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Saturday, June 12, 2010

MUITO ALÉM DO JARDIM


MUITO ALÉM DO JARDIM (Being there, 1979, United Artists, 130min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Jerzy Kosinski, romance de sua autoria. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Don Zimmerman. Música: Johnny Mandel. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: James Schoppe/Robert Benton. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Jack Schwartzman. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden, Richard Dysart. Estreia: 19/12/79

2 indicações ao Oscar: Ator (Peter Sellers), Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)

Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Comédia ou Musical (Peter Sellers), Coadjuvante (Melvyn Douglas)


Considerado por muitos como um dos maiores gênios do humor no cinema, o inglês Peter Sellers passava por uma fase difícil de sua carreira nos anos 70. Depois de muito sucesso com a série de filmes da "Pantera cor-de-rosa" (iniciada em 1964 e retomada com sucesso em 1975, 76 e 78) ele demorou anos para convencer um estúdio a realizar um de seus projetos de estimação, a adaptação para o cinema do romance "Being there", de Jerzy Kosinski. Foi apenas com sua ressurreição comercial (com o filme "A vingança da pantera cor-de-rosa") que ele finalmente conseguiu tirar do papel a melancólica e quase surreal história de um jardineiro tido como gênio. Elogiado unaninemente pela crítica, o filme do autoral Hal Ashby acabou tornando-se um dos últimos trabalhos do genial ator, que morreu menos de um ano depois da estreia do filme nos cinemas americanos. Seu canto do cisne lhe deu uma última e merecida indicação ao Oscar de melhor ator.

Em uma inspirada e cuidadosa atuação, Sellers vive, em "Muito além do jardim" , uma das personagens mais sensíveis de sua carreira. Chance é um jardineiro quase obtuso, um homem que vive cercado de suas plantas e de seu aparelho de televisão, as duas paixões de sua vida. Chance não sabe ler, nem escrever nem manter uma conversa mais articulada, além de não ter nenhum registro oficial e não tem a menor noção de uma existência fora da mansão onde foi criado. Quando seu patrão morre, ele se vê, inesperadamente, frente a um universo absolutamente novo e com o qual não tem a menor noção de como lidar. Por obra do acaso, ele é atropelado pela limousine de Eve Rand (Shirley MacLaine), a esposa de um industrial milionário que está às portas da morte. Levado para o casarão onde o casal mora, servido por inúmeros empregados, ele conquista a todos com seu jeito calado e discreto. Suas frases - todas tiradas de programas de TV - e até mesmo seu silêncio constrangido são tidos como geniais tanto por Eve e seu marido Benjamin (Melvyn Douglas) quanto pelo próprio presidente dos EUA (Jack Warden), amigo da família. Aos poucos, Chance começa a influenciar a todos a sua volta, inclusive despertando a paixão de uma carente Eve.

"Muito além do jardim" é uma espécie de precursor de "Forrest Gump", uma vez que assim como no filme de Robert Zemeckis, o protagonista é um homem de QI abaixo do normal que consegue atingir um nível de sucesso inesperado. Ao contrário da obra estrelada por Tom Hanks, no entanto, o humor do filme de Ashby é muito menos óbvio, menos popular, digamos assim. Ao optar por um estilo mais sóbrio de fazer comédia, o roteiro escrito pelo mesmo autor do romance que o originou, Jerzy Kosinski, foge das gargalhadas e percorre um caminho mais denso e crítico. Simbólico ao extremo, é um trabalho tão rico em possibilidades de compreensão que dificilmente estaria em uma lista das maiores bilheterias da história. Quem se dispuser a assistí-lo, no entanto, pode ter uma grata surpresa.

Não é preciso dizer que o ritmo imposto por Ashby à sua narrativa é menos ágil do que se espera de uma comédia. Devagar e sem impor ao público uma edição veloz, ele dá a exata noção do comportamento de seu protagonista, um homem preso a um mundo particular, com seus próprios interesses e que é totalmente alheio ao que se passa a seu redor. Ironia é a palavra que melhor define o humor de "Muito além do jardim", que critica de forma não muito velada a mediocridade americana (e por que não mundial?) quando o assunto é escolher seus gurus e/ou ídolos. Buscando inspiração em "O idiota", de Dostoievsky, o filme final de Peter Sellers é uma espécie de alerta contra o conformismo, mas realizado de forma elegante e altamente simbólica.

"Muito além do jardim" não é um filme que seja citado corriqueiramente nas listas dos melhores, nem da crítica (que o elogiou muito em seu lançamento) e tampouco do público, que praticamente o relegou a um quase esquecimento. Mas tem uma inteligência e uma sutilezas raras, além de ser um belo testamento legado por um dos grandes atores de sua geração.

