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Thursday, October 6, 2011

PECADO ORIGINAL


PECADO ORIGINAL (Original sin, 2001, MGM Pictures, 116min) Direção: Michael Cristofer. Roteiro: Michael Cristofer, romance "Waltz into darkness", de Cornell Woolrich. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Eric Sears. Música: Terence Blanchard. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: David J. Bomba/Beth Rubino. Produção executiva: Sheldon Abend, Ashok Amritraj, David Hoberman. Produção: Denise Di Novi, Kate Guinzburg, Carol Lees. Elenco: Angelina Jolie, Antonio Banderas, Thomas Jane. Elenco: 31/7/01

Os produtores de "Pecado original" seguraram seu lançamento nos cinemas com a intenção de aproveitar o sucesso que o filme "Tomb Raider" - estrelado pela mesma Angelina Jolie - prometia fazer. A estratégia não deu exatamente certo. As aventuras de Lara Croft até que renderam uma grana suficiente para garantir uma sequência, mas o romance erótico estrelado por Jolie e Antonio Banderas mal fez cócegas nas bilheterias americanas. Talvez culpa do clima de filme B da obra, talvez culpa da direção anódina de Michael Cristofer, também autor do filme que catapultou Angelina para a fama, o elogiado "Gia, fama e destruição".

Baseado no conto "Waltz into darkness", de Cornell Woolrich - que também escreveu o conto que deu origem à "Janela indiscreta", de Hitchcock - "Pecado original" (cujo título foi modificado para que a audiência não o confundisse com o musical "Dançando no escuro", de Lars Von Trier, lançado à mesma época) se passa em uma Cuba pré-revolução, quando o milionário do café Luis Vargas (Antonio Banderas, surpreendentemente controlado) arruma, nos EUA, uma noiva por correspondência. Quem chega a seu país é a belíssima e misteriosa Julia Russell (Angelina Jolie, linda e magérrima). Depois de cair de amores por sua esposa, Vargas descobre que foi vítima de um golpe entre a moça e um amante misterioso. Contando com a ajuda de Walter Downs (Thomas Jane), um detetive particular, ele parte em seu encalço, com o objetivo dúbio de matar-lhe ou mais uma vez cair em seus encantos.



Na verdade, "Pecado original" não é nem melhor nem pior que inúmeros exemplares do gênero "mulher fatal seduz homem carente". O roteiro, escrito pelo próprio diretor, tem ritmo razoável, que permite surpresas nas horas certas e muitas e ousadas cenas de sexo, que exploram a beleza do casal central (aliás, desde sua parceria com Pedro Almodovar o espanhol Banderas não se permitia tanta exposição física). O problema do filme é realmente seu visual pobre. Nada contra retratar uma Cuba cinza, úmida e sem o calor que normalmente é mostrado em produções mais comerciais, mas o filme de Cristofer não consegue apagar a impressão de ser extremamente barato e mal-cuidado em termos visuais - e isso que a fotografia é de Rodrigo Prieto, que em poucos anos se mostraria um competente artesão em filmes como "O segredo de Brokeback Mountain" e "Diários de motocicleta".

Repleto de cenas quentes - que muitas vezes tentam compensar a fragilidade de algumas situações e a falta de uma trama mais consistente - "Pecado original" não chega a ser um bom filme, ainda que seja plenamente assistível. Ao final de sua projeção resta apenas a lembrança de seus momentos altamente eróticos e da beleza estonteante de Angelina Jolie. E isso, convenhamos, é muito pouco!

Monday, August 1, 2011

GAROTA, INTERROMPIDA

 GAROTA, INTERROMPIDA (Girl, interrupted, 1999, Columbia Pictures, 127min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Lisa Loomer, Anna Hamilton Phelan, livro de Susanna Kaysen. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Kevin Tent. Música: Mychael Danna. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Maggie Martin. Produção executiva: Carol Bodie, Winona Ryder. Produção: Cathy Konrad, Douglas Wick. Elenco: Winona Ryder, Angelina Jolie, Whoopi Goldberg, Brittany Murphy, Clea DuVall, Jared Leto, Vanessa Redgrave, Kurtwood Smith, Elisabeth Moss, Jeffrey Tambor. Estreia: 21/12/99

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)

Some em um mesmo pacote a aura angustiada e as dúvidas a respeito do futuro de "A primeira noite de um homem" e o senso de rebeldia indomável de "Um estranho no ninho". Abstraia o fato de que o cineasta James Mangold não tem o mesmo talento visionário de Mike Nichols ou Milos Forman. Substitua Dustin Hoffman e Jack Nicholson por Winona Ryder e Angelina Jolie. Não pense que tudo soa um bocado anacrônico e você gostará de"Garota, interrompida", um filho temporão do cinema da contracultura americana dos anos 60. Mesmo que não tenha tido no final dos anos 90 o mesmo impacto que poderia ter na era da flower power, a adaptação para o cinema das memórias da jovem Susanna Kaysen tem qualidades o bastante para encantar uma geração cujos heróis morreram de overdose.

