Showing posts with label MERYL STREEP. Show all posts
Showing posts with label MERYL STREEP. Show all posts

Sunday, February 5, 2012

AS HORAS


AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

Monday, January 30, 2012

ADAPTAÇÃO

ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002, Good Machine, 114min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, David Kaufman, livro "O ladrão de orquídeas", de Susan Orlean. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Peter Saraf. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Brian Cox, Maggie Gyllenhaal, Ron Livingstone, Tilda Swinton, Cara Seymour, Judy Greer. Estreia: 06/12/02

4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)

Depois de fazer sucesso como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, pelo qual foi até mesmo indicado ao Oscar, o escritor Charlie Kaufman (Nicolas Cage) recebe a proposta de adaptar para as telas o livro “O ladrão de orquídeas”, da jornalista Susan Orlean (Meryl Streep). Ao ler a obra, no entanto, Kaufman entra em pânico: o livro, que conta a história do botânico John Laroche (Chris Cooper) não tem uma forma linear, ou pior ainda, não tem nem história. Em total crise de criatividade, Charlie ainda tem que aturar em sua própria casa as idéias de Donald (novamente Cage), seu irmão gêmeo, que também ambiciona a carreira de roteirista e está escrevendo um filme completamente sem pé nem cabeça, mas que, por ironia, agrada em cheio aos executivos de Hollywood. Sem saber que rumo tomar, Charlie chega a criar uma inexistente história de amor entre a escritora e seu objeto de estudo e, em momento de total desamparo, a procurar a ajuda de um professor de cursos de roteiro, um charlatão profissional que vive de ensinar aos sonhadores autores de cinema a fórmula do sucesso (vivido magistralmente por Brian Cox). No ápice do desespero, Charlie tenta, então, sua cartada mais absurda: pede ajuda a seu irmão, que transforma o livro de Orlean em uma trama de tráfico de drogas, violência e sexo.

Neste brilhante exercício de metalinguagem, o excepcional Charlie Kaufman conseguiu superar a si próprio. Enquanto “Quero ser John Malkovich” era um primor de criatividade e humor negro, “Adaptação” é a afinação de uma mente no mínimo enlouquecida. Ao criticar a própria indústria hollywoodiana com todas as suas idiossincrasias e incoerências, ele criou um filme que todos os roteiristas de cinema poderiam sonhaR criar: inteligente, engraçado e absolutamente inovador, pra não dizer quase esquizofrênico. Quando a agente do roteirista Kaufman, vivida no filme por Tilda Swinton diz, a certo momento que adoraria entrar na sua mente, só o que podemos pensar é que ela não é a única. Charlie Kaufman é tão louco que assina seu roteiro como se o tivesse escrito ao lado do irmão Donald, que na verdade nem existe. E pensar que a Academia indicou (a ambos) para um Oscar.

 

“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
Egresso de videoclipes, Jonze parece não dar a mínima para as regras de se fazer cinema. Criativo, ousado, por vezes delirante, o cineasta não busca as soluções mais fáceis. Ele quer complicar, quer fazer o povo pensar e rir de si mesmo. E o faz com a ajuda inenarrável de seu elenco. Nicolas Cage nunca esteve melhor em sua carreira (nem mesmo em “Despedida em Las Vegas”, que lhe deu um Oscar), em uma atuação dupla absurdamente engraçada; Chris Cooper levou sua estatueta pelo complexo John Laroche, que dependendo do ponto de vista de cada autor, tinha uma personalidade distinta. E Meryl Streep prova mais uma vez porque é a melhor atriz americana em atividade. Na pele da sensível escritora Susan Orlean (cujo livro existe de verdade, mas não tem absolutamente nada a ver com o filme), Streep rouba todas as cenas em que aparece, fazendo uma personagem totalmente distante do que estamos acostumados a vê-la.
“Adaptação” é tão bom que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo vem mastigadinho.

