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Sunday, October 3, 2010

FLORES DE AÇO

FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)

Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts) 

Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.

Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.

"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.

"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.

Friday, July 2, 2010

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.

Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

Saturday, June 12, 2010

MUITO ALÉM DO JARDIM


MUITO ALÉM DO JARDIM (Being there, 1979, United Artists, 130min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Jerzy Kosinski, romance de sua autoria. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Don Zimmerman. Música: Johnny Mandel. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: James Schoppe/Robert Benton. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Jack Schwartzman. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden, Richard Dysart. Estreia: 19/12/79

2 indicações ao Oscar: Ator (Peter Sellers), Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)

Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Comédia ou Musical (Peter Sellers), Coadjuvante (Melvyn Douglas)


Considerado por muitos como um dos maiores gênios do humor no cinema, o inglês Peter Sellers passava por uma fase difícil de sua carreira nos anos 70. Depois de muito sucesso com a série de filmes da "Pantera cor-de-rosa" (iniciada em 1964 e retomada com sucesso em 1975, 76 e 78) ele demorou anos para convencer um estúdio a realizar um de seus projetos de estimação, a adaptação para o cinema do romance "Being there", de Jerzy Kosinski. Foi apenas com sua ressurreição comercial (com o filme "A vingança da pantera cor-de-rosa") que ele finalmente conseguiu tirar do papel a melancólica e quase surreal história de um jardineiro tido como gênio. Elogiado unaninemente pela crítica, o filme do autoral Hal Ashby acabou tornando-se um dos últimos trabalhos do genial ator, que morreu menos de um ano depois da estreia do filme nos cinemas americanos. Seu canto do cisne lhe deu uma última e merecida indicação ao Oscar de melhor ator.

Em uma inspirada e cuidadosa atuação, Sellers vive, em "Muito além do jardim" , uma das personagens mais sensíveis de sua carreira. Chance é um jardineiro quase obtuso, um homem que vive cercado de suas plantas e de seu aparelho de televisão, as duas paixões de sua vida. Chance não sabe ler, nem escrever nem manter uma conversa mais articulada, além de não ter nenhum registro oficial e não tem a menor noção de uma existência fora da mansão onde foi criado. Quando seu patrão morre, ele se vê, inesperadamente, frente a um universo absolutamente novo e com o qual não tem a menor noção de como lidar. Por obra do acaso, ele é atropelado pela limousine de Eve Rand (Shirley MacLaine), a esposa de um industrial milionário que está às portas da morte. Levado para o casarão onde o casal mora, servido por inúmeros empregados, ele conquista a todos com seu jeito calado e discreto. Suas frases - todas tiradas de programas de TV - e até mesmo seu silêncio constrangido são tidos como geniais tanto por Eve e seu marido Benjamin (Melvyn Douglas) quanto pelo próprio presidente dos EUA (Jack Warden), amigo da família. Aos poucos, Chance começa a influenciar a todos a sua volta, inclusive despertando a paixão de uma carente Eve.

"Muito além do jardim" é uma espécie de precursor de "Forrest Gump", uma vez que assim como no filme de Robert Zemeckis, o protagonista é um homem de QI abaixo do normal que consegue atingir um nível de sucesso inesperado. Ao contrário da obra estrelada por Tom Hanks, no entanto, o humor do filme de Ashby é muito menos óbvio, menos popular, digamos assim. Ao optar por um estilo mais sóbrio de fazer comédia, o roteiro escrito pelo mesmo autor do romance que o originou, Jerzy Kosinski, foge das gargalhadas e percorre um caminho mais denso e crítico. Simbólico ao extremo, é um trabalho tão rico em possibilidades de compreensão que dificilmente estaria em uma lista das maiores bilheterias da história. Quem se dispuser a assistí-lo, no entanto, pode ter uma grata surpresa.

Não é preciso dizer que o ritmo imposto por Ashby à sua narrativa é menos ágil do que se espera de uma comédia. Devagar e sem impor ao público uma edição veloz, ele dá a exata noção do comportamento de seu protagonista, um homem preso a um mundo particular, com seus próprios interesses e que é totalmente alheio ao que se passa a seu redor. Ironia é a palavra que melhor define o humor de "Muito além do jardim", que critica de forma não muito velada a mediocridade americana (e por que não mundial?) quando o assunto é escolher seus gurus e/ou ídolos. Buscando inspiração em "O idiota", de Dostoievsky, o filme final de Peter Sellers é uma espécie de alerta contra o conformismo, mas realizado de forma elegante e altamente simbólica.

