Showing posts with label FAYE DUNAWAY. Show all posts
Showing posts with label FAYE DUNAWAY. Show all posts

Monday, May 16, 2011

GIA - FAMA E DESTRUIÇÃO

GIA, FAMA E DESTRUIÇÃO (Gia, 1998, HBO Pictures, 120min) Direção: Michael Cristofer. Roteiro: Jay McInerney, Michael Cristofer. Fotografia: Rodrigo Garcia. Montagem: Eric Sears. Música: Terence Blanchard. Figurino: Robert Turturice. Direção de arte/cenários: David J. Bomba/Kathy Lucas. Produção: James D. Brubaker. Elenco: Angelina Jolie, Elizabeth Mitchell, Faye Dunaway, Mercedes Ruhel, Eric Michael Cole.

Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/ Filme ou Minissérie para TV (Angelina Jolie) e Atriz Coadjuvante/Filme ou Minissérie para TV (Faye Dunaway)

Na metade dos anos 80, a bela Gia Marie Carangi chega à Nova York com o objetivo de tornar-se modelo. Dona de um estilo próprio e uma personalidade rebelde, logo ela passa a ser a mais requisitada modelo do mercado e da agência de Wilhelmina Cooper (Faye Dunaway), com quem tem uma relação materna bastante forte, uma vez que tem alguns conflitos com a mãe de verdade, Kathleen (Mercedes Ruhel)  desde o seu segundo casamento. Ao mesmo tempo em que se envolve em um relacionamento cheio de idas e vindas com Linda (Elizabeth Mitchell), Gia também começa a usar drogas cada vez mais pesadas, o que acaba prejudicando sua credibilidade profissional. Dependente dos tóxicos, ela se afasta da amante e, depois de um tempo, descobre ser portadora do vírus da AIDS, ainda praticamente desconhecida nos EUA no final da década.

Material perfeito para um drama hollywoodiano, a história real de Gia, a primeira supermodelo internacional, acabou sendo produzida pela HBO para exibição na televisão a cabo. Mesmo que a emissora apresente seu habitual capricho na produção, porém, fica evidente que o diretor e roteirista Michael Cristofer esbarrou na ousadia do tema, um tanto pesado para a família americana degustar no horário nobre. Narrado em tom semi-documental, seu filme tenta explorar todos os lados da personalidade selvagem da protagonista, ainda que se concentre quase que exclusivamente em sua história de amor com Linda (com cenas bastante ousadas) e em seu vício em drogas. Utilizando-se de uma edição fragmentada - talvez para combinar com o constante estado alterado da modelo - o cineasta conta ainda com uma trilha sonora repleta de hits dos anos 80, época em que se passa a história, e mostra, de maneira cruel em seus momentos finais, como a classe médica não estava nem perto de preparada para uma epidemia como a AIDS.


O roteiro de Cristofer tenta ainda explicar a dificuldade de Gia em seus relacionamentos. Com a mãe (muito bem interpretada por Mercedes Ruhel), problemas relacionados ao divórcio dos pais em sua infância. Com Wilhelmina Cooper (ótimo trabalho de Faye Dunaway, premiada com um Golden Globe de coadjuvante), uma relação de afeto verdadeiro e carinho. Com o jovem T.J. (Eric Michael Cole), uma amizade regada a uma paixão unilateral. E com Linda (Elizabeth Mitchell), amor, desejo e quase dependência. Segundo a narrativa, Gia era uma mulher intensa, avassaladora, extremamente desejada, mas muito carente e frágil ao mesmo tempo. E essa complexa personagem, capaz de ir do céu ao inferno em questão de horas, é vivida por uma arrebatadoramente linda e emocionante Angelina Jolie.

Filha do ator Jon Voigt, Jolie encarnou Gia com todo o furor de seu talento e sua juventude (quando o filme foi ao ar, ela tinha apenas 22 anos e já havia ganho um Golden Globe de atriz coadjuvante pela minissérie "George Wallace"). Em um impressionante desempenho, a bela atriz se entrega apaixonadamente a seu primeiro papel principal, ganhando o respeito da crítica e do público. Dona de uma beleza sensual e agressiva mas ainda assim clássica e atemporal, Jolie é praticamente uma força da natureza dentro do filme, sugando tudo à sua volta com a intensidade de seu trabalho. É ela quem transforma a história deprimente de uma mulher que tinha o mundo a seus pés e perdeu tudo para as drogas e uma doença incurável em um filme poderoso e marcante, que, mesmo tendo sido feito para a TV, consegue ter qualidade de cinema. Não foi à toa que Angelina levou pra casa um segundo Golden Globe (além de um Satelitte Award e um prêmio do Screen Actors Guild): sua atuação é esplêndida.

Logicamente "Gia, fama e destruição" não é uma obra-prima. As limitações do veículo para o qual foi planejado certamente fazem dele menos contundente, mas, dentro do que se propõe, é um eficiente drama feito com cuidado e dedicação. E além do mais, levou Angelina Jolie à Hollywood. Só isso já faz dele um programa obrigatório.