Thursday, February 3, 2011

AS PONTES DE MADISON

AS PONTES DE MADISON (The bridges of Madison County, 1995, Warner Bros/Amblin Entertainment/Malpaso Productions, 135min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Robert James Waller. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Figurino: Colleen Kelsall. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção: Kathleen Kennedy, Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Meryl Streep, Jim Haynie, Annie Corley, Victor Slezak. Estreia: 02/6/95

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)


Em 1988 Clint Eastwood lançou "Bird", a cinebiografia do músico Charlie Parker e surpreendeu crítica e público com a sensibilidade e o ritmo com que tratou o tema - além de ter dado a melhor oportunidade até então a Forest Whitaker. Depois de ganhar o Oscar por "Os imperdoáveis", um faroeste contemplativo e melancólico, o velho Dirty Harry começou a convencer realmente de que, por trás de uma fachada seca e impenetrável, havia um ser humano com sentimentos profundos. A certeza dessa afirmação veio com "As pontes de Madison", em que o diretor se aventurou pela primeira vez em um gênero estranho à sua obra: o drama romântico. Adaptado de um romance água-com-açúcar de Robert James Waller, o filme é um petardo emocional capaz de comover o mais empedernido dos espectadores. Não há como, nos minutos finais de projeção, não cair em lágrimas, senão pela história - que esbarra em alguns clichês, como é natural - ao menos pelo trabalho irretocável de Meryl Streep no papel que lhe deu mais uma infrutífera indicação ao Oscar.

Uma poderosa história de amor, perda e de como certos momentos podem definir uma vida inteira, "As pontes de Madison" começa com sua protagonista, Francesca Johnson (Meryl Streep, em uma monumental atuação) morta. De herança a seu casal de filhos de meia-idade ela deixa um testamento onde pede para ser cremada e ter suas cinzas jogadas em uma ponte e três cadernos de anotações onde conta uma história mantida a sete chaves dentro de seu coração. Abismados, os dois tem contato, então, com um lado de sua mãe que jamais pensaram que tivesse existido: uma mulher passional, sonhadora e romântica que foi obrigada a deixar seus sentimentos de lado para manter a famíla e o casamento. Nos diários de Francesca, ela conta como, em 1965, durante uma viagem do marido e dos filhos a uma feira rural ela teve um tórrido e devastador romance com Robert Kincaid (Clint Eastwood), fotógrafo da revista National Geographic.

Dona-de-casa com uma frustrada vocação para o magistério - do qual abdicou na Itália para casar-se com um fazendeiro de Iowa - Francesca é uma mulher conformada, que vive para a família, não exatamente carinhosa e atenciosa como ela merece. Sozinha por quatro dias em um fim-de-semana de verão, ela conhece o fotógrafo Robert, de passagem pela região para registrar as pontes cobertas do condado. Sentindo-se imediatamente atraída por ele - e por sua liberdade - Francesca inicia um flerte delicado e sutil com o desconhecido que lhe ressuscita os sonhos de sua juventude. Apaixonados avassaladoramente um pelo outro, eles são obrigados, porém, a encarar a dura realidade que se aproxima com a volta dos Johnson.


Utilizando com esperteza o velho truque do flash-back, o roteirista Richard LaGravenese - que se aventuraria anos mais tarde na carreira de diretor com o também lacrimoso "PS, eu te amo" - manipula os sentimentos do espectador da maneira mais explícita possível, mas é tão honesto em suas intenções que isso acaba contando a seu favor. Graças a diálogos fluentes e às interpretações de seus protagonistas, fica difícil não acreditar no nascente amor entre os dois, duas pessoas aparentemente diferentes mas que mantém acesa (ainda que discretamente) a chama da vida. Talvez justamente por envolver a plateia no romance entre os dois - de forma gradual e delicada, ao som de uma caprichada trilha sonora de Lennie Niehaus - o filme consegue, em seu terço final, baixar a guarda de todo mundo e conduzir a todos a uma jornada à mais profunda tristeza e frustração.

A cena em que Francesca precisa decidir, em questão de segundos, todo o seu futuro, já é destinada a qualquer antologia dos momentos mais arrasadores do cinema romântico americano. Debaixo de uma chuva inclemente e com o marido a seu lado, ela necessita definir sua felicidade, infelicidade ou frustração antes que o sinal verde do semáforo lhe obrigue a deixar de lado o amor maior de sua vida. Na pele de Meryl Streep, a melhor atriz viva do cinema, Francesca deixa de ser apenas uma personagem para tornar-se a plateia em toda a sua extensão. São as lágrimas de Francesca que escorrem pelo rosto do público, em uma catarse coletiva que justifica-se plenamente pela competência assustadora com que Eastwood contou uma história absolutamente simples e sem firulas.

Programa obrigatório para fãs de cinema, fãs de Meryl Streep e fãs de filmes românticos, "As pontes de Madison" é um clássico instantâneo. E como diz a personagem de Eastwood, essa certeza só se tem uma vez na vida.

