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Monday, February 21, 2011

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR (Mr. Holland's Opus, 1995, Hollywood Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 143min) Direção: Stephen Hereck. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Trudy Ship. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: David Nichols/Jan Bergstrom. Produção executiva: Patrick Sheane Duncan, Scott Kroopf. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Michael Nolin. Elenco: Richard Dreyfuss, Glenne Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, William H. Macy, Alicia Witt, Terrence Howard, Joanna Gleason, Joseph Anderson. Estreia: 29/12/95

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)

Não há como subestimar o poder de um grande ator. Mesmo muito tempo depois de ser um dos mais populares astros de Hollywood - o que aconteceu nos anos 70, quando trabalhou com Steven Spielberg em "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau" - Richard Dreyfuss é a principal razão pela qual o drama "Mr. Holland, adorável professor" fez o sucesso que fez nas bilheterias americanas. Mesmo sem ter a seu favor uma beleza estonteante ou fazer parte de qualquer franquia milionária, Dreyfuss tem carisma o bastante para fazer com que o filme de Stephen Herek tenha rendido mais de 80 milhões de dólares somente no mercado americano. Indicado ao Oscar por seu precioso trabalho, ele teve o azar de bater de frente com o ultra-premiado Nicolas Cage. Caso contrário, era bem possível que também tivesse conquistado os eleitores da Academia mais uma vez, quase vinte anos depois de sua primeira vitória, por "A garota do adeus".

Quando a história de "Mr. Holland" começa, em 1965, o protagonista tem 30 anos de idade, enquanto Dreyfuss já estava perto dos cinquenta. Basta alguns minutos, porém, para que esse pequeno problema matemático seja abstraído, graças à atuação gigantesca do ator. Ele vive Glenn Holland, que tem como maior sonho de sua vida compor uma sinfonia para deixá-lo rico e famoso. Buscando tempo suficiente para atingir seu objetivo, ele arruma um trabalho como professor de Apreciação Musical em uma tradicional escola do interior dos EUA. A princípio frustrado com sua falta de vocação, logo ele descobre uma maneira pouco tradicional de conquistar seus alunos: misturando Bach com rock'n'roll, ele choca seus superiores, mas seduz seus estudantes, que passam a admirá-lo incondicionalmente. A cada dia mais e mais empurrado para longe da realização de seu sonho - principalmente por compromissos financeiros domésticos - ele não percebe a passagem dos anos, até que, trinta anos depois, quando a escola decide fechar o departamento de música, ele nota que sua vida girou em torno de influenciar todos os que passaram por suas aulas.


O roteiro de Patrick Sheane Duncan - indicado ao Golden Globe - faz milagres ao compactar trinta anos de movimentos sociais e musicais em pouco mais de duas horas de duração sem soar apressado ou superficial. Seu maior toque de inteligência foi utilizar um sub-gênero hollywoodiano - o filme de professor - para contar uma trama que alterna momentos puramente emocionais com uma disfarçada crítica às instituições de ensino americanas, bem como sua história. Traumas como a guerra do Vietnã e a morte de John Lennon são o pano de fundo para a trajetória de um homem comum, que precisa lidar com problemas pessoais - como a surdez do único filho - ao mesmo tempo em que precisa ser a inspiração para adolescentes em ebulição. E é comovente como ele ajuda a tímida Gertrude Lang (Alicia Witt) a levantar a auto-estima, o problemático Louis Russ (Terrence Howard) a manter-se na escola e a talentosa Rowena Morgan (Jean Louisa Kelly) a buscar suas aspirações - e com quem tem um perigoso flerte. Seus alunos, como bem diz uma personagem na sequência final, são sua sinfonia. E entre eles, em participações não creditadas, estão atores como Forest Whitaker e Balthazar Getty.

E a música é elemento fundamental em "Mr. Holland, adorável professor". Ao acompanhar a evolução rítmica do mundo ocidental, da década de 60 - quando o rock ainda estava em seu período áureo - até a metade dos anos 90, o público é brindado com um apanhado de belas canções, que vão de Gershwin a Beatles. E é justamente a morte de John Lennon a responsável pela mais bela cena do filme, quando Holland faz uma singela homenagem ao filho cantando "Beautiful boy", que o ex-Beatle compôs para o herdeiro Sean. São esses momentos de absoluta ternura que conquistam a plateia, a despeito de estarem perigosamente perto do piegas. E é aí que o talento de seus protagonistas faz toda a diferença.