Saturday, June 5, 2010

O CAMPEÃO


O CAMPEÃO (The champ, 1979, MGM Pictures, 121min) Direção: Franco Zeffirelli. Roteiro: Walter Newman, história de Frances Marion. Fotografia: Fred J. Koenekamp. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Dave Grusin. Figurino: Theoni V. Aldridge. Direção de arte/cenários: Herman A. Blumenthal/James W. Payne, Rick Simpson. Casting: Joyce Robinson, Sam Christensen. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Jon Voight, Faye Dunaway, Rick Schroder, Jack Warden, Arthur Hill. Estreia: 04/4/79

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Vencedor do Golden Globe de Nova Estrela do Ano/Masculino - Rick Schroder


O pesadelo de toda criança. Talvez essa seja a melhor definição para "O campeão", arranca-lágrimas dirigido por Franco Zefirelli e lançado nos EUA no início de 1979. Realizado com o objetivo claro de levar a platéia às lágrimas, o dramalhão orquestrado pelo cineasta italiano não apenas o faz com maestria - especialmente em suas derradeiras cenas - mas também comprova a teoria de que um final emocionalmente poderoso é capaz de derrubar qualquer mínimo senso estético e/ou racional. Ficar incólume ao desfecho de "O campeão" é tarefa inglória!

Escrito sem temer nenhum clichê, o roteiro de Walter Newman não tem a menor preocupação em ser original ou fugir dos lugares-comuns que infestam o gênero drama familiar. No entanto, talvez seja justamente essa sua falta de ambição artística que o faça funcionar no nível emocional que pretende. Jon Voight (em vias de ganhar um Oscar por "Amargo regresso") vive Billy Flynn, um boxeador precocemente aposentado que ganha a vida cuidando de cavalos em um haras frequentado pela alta sociedade. Beberrão, irresponsável e auto-destrutivo, ele cria o filho pequeno TJ (Ricky Schroder) desde que foi abandonado pela mulher, Annie (Faye Dunaway), uma estilista de moda que depois da separação casou-se novamente e leva uma vida confortável e luxuosa. Apaixonado pelo pai, por quem nutre uma adoração incondicional, o menino tem sua vida transformada quando se reencontra com a mãe, a quem julgava morta. Temendo que a vida milionária oferecida por Annie a seu filho lhes afaste, Billy resolve voltar a lutar, mesmo sabendo dos perigos a que está exposto devido a sua idade, falta de treino e às sequelas de um ferimento antigo. Vencer a luta, para ele, é uma forma de ganhar dinheiro e o respeito definitivo de TJ, mesmo que o garoto não precise de nada disso para amá-lo devotamente.

Analisado pelo viés puramente racional, "O campeão" jamais poderia ser chamado de um grande filme. Lançado na mesma época em que Hollywood apresentava cineastas ousados como Francis Ford Copolla e Martin Scorsese e era bombardeado com obras fortes e autorais como "Taxi driver" e "Apocalypse now", o singelo e piegas conto familiar de Zefirelli soou como um retrocesso estilístico, que buscava, antes da excelência artística, o sucesso comercial e a emoção fácil. No entanto, é difícil convencer disso as milhares de pessoas que se comoveram com o filme através de suas constantes reprises na TV durante os anos 80, em especial as crianças, que viam, nas cores um tanto exageradas da fotografia de Fred Koenekamp, seus maiores temores tornarem-se realidade, ainda que na vida trágica do pequeno TJ. Vivido por um excelente Ricky Schroder, a subserviente e compreensiva personagem deixou em uma geração inteira de espectadores de cinema a marca de um dos finais mais tristes que o cinema pode oferecer, ainda que bem longe das sutilezas que seriam bem-vindas.

Pode-se falar bastante mal de "O campeão", e argumentos para tais críticas não faltariam. Mas, com os olhos inchados de chorar e o coração apertado fica difícil de pensar...

Tuesday, May 11, 2010

BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS


BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie & Clyde, 1967, Warner Bros, 112min) Direção: Arthur Penn. Roteiro: David Newman, Robert Benton. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Dede Allen. Música: Charles Strouse. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção de arte / Cenários: Dean Tavoularis / Raymond Paul. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Estelle Parsons, Gene Wilder. Estreia: 04/8/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Penn), Ator (Warren Beatty), Atriz (Faye Dunaway), Ator Coadjuvante (Gene Hackman, Michael J. Pollard), Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Roteiro Original, Fotografia, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Fotografia


Segundo o sensacional livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood", de Peter Biskind (Editora Intrinseca), "Bonnie & Clyde, uma rajada de balas" foi o filme que marcou a ruptura entre a "velha" Hollywood, com seu sistema de estúdios, códigos de censura e classicismo exagerado e a "nova" Hollywood, onde os diretores virariam os astros - principalmente se tivessem o talento de "auteur" que a revista francesa "Cahièrs du Cinéma" já há algum tempo exaltava. Ainda segundo Biskin, foi graças à coragem do produtor Warren Beatty e do cineasta Arthur Penn que foram abertas as portas que deram entrada no mundo do cinema comercial, de nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Hal Ashby, Steven Spielberg e Robert Altman. Só por isso "Bonnie & Clyde" já merecia figurar com honra em qualquer antologia sobre cinema. Mas se não bastasse essa sua importância histórica, o filme de Penn é um estupendo trabalho de direção e um dos melhores filmes de gângsters já produzidos nos EUA.