Wednesday, December 22, 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS


A CASA DOS ESPÍRITOS (The house of the spirits, 1993, Costa do Castelo Filmes, 140min) Direção: Bille August. Roteiro: Bille August, romance de Isabel Allende. Fotografia: Jorgen Persson. Montagem: Janus Billeskov Jansen. Música: Hans Zimmer. Figurino: Barbara Baum. Direção de arte/cenários: Anna Asp/Soren Gam. Produção executiva: Edwin Leicht, Dieter Meyer, Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave, Armin Mueller-Stahl, Teri Polo, Vincent Gallo, Maria Conchita Alonso. Estreia nos EUA: 01/4/94

Demorou anos até que o best-seller da escritora chilena Isabel Allende chegasse às telas. E eis que finalmente, chegou, nas mãos do cineasta Bille August, mas pasteurizado, simplificado e até mesmo decepcionante para quem leu sua obra-prima. Quem não passou os olhos pelo longo romance, no entanto, pode gostar do filme e até se emocionar, graças ao grande e competento elenco, que passa por cima dos defeitos da adaptação simplista feita pelo próprio diretor. "A casa dos espíritos", o filme, não chega aos pés do romance que lhe deu origem, mas não chega exatamente a destruí-lo.

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, Isabel utilizou em seu romance elementos sobrenaturais que lembrava a prosa realista-fantástica de Gabriel García Marquez, mas que, em formato áudio-visual, são apenas detalhes quase insignificantes em meio à longa saga da família Trueba. Tudo bem que condensar décadas da vida de uma família em pouco mais de duas horas de duração não é tarefa das mais fáceis, principalmente levando-se em conta que a autora mistura mediunidade com política, amores proibidos e psicologismos freudianos e que dar profundidade a isso em um único longa-metragem é um esforço hercúleo e normalmente inglório. Mas August, diretor do belo "Pelle, o conquistador", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1989 poderia ter sido menos acadêmico no que é seu trabalho mais ambicioso comercialmente.
A história começa quando o pobre mas ambicioso Esteban Trueba (Jeremy Irons, que convence de jovem a idoso) pede a mão da bela Rosa (Teri Polo) a seus cuidadosos pais (Armin Mueller-Stahl e Vanessa Redgrave, subaproveitados). Querendo enriquecer o mais rapidamente possível, ele vai trabalhar em uma mina de diamantes, mas quando retorna para a mulher que ama, a encontra morta, vítima de um atentado político contra seu pai. Desesperado de dor, ele se refugia no trabalho de construir a Fazenda Três Marias ao lado da irmã solteirona Ferula (Glenn Close), que passou a vida cuidando da mãe doente. Depois de vinte anos, Esteban pede em casamento a irmã de Rosa, Clara (Meryl Streep), uma médium que vive em seu próprio mundo e que adota Ferula como sua irmã de coração.

É a saga da família Trueba que é contada no romance e no filme. Décadas depois de seu casamento com Clara, Esteban vê Blanca (Winona Ryder) sua única filha dentro do casamento - a despeito de no mínimo um filho bastardo ressentido contra a própria pobreza - envolver-se romanticamente com Pedro (Antonio Banderas), líder sindicalista que prega melhores condições de trabalho na fazenda dos Trueba e que passa a ser perseguido depois do golpe militar do início dos anos 70 - que depôs, inclusive, o tio da escritora.

O roteiro de August concentra-se bem mais nos problemas políticos e sociais da história do que em seus elementos sobrenaturais - o que faz com que o título soe meio deslocado. Se acerta por um lado, deixa fãs inconsoláveis de outro. Acerta em deixar o rojão maior nas mãos competentes de Jeremy Irons, mas não aproveita como deveria a dupla Meryl Streep e Glenn Close, que, embora menos exploradas do que deveriam, nunca deixam de dar seu show particular: nas cenas em que qualquer uma delas está presente, o filme cresce emocionalmente - tome-se como exemplo a cena em que Clara beija Ferula no rosto, em um restaurante, e ela chora dizendo que nunca foi querida por ninguém. Também é comovente o encontro entre Blanca, à beira da morte depois das torturas impostas pelos militares, com o espírito de sua mãe, que a convence a permanecer viva.

Ainda que não consiga atingir todas as nuances do belo romance de Allende - passando muito superficialmente por temas espinhosos, como o amor que Ferula sente pela cunhada e a relação entre Trueba e as empregadas que ele violentava - a adaptação de "A casa dos espíritos" para o cinema consegue ser interessante o bastante para segurar a audiência na poltrona. Mas, perto da obra-prima que poderia ser, não deixa de ser decepcionante. Felizmente o elenco salva miraculosamente o resultado final.

