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Friday, May 14, 2010

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM


A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM (The graduate, 1967, Universal Pictures, 105min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Calder Willingham, Buck Henry, baseado no romance de Charles Webb. Fotografia: Robert Surtess. Montagem: Sam O'Steen. Música: Dave Grusin, canções de Paul Simon. Produção: Lawrence Turman. Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Elizabeth Wilson, Murray Hamilton, Brian Avery. Estreia: 21/12/67

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Ator (Dustin Hoffman), Atriz (Anne Bancroft), Atriz Coadjuvante (Katharine Ross), Roteiro Adaptado, Fotografia

Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (Mike Nichols)

Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Diretor (Mike Nichols), Atriz Comédia/Musical (Anne Bancroft), Most Promising Newcomer Male (Dustin Hoffman), Most Promising Newcomer Female (Katharine Ross)


Não é difícil entender os motivos que levaram "A primeira noite de um homem" a tornar-se um dos filmes de maior sucesso de sua época e um dos mais influentes dramas geracionais de Hollywood. Quando o filme foi lançado, em 1967, a juventude americana encontrava-se em um estado que abandonava a letargia dos anos pós-guerra e começava a questionar seu país - envolvido em uma muito mal-explicada guerra no Vietnã - sua estrutura familiar e o estado social em que se encontravam - vale lembrar que Martin Luther King ainda vivia e liderava movimentos em prol dos direitos civis. Os jovens que estavam começando a entrar na faixa dos vinte anos sentiam-se sufocados pelas expectativas dos pais e perdidos quanto a um futuro que parecia cada vez mais incerto. Sufocado e perdido também estava Benjamin Braddock, o protagonista do livro de Carl Webb e do filme de Mike Nichols. Não tinha como não haver uma identificação imediata.

Ligeiramente diferente de sua versão literária - um pouco menos passiva - a personificação de Benjamin Braddock no filme de Nichols ainda assim mantém sua essência confusa e sem norte. Quando a história começa, o jovem Braddock (às vésperas de completar 21 anos) está de volta à casa dos pais, depois de formar-se na universidade. Sem saber o que fazer com seu futuro e nada sutilmente cobrado pela família e pelos amigos dela - um grupo de bem-sucedidos homens de negócios e mulheres que frequentam a alta sociedade - Benjamin fecha-se cada vez mais em si mesmo. Sua vida dá uma virada quando ele é seduzido pela Mrs. Robinson do título da canção de Paul Simon. Vivida magistralmente por Anne Bancroft, a sexy mulher mais velha, com idade para ser sua mãe lhe apresenta aos prazeres do sexo, que lhe foram negados por um casamento sem amor e uma maternidade indesejada. Absolutamente não-romântica, a experiente e prática esposa de um dos amigos de seu pai parece ser exatamente o que o jovem precisa em seus momentos de descoberta do mundo, mas acaba se tornando uma pedra em seu sapato quando ele conhece e se apaixona pela jovem Elaine (Katharine Ross em papel oferecido a Natalie Wood e para o qual foram testadas Candice Bergen e Sally Field). Doce e delicada, a bela jovem também se apaixona por ele, mas o romance esbarra em um grave problema: ela é filha da sedutora sra. Robinson.

Dustin Hoffman já tinha quase 30 anos de idade quando interpretou Benjamin Braddock, de apenas 21. Isso não o impediu, no entanto, de criar uma das personagens mais interessantes de sua carreira, um jovem inseguro e com uma dose de inocência e romantismo que ia de encontro à praticidade e o cinismo de sua amante. A atuação de Anne Bancroft é antológica, equilibrando genialmente a amargura de uma mulher cuja vida não seguiu o rumo sonhado com uma certa dose de egoísmo. A sra. Robinson não tem apenas ciúme da relação da filha com Benjamin e sim considera o rapaz indigno de ficar com ela. A complexidade da personagem encontra em Bancroft a atriz perfeita, o que não dá margem a qualquer dúvida sobre o acerto em sua escalação para o papel, uma vez que ela era apenas seis anos mais velha que Hoffman. É impossível imaginar alguém melhor, mais inteligente e mais sensível - e isso que inúmeras atrizes foram sondadas e/ou cotadas para vivê-la, nomes que iam de Jeanne Moreau e Ava Gardner até a Doris Day e Judy Garland. A química entre os dois protagonistas é preciosa e as cenas inicias de sua conquista são de figurar em qualquer antologia de diálogos geniais da história do cinema. Unidos à bela trilha sonora - que apresenta as clássicas instântaneas "Mrs. Robinson" e "The sound of silence" - e a um elenco coadjuvante impecável (onde até mesmo um jovem Richard Dreyfuss faz uma figuração de luxo), Hoffman e Bancroft elevam o filme a um patamar acima do corriqueiro.