Saturday, June 5, 2010

O CAMPEÃO


O CAMPEÃO (The champ, 1979, MGM Pictures, 121min) Direção: Franco Zeffirelli. Roteiro: Walter Newman, história de Frances Marion. Fotografia: Fred J. Koenekamp. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Dave Grusin. Figurino: Theoni V. Aldridge. Direção de arte/cenários: Herman A. Blumenthal/James W. Payne, Rick Simpson. Casting: Joyce Robinson, Sam Christensen. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Jon Voight, Faye Dunaway, Rick Schroder, Jack Warden, Arthur Hill. Estreia: 04/4/79

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Vencedor do Golden Globe de Nova Estrela do Ano/Masculino - Rick Schroder


O pesadelo de toda criança. Talvez essa seja a melhor definição para "O campeão", arranca-lágrimas dirigido por Franco Zefirelli e lançado nos EUA no início de 1979. Realizado com o objetivo claro de levar a platéia às lágrimas, o dramalhão orquestrado pelo cineasta italiano não apenas o faz com maestria - especialmente em suas derradeiras cenas - mas também comprova a teoria de que um final emocionalmente poderoso é capaz de derrubar qualquer mínimo senso estético e/ou racional. Ficar incólume ao desfecho de "O campeão" é tarefa inglória!

Escrito sem temer nenhum clichê, o roteiro de Walter Newman não tem a menor preocupação em ser original ou fugir dos lugares-comuns que infestam o gênero drama familiar. No entanto, talvez seja justamente essa sua falta de ambição artística que o faça funcionar no nível emocional que pretende. Jon Voight (em vias de ganhar um Oscar por "Amargo regresso") vive Billy Flynn, um boxeador precocemente aposentado que ganha a vida cuidando de cavalos em um haras frequentado pela alta sociedade. Beberrão, irresponsável e auto-destrutivo, ele cria o filho pequeno TJ (Ricky Schroder) desde que foi abandonado pela mulher, Annie (Faye Dunaway), uma estilista de moda que depois da separação casou-se novamente e leva uma vida confortável e luxuosa. Apaixonado pelo pai, por quem nutre uma adoração incondicional, o menino tem sua vida transformada quando se reencontra com a mãe, a quem julgava morta. Temendo que a vida milionária oferecida por Annie a seu filho lhes afaste, Billy resolve voltar a lutar, mesmo sabendo dos perigos a que está exposto devido a sua idade, falta de treino e às sequelas de um ferimento antigo. Vencer a luta, para ele, é uma forma de ganhar dinheiro e o respeito definitivo de TJ, mesmo que o garoto não precise de nada disso para amá-lo devotamente.

Analisado pelo viés puramente racional, "O campeão" jamais poderia ser chamado de um grande filme. Lançado na mesma época em que Hollywood apresentava cineastas ousados como Francis Ford Copolla e Martin Scorsese e era bombardeado com obras fortes e autorais como "Taxi driver" e "Apocalypse now", o singelo e piegas conto familiar de Zefirelli soou como um retrocesso estilístico, que buscava, antes da excelência artística, o sucesso comercial e a emoção fácil. No entanto, é difícil convencer disso as milhares de pessoas que se comoveram com o filme através de suas constantes reprises na TV durante os anos 80, em especial as crianças, que viam, nas cores um tanto exageradas da fotografia de Fred Koenekamp, seus maiores temores tornarem-se realidade, ainda que na vida trágica do pequeno TJ. Vivido por um excelente Ricky Schroder, a subserviente e compreensiva personagem deixou em uma geração inteira de espectadores de cinema a marca de um dos finais mais tristes que o cinema pode oferecer, ainda que bem longe das sutilezas que seriam bem-vindas.

Pode-se falar bastante mal de "O campeão", e argumentos para tais críticas não faltariam. Mas, com os olhos inchados de chorar e o coração apertado fica difícil de pensar...

Saturday, April 10, 2010

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA


DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (Twelve angry men, 1957, United Artists, 96min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Reginald Rose. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Carl Lerner. Música: Kenyon Hopkins. Produção: Reginald Rose, Henry Fonda. Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Edward Binns, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber, Jack Klugman. Estreia: 13/4/57

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Roteiro Adaptado

Um rapaz de origem latina é acusado de assassinar o próprio pai com um golpe de canivete. Sem um álibi concreto e tendo duas testemunhas do crime (um vizinho idoso do andar de baixo e uma mulher de meia-idade que assistiu ao homicídio pela sua janela), sua sorte parece não ser das melhores. Com o julgamento encerrado, basta apenas as deliberações do júri para que a justiça seja feita (ou não). Então, uma dúzia de cidadãos de idades, classes sociais e situações financeiras distintas são fechados em uma sala para dar o veredicto. Fim da história, sim? Não, absolutamente não. É justamente nesse ponto onde a maioria esmagadora dos filmes de tribunal acaba é que começa "Doze homens e uma sentença", de Sidney Lumet.