Sunday, July 18, 2010

ENTRE DOIS AMORES


ENTRE DOIS AMORES (Out of Africa, 1985, Universal Pictures, 161min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke, livros de Karen Blixen, Judith Thurman, Errol Trzebinski. Fotografia: David Watkin. Montagem: Pembroke Herring, Sheldon Kahn, Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: John Barry. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Casting: Mary Selway. Produção executiva: Kim Jorgensen. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens. Estreia: 18/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Meryl Streep), Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som

Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários, Som

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Trilha Sonora


Filmes épicos sempre fizeram a cabeça dos membros da Academia, especialmente se são baseados em fatos reais. Por isso não deixava de ser previsível a vitória esmagadora de "Entre dois amores" no Oscar 85. Dirigido por Sydney Pollack, o filme levou 7 estatuetas pra casa, não deixando chance para seus competidores - entre eles o elogiado "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Inspirado em fatos da vida da escritora dinamarquesa Karen Blixen, é um filme que conquista pela beleza de seu visual estonteante e pela atuação soberba - mais uma - de Meryl Streep.

Ficando com o papel que, em projetos anteriores foi cogitado para ser interpretado por Audrey Hepburn e Greta Garbo, Streep entrega um trabalho meticuloso e sensível, que lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar. Ela vive Karen Blixen, que, no início do século XX, se casa com Bor (Klaus Maria Brandauer),um amigo, por puro interesse: ela quer o título de Baronesa que ele pode dar-lhe; ele deseja o dinheiro que ela tem e que pode dar início à sua criação de gado no Kenya colonizado pela Inglaterra. Logo depois do casamento as coisas começam a dar errado: ele resolve mudar os planos e plantar café, além de não abdicar de seus relacionamentos extra-conjugais. Frequentemente sozinha na enorme fazenda de sua propriedade, Karen - uma talentosa contadora de histórias - torna-se interessada pela cultura africana, além de tentar melhorar as diferenças sociais de sua região. Quando ela se apaixona pelo caçador Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que preza sua liberdade acima de qualquer outra coisa, ela passa a experimentar também as agruras de um romance conturbado.

"Entre dois amores" é um épico romântico que exala grandiosidade a cada cena. A espetacular fotografia de David Watkin capta a beleza natural do continente africano com maestria, e a trilha sonora de John Barry corrobora o clima romântico/selvagem proposto pela história de Blixen (autora do conto que deu origem ao filme "A festa de Babette"). A reconstituição de época é caprichada e até mesmo o cuidado com os dados históricos é acurado. Mas falta ao filme de Pollack a opção por um foco específico de interesse. Dividido entre contar a luta da protagonista pelo bem-estar do povo africano, narrar sua batalha pela fazenda e mostrar sua atribulada história de amor, ele acaba por não se aprofundar o bastante em nenhuma das tramas, o que diminui consideravelmente seu impacto.

As três linhas de narrativa de "Entre dois amores" são bastante interessantes. Como paladina dos interesses dos nativos africanos, Karen assume o papel de uma mulher disposta a oferecer sua inteligência e boa-vontade a pessoas de cultura oposta à sua, mesmo batendo de frente com as lideranças locais, uma trama que, sozinha, já renderia um excelente filme. Como uma esposa solitária que luta para manter sua fazenda lucrativa e produtiva, a futura escritora se apresenta como uma espécie de Scarlett O'Hara menos voluntariosa e interesseira e, como "E o vento levou" continua provando, é uma história que manteria acesa a atenção da plateia. E como mulher apaixonada, a personagem de Meryl Streep dá à atriz a chance de mostrar porque é uma das mais destacadas profissionais do cinema. Mas justamente no foco que poderia ser o mais fascinante do filme, ela esbarra em um problema sério: a apatia de seu colega de cena.

Robert Redford - que trabalhou com Pollack em "Nosso amor de ontem" (1973) e "Havana" (1990) - é um dos mais importantes nomes do cinema americano, por causa de sua carreira como ator, diretor e produtor e devido a seu incentivo ao cinema independente, como comprova sua cria, o Festival de Sundance. Mas em "Entre dois amores" ele não faz o suficiente para justificar a paixão de Karen Blixen, não fazendo mais do que desfilar seu charme pela tela. Comparado com o furacão passional mostrado por Streep ele empalidece perigosamente e quase atrapalha o resultado final. Para sorte do espectador, no entanto, a história é tão bela e forte que é impossível não se deixar envolver por ela.