Publicado em 1993, o livro de Kaysen tornou-se best-seller imediato nos EUA e chamou a atenção da atriz Winona Ryder, que imediatamente decidiu levá-lo para o cinema, tornando-se sua produtora executiva. Reservando para si o papel central, Winona escalou para a direção o competente mas relativamente desconhecido James Mangold, cujo maior mérito até então tinha sido o de arrancar uma atuação decente de Sylvester Stallone em "Copland". No comando do filme, Mangold demonstrou que é um diretor sério e eficiente, mas carece nesse seu segundo grande filme de mais ousadia. "Garota, interrompida" é um filme quadrado, o que, se for levado em consideração dos assuntos que trata, é um paradoxo quase imperdoável. Tivesse sido um pouco mais corajoso certamente teria feito de seu filme um belo drama a respeito da inconformidade juvenil. Como está, é um filme bom e bem realizado - além de muito bem interpretado - mas bem aquém do que poderia ter sido.


Kaysen (vivida por uma Winona Ryder cuja delicadeza mais atrapalha do que ajuda) é uma jovem internada pelos pais em uma instituição mental, depois de aparentemente ter tentado suicídio (ela alega ter sido um acidente, mas um caso amoroso com um professor casado também não a ajuda em sua defesa). Os EUA estão passando por uma fase complicada, com a guerra do Vietnã em seu auge e os hippies buscando seu lugar ao sol. Logo que chega ao hospital, Susanna toma contato com a rotina rígida da instituição e com algumas de suas pacientes, como a mentirosa patológica Georgina (Clea DuVall), a sofrida Polly (Elisabeth Moss), que tem o rosto marcado por queimaduras e a esquisita Daisy (Brittany Murphy), que não come na presença de outras pessoas e esconde um segredo a respeito de sua família. Tratada pela enfermeira Valerie (Whoopi Goldberg), Susanna sente imediata conexão com a sociopata Lisa (Angelina Jolie), com quem passa a dividir a maior parte de seu tempo.

Quando trata sobre as interrelações entre as pacientes (em especial a estranha amizade surgida entre Susanna e Lisa) "Garota, interrompida" se sai bastante bem. O elenco é excelente. Brittany Murphy brilha em suas cenas mais intensas (em especial em seu desfecho trágico que leva o filme a seu clímax). Whoopi Goldberg como a enfermeira Valerie e Vanessa Redgrave como a psiquiatra Sonia Wick ensinam em cada cena como ser grandes atrizes sem levantar a voz ou apelar para exageros. E, se Winona Ryder não faz mais do que normalmente mostra em seus trabalhos, é sua colega de cena quem chama a atenção de forma escancarada. Na pele da maluquete Lisa Rowe, a bela Angelina Jolie está visivelmente à vontade, deitando e rolando com uma personagem aparentemente feita sob medida para seu talento visceral.

Premiada com o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante, Jolie nem parece fazer muita força para impressionar com sua atuação. Macérrima, loura e linda como sempre, ela interpreta uma jovem carismática, agressiva e sincera ao ponto da crueldade que faz o contraponto perfeito à timidez e a inconformidade disfarçada de Susanna. Felizmente o roteiro não tenta inventar um subtexto homoerótico que desviaria a trama de seu foco - o máximo que rola é um selinho inofensivo - e também não dá atenção exagerada aos romances da protagonista (com o jovem soldado vivido por Jared Leto ou com o enfermeiro noturno). Uma pena, porém, que, pelos mesmos motivos, não se detém em examinar a situação sociopolítica do país.

Contando com uma trilha sonora espetacular - em que canções da época se misturam com belas músicas contemporâneas, em especial da banda Wilco - "Garota, interrompida" é um filme que, a despeito de estar deslocado no tempo e no espaço, cumpre seus objetivos e merece ser lembrado por, no mínimo, ter colocado Angelina Jolie em seu merecido lugar de destaque em Hollywood.

