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Monday, May 31, 2010

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE


OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (Saturday night fever, 1977, Paramount Pictures, 118min) Direção: John Badham. Roteiro: Norman Wexler, baseado no artigo de Nik Cohn. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: David Rawlins. Música: Bee Gees. Figurino: Patrizia Von Brandenstein. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/George Detitta. Casting: Shirley Rich. Produção executiva: Kevin McCormick. Produção: Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali, Paul Pape, Donna Pescow, Fran Drescher, Martin Shakar. Estreia: 14/12/77

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (John Travolta)

Em 1977, o jornalista Nik Cohn escreveu uma matéria chamada "Tribal rites of the new Saturday night", onde descrevia como jovens entediados e sem maiores perspectivas de futuro tornavam-se pessoas mais divertidas e admiradas quando saiam para dançar nas discotecas dos subúrbios nova-iorquinos. Anos mais tarde, ele confessou que sua "matéria de não-ficção" era pura invenção, mas aí já era tarde e o estrago já estava feito. Adaptado para o cinema com o nome de "Embalos de sábado à noite", seu artigo já havia sido o responsável pelo "boom" das discotecas no mundo todo e transformado a imagem de John Travolta fazendo seus passos de dança vestido com um paletó branco em um ícone inestimável para toda uma geração de cinéfilos.

Desde a primeira cena de "Embalos...", onde somos apresentados ao malemolente Tony Manero, fica impossível dissociar a personagem do ator e da persona John Travolta (já famoso nos EUA devido ao filme "O garoto da bolha de plástico", feito para a TV americana). Dono de um ritmo próprio de andar, com sapatos bem cuidados e uma ginga malandra, Manero é o retrato típico da juventude descrita por Cohn em seu artigo e pelo roteiro de Norman Wexler. Aos 19 anos, trabalhando em uma loja de tintas e sem maiores ambições na vida, ele é apenas mais um filho de uma família de italianos falastrões cujo maior orgulho é o filho padre. Quase ignorado em casa, Manero é praticamente um deus quando, aos sábados, chega na discoteca 2001 Odissey e, na pista de dança, transforma-se no mais desejado dos homens. Egocêntrico e auto-suficiente, ele é, naquele microcosmo, tudo que deveria ser no dia-a-dia mas não consegue devido à sua falta de instrução e interesse.

Tony é, em seus momentos de sub-celebridade, um hedonista, capaz de renegar friamente as investidas da doce Annette (Donna Pescow), apaixonada por ele e disposta a qualquer sacrifício para ser sua parceira de dança ("você transa com elas e elas logo querem te arrastar pra pista de dança", reclama ele, em uma das frases mais luminosas do roteiro). Tony não quer amar, ele quer ser amado e admirado mais do que tudo e por isso, quando encontra a igualmente ambiciosa Stephanie (Karen Lynn Gorney) sua vida sofre uma espécie de revés. Ao contrário do que sempre acontece, dessa vez é ele quem tem de convencê-la a ser seu par no concurso de dança. É ele quem se sente diminuído perante o quase esnobismo dela. E é ele começa a se perceber como uma pessoa sem maiores atrativos além daqueles mostrados ao som da música disco.

A música, aliás, é quase uma personagem central do filme, dirigido por John Badham. As inúmeras canções compostas pelos Bee Gees para ele (desde a clássica "Stayin' alive" dos créditos iniciais até a melancólica "How deep is your love" pro final) comentam a ação tanto quanto linhas de diálogo, dando ao público explicações sobre os sentimentos dos protagonistas e a oportunidade de ouvir uma das trilhas sonoras mais vendidas da história. Subvertendo as regras dos musicais tradicionais, onde as personagens param tudo e começam a cantar, aqui a música faz parte do conjunto, sendo inseparável do roteiro, do figurino antológico e das belas sequências de dança - que transformaram John Travolta em astro e lhe deram uma surpreendente indicação ao Oscar de melhor ator.