"Entre dois amores" é um belo épico romântico, conforme desejado por seu diretor Sydney Pollack. Emociona na medida certa, impressiona por sua beleza plástica e possibilita à Meryl Streep mais um show particular. De quantos filmes se pode falar isso?

Sunday, July 11, 2010

AMOR À PRIMEIRA VISTA


AMOR À PRIMEIRA VISTA (Falling in love, 1984, Paramount Pictures, 106min) Direção: Ulu Grosbard. Roteiro: Michael Cristofer. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Steven Jordan. Produção: Marvin Worth. Elenco: Robert De Niro, Meryl Streep, Harvey Keitel, Jane Kaczmarek, Dianne Wiest, Jesse Bradford. Estreia: 21/11/84

Um dos erros mais recorrentes dentro da indústria de Hollywood tem a ver com a confiança excessiva dos executivos em relação a determinados astros e estrelas. Nem sempre atores e atrizes consagrados conseguem passar por cima de um roteiro frágil e sem criatividade. E isso é claramente visível em "Amor à primeira vista", um romance açucarado e sem muito conteúdo que apostou suas fichas apenas no talento inquestionável de sua dupla de protagonistas, Robert DeNiro e Meryl Streep. Por melhores que eles sejam, no entanto - e eles o são - foram capazes de salvar o filme do belga Ulu Grosbard, que naufragou nas bilheterias e não foi feliz nem mesmo nas cerimônias de premiação de 1984. A razão para tamanha decepção? A história fraca e mal desenvolvida, que não permite a dois dos maiores atores do cinema americano a chance de brilharem como devem - e podem.

A história de "Amor à primeira vista" se passa em Nova York e começa em uma véspera de Natal. Atrapalhados com seus inúmeros pacotes e sacolas de compras, o engenheiro Frank Raftis (DeNiro) e a design Molly Gilmore (Streep) se esbarram em uma livraria e, por engano, levam um o presente do cônjuge do outro. Se encontrando no trem algumas ocasiões depois, eles acabam se tornando uma espécie de amigos, até que se descobrem apaixonados um pelo outro. No entanto, ambos são casados e seus relacionamentos são fortes o bastante para impedí-los de consumar seu caso extra-conjugal. Quando ele aceita uma proposta de trabalho em Washington, porém, a urgência de seus sentimentos começa a falar mais alto.

O maior problema de "Amor à primeira vista" é a quase frieza do relacionamento entre seus protagonistas. Grosbard não é feliz em transmitir o sufocamento que a paixão causa em Frank e Molly, que, ao invés de parecerem angustiados com sua situação pouco invejável de amor proibido, soam como um casal quase indiferente ao nascimento de seus sentimentos. Também não convence a solidez de suas relações matrimoniais - especialmente o casamento de Molly, que em nenhum momento justifica sua renúncia à paixão por Frank. Somente no ato final do filme as coisas começam a parecer mais com "Desencanto", de David Lean, do que com qualquer novela de televisão - e mesmo assim, devido ao talento de Streep e DeNiro, que tentam tirar leite de pedra, tornando crível um texto sem maiores lances de criatividade e emoção.

No fim das contas, "Amor à primeira vista" é apenas um romance correto, com pouco sal, mas ainda assim capaz de comover os corações mais sensíveis e apaixonados. Mas de que o casal central de atores - repetindo a parceria de "O franco-atirador" - merecia bem mais que isso, não há dúvida.

Friday, June 11, 2010

KRAMER X KRAMER


KRAMER X KRAMER (Kramer vs Kramer, 1979, Columbia Pictures, 105min) Direção: Robert Benton. Roteiro: Robert Benton, romance de Avery Corman. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Gerald B. Greenberg. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Alan Hicks. Casting: Shirley Rich. Produção: Stanley R. Jaffe. Elenco: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Justin Henry, Jane Alexander, Jobeth Williams, Howard Duff, George Coe. Estreia: 19/12/79

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Ator Coadjuvante (Justin Henry), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander, Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Benton), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado

Vencedor de 4 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro


Não é difícil de entender os motivos que levaram “Kramer X Kramer” a ser o grande vencedor do Oscar 79, disputando o prêmio com filmes marcantes e inovadores, como “Apocalypse now”, de Francis Ford Coppola. Bonito mas esquemático e quadradão ao extremo, o melodrama de Robert Benton apela para o que o moralista público americano mais procura em um entretenimento familiar: valores elevados, personagens com os quais possa se identificar e, mais ainda, um final de levar às lágrimas. E daí se “Apocalypse now” é considerado uma obra-prima sufocante e criativa se “Kramer X Kramer” emociona e faz uma análise do momento social do mundo ocidental?