Richard Dreyfuss é um dos atores mais sensacionais do cinema americano e demonstra isso em cada momento de "Mr. Holland". Dos 30 aos 60 anos de idade, ele convence plenamente, seja como professor dedicado, como compositor frustrado ou marido em crise de meia-idade. Capaz de emocionar e fazer rir, ele encontra em Glenne Headly uma parceira ideal. Na pele de Iris, sua esposa fiel e companheira, a atriz não deixa o astro eclipsar um trabalho sutil e delicado, injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação do ano de 1995. Juntos, o casal conduz o público por um caminho emocionante, agradável e pontuado por uma trilha sonora deliciosa.

O único problema de "Mr. Holland, adorável professor" é que ele é capaz de despertar lágrimas até mesmo no mais empedernido espectador. E nem todo mundo gosta de assumir seu lado sensível...

Monday, February 14, 2011

PODEROSA AFRODITE

PODEROSA AFRODITE (Mighty Aphrodite, 1995, Miramax Films/Magnolia Pictures/Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Helena Bonham-Carter, Mira Sorvino, Peter Weller, Michael Rapaport, F. Murray Abraham, Olympia Dukakis, Jack Warden, Paul Giamatti. Estreia: 27/10/95


2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)

Por mais paradoxal que seja essa afirmação, o escândalo envolvendo o nome de Woody Allen no início dos anos 90 - quando trocou a parceira amorosa e profissional Mia Farrow pela adolescente Sun-Yi Previn, filha adotiva dela - fez dele um cineasta mais leve. Filmes como "Misterioso assassinato em Manhattan" e "Tiros na Broadway" devolveram ao público o diretor bem-humorado de obras-primas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig", em contraponto ao baixo-astral e pessimismo de "Crimes e pecados" e "Setembro", que por melhores que sejam, deixavam um gosto agridoce ao final da sessão. Essa fase 'de bem com a vida' de Allen encontra em "Poderosa Afrodite" seu auge. Otimista e alegre - sem nunca perder, no entanto, o olhar irônico do cineasta - o filme deu a Mira Sorvino o Oscar de atriz coadjuvante e agradou gregos e troianos. E sem trocadilho, é justamente um coro de tragédia grega que comenta e narra a curiosa história de Lenny Weintraub e sua busca pela mãe biológica de seu filho adotivo.

O próprio Allen interpreta o protagonista, depois de uma pausa em que foi substituído por John Cusack em "Tiros na Broadway". Lenny Weintraub é um comentarista esportivo que vive um casamento estável e amoroso com a marchand Amanda (Helena Bonham-Carter). Sua família se completa quando eles adotam Max, que, na infância, demonstra uma inteligência ímpar. Curioso a respeito das origens do filho, Lenny chega até sua mãe verdadeira, a bela Linda Ash (Mira Sorvino), uma ex-atriz de filmes pornô que ganha a vida como prostituta. Apesar de sexy e atraente, Linda é bastante limitada intelectualmente, o que não impede que uma atração surja entre ela e Lenny, que passa por uma crise em seu relacionamento. Para não cair na tentação, o jornalista resolve então bancar o cupido e arrumar um marido para Linda e tirá-la da vida fácil. O escolhido é o boxeador Kevin (Michael Rapaport), também pouco dotado de inteligência.


Assim como acontece nos melhores filmes do cineasta, "Poderosa Afrodite" é uma crítica ácida e sarcástica sobre as relações humanas. Sem a sofisticação de "Hannah e suas irmãs", por exemplo, é uma comédia que pode ser considerada romântica, ainda que esteja a anos luz de todas as características que regem o gênero. Pra começo de conversa, o romance entre Lenny e Linda não pode jamais ser chamado de uma história de amor, ao menos no sentido convencional do termo. O que acontece entre os dois é um belo golpe do destino - tema recorrente da obra do diretor - narrado por um genial coro de tragédia grega (o oráculo, por sua vez, assume a forma de um mendigo cego vivido por Jack Warden). Como acontece frequentemente nos filmes de Allen, um ciclo é fechado quando os créditos finais iniciam - e aqui isso acontece deliciosamente com a canção "When you smile". No mínimo, otimista!

