Showing posts with label BRIAN COX. Show all posts
Showing posts with label BRIAN COX. Show all posts

Tuesday, January 31, 2012

A ÚLTIMA NOITE

A ÚLTIMA NOITE (The 25th hour, 2002, Touchstone Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: David Benioff, romance de sua autoria. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Sandra Hernandez. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Nick Weschler. Produção: Julia Chasman, Jon Kilik, Spike Lee, Tobey Maguire. Elenco: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Brian Cox, Rosario Dawson, Anna Paquin. Estreia: 19/12/02

Desde que surgiu no cenário hollywoodiano, com seu genial trabalho em "As duas faces de um crime", que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Edward Norton teve uma trajetória exemplar. Trabalhou com cineastas acima de qualquer suspeita, como Woody Allen, Milos Forman e David Fincher, assumiu a cadeira de diretor com o simpático "Tenha fé" e entregou no mínimo uma atuação inesquecível, como o skinhead arrependido de "A outra história americana", de 1998. Depois de alguns filmes que não exploraram todo o potencial de seu talento - entre eles "Dragão vermelho", terceiro filme estrelado por Hannibal Lecter - ele voltou a encantar seu público com "A última noite", um potente e polêmico drama dirigido pelo não menos controverso Spike Lee.

Realizado sob a tensão pós-11 de setembro, "A última noite" é baseado em um romance de David Benioff, também autor do belo roteiro, que discute preconceito, lealdade, diferenças sociais e a força da amizade sem soar piegas ou condescendente. Contando com um protagonista falível e um time de coadjuvantes interessantes por si mesmos, é um filme que foge do panfletarismo barato que caracteriza a obra de seu diretor, atingindo seu público justamente por ser honesto em suas discussões e seu amor incondicional por Nova York e suas idiossincrasias culturais e sociais.

Quando o filme começa, o protagonista Monty Brogan (Edward Norton, ótimo) está às vésperas de ir para a cadeia, condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Sua última noite de liberdade será passada ao lado da namorada, Naturelle (Rosario Dawson) e dos melhores amigos, o yuppie Frank (Barry Pepper, excelente) e o professor de Literatura Jacob (Philip Seymour Hoffman). Enquanto se sente angustiado com a possibilidade de ter sido denunciado pela mulher que ama, Monty encara suas últimas horas de liberdade como uma espécie de despedida de uma vida com certo conforto e tranquilidade e questiona o estado em que está a cidade que ama após os atentados cometidos por Osama Bin Laden. Nesse meio-tempo, Frank tenta convencê-lo de que o ajudará após a temporada na prisão e Jacob foge da tentação sexual representada por uma aluna adolescente, Mary (Anna Paquin).



Apesar de sua trama ter elementos policiais - tráfico de drogas, traição - "A última noite" é, acima de tudo, um drama familiar (sendo o núcleo familiar tradicional subsituído pelos amigos) que retrata com acuracidade diferentes estilos de vida americanos. Frank é o arrogante executivo das finanças que se acha mais importante que os amigos porque tem um salário muito maior que o deles; Jacob é o professor solitário e idealista que se deixa seduzir por uma aluna que precisa de boas notas; e Monty representa o tipo de gente que se deixa levar pelo caminho mais fácil de atingir o sucesso, vendendo drogas a estudantes e tornando-se um traficante conhecido e bem-sucedido. Apesar de suas diferenças, eles tem uma convivência pacífica e quase terna, só abalada pela presença de Naturelle, uma presença dúbia e sexy que tanto pode ser a mulher confiável em que Monty acredita plenamente ou a traidora que seus amigos pintam.

Dirigido com fúria contida por um Spike Lee discreto mas eficaz em sua maneira pungente de fazer cinema, "A última noite" se beneficia amplamente de seu elenco, composto por atores em seus melhores dias. Se Norton e Seymour Hoffman não precisam provar nada a ninguém, a surpresa maior fica por conta de Barry Pepper, que por pouco não rouba as cenas em que aparece, em uma interpretação inspirada e sutil que vai se avolumando até estourar nas suas últimas cenas, em que precisa espancar o melhor amigo para ajudá-lo a sobreviver na prisão. E na pele de James, o calejado pai de Monty, o onipresente Brian Cox brinda o público com um trabalho delicado e emocionante.

Um dos filmes mais subestimados da temporada 2002, "A última noite" é fascinante, forte, impactante e comovente na medida certa. Um belíssimo filme, feito para adultos que gostam de cinema com consistência.