Análise social, sim. Ainda que timidamente, o filme, inspirado no romance homônimo de Avery Corman investiga e mostra como os valores familiares estavam mudando na América, onde o imediatismo e a busca pela satisfação pessoal estavam em vias de tornar-se moeda corrente. O filme ousa criticar esse desejo desenfreado pelo sucesso na figura de Joanna Kramer (uma espetacular Meryl Streep, merecidamente premiada com o Oscar de atriz coadjuvante), uma dona de casa dedicada que, em um impulso irrefreável, resolve abandonar o marido e o filho pequeno para partir em busca de realização profissional. Sua saída de cena deixa o seu atônito ex-cônjuge Ted (Dustin Hoffman, perfeito em sua caracterização de homem comum, bem longe do Ratzo de “Perdidos na noite”) em maus lençóis. Acostumado a encontrar seu pequeno filho Billy (Justin Henry) apenas na hora de acordar e dormir, ele de repente se vê com a obrigação de transformar-se em pai e mãe em tempo quase integral, justamente quando está atingindo um ponto crucial em sua carreira em publicidade. Lidar com o sentimento de abandono, seu e do pequeno garoto de oito anos, trabalhar com dedicação, cuidar dos deveres de casa e afins parecem não ser o que o pobre Ted esperava. Mas ele precisa ir adiante e conquistar a confiança do filho, dos amigos e dos chefes, além de se envolver romanticamente com uma colega de trabalho. E não é que justamente quando ele encontra um equilíbrio nessa difícil equação ele é surpreendido com a volta de Joanna? Feliz e satisfeita com sua nova vida, a vilã da vez quer a guarda do menino de volta.

A estrutura de “Kramer X Kramer” chega a ser simplória. Depois de sofrer com as tentativas de aproximar-se do seu pequeno rebento, o antes egoísta e auto-centrado Ted, que considerava papel de pai apenas suprir a família, transformou-se em um homem maduro, preocupado com a educação da criança e entrando em pânico com seus acidentes infantis. Sua ex-mulher, apesar de o roteiro tentar explicar suas razões, surge quase que como a destruidora da felicidade de pai e filho, duas vezes, na separação e no regresso. E o final, quase clichê, faz o público chorar e se perguntar se o mais importante é a família ou o trabalho. Mais Academia de Hollywood impossível.

Quando assumiu o papel de Ted Kramer, depois que James Caan pulou fora do projeto, Dustin Hoffman também estava passando por um doloroso e sofrido divórcio (e não o são todos?) e ajudou tanto o roteirista e diretor Robert Benton no processo de filmagens que chegou-se a cogitar sua inclusão nos créditos como co-roteirista. Muitas de suas cenas com Justin Henry (em uma atuação enternecedora) foram improvisadas, o que explica a química perfeita entre os dois. E Meryl Streep... bem, Meryl Streep é um caso a parte.

Assumindo um papel que originalmente não seria dela (a pantera Kate Jackson interpretaria Joanna Kramer, mas não pode livrar-se dos compromissos da tevê), Streep demonstra a segurança e o carisma de uma veterana. Escalada para fazer o pequeno papel da colega de trabalho com quem Ted tem uma aventura (e que foi interpretada por Jobeth Williams), ela dividiu seu tempo entre o filme de Benton e "Manhattan", de Woody Allen, onde interpretava sua ex-mulher lésbica. Inteligente e sensível, escreveu boa parte do discurso de sua personagem no tribunal, conquistou as plateias e levou o Oscar. O resto é história.

Para fugir da esfera trivial de dramas familiares, “Kramer X Kramer” conta com algo que faz toda a diferença: sua equipe. A fotografia do experiente Nestor Almendros mostra uma Nova York fotogênica e melancólica, exatamente como os sentimentos de Ted. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, se equilibra entre o clichê e um surpreendente bom humor, com diálogos felizes e inteligentes, nunca rasos ou desnecessários. E o elenco cumpre sua parte com louvor. Dustin Hoffman e Meryl Streep levaram merecidos Oscar pra casa e o garoto Justin Henry demonstra uma segurança ímpar, mesmo contracenando com gente do calibre de Hoffman e Streep. Pode ser sentimental e piegas, mas “Kramer X Kramer” é um perfeito filme para assistir com a família e derramar algumas tímidas lágrimas. É pouco provável que o mesmo pudesse ser dito de “Apocalypse now”.

