2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Trilha Sonora Original
Juntar no mesmo filme Steven Spielberg, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio não tinha como dar errado. E não deu. No entanto, apesar da renda mundial de mais de 350 milhões de dólares, "Prenda-me se for capaz" desconcertou a crítica por sua mistura de gêneros. Ora uma comédia despretensiosa, ora um filme de ação com momentos dramáticos, a transposição para as telas da história real do Frank Abgnale Jr. não conquistou tantos prêmios quanto merecia. No mesmo ano em que "Chicago" fez a festa na cerimônia do Oscar, o filme de Spielberg teve que contentar-se com meras duas indicações: ator coadjuvante para Christopher Walken e trilha sonora original para o veterano John Williams.
Realizado por Spielberg logo depois de "A.I. - Inteligência artificial", "Prenda-me se for capaz" é nitidamente menos ambicioso em termos visuais e dramáticos. Assumindo a direção depois da desistência de David Fincher, Gore Verbinski, Cameron Crowe e Lasse Halstrom, o cineasta demonstra ter retomado o tom leve e divertido do início de sua carreira, deixando de lado os temas pesados de seus filmes dramáticos e com intenções a Oscar - incluindo aí o malfadado "Amistad", que morreu na praia de suas boas intenções. Da música espirituosa de Williams à fotografia esplêndida de Janusz Kaminski (que evita as sombras e apresenta um filme solar e alto-astral) tudo parece dizer ao público que sim, o diretor é o mesmo homem que esteve por trás (como produtor) de filmes essenciais ao entretenimento dos anos 80 e 90 que visavam a diversão pura e simples.

Baseado no livro autobiográfico escrito por Abgnale e Stan Redding, "Prenda-me se for capaz" começa em 1963, quando o jovem Frank (Leonardo DiCaprio) está com 19 anos e seus pais (Christopher Walken e Nathalie Baye) se separam. Abalado com a situação, o rapaz foge para Nova York, onde começa uma carreira como falsificador utilizando cheques que ganhou de presente de seu pai, a quem idolatra. Em pouco tempo ele consegue mais de 2 milhões de dólares e passa a ser perseguido pelo FBI, na figura de Carl Hanrattu (Tom Hanks), que fica obcecado em caçá-lo. Para fugir da polícia - e continuar sua vida de luxo e conforto- Frank se faz passar por piloto da Pan Am e médico, chegando a ficar noivo da tímida Brenda (Amy Adams). Entre ele e Hanratty surge, surpreendentemente, uma relação de admiração mútua.
É interessante como o roteiro de Jeff Nathanson tenta estabelecer uma espécie de relação paternal entre seus dois protagonistas, sem que para isso precise apelar para conceitos freudianos que fatalmente afastariam o grande público. Nas mãos experientes de Spielberg tudo soa menos sério e mais divertido. Mesmo que não seja exatamente uma comédia - ao menos não uma comédia de gargalhadas - "Prenda-me se for capaz" tem um clima de sessão da tarde descompromissada. O humor impresso por Nathanson é sutil e irônico e encontra no timing perfeito de Tom Hanks um intérprete ideal, enquanto DiCaprio deita e rola com uma personagem que é o sonho de qualquer jovem ator. Mesmo que contracenem bem pouco, os dois protagonistas são os principais responsáveis por elevar o nível de qualidade do filme, em performances exatas, seguradas por um elenco coadjuvante que jamais deixa a peteca cair: não apenas ChristopherWalken está soberbo como Frank Abgnale pai, mas também Nathalie Baye e Martin Sheen apresentam trabalhos dignos de nota - e até mesmo a participação rápida de Jennifer Garner não deixa de ser uma delícia.
"Prenda-me se for capaz" é mais uma prova de que Steven Spielberg é um diretor versátil, capaz de cativar o espectador contando qualquer tipo de história. E é um dos mais divertidos filmes de 2002, injustamente esquecido pelo Oscar.