Wednesday, June 22, 2011

CORAÇÕES APAIXONADOS

CORAÇÕES APAIXONADOS (Playing by heart, 1998, Miramax Films, 121min) Direção e roteiro: Willard Carroll. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Pietro Scalia. Música: John Barry. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Cindy Carr. Produção executiva: Guy East, Paul Feldsher, Nigel Sinclair, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Willard Carroll, Meg Liberman, Tom Wilhite. Elenco: Sean Connery, Gena Rowlands, Angelina Jolie, Ryan Philippe, Madeleine Stowe, Dennis Quaid, Gillian Anderson, Ellen Burstyn, Jay Mohr, Anthony Edwards, Jon Stewart, Patricia Clarkson. Estreia: 18/12/98

Filmes com várias estórias aparentemente independentes que se cruzam no final já fazem parte de quase um sub-gênero em Hollywood. De Robert Altman a Quentin Tarantino, vários diretores já se aventuraram, com resultados os mais variados, a assinar filmes assim. Por isso não deixa de ser surpreendente quando um exemplar do estilo consegue ultrapassar as expectativas e conquistar o espectador. Mesmo sendo escrito e dirigido pelo praticamente desconhecido Willard Carroll, o drama romântico "Corações apaixonados" é bom o suficiente para prender a atenção do público, contando para isso com uma equipe de causar inveja a qualquer veterano.

Por não ser exatamente um nome de peso, o cineasta cercou-se de um time de colaboradores de primeira linha. Do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond (Oscar por "Contatos imediatos de terceiro grau") ao editor Pietro Scalia (Oscar por "JFK" e "Falcão negro em perigo"), passando pelo maestro John Barry e os experientes atores Sean Connery, Ellen Burstyn e Gena Rowlands, os créditos do filme são um desfile dos mais talentosos profissionais da sétima arte. No entanto, nada disso adiantaria se Carroll não tivesse em mãos um belo trunfo: o roteiro esperto e ágil. Inteligentemente, ele não criou um petardo emocional como "Magnólia" ou um besteirol ralo como "Pret-a-porter": dosando muito bem elementos comoventes com cenas de uma graça sincera e leve, o diretor conseguiu um equilíbrio raro, fazendo com que todas as estórias que conta sejam dignas de interesse, mesmo porque o elenco estava em dias inspirados.



Os veteranos Sean Connery e Gena Rowlands vivem Hannah e Paul, um casal que, às vésperas de completar 40 anos de casamento, se envolvem em uma crise quando a esposa, apresentadora de um programa de TV nos moldes de Ana Maria Braga descobre a foto de uma antiga paixão do marido. A química entre os atores é orgânica, e o texto é divertido e caloroso (poucas vezes se viu o James Bond mais famoso das telas tão à vontade). Angelina Jolie (pré-Oscar, pré-Brad Pitt e pré-símbolo sexual absoluto) e Ryan Philippe são Joan e Keenan, dois jovens que se conhecem em uma danceteria e passam a viver um romance titubeante graças à resistência do rapaz, oriunda de um traumatizante relacionamento anterior. Jolie é pura alegria de viver e carisma, em um papel feito sob medida, e Philippe se sai relativamente bem, sem precisar explorar o corpo, como fez em "Studio 54".

Madeleine Stowe e Anthony Edwards (da série "Plantão Médico") são os amantes Gracie e Roger, cuja relação nunca sai dos quartos de hotel, apesar dos apelos dele (talvez seja a trama menos interessante, ainda que revele uma pequena surpresa nas cenas finais). Gillian Anderson (da série "Arquivo X") interpreta a diretora de teatro Meredith, que tenta afastar o pretendente Trent (Jon Stewart) por medo de sofrer (e Anderson tem um insuspeito timing cômico). Dennis Quaid é Hugh, aparentemente um mentiroso contumaz que tenta seduzir mulheres em bares contando as mais absurdas histórias de tristeza (e o então marido de Meg Ryan deita e rola no papel, demonstrando um talento que viria a crescer ainda mais nos anos seguintes). E finalmente Ellen Burstyn é Mildred, uma mulher que acompanha os últimos momentos do filho Mark (Jay Mohr), vítima da AIDS. É a história mais triste do filme, mas contada com delicadeza e com a excelência de Burstyn.
Tentar adivinhar como essas estórias irão se cruzar é apenas um dos prazeres que se tem ao assistir a “Corações apaixonados”. Engraçado, comovente, romântico, é uma pequena pérola em meio às explosões e tiroteios que povoam as telas de cinema. Para ser descoberto!