Monday, June 7, 2010

MANHATTAN


MANHATTAN (Manhattan, 1979, United Artists, 96min ) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne. Estreia: 25/4/79

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mariel Hemingway), Roteiro Original

Por incrível que pareça, um dos produtos mais bem-acabados da carreira do ator, roteirista e diretor Woody Allen é um do qual ele gosta tão pouco que chegou a sugerir à United Artists que nunca o lançasse, propondo inclusive dirigir um filme totalmente de graça para que isso acontecesse. Felizmente, o estúdio nem cogitou a possibilidade e proporcionou ao público um dos filmes mais queridos da carreira de Allen. Mesmo já tendo Oscar em casa por “Noivo neurótico, noiva nervosa”, é em “Manhattan” que ele demonstra a maturidade e o equilíbrio que marcariam os melhores momentos de sua trajetória como um dos mais íntegros e coerentes cineastas de sua geração. Filmado quase como uma declaração de amor à Nova York – a primeira de várias que se seguiriam -, “Manhattan” apresenta uma gloriosa fotografia de Gordon Willis como pano de fundo para a história de um quadrilátero amoroso encenado sob uma trilha sonora impecável, recheada de standards de um jazz da mais alta qualidade, em especial Gershwin.

Assim como em “Noivo neurótico”, Allen é quem lidera o elenco, na pele de Isaac Davis, um escritor de programas de televisão que não nutre exatamente um grande amor pela profissão. Na verdade, ele passa por uma crise, uma vez que foi abandonado pela esposa (Meryl Streep em uma participação pequena mas fundamental), que, além de trocá-lo por outra mulher ainda está terminando de escrever um livro contando detalhes de sua intimidade. Só quem o salva de seus problemas é seu namoro com a bela Tracy (Mariel Hemingway), uma jovem estudante de apenas 17 anos de idade e sua amizade com o professor universitário Yale (Michael Murphy), que tem um caso extra-conjugal com Mary (Diane Keaton). Enquanto dá apoio à bela e cultíssima Mary, que sofre com as dificuldades de seu romance impossível, Isaac acaba se apaixonando por ela, deixando de lado seu relacionamento com quem ele considera jovem demais.

Apesar de conter todas as características que definiriam o “estilo Woody Allen” para todo o sempre, “Manhattan” pode e deve ser visto como um romance à moda antiga, vestido com uma roupagem ainda moderna. Sim, os diálogos repletos de referências eruditas estão presentes, assim como o senso de humor neurótico e judeu. Mas poucas vezes o roteirista/diretor criou personagens tão densos e reais como os criados aqui, defendidos com unhas e dentes por atores excepcionais. Curiosamente, a mais fraca intérprete do elenco, Mariel Hemingway (em um papel que quase ficou com Jodie Foster) foi quem recebeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante – perdido para sua colega de elenco Meryl Streep, por sua atuação em “Kramer X Kramer”. Sua fragilidade como atriz fica ainda mais evidente na última cena do filme, de uma sensibilidade e uma preciosidade ímpares, que entraria certamente em qualquer antologia romântica caso tivesse uma atriz de verdade. Bela ela realmente era - a ponto de ser citada na lista que Isaac faz dos motivos pelos quais vale a pena viver - mas como atriz faltava-lhe substância.

“Manhattan” ainda é uma pequena obra-prima de um artista acostumado a criá-las. Para entrar na lista dos preferidos do diretor.

Friday, June 4, 2010

O FRANCO-ATIRADOR


O FRANCO-ATIRADOR (The deer hunter, 1978, Universal Pictures, 182min) Direção: Michael Cimino. Roteiro: Deric Washburn, baseado em uma história de Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Peter Zinner. Música: Stanley Myers. Casting: Cis Corman. Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall, Barry Spikings. Elenco: Robert DeNiro, John Savage, John Cazale, Christopher Walken, Meryl Streep, George Dzunza, Chuck Aspegren. Estreia: 08/12/78

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Montagem, Som

Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Michael Cimino)


A guerra do Vietnã acabou em 1975 e não demorou muito para que alguns - corajosos - cineastas resolvessem mexer nas feridas ainda abertas do povo americano em relação à tragédia. Em 1978, nada menos do que dois filmes bastante interessantes e bem-sucedidos deram voz aos veteranos de um dos mais absurdos conflitos bélicos da história (se é que algum conflito bélico é menos do que absurdo...) Dirigido por Hal Ashby, "Amargo regresso" deu Oscars a Jane Fonda e Jon Voight, mas "O franco-atirador", de Michael Cimino, saiu-se ainda melhor, levando pra casa 5 estatuetas concedidas pela Academia, entre as quais as de Melhor Filme, Direção e Ator Coadjuvante. Em comum, os dois filmes tem, além da temática, uma visão humanista e a preocupação com as consequências psicológicas da guerra, tanto em quem lutou nela quanto nas pessoas que os rodeiam.