"Muito além do jardim" não é um filme que seja citado corriqueiramente nas listas dos melhores, nem da crítica (que o elogiou muito em seu lançamento) e tampouco do público, que praticamente o relegou a um quase esquecimento. Mas tem uma inteligência e uma sutilezas raras, além de ser um belo testamento legado por um dos grandes atores de sua geração.

Sunday, May 30, 2010

MOMENTO DE DECISÃO


MOMENTO DE DECISÃO (The turning point, 1977, 20th Century Fox, 119min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: William Reynolds. Figurino: Tony Faso, Albert Wolski. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Casting: David Graham, Juliet Taylor. Produção executiva: Nora Kaye. Produção: Arthur Laurents, Herbert Ross. Elenco: Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Leslie Browne, Mikhail Baryshnikov, Martha Scott, Alexandra Danilova. Estreia: 14/11/77

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Herbert Ross), Atriz (Anne Bancroft, Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Mikhail Baryshnikov), Atriz Coadjuvante (Leslie Browne), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Herbert Ross)


No início de 1978, o cineasta americano Herbert Ross se viu em uma situação um tanto rara em seu meio, ainda que de certa forma bastante agradável. Seus dois trabalhos lançados no ano anterior concorriam ao Oscar de Melhor Filme, tornando-o rival dele mesmo. A comédia romântica "A garota do adeus" deu o prêmio de melhor ator a Richard Dreyfuss, enquanto sua maior aposta, o drama familiar "Momento de decisão" saiu da cerimônia de mãos abanando, apesar de suas generosas 11 indicações à estatueta. No entanto, sua fragorosa derrota - que faz dele, até hoje, empatado com "A cor púrpura", de Steven Spielberg, o maior perdedor da história do Oscar - no entanto, não espelha suas inúmeras qualidades. Tivesse tido mais sorte na noite que consagrou Woody Allen e seu "Noivo neurótico, noiva nervosa", o filme de Ross certamente estaria eternizado como um dos mais consistentes dramas sobre os bastidores do balé, mesmo que o utilize apenas como pano de fundo de uma história humana e envolvente.

Escrito por Arthur Laurents (o mesmo roteirista de "Nosso amor de ontem"), "Momento de decisão" conta a história de duas mulheres de mundos aparentemente diferentes mas que possuem dentro delas muito mais em comum do que aparentam. Shirley MacLaine (deixando de lado o frescor juvenil de filmes como "Se meu apartamento falasse") vive Deedee Rodgers, uma dona-de-casa que abandonou uma promissora carreira como bailarina profissional para dedicar-se à família. Ao lado do marido (Tom Skerrit), cuida de uma escola de dança, enquanto vê o tempo passar e os filhos - dois dos quais também nutrem a mesma paixão pelo balé - crescerem. Sua amiga de juventude, Emma Jacklin (Anne Bancroft, elegantíssima e a excelente atriz de sempre) é exatamente seu contrário. Ao abdicar da vida pessoal para cuidar da carreira, tornou-se uma admirada, famosa e invejada bailarina, protagonista dos maiores clássicos coreografados para os palcos. Quando as duas se reencontram, o conflito se instala logo que as doces lembranças começam a realmente soar como lembranças; Emilia (Leslie Browne) é aceita na companhia de Emma e resolve morar em Nova York. Temerosa com essa mudança tão radical na vida da filha, Deedee decide acompanhá-la, mas a proximidade com seu passado e com Emma a faz questionar suas escolhas, o que leva as duas a uma dura batalha emocional pelo amor e pela atenção da adolescente.