E mais uma vez Woody Allen cercou-se de atores geniais. Helena-Bonham Carter sai do século XIX - cenário da vasta maioria de sua filmografia - para encarnar uma Amanda moderna, ciosa dos deveres de mãe, mas preocupada com os rumos de sua carreira e casamento (principalmente quando se envolve com outro homem, vivido pelo Robocop em pessoa, Peter Weller). Michael Rapaport é encantador como Kevin, alternando uma ingenuidade ululante com uma masculinidade latente. E Mira Sorvino rouba todas as cenas em que aparece com a genial construção de sua Linda Ash. Aproveitando cada hilária linha de diálogo oferecida por Allen, a filha do ator Paul Sorvino - que foi mais uma vítima da temível "síndrome do Oscar" - deita e rola com uma personagem que lhe cabe como uma luva. A voz estridente, o jeito de andar e até o visual de Linda foram ideias da atriz, acatadas com entusiasmo por Allen, que, assim, reafirma seu status de grande diretor de coadjuvantes.

"Poderosa Afrodite" é um dos filmes mais alto-astral da carreira de Woody Allen, e isso fica patente no humor que escorre de cada cena, de cada personagem, de cada situação. Allen estava feliz e fez sua plateia sorrir alegremente. Como diz a canção dos créditos finais, "quando você sorri, o mundo todo sorri com você...."

Sunday, October 3, 2010

FLORES DE AÇO

FLORES DE AÇO (Steel magnolias, 1989, Columbia Pictures, 117min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Robert Harling, peça teatral de sua autoria. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Paul Hirsch. Música: Georges Delerue. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Gene Callahan, Edward Pisoni/Garrett Lewis, Lee Poll. Casting: Hank McCann. Produção executiva: Victoria White. Produção: Ray Stark. Elenco: Sally Field, Dolly Parton, Julia Roberts, Daryl Hannah, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Tom Skerrit, Dylan McDermot, Sam Shepard. Estreia: 15/11/89

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)

Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Julia Roberts) 

Em 1977, o cineasta Herbert Ross esteve em seu auge, chegando a concorrer consigo mesmo ao Oscar de Melhor Filme - graças à comédia romântica "A garota do adeus" e ao drama de balé "Momento de decisão". Depois, teve uma carreira irregular, onde sucessos de bilheteria como "Footloose" e "O segredo do meu sucesso" dividiam espaço com obras bem menos consideradas, como o fraco "Dinheiro do céu". Em 1989 ele voltou a chamar a atenção da crítica e do público com um filme cujo grandioso elenco feminino seria praticamente impossível de ignorar: "Flores de aço", um dramalhão familiar disfarçado de comédia de costumes que hoje em dia só é realmente lembrado por ter sido a primeira real oportunidade da carreira de Julia Roberts, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante.

Apesar de ser coadjuvante (e ter ficado com o papel oferecido a Winona Ryder e Meg Ryan), é a personagem de Roberts que serve como fio condutor e ponto em comum das personagens criadas pelo roteiro de Robert Harling (que escreveu a peça teatral que deu origem ao roteiro em homenagem à irmã, morta depois de uma cirurgia mal-sucedida). Pouco antes de ser alçada à condição de mega-estrela com sua participação em "Uma linda mulher" (que estrearia nos cinemas poucos meses depois), Roberts vive Shelby, uma jovem diabética que, nas primeiras cenas do filme, se casa com seu príncipe encantado, o charmoso Jackson (Dylan McDermott) e parte para uma vida distante da pequena cidade da Louisianna, onde vive sua família, liderada pela superprotetora M'Lynn (Sally Field). O filme conta a trágica história de Shelby - que tem diabetes e arrisca uma gravidez perigosa para formar uma família - através dos olhos de um grupo de mulheres que frequentam o salão de beleza da exuberante Truvy (Dolly Parton). As reuniões femininas que tem lugar na casa da esteticista acabam sendo o mais perto que todas elas tem de reuniões familiares - ainda que algumas delas realmente tenham uma família de verdade.

"Flores de aço" é um filme para mulheres e não é sexismo ou preconceito afirmar isso. As personagens masculinas pouco aparecem ou tem participação ativa na trama (ainda que o elenco conte com nomes importantes como Tom Skerrit e Sam Shepard), deixando que o "sexo frágil" mande no jogo o tempo todo. No entanto, o resultado final, apesar das promessas, não deixa de ser insatisfatório. Ao concentrar seu foco na relação entre M'Lynn e Shelby, Ross ganha em parte - porque Sally Field e Roberts dão conta do recado lindamente - mas perde por não dar oportunidade de brilho a outros membros do seu formidável elenco. Shirley MacLaine, por exemplo, tem o ingrato papel de uma matrona desagradável e mau-humorada e nem mesmo o inegável talento da atriz consegue tirar muito da superficialidade de sua personagem. E Daryl Hannah, enfeiada propositalmente para viver a cabeleireira, tem um dos trabalhos mais pálidos de sua carreira.