Escrito por Reginald Rose (co-produtor do filme, ao lado do ator Henry Fonda), "Doze homens" não foi um sucesso de público, apesar dos rasgados elogios da crítica e das três importantes indicações ao Oscar que conquistou: filme, diretor e roteiro. Não é difícil entender, uma vez que não é exatamente o tipo de produto que plateias ávidas por ação e astros de primeira grandeza costumam consumir. É um filme com uma inteligência bem acima da média, um elenco escolhido pelo talento e não pelo poder de fogo nas bilheterias, um ritmo teatral (mas nunca enfadonho como podem pensar os avessos ao estilo) e principalmente um filme que dá importância aos diálogos mais do que a movimentos de câmera e afins. É uma prova inconteste da força de uma boa escalação de elenco para elevar um filme à categoria de uma obra-prima.

Quando "Doze homens e uma sentença" começa, o julgamento em si já acabou. O público não tem acesso a quase nenhuma imagem do tribunal (exceção feita à bancada dos jurados e ao rosto angustiado do réu). É apenas quando os doze homens do título sentam à volta de uma mesa para discutir o caso é que o roteiro de Rose agarra a plateia pelo cérebro e não larga mais. O caso, aparentemente fácil de ser julgado passa a ser um desafio aos membros do júri quando, na primeira votação, o jurado de número 8 (Henry Fonda) afirma não ter certeza absoluta da culpa do réu. Contestado pelos outros colegas, ele explica, então, suas dúvidas em relação ao caso. Aos poucos sua retórica passa a contaminar outros parceiros de missão, que, mesmo a princípio certos da culpabilidade do rapaz acusado do crime, começam a questionar suas certezas, para desespero do jurado número 3 (Lee J. Cobb), que não entende como eles podem ter mudado de ideia a respeito de algo que, para ele, é tão cristalino.

O grande diferencial de "Doze homens e uma sentença" são seus diálogos. Fortes, contundentes e realistas, as falas criadas por Reginald Rose são mais do que suficientes para apresentar à audiência tudo que é necessário, sem buscar subterfúgios que o cinema tranquilamente poderia proporcionar. O grau de competência dos diálogos é tão alto que em nenhum momento o público assiste ao julgamento, mas ao final dos 96 minutos de projeção, a impressão que se tem é que ele foi visto com detalhes. E o que é mais importante: apenas o que é importante é mencionado. Em um corriqueiro filme de tribunal, isso ficaria a cargo do editor. Aqui, Carl Lerner tem pouco (mas importante) trabalho.

A importância do trabalho do editor Carl Lerner em "Doze homens e uma sentença" pode parecer pequena, uma vez que aparentemente não é preciso esforço para montar um filme sem maiores cortes. No entanto, é justamente ele quem, ao lado do diretor Sidney Lumet (que viria ainda a comandar pelo menos outro grande filme, "Um dia de cão", em 1975), dá ao filme a cara de cinema que ele tem. Inteligentemente, Lumet e Lerner optaram por uma edição tranquila, suave, delicada, que dá a cada detalhe do roteiro a importância que ele tem. Em teatro é difícil, por exemplo, concentrar-se em um único ator sem perder todo o restante do quadro. Aqui, o diretor e seu editor resolvem esse problema com facilidade e parcimônia, dando a cada ator seu momento certo de brilhar.

E que brilho! Há de se louvar o responsável pelo casting de "Doze homens..." Mesmo que de certa forma Henry Fonda seja uma espécie de protagonista (afinal, é ele quem dá o pontapé inicial no conflito retratado), seus colegas de elenco não ficam para trás em termos de desempenho. Lee J. Cobb como o truculento e quase irascível jurado número 3 (o que tem mais dificuldade em se deixar convencer pelas dúvidas dos colegas) rouba a cena sem nenhuma vergonha e a outra dezena de atores é de tirar o chapéu. Generoso, o texto de Reginald Rose (refilmado para a TV americana em 1997, com Jack Lemmon no lugar de Fonda) dá espaço para todos demonstrarem seu talento, mesmo que - e isso é outra jogada de mestre - suas vidas, ao menos para o espectador, possa ser resumida apenas às horas em que eles estão na sala de jurados. Durante a duração do filme - e da discussão entre as personagens - o mundo fora do tribunal é vislumbrado apenas pelo calor, pela chuva e pelo jogo de baseball que uma das personagens anseia em assistir. Eles estão ali para definir a vida ou a morte de um rapaz e apesar de nem todos terem a mesma consciência da importãncia do fato, o que acontece no mundo exterior não tem mais a mesma urgência. O fato de seus nomes não serem sequer mencionados (com exceção de dois deles, na cena final) apenas reitera sua condição de anônimos.

"Doze homens e uma sentença" é obrigatório. Para fãs de cinema, para estudantes de Direito, para todos que sentem prazer em assistir a uma boa história, contada por gente que entende do riscado. Imperdível!