É notável a maneira com que Laurents consegue equilibrar os dois polos de seu roteiro sem torná-lo maniqueísta ou apelar para o dramalhão choroso. Suas duas protagonistas soam verdadeiras e honestas, sem o ranço dos melodramas familiares que poluem as telas de cinema em busca de premiações. Deedee é uma mulher realizada com sua vida familiar, mas que não consegue deixar de lado as dúvidas sobre a opção que fez para seu futuro, principalmente quando surge diante de seus olhos um dèja-vu de sua história, protagonizado por sua filha. Emma, por sua vez, atingiu o ápice de sua carreira, o máximo de sucesso que poderia almejar, mas esbarra no beco sem saída de um amanhã incerto quanto à dança e solitário quanto a relações familiares. Entre as duas, no epicentro do furacão, Emilia tenta seguir seu próprio caminho, que se complica quando ela se apaixona por Yuri (Mikhail Baryshnikov), um bailarino russo com quem divide os palcos e suas primeiras noites.

"Momento de decisão" tinha tudo para ser um daqueles filmes lacrimosos que testam a paciência do espectador. Mas Herbert Ross não foi indicado ao Oscar à toa. Contando com o estofo de suas grandes atrizes centrais (Audrey Hepburn chegou a cobiçar o papel que ficou com Anne Bancroft), ele criou uma história sobre sonhos destruídos, segundas chances e a força inquebrável da amizade sem abusar dos clichês que tinha à disposição. O clímax poderoso - que acontece logo depois dos belíssimos números musicais que contam inclusive com a participação da brasileira Marcia Haydée - apenas comprova a força de sua trama e de seu elenco. Elegante, sofisticado mas nunca chato ou aborrecido, é um filme que merece uma revisão, nem que seja para que seja feita justiça a sua dupla principal.

Sunday, May 2, 2010

INFÂMIA


INFÂMIA (The children's hour, 1961, United Artists, 107min) Direção: William Wyler. Roteiro: John Michael Hayes, baseado na peça teatral de Lillian Hellman. Fotografia: Franz F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Alex North. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Fay Bainter, Miriam Hopkins, Karen Balkin, Veronica Cartwright. Estreia: 19/12/61

5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Fay Bainter), Fotografia P&B, Figurino, Direção de Arte, Som

Aqueles que acham que o mal escondido na infância tem em Macaulay Culkin em "O anjo malvado" seu maior representante - sem mencionar Demian e afins por razões óbvias - merece conhecer Mary Tilford, interpretada pela jovem Karen Balkin em "Infâmia". Tudo bem que a personagem de Culkin chega ao extremo do homicídio, mas o filme de Joseph Reuben é tão perto da realidade quanto os brasileiros representados em filmes de Hollywood. Em "Infâmia", pelo contrário, a maldade da personagem infantil é mais sutil, mas nem por isso menos perniciosa e destruidora. Um filme sobre os efeitos da mentira, "Infâmia" é uma obra-prima do drama psicológico, dirigida com maestria por William Wyler e estrelado pelas excepcionais Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

Depois de ganhar o Oscar de diretor por "Ben-hur" (assim como outras 10 estatuetas), Wyler estava em alta em Hollywood e não deixa de ser uma prova de sua coragem a opção por refilmar "Infâmia", que ele mesmo havia dirigido em 1936, com Merle Oberon e Miriam Hopkins nos papéis principais. Coragem porque, mesmo no início dos anos 60, um dos assuntos discutidos no roteiro não era exatamente palatável ao público médio nem tampouco agradava o Código de Censura que regia a produção cinematográfica: lesbianismo.

A peça "Infâmia" (cujo título original, bem menos sensacionalista, "The children's hour" saiu de uma poesia de Henry Wadsworth Longfellow) foi escrita por Lillian Hellman em 1934. Hellman (aquela mesma escritora e dramaturga que foi casada com Dashiel Hammett e interpretada por Jane Fonda no filme "Julia", de 1977) também roteirizou a primeira versão do filme, excluindo as menções à sexualidade das personagens, mas não ficou particularmente chateada por entender que o cerne da peça mantinha-se intacto. Não estava de toda errada, uma vez que são as consequências de uma falsa acusação que são o ponto principal do enredo, mas é pouco provável que a versão original seja tão forte e contundente quanto sua refilmagem.

Para o filme de 1961, Wyler contou com um roteiro de John Michael Hayes (que escreveu alguns dos melhores Hitchcock dos anos 50, "Janela indiscreta" entre eles). Sem medo de qualquer censura, Hayes não disfarçou o tom pessimista do trabalho de Hellman nem usou de subterfúgios para contar a trágica história de duas mulheres que tem suas vidas transformadas (para pior) devido a uma mentira contada de forma inconsequente.