"Flores de aço" é considerada uma comédia dramática. Como drama funciona muito bem - apesar de exagerar na sacarina em seu final. Como comédia, no entanto, não desperta mais do que alguns sorrisos tímidos. Vale para ver Julia Roberts antes de virar a atriz mais bem paga de Hollywood.

Friday, September 17, 2010

UMA SECRETÁRIA DE FUTURO


UMA SECRETÁRIA DE FUTURO (Working girl, 1988, 20th Century Fox, 113min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Kevin Wade. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/George DeTitta. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut, Laurence Mark. Produção: Douglas Wick. Elenco: Melanie Griffith, Harrison Ford, Sigourney Weaver, Joan Cusack, Alec Baldwin, Kevin Spacey, Philip Bosco, Oliver Platt, Olympia Dukakis, David Duchovny. Estreia: 20/12/88

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Atriz (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Joan Cusack, Sigourney Weaver), Canção ("Let the river run")

Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Let the river run")

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Sigourney Weaver), Canção Original ("Let the river run")


Tess McGill é uma trintona que mora em Nova Jersey e trabalha como secretária na ilha de Manhattan. Com dificuldades de manter-se nos empregos que arruma, ela vive um romance fogo brando com o seu eterno namorado Mick (Alec Baldwin) e passa suas noites frequentando festinhas suburbanas ao lado da melhor amiga, Cyn (Joan Cusack). No entanto, sua sorte muda quando ela começa a trabalhar no escritório de Kathryn Parker (Sigourney Weaver), que divide com ela a ambição de subir na vida. Tess McGill não é um exemplo ético. Tess McGill é a protagonista de "Uma secretária de futuro", a mais bem-sucedida comédia romântica do diretor Mike Nichols desde "A primeira noite de um homem". Cotada para ser vivida por Michelle Pfeiffer, Geena Davis, Carrie Fisher, Kim Basinger, Kathleen Turner, Debra Winger, Diane Lane e Sarah Jessica Parker, ela acabou nas mãos de Melanie Griffith, que aproveitou a chance com tudo e acabou finalista ao Oscar de melhor atriz.

Quando "Uma secretária de futuro" começa, Tess McGill está saindo de um emprego insatisfatório e começando a trabalhar como secretária de Kathryn, uma mulher linda e bem-sucedida que não hesita em roubar descaradamente uma ideia de Tess, envolvendo a compra de uma emissora de rádio. Ao descobrir a traição da chefe - quando ela fica fora da cidade devido a um acidente de esqui - a ambiciosa secretária resolve dar a volta por cima. Passando-se por executiva, ela conta com a ajuda do atraente Jack Trainer(Harrison Ford) para conquistar seu lugar ao sol. Sua farsa, no entanto, corre o risco de ser desmascarada quando ela descobre que justamente que o homem por quem está perdidamente apaixonada é também amante de sua patroa.

"Uma secretária de futuro" não é exatamente um filme brilhante, como alguns dos filmes assinados por Mike Nichols (em especial "A primeira noite" e "Closer, perto demais"). Mas tem um charme oitentista que conquista desde os créditos de abertura (ao som da canção de Carly Simon vencedora do Oscar) até o visual exagerado tanto da protagonista em suas primeiras cenas quanto das coadjuvantes - é engraçado reparar na clara divisão entre o kitsch anos 80 do figurino e dos penteados das suburbanas secretárias e do requinte clean da classe "superior". Sigourney Weaver, em especial, esbanja beleza e classe, metida em vestidos caríssimos e vivendo em um apartamento chique, enquanto Tess e suas amigas habitam um mundo quase escuro - matizado apenas pela maquiagem sempre acima do básico.

"Uma secretária de futuro" é também o auge da carreira de Melanie Griffith, uma atriz sem maiores talentos dramáticos que, depois de uma vida regada a drogas e álcool, se reergueu artisticamente aqui. Depois de algumas escolhas equivocadas posteriores - a saber "A fogueira das vaidades", de Brian de Palma e "Uma luz na escuridão", ao lado de Michael Douglas - ela voltou a seu quase anonimato, sendo notícia quase sempre devido a seu casamento com o ator espanhol Antonio Banderas. Na pele de Tess, no entanto, Griffith - filha da atriz Tippi Hedren, de "Os pássaros" - brilha, em uma atuação discreta, eficiente e envolvente. Por incrível que pareça é ela que dá luz ao filme, mesmo dividindo cenas com as sensacionais Weaver e Joan Cusack - ambas indicadas ao Oscar de coadjuvante.