De certa forma, no entanto, a indicação de Travolta ao Oscar é a comprovação de que realmente ele é a alma do filme. Ao assistir-se a "Os embalos..." fica difícil acreditar que foi durante suas filmagens que o ator passou por um dos momentos mais tristes de sua vida pessoal: a morte da então namorada Diana Hyland, vítima de câncer. E fica também difícil crer que o diretor queria mostrar as elaboradas coreografias apenas em close (depois de treinar arduamente por meses a fio, Travolta convenceu-o do contrário, para alegria das festas de embalo que se seguiriam mundo afora após o lançamento do filme).

"Os embalos de sábado à noite" tem um roteiro frágil, que não sustenta uma olhada mais detalhada - apesar de tentar se aprofundar em personagens secundários, nunca chega a dar material para seu elenco de apoio. Mas é a cara de seu tempo, um filme sem maiores pretensões que ficou marcado no inconsciente coletivo e também o que mudou a forma como as trilhas sonoras eram vistas no mercado musical. Levando tudo isso em conta - e mais o fato de que inspirou o sucesso da novela global "Dancin' days" - é inegável sua importância, ainda que mais comercial do que artística, à história do cinema de entretenimento.

Sunday, May 30, 2010

CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU


CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (Close encounters of the third kind, 1977, Columbia Pictures, 135min) Direção e roteiro: Steven Spielberg. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Joe Alves/Phil Abramson. Casting: Shari Rhodes, Juliet Taylor. Produção: Michael Phillips, Julia Phillips. Elenco: Richard Dreyfuss, Melinda Dillon, François Truffaut, Teri Garr, Bob Balaban, Lance Henriksen. Estreia: 15/11/77

8 indicações ao Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais

Vencedor de 2 Oscar: Fotografia e Efeitos Sonoros (especial)


Seis meses depois que George Lucas revolucionou os filmes de ficção científica com seu "Star Wars" - que se tornaria um dos maiores sucessos da história do cinema - seu amigo Steven Spielberg mostrou ao mundo uma nova visão do gênero. Com um ponto de vista totalmente diferente do que as aventuras de Luke Skywalker contra a Estrela da Morte - que bem ou mal soa um tanto infantilóide -, "Contatos imediatos de terceiro grau" conta uma história bem menos fantasiosa, ainda que esteja longe de ser chamada de realista. Grande sucesso de bilheteria, foi o segundo êxito consecutivo do diretor, que começava a tornar-se o mais bem sucedido cineasta de sua geração.

"Contatos" se utiliza de pessoas normais, que vivem vidas comuns, para contar sua história. Uma delas é Roy Neary (Richard Dreyfuss), um técnico em eletricidade que vive com a mulher (Teri Garr) e os filhos em uma cidade tranquila dos EUA. Em uma noite em que a energia da cidade simplesmente acabou ele tem a visão de um disco-voador e, apesar da desconfiança da família, descobre que várias outras pessoas da região também testemunharam o evento. Entre as pessoas que acreditam em sua história está Jillian Guiler (Melinda Dillon), uma mãe solteira que logo em seguida tem seu filho sequestrado por uma nave espacial. Tornando-se obcecado pela visão, Roy logo vê seu casamento entrar em crise, mas, ao lado de Jillian, descobre que o governo sabe muito mais do que quer revelar. Juntos, eles decidem ir até Devil's Peak, lugar onde, de acordo com as pistas deixadas pelos aliens, haverá um contato entre a Terra e eles.

Em "Contatos imediatos de terceiro grau" Steven Spielberg dá seu primeiro passo na direção de mostrar alienígenas pacíficos e bonzinhos (como o faria com mais propriedade ainda em "ET", cinco anos depois). Ainda que não se saiba as verdadeiras intenções dos visitantes até seus minutos finais (empolgantes, diga-se de passagem), o diretor/roteirista consegue manter o clima de suspense em um nível tolerável, senão quase morno. Em nenhum momento do filme existe a intenção de provocar sustos (como em seu sucesso anterior "Tubarão") ou mostrar sequências de ação (como o faria em seu filme seguinte, "Caçadores da Arca Perdida"). Aqui, Spielberg equilibra drama familiar, pesquisa científica e um suspense agradável, que vai envolvendo o público aos poucos, até chegar em seu clímax emocionante.