Karen Wright (Hepburn, em seu último filme em preto-e-branco) e Martha Dobie (MacLaine, em extraordinária atuação) são amigas íntimas desde os 17 anos, e dividem a direção de uma escola para meninas localizada na Nova Inglaterra. Tentando dar a melhor educação possível a suas alunas, elas frequentemente entram em rota de colisão com a rebelde Mary Tilford (Karen Balkin), uma garota mimada, intransigente e de caráter duvidoso. Para vingar-se das professoras, que a haviam deixado de castigo, ela conta à sua avó milionária, Amelia Tilford (Fay Bainter) que testemunhou atos estranhos entre as duas, deixando bem claro para a velha senhora que existe um relacionamento amoroso entre elas. Chocada, Amelia - cujo sobrinho, o médico Joe Cardin (James Garner) é noivo de Karen - espalha a notícia e logo a escola está às moscas. Nem mesmo um julgamento por difamação consegue salvá-las da discriminação do povo da cidade, uma vez que não há testemunhas que possam desmentir a acusação da menina.

A força de "Infâmia" está principalmente em sua espinha dorsal: uma mentira que destrói inexoravelmente vidas inocentes. A acusação de Mary não apenas acaba com o sonho da escola, mas também abala o relacionamento de Karen e Joe e, pior ainda, suscita dúvidas cruéis na própria Martha, que se vê repentinamente frente a uma situação que tentava desesperadamente esconder. Quando a verdade finalmente vem à tona, tudo parece já estar destruído, sem chance de retorno: a sombra da dúvida e do escândalo sempre estará impedindo um futuro realmente luminoso e a tragédia que se anuncia na segunda metade do filme comprova de maneira dolorosa a potência destrutiva de uma calúnia.

Mas William Wyler não teria tido o mesmo sucesso em "Infâmia" se não fosse a certeira escalação de seu elenco. Apesar dos boatos que diziam que Doris Day havia sido sondada para viver uma das protagonistas (o que tornaria a polêmica ainda mais saborosa, haja visto a fama de moça de família de Day) não é fácil imaginar outras atrizes mais perfeitas para a dupla central. Audrey Hepburn, com seu jeitinho de mulher de classe, delicada, frágil é o contraponto exato à fortaleza que é Shirley MacLaine, em uma atuação que a distancia da sensível Fran Kubelik de "Se meu apartamento falasse", lançado um ano antes por Billy Wilder. Dona dos diálogos mais intensos do filme, MacLaine emociona, indigna e conquista com uma personagem dividida entre manter em segredo seus sentimentos e uma mulher apaixonada que explode quando não encontra mais meios de esconder-se. Não é à toa que é justamente Martha Dobie quem acaba se tornando a maior vítima da situação, por encontrar-se em um caminho sem volta em direção ao preconceito (vale lembrar que a peça foi escrita em 1934, muito antes que surgissem os movimentos gays organizados).

Não há como assistir-se a "Infâmia" e ficar incólume à sua mensagem. É impressionante a modernidade de sua narrativa, a delicadeza de sua direção e a intensidade de seu elenco. Tão atual hoje quanto há 50 anos, é um filme que merecia ser obrigatório em qualquer curso de ética e cidadania.

Friday, April 23, 2010

SE MEU APARTAMENTO FALASSE


SE MEU APARTAMENTO FALASSE (The apartment, 1960, United Artists, 125min) Direçãoe produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: Daniel Mandell. Música: Adolph Deutsch. Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray, Ray Walston, Jack Kruschen. Estreia: 15/6/60

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Jack Lemmon), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Kruschen), História e Roteiro Original, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Direção de arte em preto-e-branco, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), História e Roteiro Original, Montagem e Direção de Arte em preto-e-branco

Vencedor de 3 Golden Globes: Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Jack Lemmon), Atriz Comédia/Musical (Shirley MacLaine)


