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Monday, August 1, 2011

GAROTA, INTERROMPIDA

 GAROTA, INTERROMPIDA (Girl, interrupted, 1999, Columbia Pictures, 127min) Direção: James Mangold. Roteiro: James Mangold, Lisa Loomer, Anna Hamilton Phelan, livro de Susanna Kaysen. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Kevin Tent. Música: Mychael Danna. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Maggie Martin. Produção executiva: Carol Bodie, Winona Ryder. Produção: Cathy Konrad, Douglas Wick. Elenco: Winona Ryder, Angelina Jolie, Whoopi Goldberg, Brittany Murphy, Clea DuVall, Jared Leto, Vanessa Redgrave, Kurtwood Smith, Elisabeth Moss, Jeffrey Tambor. Estreia: 21/12/99

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Angelina Jolie)

Some em um mesmo pacote a aura angustiada e as dúvidas a respeito do futuro de "A primeira noite de um homem" e o senso de rebeldia indomável de "Um estranho no ninho". Abstraia o fato de que o cineasta James Mangold não tem o mesmo talento visionário de Mike Nichols ou Milos Forman. Substitua Dustin Hoffman e Jack Nicholson por Winona Ryder e Angelina Jolie. Não pense que tudo soa um bocado anacrônico e você gostará de"Garota, interrompida", um filho temporão do cinema da contracultura americana dos anos 60. Mesmo que não tenha tido no final dos anos 90 o mesmo impacto que poderia ter na era da flower power, a adaptação para o cinema das memórias da jovem Susanna Kaysen tem qualidades o bastante para encantar uma geração cujos heróis morreram de overdose.

Publicado em 1993, o livro de Kaysen tornou-se best-seller imediato nos EUA e chamou a atenção da atriz Winona Ryder, que imediatamente decidiu levá-lo para o cinema, tornando-se sua produtora executiva. Reservando para si o papel central, Winona escalou para a direção o competente mas relativamente desconhecido James Mangold, cujo maior mérito até então tinha sido o de arrancar uma atuação decente de Sylvester Stallone em "Copland". No comando do filme, Mangold demonstrou que é um diretor sério e eficiente, mas carece nesse seu segundo grande filme de mais ousadia. "Garota, interrompida" é um filme quadrado, o que, se for levado em consideração dos assuntos que trata, é um paradoxo quase imperdoável. Tivesse sido um pouco mais corajoso certamente teria feito de seu filme um belo drama a respeito da inconformidade juvenil. Como está, é um filme bom e bem realizado - além de muito bem interpretado - mas bem aquém do que poderia ter sido.


Kaysen (vivida por uma Winona Ryder cuja delicadeza mais atrapalha do que ajuda) é uma jovem internada pelos pais em uma instituição mental, depois de aparentemente ter tentado suicídio (ela alega ter sido um acidente, mas um caso amoroso com um professor casado também não a ajuda em sua defesa). Os EUA estão passando por uma fase complicada, com a guerra do Vietnã em seu auge e os hippies buscando seu lugar ao sol. Logo que chega ao hospital, Susanna toma contato com a rotina rígida da instituição e com algumas de suas pacientes, como a mentirosa patológica Georgina (Clea DuVall), a sofrida Polly (Elisabeth Moss), que tem o rosto marcado por queimaduras e a esquisita Daisy (Brittany Murphy), que não come na presença de outras pessoas e esconde um segredo a respeito de sua família. Tratada pela enfermeira Valerie (Whoopi Goldberg), Susanna sente imediata conexão com a sociopata Lisa (Angelina Jolie), com quem passa a dividir a maior parte de seu tempo.

Quando trata sobre as interrelações entre as pacientes (em especial a estranha amizade surgida entre Susanna e Lisa) "Garota, interrompida" se sai bastante bem. O elenco é excelente. Brittany Murphy brilha em suas cenas mais intensas (em especial em seu desfecho trágico que leva o filme a seu clímax). Whoopi Goldberg como a enfermeira Valerie e Vanessa Redgrave como a psiquiatra Sonia Wick ensinam em cada cena como ser grandes atrizes sem levantar a voz ou apelar para exageros. E, se Winona Ryder não faz mais do que normalmente mostra em seus trabalhos, é sua colega de cena quem chama a atenção de forma escancarada. Na pele da maluquete Lisa Rowe, a bela Angelina Jolie está visivelmente à vontade, deitando e rolando com uma personagem aparentemente feita sob medida para seu talento visceral.

Premiada com o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante, Jolie nem parece fazer muita força para impressionar com sua atuação. Macérrima, loura e linda como sempre, ela interpreta uma jovem carismática, agressiva e sincera ao ponto da crueldade que faz o contraponto perfeito à timidez e a inconformidade disfarçada de Susanna. Felizmente o roteiro não tenta inventar um subtexto homoerótico que desviaria a trama de seu foco - o máximo que rola é um selinho inofensivo - e também não dá atenção exagerada aos romances da protagonista (com o jovem soldado vivido por Jared Leto ou com o enfermeiro noturno). Uma pena, porém, que, pelos mesmos motivos, não se detém em examinar a situação sociopolítica do país.

