uma peça de teatro tentando resolver sua conflituosa e ao mesmo tempo carinhosa relação com sua amada - o que de certa forma também foi feito por Woody, uma vez que Annie, sua protagonista feminina é claramente inspirada em Diane Keaton (cujo nome verdadeiro é Diane Hall e tem o apelido de Annie). Keaton, inclusive, utiliza de suas próprias roupas em cena (e seu figurino foi bastante imitado na época, diga-se de passagem).

A criatividade do roteiro de Allen fica evidente em momentos de grandes ideias, como o desenho animado que defende as madrastas das histórias infantis, as legendas explicando os pensamentos das personagens enquanto travam sua primeira conversa e a cena em que Annie está literalmente com o pensamento longe de sua transa com o namorado. Isso sem falar em alguns das tiradas mais inspiradas e engraçadas da carreira do diretor ("Em Los Angeles eles não jogam o lixo fora, eles reciclam em forma de programas de televisão", vocifera Alvyn quando obrigado a visitar a Califórnia).

Anos depois de seu lançamento, “Noivo neurótico, noiva nervosa” pode ter perdido parte de seu frescor e de seu senso de novidade, mas os diálogos espertos escritos por Woody Allen e a bela homenagem feita à Diane, em um papel sob medida continuam tão atuais quanto em sua estreia.