"Bonnie & Clyde" começa em 1931, quando o jovem Clyde Barrow (Warren Beatty, que assumiu o papel quando o cantor Bob Dylan não o aceitou) acaba de sair da prisão por assalto à mão armada. Ao tentar roubar um carro, ele conhece a bela Bonnie Parker (Faye Dunaway no auge da beleza), que trabalha tediosamente como garçonete mas deseja ardorosamente uma vida mais agitada. Logo que ela realmente acredita que o rapaz diz ser o que é, ela resolve juntar-se a ele, e o casal passa a roubar bancos. No meio do caminho junta-se a eles o jovem frentista W.C. Moss (Michael J. Pollard) e mais adiante o irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua mulher, Blanche (Estelle Parsons). Pouco depois, a gangue já é conhecida e procurada em boa parte do país, tornando-se famosa e de certa forma admirada pela população.

Como era de se esperar, o roteiro de David Newman e Robert Benton (que contou com a não-creditada ajuda de Robert Towne) não é totalmente fiel aos fatos reais da vida de seus protagonistas (W.C.Moss, por exemplo, é uma mistura de três pessoas), mas tenta seguir ao máximo a cronologia dos acontecimentos e a história verdadeira. O relacionamento entre o casal central é um dos pontos mais dissonantes da realidade: segundo historiadores, Clyde era bissexual - o primeiro roteiro claramente apresentava uma espécie de romance entre ele e Moss - enquanto no filme, sua incapacidade de consumar o ato sexual com Bonnie advém do fato de ele ser impotente. Não deixa de ser interessante, contudo, ver que a violência, os roubos e a adrenalina das perseguições de certa maneira substitui, para ela, os orgasmos que não tem com o homem que ama - o primeiro beijo deles acontece quando ela o assiste assaltar uma mercearia, o que não deixa de reiterar a afirmação.

Idealizado em preto-e-branco (ideia rejeitada ferozmente pela Warner), "Bonnie & Clyde" tem um estilo semi-documental que, apesar da violência um tanto excessiva pra época - mortes acontecem a todo instante e sem disfarces de edição - ainda arruma espaço para uma espécie de humor negro. A trilha sonora impecável de Charles Strouse casa perfeitamente tanto nas cenas mais densas quanto nas sequências mais leves, em um tom espirituoso que lembra o cinema mudo e impede o produto final de tornar-se indigesto a um público ainda não acostumado com o vigor apresentado pelo cineasta. Inclusive, Penn - que concorreu ao Oscar por seu magnífico trabalho - substituiu ninguém mais ninguém menos do que o francês François Truffaut, que esteve envolvido diretamente em mais de uma etapa da produção do filme, mas o abandonou na última hora para cuidar de seu projeto de estimação, "Fahrenheit 451".

E não foi só Truffaut quem poderia ter seu nome intimamente ligado à "Bonnie & Clyde": além de Bob Dylan ter sido considerado para viver o protagonista masculino, a personagem feminina central também teve nomes cotados antes que Dunaway agarrasse o trabalho com unhas e dentes: Jane Fonda não quis deixar a França onde morava na época, Cher despertou a ira do seu então marido Sonny Bono por tentar um papel em um filme tão controverso e Shirley MacLaine saiu de cena por razões óbvias quando Beatty assumiu como Clyde, uma vez que não seria apropriado ter dois irmãos vivendo um casal nas telas de cinema.

Apropriado, aliás, o filme não pareceu nem um pouco quando estreou. Lançado pelo estúdio como um filme B, sem maior divulgação e sem alarde, ele recebeu algumas críticas massacrantes - em especial a do principal resenhista da revista "Newsweek", Joseph Morgenstern - e não parecia ter um futuro promissor. Quando, no entanto, jovens começaram a lotar as sessões e outros críticos passaram a tecer loas entusiasmadas à obra, tudo mudou. Não só o estúdio relançou o filme em maior escala como até mesmo Morgenstern voltou atrás, declarando estar completamente errado em sua primeira impressão. As dez indicações ao Oscar apenas confirmaram o que qualquer espectador poderia perceber assim que as polaróides da abertura do filme apareciam na tela: ali estava um clássico atemporal.

Sexy, violento e amoral, "Bonnie & Clyde" é um dos filmes mais fascinantes sobre a América pós-1929 e um dos mais importantes exercícios de estilo do cinema americano de todos os tempos. Tão interessante agora quanto há 43 anos, é um exemplo de técnica, talento e coragem a ser seguido por qualquer cineasta que preze sua integridade artística.