Em 1994, o espanhol Fernando Trueba levou o Oscar de filme estrangeiro por "Sedução" e declarou, frente a milhões de espectadores: "Se eu acreditasse em Deus, agradeceria a Deus. Mas, como não acredito, agradeço a Billy Wilder." Prova maior da influência do cineasta austríaco radicado em Hollywood sobre as gerações seguintes de diretores - DO MUNDO - não existe. Afinal, somente um completo desnorteado seria capaz de não reconhecer a importância e o talento do criador de "O pecado mora ao lado". Mas foi somente em 1960 que ele levou seu único Oscar de melhor diretor - e feliz dele, porque Alfred Hitchcock e Charles Chaplin, por exemplo, nunca tiveram a mesma sorte. Sua estatueta veio depois dos prêmios da Associação de Críticos de Nova York e do Directors Guild of America, o sindicato de diretores de Hollywood e, por incrível que pareça, o Oscar lhe sorriu graças a uma comédia romântica, "Se meu apartamento falasse". Como? Uma comédia romântica? Dirigida pelo homem que deu ao mundo petardos pessimistas e cínicos como "Crepúsculo dos deuses" e "Testemunha da acusação"? Sim, meus caros, uma comédia romântica. Mas antes que comecem a pensar que o bom e velho Wilder estava amolecendo, é bom saber que "Se meu apartamento falasse" tem muito da acidez e do sarcasmo do diretor. É uma comédia romântica, sim, mas antes de mais nada, é mais uma de suas obras-primas.

Tudo bem que "Sabrina", que Wilder lançou em 1954, é uma comédia romântica, mas a presença luminosa de Audrey Hepburn chamou muito mais a atenção do que qualquer outro elemento dramático ou estilístico que o filme pudesse ter, e não tinha a cara de seu diretor. "Se meu apartamento falasse", ao contrário, é Billy Wilder do início ao fim, o que o torna mais delicioso de assistir a cada nova revisão. É um filme romântico sem o sentimentalismo piegas que normalmente abunda no gênero e um comédia inteligente sem o apelo escatológico de piadas forçadas e visuais que desgastam o humor no cinema. Em outras palavras, um filme que qualquer diretor que preze sua carreira adoraria ter dirigido.

O protagonista do filme é C.C.Baxter (outro desempenho extraordinário de Jack Lemmon),um executivo de segundo escalão em uma firma de seguro social de Nova York. Ambicioso e solitário, ele empresta a chave de seu apartamento para que seus superiores tenham noites ao lado das amantes, sempre com o objetivo de subir na empresa. As coisas realmente começam a andar quando seu chefe máximo, Sheldrake (Fred McMurray) finalmente o promove, mas exigindo a exclusividade do apartamento do funcionário. Ele aceita a proposta, mas passa a questionar suas prioridades quando descobre que a amante de seu chefe é a mulher por quem é apaixonado, a ascensorista Fran Kubelik (uma jovem e delicada Shirley MacLaine).

Se não bastasse o ritmo excepcional do roteiro de Wilder e I.A.L. Diamond (trabalhando juntos novamente depois de "Quanto mais quente melhor"), que funciona como um relógio tanto nos momentos cômicos quanto nos dramáticos, "Se meu apartamento falasse" conta com um elenco de sonhos. Jack Lemmon brilha, sem fazer muito esforço, na pele de Baxter, um homem comum, com sonhos e esperanças corriqueiros, que vê no amor a chance de se redimir de uma existência vazia e sem muito sentido. E Shirley MacLaine, na flor de seus 26 aninhos, encanta com seu rosto angelical que anseia por um amor correspondido, em uma atuação apaixonante e sedutora. A química entre os dois protagonistas quase ofusca o elenco de coadjuvantes irresistíveis escalado pelo diretor (que além de todos os outros talentos, ainda tinha uma visão impecável de seu elenco de apoio).

"Se meu apartamento falasse" não consegue esconder seu toque de cinismo - os protagonistas, por exemplo, não são modelos a ser seguidos e alguns diálogos são pérolas de incorreção política muito bem disfarçadas - mas no fundo não deixa de ser uma história de amor que apresenta todos os ingredientes comuns ao gênero. No entanto, ao contrário de muitos outros produtos, aqui a receita funciona à perfeição, oferecendo à platéia um saboroso gosto de final feliz verossímil.

E pra acabar a anedota que abriu o post, no dia seguinte à entrega do Oscar de 1994, Fernando Trueba atendeu o telefone e ouviu, do outro lado da linha: "Senhor Trueba? Aqui fala Deus." Era Wilder.