E é realmente emocionante a maneira com que o roteiro (originalmente concebido por Paul Schrader) se desenrola frente ao espectador. Tudo começa misteriosamente, quando um avião desaparecido durante a II Guerra subitamente aparece, com todos os seus tripulantes fisicamente intactos. Depois, há o blecaute. Mais tarde, a visita das naves espaciais. O sequestro do filho de Jillian. A descoberta de um canto secreto praticado na Índia, aparentemente mandado do céu (e que o menino abduzido tocava em seu instrumento de brincadeira). A obsessão de Roy com uma forma específica que se lhe revela a forma da montanha onde os extra-terrestres aparecerão para comunicar-se. Tudo é colocado bem devagar, na hora certa, sem pressa (daí a duração um tanto exagerada do filme). Em alguns momentos tem-se a impressão de que a história não está andando. E ai se chega à sequência final.

Logicamente tudo que aconteceu antes das cenas finais de "Contatos imediatos" foi apenas uma preparação para elas. A impressionante música composta por John Williams para o filme torna-se personagem indispensável no diálogo travado entre os humanos e seus misteriosos visitantes (diálogo liderado pela personagem do cineasta francês François Trufaut): é impossível ouvir os acordes da trilha de Williams sem lembrar imediatamente do filme de Spielberg (assim como acontece com todas as partituras do compositor para a obra do cineasta). Nos minutos finais de "Contatos" tudo parece maior, mais caprichado, mais detalhado. A bela fotografia de Vilmos Zsigmond é adequada ao clima de tensão e surpresa criado pela trama e nem mesmo o encerramento da história (que Spielberg já declarou que seria diferente se ele fizesse o filme nos dias de hoje) soa forçado. Tecnicamente perfeito, "Contatos" usa de seus efeitos visuais com parcimônia, concentrando seu esforço maior em construir uma boa e verossímil narrativa do que em surpreender com tecnologia de ponta.

Longe de ser o melhor filme de Steven Spielberg, "Contatos imediatos de terceiro grau" é uma divertida e admiravelmente bem contada sessão da tarde, capaz de seduzir os fãs do gênero e encantar aqueles que preferem histórias mais humanas. É um filme otimista, do tempo em que o cineasta ainda era o Peter Pan que a mídia descreveu. E como tal, não ofende nem machuca ninguém. Uma diversão de primeira categoria!

MOMENTO DE DECISÃO


MOMENTO DE DECISÃO (The turning point, 1977, 20th Century Fox, 119min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: William Reynolds. Figurino: Tony Faso, Albert Wolski. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Casting: David Graham, Juliet Taylor. Produção executiva: Nora Kaye. Produção: Arthur Laurents, Herbert Ross. Elenco: Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Leslie Browne, Mikhail Baryshnikov, Martha Scott, Alexandra Danilova. Estreia: 14/11/77

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Herbert Ross), Atriz (Anne Bancroft, Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Mikhail Baryshnikov), Atriz Coadjuvante (Leslie Browne), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Herbert Ross)


No início de 1978, o cineasta americano Herbert Ross se viu em uma situação um tanto rara em seu meio, ainda que de certa forma bastante agradável. Seus dois trabalhos lançados no ano anterior concorriam ao Oscar de Melhor Filme, tornando-o rival dele mesmo. A comédia romântica "A garota do adeus" deu o prêmio de melhor ator a Richard Dreyfuss, enquanto sua maior aposta, o drama familiar "Momento de decisão" saiu da cerimônia de mãos abanando, apesar de suas generosas 11 indicações à estatueta. No entanto, sua fragorosa derrota - que faz dele, até hoje, empatado com "A cor púrpura", de Steven Spielberg, o maior perdedor da história do Oscar - no entanto, não espelha suas inúmeras qualidades. Tivesse tido mais sorte na noite que consagrou Woody Allen e seu "Noivo neurótico, noiva nervosa", o filme de Ross certamente estaria eternizado como um dos mais consistentes dramas sobre os bastidores do balé, mesmo que o utilize apenas como pano de fundo de uma história humana e envolvente.