A trama de "O franco-atirador" passa-se basicamente em uma pequena cidade da Pensilvânia, que tem a indústria do aço como principal meio de subsistência. É lá que moram três amigos que estão às vésperas de embarcar para o Vietnã. Mike (Robert DeNiro), Nick (Christopher Walken) e Steven(John Savage) aproveitam o casamento do último para realizar uma espécie de festa de despedida antes do embarque - que só acontecerá depois de uma última caçada de cervos, um de seus hobbies e, talvez, um de seus últimos encontros com os amigos. Já na guerra, os amigos são feitos reféns, sofrem torturas físicas e psicológicas - em especial uma roleta-russa apavorante que virou marca registrada do filme. Depois de conseguirem fugir, no entanto, eles não mais parecem unidos. Steven volta pra casa sem as duas pernas e praticamente abandona a esposa e o filho pequeno. E ao chegar em sua cidade natal, Mike descobre que Nick não retornou do conflito e resolve buscá-lo, mesmo sendo apaixonado pela noiva dele, Linda (Meryl Streep). Chegando novamente no Vietnã, ele encontra seu melhor amigo em total desequilíbrio emocional.

O melhor em "O franco-atirador" não são suas cenas de guerra - ainda que sejam extremamente bem-feitas e realistas. O que mais chama atenção no filme de Cimino (que desfrutou de alguns momentos de glória antes de ver sua carreira afundar com o megalomaníaco "O portal do paraíso") é sua profunda compreensão humana, sua sensibilidade em lidar com as relações interpessoais traumáticas das personagens sem soar piegas ou exagerado. E para isso conta com um elenco nunca aquém do espetacular. Na pele de Mike, Robert DeNiro mais uma vez demonstra seu talento além do normal. Todas as suas cenas dramáticas são dignas de figurar entre os momentos de maior destaque na sua carreira: seu romance hesitante com Linda, sua relação de culpa com Steven e sua busca de redenção com Nick fecham um círculo de sentimentos que só mesmo alguém com o cacife de DeNiro poderia encarar com tal segurança. E cercado dos atores que ele está, não há como ter erro.

Meryl Streep (com sua primeira indicação ao Oscar) improvisou a maioria de suas falas, com o incentivo do diretor e transmite a intensidade de seus sentimentos contraditórios com a segurança de uma veterana - além de ter ameaçado abandonar o filme caso se concretizasse a ameaça de demissão do ator John Cazale, que estava morrendo de câncer durante a produção e de quem era noiva. Cazale terminou o filme (suas cenas foram as primeiras a ser filmadas) e morreu em seguida, deixando um legado de grandes filmes (os dois primeiros "O poderoso chefão" e "Um dia de cão" entre eles) e atuações intensas. John Savage, como Steven, passa a exata noção do desespero de um homem ao sentir-se privado de sua integridade física devido a uma violência sem razão e Christopher Walken levou sua estatueta de ator coadjuvante por seu trabalho impressionante como Nick, protagonista das duas cenas mais conhecidas do filme (e que foram responsáveis por uma onda de suicídios com roleta-russa nos anos subsequentes).

A longa sequência inicial de "O franco-atirador" não deixa de evocar as primeiras cenas de "O poderoso chefão" (que também começa com um casamento), mas ao contrário do filme de Copolla, aqui a violência que cobre o céu das personagens é menos glamourosa e mais crua e verdadeira. A guerra, em "O franco-atirador" é uma personagem a mais, um pesadelo constante na memória de seus veteranos e de seus familiares. Assim como o tiro único que deve matar o cervo do título original, ela é capaz de aniquilar a essência de felicidade dos seres humanos. A melancólica cena final, no bar em que os amigos costumavam se reunir, é de partir o coração. Não é de surpreender que tenha sido tão bem recebido na ocasião de seu lançamento: é um testamento vivo de um inconsciente coletivo em uma época marcada pela desilusão e pela tristeza.

Mais que um filme de guerra, "O franco-atirador" é um filme de pessoas lidando com ela e, como tal, um precioso estudo sobre a dor e a (falta de) esperança.