"A primeira noite de um homem" é bem mais profundo do que mostra em sua superfície. Em um primeiro momento, é apenas a história do despertar de um homem em relação à sua sexualidade e ao amor. No entanto, como o próprio título original - a graduação, em bom português - sugere, fala sobre acordar para a vida, para um caminho que talvez não seja o mais seguro, mas ainda assim, é o que foi escolhido e não pré-determinado. Com seu jeito loser de ser, Dustin Hoffman é a perfeita encarnação de um rapaz abismado com o mundo à sua volta, que não sabe caminhar com as próprias pernas sem que alguém o empurre e que, de repente, nota que optar pelo que deseja é o caminho certo, mesmo que não saiba como agir depois de fazer suas escolhas. Nem Warren Beatty, nem Jack Nicholson nem Robert Redford - todos cotados para o papel - fariam melhor.

Wednesday, May 12, 2010

À SANGUE FRIO


À SANGUE FRIO (In cold blood, 1967, Columbia Pictures, 134min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, baseado no livro de Truman Capote. Fotografia: Conrad Hall. Montagem: Peter Ziner. Música: Quincy Jones. Direção de Arte / Cenários: Robert Boyle / Jack Ahern. Produção: Richard Brooks. Elenco: Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Jeff Corey, John McLiam. Estreia: 14/12/67

4 indicações ao Oscar: Diretor (Richard Brooks), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original

Em 2005 o cineasta Benett Miller lançou "Capote", que deu a Philip Seymour Hoffman o merecido Oscar de melhor ator. O filme, baseado na biografia escrita por Gerald Clarke, contava o envolvimento do famoso escritor em um polêmico caso de homicídio ocorrido no Kansas em 1960 e o processo de escrita do livro "À sangue frio", que tornou-se sua obra-prima e até hoje é leitura indispensável aos fãs do bom jornalismo. Lançado em 1965, o resultado da exaustiva pesquisa de Capote ficou famoso como o primeiro "romance de não-ficção" da história e chegou às telas de cinema meros dois anos depois de sua publicação. Dirigida por Richard Brooks (que também escreveu o roteiro do filme), a adaptação cinematográfica de "À sangue frio" chegou aos cinemas em 1967, beneficiando-se do fato de a brutal história ainda estar fresca no inconsciente do povo americano. À parte seu timing perfeito em termos de estreia, no entanto, possui qualidades outras que o mantém, ainda hoje, entre os grandes dramas policiais realizados por Hollywood.

O roteiro de Brooks é bastante fiel ao livro de Truman Capote - também autor do texto original de "Bonequinha de luxo" - e conta uma história surpreendentemente verídica; em 1960, uma pequena cidade do Kansas fica chocada com o brutal assassinato da família do fazendeiro Clutter.Ele, sua esposa e seu casal de filhos são violentamente assassinados em casa, sem motivos aparentes. Enquanto a polícia busca pistas para solucionar o caso, os dois criminosos, Perry Smith (Robert Blake) e Dick Hickock (Scott Wilson) partem atrás da realização de seu sonho encontrar um tesouro cujo mapa está em suas mãos. No entanto, como todo e qualquer assassinato, rastros são deixados para trás e os dois ex-colegas de prisão são capturados e julgados, condenados ambos à morte.

A começar pela competente fotografia em preto-e-branco indicada ao Oscar, que mostra a desolação e a angústia dos personagens, quase tudo funciona maravilhosamente bem no resultado-final - é especialmente impressionante a sequência, já no final do filme, em que Smith recorda de sua infância e parece chorar, quando na verdade o que estamos vendo é o reflexo da chuva na vidraça do presídio (um efeito casual, segundo a produção, mas que emociona de verdade). O livro de Capote deu material suficiente para que o roteiro seja extremamente farto de informações e ao mesmo tempo, enxuto e direto, auxiliado pela música potente de Quincy Jones e a edição excepcional de Peter Zinn. As personalidades dos assassinos são mostradas aos poucos e, mesmo que o público saiba que eles são frios e até cruéis, não deixa de ter uma certa compaixão por suas vidas fracassadas e desesperançadas. Contribui muito para isso a interpretação dos atores, em especial a de Robert Blake, que construiu um Perry Smith torturado pelo físico mutilado e a alma destroçada por uma infância sofrida. Por mais talentoso que fossem, é pouco provável que Paul Newman e Steve McQueen - as primeiras escolhas da Columbia Pictures para os papéis - conseguissem deixar de lado suas personas já conhecidas e consagradas para dar veracidade a personagens tão controversos. E veracidade era a palavra de ordem no projeto de Brooks.