Escrito por Arthur Laurents (o mesmo roteirista de "Nosso amor de ontem"), "Momento de decisão" conta a história de duas mulheres de mundos aparentemente diferentes mas que possuem dentro delas muito mais em comum do que aparentam. Shirley MacLaine (deixando de lado o frescor juvenil de filmes como "Se meu apartamento falasse") vive Deedee Rodgers, uma dona-de-casa que abandonou uma promissora carreira como bailarina profissional para dedicar-se à família. Ao lado do marido (Tom Skerrit), cuida de uma escola de dança, enquanto vê o tempo passar e os filhos - dois dos quais também nutrem a mesma paixão pelo balé - crescerem. Sua amiga de juventude, Emma Jacklin (Anne Bancroft, elegantíssima e a excelente atriz de sempre) é exatamente seu contrário. Ao abdicar da vida pessoal para cuidar da carreira, tornou-se uma admirada, famosa e invejada bailarina, protagonista dos maiores clássicos coreografados para os palcos. Quando as duas se reencontram, o conflito se instala logo que as doces lembranças começam a realmente soar como lembranças; Emilia (Leslie Browne) é aceita na companhia de Emma e resolve morar em Nova York. Temerosa com essa mudança tão radical na vida da filha, Deedee decide acompanhá-la, mas a proximidade com seu passado e com Emma a faz questionar suas escolhas, o que leva as duas a uma dura batalha emocional pelo amor e pela atenção da adolescente.

É notável a maneira com que Laurents consegue equilibrar os dois polos de seu roteiro sem torná-lo maniqueísta ou apelar para o dramalhão choroso. Suas duas protagonistas soam verdadeiras e honestas, sem o ranço dos melodramas familiares que poluem as telas de cinema em busca de premiações. Deedee é uma mulher realizada com sua vida familiar, mas que não consegue deixar de lado as dúvidas sobre a opção que fez para seu futuro, principalmente quando surge diante de seus olhos um dèja-vu de sua história, protagonizado por sua filha. Emma, por sua vez, atingiu o ápice de sua carreira, o máximo de sucesso que poderia almejar, mas esbarra no beco sem saída de um amanhã incerto quanto à dança e solitário quanto a relações familiares. Entre as duas, no epicentro do furacão, Emilia tenta seguir seu próprio caminho, que se complica quando ela se apaixona por Yuri (Mikhail Baryshnikov), um bailarino russo com quem divide os palcos e suas primeiras noites.

"Momento de decisão" tinha tudo para ser um daqueles filmes lacrimosos que testam a paciência do espectador. Mas Herbert Ross não foi indicado ao Oscar à toa. Contando com o estofo de suas grandes atrizes centrais (Audrey Hepburn chegou a cobiçar o papel que ficou com Anne Bancroft), ele criou uma história sobre sonhos destruídos, segundas chances e a força inquebrável da amizade sem abusar dos clichês que tinha à disposição. O clímax poderoso - que acontece logo depois dos belíssimos números musicais que contam inclusive com a participação da brasileira Marcia Haydée - apenas comprova a força de sua trama e de seu elenco. Elegante, sofisticado mas nunca chato ou aborrecido, é um filme que merece uma revisão, nem que seja para que seja feita justiça a sua dupla principal.