"Uma secretária de futuro" é a cara de seu tempo, pro bem e pro mal. Lançado em um momento em que as mulheres buscavam desesperadamente seu espaço no mercado de trabalho e o movimento yuppie estava em seu apogeu - é dessa época a famosa frase de Gordon Gekko em "Wall Street" que dizia que "ganância é bom!" -, foi o filme certo no momento certo. Daí talvez sua reputação um tanto exagerada - inclusive como finalista ao Oscar de melhor filme. É uma comédia romântica interessante - ainda que não seja exatamente uma comédia rasgada - e que retrata com ironia e condescendência um importante momento social e econômico americano, sem apelar para lições de moral. Divertido e simpático! O que mais se espera de um filme assim?

PS - E de quebra, "Uma secretária de futuro" conta com uma participação pequena de Kevin Spacey, no início de uma brilhante carreira.

Sunday, August 15, 2010

FEITIÇO DA LUA


FEITIÇO DA LUA (Moonstruck, 1987, MGM Pictures, 102min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: John Patrick Shanley. Fotografia: David Watkin. Montagem: Lou Lombardo. Música: Dick Hyman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg. Casting: Howard Feuer. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Cher, Nicolas Cage, Vincent Gardenia, Olympia Dukakis, John Mahoney. Estreia: 18/12/87

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Norman Jewison), Atriz (Cher), Ator Coadjuvante (Vincent Gardenia), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original

Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original

Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/Comédia ou Musical (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis)


Como é bom perceber que mesmo dentro de um gênero em tese tão repleto de clichês e armadilhas como as comédias românticas ainda é possível ser criativo, delicado e surpreendente! Premiado merecidamente com o Oscar de roteiro original, "Feitiço da lua", dirigido pelo normalmente seríssimo Norman Jewison é uma simpática história de amor, dona de um humor passional e repleta de diálogos brilhantes. Mesmo fugindo da ambição de ser inesquecível, é um filme que conquista pela inteligência, pelo bom-humor e pelo elenco impecável. Não foi à toa que Cher e Olympia Dukakis também levaram suas estatuetas para casa, por entregarem luminosas performances.

Ficando com o papel originalmente escrito com Sally Field em mente, Cher provou-se como atriz séria - e não apenas uma cantora exótica e frequentemente espalhafatosa - na pele de Loretta Castorini, uma contadora descendente de italianos que vive no Brooklyn e que há muito deixou de acreditar em coisas como romances. Precocemente viúva, ela é pedida novamente em casamento por Johnny Cammameri (Danny Aiello), um homem mais velho e também longe de ser um exemplo de romantismo. Ao viajar para a Itália a fim de acompanhar os dias finais de vida de sua mãe, ele pede a Loretta que entre em contato com seu irmão, com quem ele rompeu anos antes, para uma reaproximação. Obediente, Loretta vai até o raivoso Ronny (Nicolas Cage), um padeiro que não tem uma das mãos e que culpa o irmão por isso. Ao tentar convencê-lo a ir à cerimônia, Loretta acaba se apaixonando por ele.

A qualidade do roteiro de John Patrick Shanley é inegável. Além de contar a história do belo romance entre Loretta e Ronny - que explode ao som de "La Boheme" - Shanley aproveita para criar personagens complexos e interessantes na família Castorini. Vincent Gardenia conquista pela simpatia com que conduz a aventura extra-conjugal de seu Cosmo, que busca reconquistar a juventude perdida envolvendo-se com outra mulher. E Dukakis mereceu seu prêmio de coadjuvante graças a seu trabalho delicado como Rose, uma mãe de família tentando entender a força que a lua cheia dá a seus familiares.

Ao brincar com a lenda que dá à comunidade italiana a fama de romântico/passional, "Feitiço da lua" oferece a seu público bem mais do que simplesmente uma comédia romântica: é simpático, encantador e deliciosamente sedutor. O trabalho de Cher é sutil, mas irrepreensível - até mesmo seu sotaque e seu jeito exagerado de falar e gesticular soam naturais e verdadeiros. E não há como não se deixar envolver por um filme cujos créditos de abertura apresentam a bela "That's amore" na voz de Dean Martin. Para ver com um sorriso no rosto!