Em busca do máximo de realismo possível, “À sangue-frio” foi filmado em vários locais onde realmente os fatos mostrados ocorreram, como a fazenda dos Clutter e o tribunal onde os assassinos foram julgados. Até mesmo seis dos jurados originais participaram das cenas, e o juiz que condenou a dupla só não fez parte do elenco porque morreu pouco antes das filmagens.

“À sangue-frio” não faz julgamentos morais. O diretor Richard Brooks quer apenas contar uma história forte e emocionalmente impactante por sua natureza. Consegue. Não faz jus à majestade do livro que lhe deu origem, mas jamais peca pela mediocridade e/ou auto-complacência. Um filme definitivo e obrigatório!

Tuesday, May 11, 2010

BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS


BONNIE & CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS (Bonnie & Clyde, 1967, Warner Bros, 112min) Direção: Arthur Penn. Roteiro: David Newman, Robert Benton. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Dede Allen. Música: Charles Strouse. Figurino: Theadora Van Runkle. Direção de arte / Cenários: Dean Tavoularis / Raymond Paul. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Estelle Parsons, Gene Wilder. Estreia: 04/8/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Penn), Ator (Warren Beatty), Atriz (Faye Dunaway), Ator Coadjuvante (Gene Hackman, Michael J. Pollard), Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Roteiro Original, Fotografia, Figurino

Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Estelle Parsons), Fotografia


Segundo o sensacional livro "Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood", de Peter Biskind (Editora Intrinseca), "Bonnie & Clyde, uma rajada de balas" foi o filme que marcou a ruptura entre a "velha" Hollywood, com seu sistema de estúdios, códigos de censura e classicismo exagerado e a "nova" Hollywood, onde os diretores virariam os astros - principalmente se tivessem o talento de "auteur" que a revista francesa "Cahièrs du Cinéma" já há algum tempo exaltava. Ainda segundo Biskin, foi graças à coragem do produtor Warren Beatty e do cineasta Arthur Penn que foram abertas as portas que deram entrada no mundo do cinema comercial, de nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Hal Ashby, Steven Spielberg e Robert Altman. Só por isso "Bonnie & Clyde" já merecia figurar com honra em qualquer antologia sobre cinema. Mas se não bastasse essa sua importância histórica, o filme de Penn é um estupendo trabalho de direção e um dos melhores filmes de gângsters já produzidos nos EUA.

"Bonnie & Clyde" começa em 1931, quando o jovem Clyde Barrow (Warren Beatty, que assumiu o papel quando o cantor Bob Dylan não o aceitou) acaba de sair da prisão por assalto à mão armada. Ao tentar roubar um carro, ele conhece a bela Bonnie Parker (Faye Dunaway no auge da beleza), que trabalha tediosamente como garçonete mas deseja ardorosamente uma vida mais agitada. Logo que ela realmente acredita que o rapaz diz ser o que é, ela resolve juntar-se a ele, e o casal passa a roubar bancos. No meio do caminho junta-se a eles o jovem frentista W.C. Moss (Michael J. Pollard) e mais adiante o irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua mulher, Blanche (Estelle Parsons). Pouco depois, a gangue já é conhecida e procurada em boa parte do país, tornando-se famosa e de certa forma admirada pela população.

Como era de se esperar, o roteiro de David Newman e Robert Benton (que contou com a não-creditada ajuda de Robert Towne) não é totalmente fiel aos fatos reais da vida de seus protagonistas (W.C.Moss, por exemplo, é uma mistura de três pessoas), mas tenta seguir ao máximo a cronologia dos acontecimentos e a história verdadeira. O relacionamento entre o casal central é um dos pontos mais dissonantes da realidade: segundo historiadores, Clyde era bissexual - o primeiro roteiro claramente apresentava uma espécie de romance entre ele e Moss - enquanto no filme, sua incapacidade de consumar o ato sexual com Bonnie advém do fato de ele ser impotente. Não deixa de ser interessante, contudo, ver que a violência, os roubos e a adrenalina das perseguições de certa maneira substitui, para ela, os orgasmos que não tem com o homem que ama - o primeiro beijo deles acontece quando ela o assiste assaltar uma mercearia, o que não deixa de reiterar a afirmação.