Saturday, May 29, 2010

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA


NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977, United Artists, 93min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Ralph Rosenblum. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller, Justin Scoppa Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Shelley Duvall, Colleen Drewhurst, Christopher Walken. Estreia: 20/4/77

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Diane Keaton)


Quando lançou "Noivo neurótico, noiva nervosa", em 1977, Woody Allen já não era nenhum iniciante. Já havia lançado sete filmes, todos comédias bastante elogiadas pela crítica, mas relegadas à espécie de limbo que é reservado ao gênero. Foi preciso que o mais neurótico dos cineastas nova-iorquinos incluísse toques de romantismo em sua obra para finalmente levar pra casa o Oscar de melhor filme, direção e roteiro. Mesmo que tenha fugido do padrão de sua obra até então, normalmente direcionada a um público específico, "Noivo neurótico" talvez seja o filme que melhor define sua carreira a partir daí. Já estão presentes em sua deliciosa comédia romântica (sim, ele também tem uma alma romântica) todos os elementos que que o cineasta iria amadurecer em seus inúmeros trabalhos posteriores, em maior ou menor grau: o humor geralmente judeu, neurótico, erudito e sofisticado que angariou tanto fãs fiéis quando detratores ferozes.

Basicamente “Noivo neurótico, noiva nervosa” é uma história de amor, sem tirar nem pôr. O protagonista Alvyn Singer (o próprio Allen praticamente inaugurando sua persona mundialmente conhecida) é um humorista infeliz com sua carreira na TV que se apaixona pela levemente neurótica Annie Hall (Diane Keaton, que viveu um romance com o diretor, inspirou a personagem e levou o Oscar de melhor atriz), que tenta tornar-se cantora. O romance dos dois evolui à medida em que eles passam a se conhecer melhor, mas as diferenças entre os dois começam a tornar-se empecilhos no caminho de sua felicidade. Nesse meio tempo, ela conhece um empresário musical (vivido pelo cantor Paul Simon) e ele tenta reconhecer em seus relacionamentos passados os sinais que o levaram à crise.

O que diferencia “Annie Hall” (o título original soa infinitamente melhor do que o nome equivocado da versão nacional, uma vez que os protagonistas nunca foram noivos) das outras comédias românticas é o fato de que, além de Allen estar anos-luz da imagem do galã dos tradicionais exemplares do gênero, suas personagens enfrentam problemas mais próximos da realidade do que seus congêneres. Nada de tramas rocambolescas ou vilões estereotipados (apesar do primeiro esboço do roteiro falar sobre um crime em primeiro lugar e deixar o romance em segundo plano). O que leva o romance de Alvyn e Annie à exaustão é a própria vida, com seus caminhos às vezes tão complicados. E a dor do fim de um relacionamento também pode servir como motivo de criação, a exemplo do protagonista, que escreve uma peça de teatro tentando resolver sua conflituosa e ao mesmo tempo carinhosa relação com sua amada - o que de certa forma também foi feito por Woody, uma vez que Annie, sua protagonista feminina é claramente inspirada em Diane Keaton (cujo nome verdadeiro é Diane Hall e tem o apelido de Annie). Keaton, inclusive, utiliza de suas próprias roupas em cena (e seu figurino foi bastante imitado na época, diga-se de passagem).

A criatividade do roteiro de Allen fica evidente em momentos de grandes ideias, como o desenho animado que defende as madrastas das histórias infantis, as legendas explicando os pensamentos das personagens enquanto travam sua primeira conversa e a cena em que Annie está literalmente com o pensamento longe de sua transa com o namorado. Isso sem falar em alguns das tiradas mais inspiradas e engraçadas da carreira do diretor ("Em Los Angeles eles não jogam o lixo fora, eles reciclam em forma de programas de televisão", vocifera Alvyn quando obrigado a visitar a Califórnia).

Anos depois de seu lançamento, “Noivo neurótico, noiva nervosa” pode ter perdido parte de seu frescor e de seu senso de novidade, mas os diálogos espertos escritos por Woody Allen e a bela homenagem feita à Diane, em um papel sob medida continuam tão atuais quanto em sua estreia.