Contando com uma trilha sonora espetacular - em que canções da época se misturam com belas músicas contemporâneas, em especial da banda Wilco - "Garota, interrompida" é um filme que, a despeito de estar deslocado no tempo e no espaço, cumpre seus objetivos e merece ser lembrado por, no mínimo, ter colocado Angelina Jolie em seu merecido lugar de destaque em Hollywood.

Tuesday, March 1, 2011

MISSÃO IMPOSSÍVEL

MISSÃO IMPOSSÍVEL (Mission: impossible, 1996, Paramount Pictures, 110min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: David Koepp, Robert Towne, história de David Koepp, Steven Zaillian, série de TV criada por Bruce Geller. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Paul Hirsch. Música: Danny Elfman. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Peter Howitt. Produção executiva: Paul Hitchcock. Produção: Tom Cruise, Paula Wagner. Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuele Bèart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott-Thomas, Vanessa Redgrave, Emilio Estevez. Estreia: 22/5/96

Na metade da década de 90, Tom Cruise já era um astro estabelecido e consagrado, tanto em termos comerciais quanto artísticos, tendo sido inclusive reconhecido com uma indicação ao Oscar por seu trabalho em "Nascido em 4 de julho". Adorado pelas fãs, bem casado - então com a bela Nicole Kidman - e poderoso, parecia que nada lhe faltava. Mas ambição pouca é bobagem e o galã de "Top Gun, ases indomáveis" deu, então, um passo adiante dentro da indústria: uniu-se a sua empresária Paula Wagner e tornou-se produtor de cinema. Sua estreia na função não poderia ter sido mais bem-sucedida: adaptado de uma famosa série de TV americana, "Missão impossível" não apenas rendeu milhares e milhares de dólares como também abriu uma lucrativa franquia e elevou Cruise a um improvável posto de herói de filmes de ação.

Lançada em 1966, no auge da Guerra Fria, a série criada por Bruce Geller durou 7 temporadas e empolgava a audiência com tramas bem elaboradas sobre espionagem e agentes secretos. Sua versão cinematográfica é feliz em modernizar o conceito da série sem perder sua essência, equilibrando sequências de ação bem cuidadas e cenas do mais puro suspense, o que trai a presença de Brian DePalma na cadeira de diretor. Acostumado a brincar com o público em cenas de absoluta tensão - que o digam "Os intocáveis" e "O pagamento final" - DePalma exercita mais uma vez seu lado hitchcockiano, sem, no entanto, esquecer em momento algum que está comandando um produto comercial caro e que tem por objetivo divertir acima de tudo. A violência gráfica e explícita de "Scarface", por exemplo, é deixada de lado, substituída por uma elegância concisa, que se estende ao elenco escalado em várias partes do mundo e que se mostra ideal para a trama desenvolvida especialmente para a versão cinematográfica do seriado.



O roteiro - escrito por David Koepp e Robert Towne, dois dos mais respeitados profissionais da área - começa em Praga, para onde a equipe de Jim Phelps (Jon Voight) é enviada com a missão de apossar-se de um disquete com informações fundamentais para o governo americano. As coisas, porém, dão muito errado e o time praticamente é exterminado sob os olhos do líder do grupo, o agente Ethan Hunt (Tom Cruise). Acusado de traição por um dos chefes da organização, Eugene Kittridge (Henry Czerny), cabe a Hunt provar sua inocência e descobrir quem é o verdadeiro agente duplo. Para isso, ele conta com a ajuda da mulher de Phelps, a bela Claire (Emmanuele Beart) e de dois agentes renegados, Franz Krieger (Jean Reno) e Luther Stickell (Ving Rhames, o Marcelus Wallace de "Pulp Fiction").

Filmado em locações na Tchecoslováquia, "Missão impossível" é um thriller empolgante, realizado com capricho - e um orçamento generoso. A trama intrincada criada por Towne e Koepp nada mais é do que a desculpa para algumas cenas de tirar o fôlego, sejam elas grandiosas (a luta final dentro de um túnel, com direito até mesmo a um helicóptero) ou minimalistas (já é antológica a cena em que Cruise, na pele de Hunt, fica pendurado a poucos centímetros do chão de uma sala milimetricamente à prova de intrusos). O tal disquete com informações políticas nada mais é do que um exemplar dos famosos "mcguffins" tão queridos a Alfred Hitchcock - elementos de importância vital às personagens, mas que servem apenas para justificar o andamento do roteiro. No caso de "Missão impossível", a lista capaz de corromper aos mais íntegros não é tão importante quanto a edição impecável e o cuidado com a parte técnica: é exemplar a maneira com que Brian DePalma lida com o desenho de som e com o uso parcimonioso dos efeitos visuais em seu filme. Eles fazem parte da trama e nunca são exagerados, nem mesmo no clímax final, em que o quase cerebralismo de sua primeira parte dá espaço à adrenalina total.