Idealizado em preto-e-branco (ideia rejeitada ferozmente pela Warner), "Bonnie & Clyde" tem um estilo semi-documental que, apesar da violência um tanto excessiva pra época - mortes acontecem a todo instante e sem disfarces de edição - ainda arruma espaço para uma espécie de humor negro. A trilha sonora impecável de Charles Strouse casa perfeitamente tanto nas cenas mais densas quanto nas sequências mais leves, em um tom espirituoso que lembra o cinema mudo e impede o produto final de tornar-se indigesto a um público ainda não acostumado com o vigor apresentado pelo cineasta. Inclusive, Penn - que concorreu ao Oscar por seu magnífico trabalho - substituiu ninguém mais ninguém menos do que o francês François Truffaut, que esteve envolvido diretamente em mais de uma etapa da produção do filme, mas o abandonou na última hora para cuidar de seu projeto de estimação, "Fahrenheit 451".

E não foi só Truffaut quem poderia ter seu nome intimamente ligado à "Bonnie & Clyde": além de Bob Dylan ter sido considerado para viver o protagonista masculino, a personagem feminina central também teve nomes cotados antes que Dunaway agarrasse o trabalho com unhas e dentes: Jane Fonda não quis deixar a França onde morava na época, Cher despertou a ira do seu então marido Sonny Bono por tentar um papel em um filme tão controverso e Shirley MacLaine saiu de cena por razões óbvias quando Beatty assumiu como Clyde, uma vez que não seria apropriado ter dois irmãos vivendo um casal nas telas de cinema.

Apropriado, aliás, o filme não pareceu nem um pouco quando estreou. Lançado pelo estúdio como um filme B, sem maior divulgação e sem alarde, ele recebeu algumas críticas massacrantes - em especial a do principal resenhista da revista "Newsweek", Joseph Morgenstern - e não parecia ter um futuro promissor. Quando, no entanto, jovens começaram a lotar as sessões e outros críticos passaram a tecer loas entusiasmadas à obra, tudo mudou. Não só o estúdio relançou o filme em maior escala como até mesmo Morgenstern voltou atrás, declarando estar completamente errado em sua primeira impressão. As dez indicações ao Oscar apenas confirmaram o que qualquer espectador poderia perceber assim que as polaróides da abertura do filme apareciam na tela: ali estava um clássico atemporal.

Sexy, violento e amoral, "Bonnie & Clyde" é um dos filmes mais fascinantes sobre a América pós-1929 e um dos mais importantes exercícios de estilo do cinema americano de todos os tempos. Tão interessante agora quanto há 43 anos, é um exemplo de técnica, talento e coragem a ser seguido por qualquer cineasta que preze sua integridade artística.

Monday, May 10, 2010

OS DOZE CONDENADOS


OS DOZE CONDENADOS (The dirty dozen, 1967, MGM Pictures, 150min) Direção: Robert Aldrich. Roteiro: Nunnally Johnson, Lukas Heller, baseado no romance de E. M. Nathanson. Fotografia: Edward Scaife. Montagem: Michael Luciano. Música: De Vol. Produção: Kenneth Hyman. Elenco: Lee Marvin, Ernest Borgnine, Richard Jaeckel, George Kennedy, Robert Ryan, John Cassavetes, Charles Bronson, Telly Savallas, Donald Sutherland, Trini Lopez, Jim Brown, Clint Walker, Tom Busby, Ben Carruthers, Stuart Cooper, Colin Maitland. Estreia: 15/5/67

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (John Cassavetes), Montagem, Som, Efeitos Sonoros

Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros


As feministas que perdoem a afirmação, mas existe, sim, "filme de homem". E um exemplo claríssimo disso é "Os doze condenados", dirigido pelo mesmo Robert Aldrich que domou Bette Davis e Joan Crawford em "O que terá acontecido a Baby Jane?". Baseado em um romance de E.M. Nathanson, "Os doze condenados" é uma explosão de testosterona em cada fotograma, não abrindo espaço para nenhum tipo de sentimentalismo, dramas desnecessários ou senso de humor. É um grande filme, mas com um público-alvo específico - os fãs de filmes de guerra à moda clássica.