Monday, May 16, 2011

GIA - FAMA E DESTRUIÇÃO

GIA, FAMA E DESTRUIÇÃO (Gia, 1998, HBO Pictures, 120min) Direção: Michael Cristofer. Roteiro: Jay McInerney, Michael Cristofer. Fotografia: Rodrigo Garcia. Montagem: Eric Sears. Música: Terence Blanchard. Figurino: Robert Turturice. Direção de arte/cenários: David J. Bomba/Kathy Lucas. Produção: James D. Brubaker. Elenco: Angelina Jolie, Elizabeth Mitchell, Faye Dunaway, Mercedes Ruhel, Eric Michael Cole.

Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/ Filme ou Minissérie para TV (Angelina Jolie) e Atriz Coadjuvante/Filme ou Minissérie para TV (Faye Dunaway)

Na metade dos anos 80, a bela Gia Marie Carangi chega à Nova York com o objetivo de tornar-se modelo. Dona de um estilo próprio e uma personalidade rebelde, logo ela passa a ser a mais requisitada modelo do mercado e da agência de Wilhelmina Cooper (Faye Dunaway), com quem tem uma relação materna bastante forte, uma vez que tem alguns conflitos com a mãe de verdade, Kathleen (Mercedes Ruhel)  desde o seu segundo casamento. Ao mesmo tempo em que se envolve em um relacionamento cheio de idas e vindas com Linda (Elizabeth Mitchell), Gia também começa a usar drogas cada vez mais pesadas, o que acaba prejudicando sua credibilidade profissional. Dependente dos tóxicos, ela se afasta da amante e, depois de um tempo, descobre ser portadora do vírus da AIDS, ainda praticamente desconhecida nos EUA no final da década.

Material perfeito para um drama hollywoodiano, a história real de Gia, a primeira supermodelo internacional, acabou sendo produzida pela HBO para exibição na televisão a cabo. Mesmo que a emissora apresente seu habitual capricho na produção, porém, fica evidente que o diretor e roteirista Michael Cristofer esbarrou na ousadia do tema, um tanto pesado para a família americana degustar no horário nobre. Narrado em tom semi-documental, seu filme tenta explorar todos os lados da personalidade selvagem da protagonista, ainda que se concentre quase que exclusivamente em sua história de amor com Linda (com cenas bastante ousadas) e em seu vício em drogas. Utilizando-se de uma edição fragmentada - talvez para combinar com o constante estado alterado da modelo - o cineasta conta ainda com uma trilha sonora repleta de hits dos anos 80, época em que se passa a história, e mostra, de maneira cruel em seus momentos finais, como a classe médica não estava nem perto de preparada para uma epidemia como a AIDS.


O roteiro de Cristofer tenta ainda explicar a dificuldade de Gia em seus relacionamentos. Com a mãe (muito bem interpretada por Mercedes Ruhel), problemas relacionados ao divórcio dos pais em sua infância. Com Wilhelmina Cooper (ótimo trabalho de Faye Dunaway, premiada com um Golden Globe de coadjuvante), uma relação de afeto verdadeiro e carinho. Com o jovem T.J. (Eric Michael Cole), uma amizade regada a uma paixão unilateral. E com Linda (Elizabeth Mitchell), amor, desejo e quase dependência. Segundo a narrativa, Gia era uma mulher intensa, avassaladora, extremamente desejada, mas muito carente e frágil ao mesmo tempo. E essa complexa personagem, capaz de ir do céu ao inferno em questão de horas, é vivida por uma arrebatadoramente linda e emocionante Angelina Jolie.

Filha do ator Jon Voigt, Jolie encarnou Gia com todo o furor de seu talento e sua juventude (quando o filme foi ao ar, ela tinha apenas 22 anos e já havia ganho um Golden Globe de atriz coadjuvante pela minissérie "George Wallace"). Em um impressionante desempenho, a bela atriz se entrega apaixonadamente a seu primeiro papel principal, ganhando o respeito da crítica e do público. Dona de uma beleza sensual e agressiva mas ainda assim clássica e atemporal, Jolie é praticamente uma força da natureza dentro do filme, sugando tudo à sua volta com a intensidade de seu trabalho. É ela quem transforma a história deprimente de uma mulher que tinha o mundo a seus pés e perdeu tudo para as drogas e uma doença incurável em um filme poderoso e marcante, que, mesmo tendo sido feito para a TV, consegue ter qualidade de cinema. Não foi à toa que Angelina levou pra casa um segundo Golden Globe (além de um Satelitte Award e um prêmio do Screen Actors Guild): sua atuação é esplêndida.

Logicamente "Gia, fama e destruição" não é uma obra-prima. As limitações do veículo para o qual foi planejado certamente fazem dele menos contundente, mas, dentro do que se propõe, é um eficiente drama feito com cuidado e dedicação. E além do mais, levou Angelina Jolie à Hollywood. Só isso já faz dele um programa obrigatório.