"Missão impossível" é diversão de primeira qualidade. Conta com um elenco escalado a dedo - que se dá ao luxo de ter Emilio Estevez, Kristin Scott-Thomas e Vanessa Redgrave como coadjuvantes de luxo - e não subestima a inteligência do espectador. Mesmo tendo gerado duas continuações que dão mais valor à pirotecnias visuais do que a tramas consistentes, é uma auspiciosa estreia de Tom Cruise como produtor.

Wednesday, December 22, 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS


A CASA DOS ESPÍRITOS (The house of the spirits, 1993, Costa do Castelo Filmes, 140min) Direção: Bille August. Roteiro: Bille August, romance de Isabel Allende. Fotografia: Jorgen Persson. Montagem: Janus Billeskov Jansen. Música: Hans Zimmer. Figurino: Barbara Baum. Direção de arte/cenários: Anna Asp/Soren Gam. Produção executiva: Edwin Leicht, Dieter Meyer, Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave, Armin Mueller-Stahl, Teri Polo, Vincent Gallo, Maria Conchita Alonso. Estreia nos EUA: 01/4/94

Demorou anos até que o best-seller da escritora chilena Isabel Allende chegasse às telas. E eis que finalmente, chegou, nas mãos do cineasta Bille August, mas pasteurizado, simplificado e até mesmo decepcionante para quem leu sua obra-prima. Quem não passou os olhos pelo longo romance, no entanto, pode gostar do filme e até se emocionar, graças ao grande e competento elenco, que passa por cima dos defeitos da adaptação simplista feita pelo próprio diretor. "A casa dos espíritos", o filme, não chega aos pés do romance que lhe deu origem, mas não chega exatamente a destruí-lo.

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, Isabel utilizou em seu romance elementos sobrenaturais que lembrava a prosa realista-fantástica de Gabriel García Marquez, mas que, em formato áudio-visual, são apenas detalhes quase insignificantes em meio à longa saga da família Trueba. Tudo bem que condensar décadas da vida de uma família em pouco mais de duas horas de duração não é tarefa das mais fáceis, principalmente levando-se em conta que a autora mistura mediunidade com política, amores proibidos e psicologismos freudianos e que dar profundidade a isso em um único longa-metragem é um esforço hercúleo e normalmente inglório. Mas August, diretor do belo "Pelle, o conquistador", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1989 poderia ter sido menos acadêmico no que é seu trabalho mais ambicioso comercialmente.
A história começa quando o pobre mas ambicioso Esteban Trueba (Jeremy Irons, que convence de jovem a idoso) pede a mão da bela Rosa (Teri Polo) a seus cuidadosos pais (Armin Mueller-Stahl e Vanessa Redgrave, subaproveitados). Querendo enriquecer o mais rapidamente possível, ele vai trabalhar em uma mina de diamantes, mas quando retorna para a mulher que ama, a encontra morta, vítima de um atentado político contra seu pai. Desesperado de dor, ele se refugia no trabalho de construir a Fazenda Três Marias ao lado da irmã solteirona Ferula (Glenn Close), que passou a vida cuidando da mãe doente. Depois de vinte anos, Esteban pede em casamento a irmã de Rosa, Clara (Meryl Streep), uma médium que vive em seu próprio mundo e que adota Ferula como sua irmã de coração.

É a saga da família Trueba que é contada no romance e no filme. Décadas depois de seu casamento com Clara, Esteban vê Blanca (Winona Ryder) sua única filha dentro do casamento - a despeito de no mínimo um filho bastardo ressentido contra a própria pobreza - envolver-se romanticamente com Pedro (Antonio Banderas), líder sindicalista que prega melhores condições de trabalho na fazenda dos Trueba e que passa a ser perseguido depois do golpe militar do início dos anos 70 - que depôs, inclusive, o tio da escritora.

O roteiro de August concentra-se bem mais nos problemas políticos e sociais da história do que em seus elementos sobrenaturais - o que faz com que o título soe meio deslocado. Se acerta por um lado, deixa fãs inconsoláveis de outro. Acerta em deixar o rojão maior nas mãos competentes de Jeremy Irons, mas não aproveita como deveria a dupla Meryl Streep e Glenn Close, que, embora menos exploradas do que deveriam, nunca deixam de dar seu show particular: nas cenas em que qualquer uma delas está presente, o filme cresce emocionalmente - tome-se como exemplo a cena em que Clara beija Ferula no rosto, em um restaurante, e ela chora dizendo que nunca foi querida por ninguém. Também é comovente o encontro entre Blanca, à beira da morte depois das torturas impostas pelos militares, com o espírito de sua mãe, que a convence a permanecer viva.

Ainda que não consiga atingir todas as nuances do belo romance de Allende - passando muito superficialmente por temas espinhosos, como o amor que Ferula sente pela cunhada e a relação entre Trueba e as empregadas que ele violentava - a adaptação de "A casa dos espíritos" para o cinema consegue ser interessante o bastante para segurar a audiência na poltrona. Mas, perto da obra-prima que poderia ser, não deixa de ser decepcionante. Felizmente o elenco salva miraculosamente o resultado final.