"Os doze condenados" começa em março de 1944, em Londres. O Major Reisman (Lee Marvin em papel recusado por John Wayne) é chamado à presença de um superior para receber uma nova e atípica missão. Conhecido por seus modos rebeldes e contrários à hierarquia, ele é escolhido para ser o comandante de uma missão aparentemente suicida - invadir um castelo na França onde os alemães guardam sua munição, explodí-lo e matar todos os soldados nazistas que estiverem presentes (assim como quem mais estiver por perto). Como seus comandados, o Major terá uma equipe de doze homens que pouco tem a perder - uma dúzia de condenados pela justiça militar (alguns à morte, outros à prisão perpétua) que, se bem sucedidos em sua perigosa batalha, estarão absolvidos de seus crimes. Entre os escolhidos por Reisman encontram-se o ex-soldado Wladislaw (Charles Bronson) - preso por atacar um superior -, Jefferson (Jim Brown) - um ativista dos direitos dos negros -, Franko (John Cassavetes) - um gângster rebelde -, Maggot (Telly Savallas) - um psicopata que mata mulheres que fogem dos padrões cristãos - e Pinkley (Donald Sutherland) - um homem com problemas mentais.

A primeira providência de Reisman é unir seus homens e fazer deles uma equipe coesa e sólida. Para isso, ele reúne a todos em um campo de treinamento rígido e implacável. É neste campo que os prisioneiros transformados em soldados tornam-se um time, deixando suas diferenças de lado em prol de um mesmo objetivo. Logo em seguida, depois de provarem ao superior de Reisman que são capazes de cumprir o que lhes foi proposto - mesmo quando chegam perto de perder sua possibilidade de perdão graças a uma festinha particular com algumas garotas de programa - chega a hora de partir para o ataque. Com suas vidas em jogo, a dúzia de imundos do título original se entregam de corpo e alma ao plano criado por seu líder.



"Os doze condenados" é um filme que vale por três. Seus três atos claramente delimitados poderiam facilmente ser produtos isolados e seriam interessantes o suficiente. Primeiro, o treinamento: é pouco provável que o espectador mais ligado não vá perceber semelhanças entre esta parte inicial com o primeiro ato de "Nascido para matar", de Stanley Kubrick - logicamente sem a violência deste último. Inúmeros filmes de guerra de certa forma utilizaram deste artifício para apresentar suas personagens e o trabalho de Aldrich é exemplar: com o encerramento do capítulo inicial, o público já está torcendo por seus "heróis", mesmo que saiba que eles são todos criminosos. É interessante notar que o roteiro não se detém em explicitar detalhadamente as razões que levaram os protagonistas à cadeia, o que por um lado os torna mais simpáticos à plateia, mas ao mesmo tempo enfraquece suas personalidades. O público, de certa forma, tem acesso apenas ao que está vendo, esquecendo já na metade do filme que está torcendo por homens que, em produções menos corajosas, seriam os vilões.

A segunda parte da trama mostra como os homens contatados por Reisman provam sua competência em relação ao que foi planejado e como tornaram-se realmente unidos. É talvez a parte menos empolgante do filme, mas que serve de ponte para a esperada e catártica terceira fase do roteiro de Nunnally Johnson e Lukas Heller: a missão propriamente dita.

É difícil descrever a elegância de Robert Aldrich em dirigir o terço final de "Os doze condenados". Sem apelar para uma violência exagerada - ainda que o tema e a proposta permitissem que ele fizesse isso - o cineasta rege uma sucessão de pequenas cenas que, concatenadas, formam um extraordinário clímax, que, revisto hoje, parece claramente ter inspirado Quentin Tarantino em seu "Bastardos inglórios": ao recusar-se a cortar uma cena crucial - que envolvia mulheres e crianças alemãs - o diretor demonstrou uma bravura louvável, que, dizem, lhe custou uma indicação ao Oscar.

"Os doze condenados" é um filme de guerra exemplar. Ao fugir do clichê de mostrar as batalhas em si, ele apresenta um lado até então inédito do conflito e cede espaço para algumas criações raras em obras do gênero: John Cassavetes, por exemplo, concorreu ao Oscar de ator coadjuvante por seu trabalho como o rebelde Franko e Donald Sutherland (herdando um papel recusado por outro ator), carimbou seu passaporte para um dos papéis principais de "M.A.S.H.", de Robert Altman - que lhe transformou em astro. Isso sem falar na atuação de Lee Marvin, ele mesmo um veterano da II Guerra, assim como Telly Savallas, Charles Bronson e Ernest Borgnine.

Maior sucesso de bilheteria da MGM no ano de 1967, "Os doze condenados" rendeu três sequências feitas para a TV e tem um remake marcado para 2012. É esperar para conferir o que a tecnologia moderna pode oferecer para melhorar ainda mais a incrível história criada por Nathanson.