Monday, January 30, 2012

ADAPTAÇÃO

ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002, Good Machine, 114min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, David Kaufman, livro "O ladrão de orquídeas", de Susan Orlean. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Peter Saraf. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Brian Cox, Maggie Gyllenhaal, Ron Livingstone, Tilda Swinton, Cara Seymour, Judy Greer. Estreia: 06/12/02

4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)

Depois de fazer sucesso como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, pelo qual foi até mesmo indicado ao Oscar, o escritor Charlie Kaufman (Nicolas Cage) recebe a proposta de adaptar para as telas o livro “O ladrão de orquídeas”, da jornalista Susan Orlean (Meryl Streep). Ao ler a obra, no entanto, Kaufman entra em pânico: o livro, que conta a história do botânico John Laroche (Chris Cooper) não tem uma forma linear, ou pior ainda, não tem nem história. Em total crise de criatividade, Charlie ainda tem que aturar em sua própria casa as idéias de Donald (novamente Cage), seu irmão gêmeo, que também ambiciona a carreira de roteirista e está escrevendo um filme completamente sem pé nem cabeça, mas que, por ironia, agrada em cheio aos executivos de Hollywood. Sem saber que rumo tomar, Charlie chega a criar uma inexistente história de amor entre a escritora e seu objeto de estudo e, em momento de total desamparo, a procurar a ajuda de um professor de cursos de roteiro, um charlatão profissional que vive de ensinar aos sonhadores autores de cinema a fórmula do sucesso (vivido magistralmente por Brian Cox). No ápice do desespero, Charlie tenta, então, sua cartada mais absurda: pede ajuda a seu irmão, que transforma o livro de Orlean em uma trama de tráfico de drogas, violência e sexo.

Neste brilhante exercício de metalinguagem, o excepcional Charlie Kaufman conseguiu superar a si próprio. Enquanto “Quero ser John Malkovich” era um primor de criatividade e humor negro, “Adaptação” é a afinação de uma mente no mínimo enlouquecida. Ao criticar a própria indústria hollywoodiana com todas as suas idiossincrasias e incoerências, ele criou um filme que todos os roteiristas de cinema poderiam sonhaR criar: inteligente, engraçado e absolutamente inovador, pra não dizer quase esquizofrênico. Quando a agente do roteirista Kaufman, vivida no filme por Tilda Swinton diz, a certo momento que adoraria entrar na sua mente, só o que podemos pensar é que ela não é a única. Charlie Kaufman é tão louco que assina seu roteiro como se o tivesse escrito ao lado do irmão Donald, que na verdade nem existe. E pensar que a Academia indicou (a ambos) para um Oscar.

 

“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
Egresso de videoclipes, Jonze parece não dar a mínima para as regras de se fazer cinema. Criativo, ousado, por vezes delirante, o cineasta não busca as soluções mais fáceis. Ele quer complicar, quer fazer o povo pensar e rir de si mesmo. E o faz com a ajuda inenarrável de seu elenco. Nicolas Cage nunca esteve melhor em sua carreira (nem mesmo em “Despedida em Las Vegas”, que lhe deu um Oscar), em uma atuação dupla absurdamente engraçada; Chris Cooper levou sua estatueta pelo complexo John Laroche, que dependendo do ponto de vista de cada autor, tinha uma personalidade distinta. E Meryl Streep prova mais uma vez porque é a melhor atriz americana em atividade. Na pele da sensível escritora Susan Orlean (cujo livro existe de verdade, mas não tem absolutamente nada a ver com o filme), Streep rouba todas as cenas em que aparece, fazendo uma personagem totalmente distante do que estamos acostumados a vê-la.
“Adaptação” é tão bom que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo vem mastigadinho.

Wednesday, January 25, 2012

O CHAMADO

O CHAMADO (The ring, 2002, Dreamworks SKG, 115min) Direção: Gore Verbinski. Roteiro: Ehren Kruger, romance de Koji Suzuki, roteiro original de Hiroshi Takahashi. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Craig Wood. Música: Hans Zimmer. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Doug Davison, Roy Lee, Mike Macari, Michele Weisler. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Elenco: Naomi Watts, Martin Henderson, David Dorfman, Brian Cox, Jane Alexander, Daveigh Chase. Estreia: 18/10/02

No início dos anos 2000, Hollywood, dando mais uma prova de sua crônica falta de criatividade, passou a buscar nos filmes de terror orientais a matéria-prima para alguns de seus maiores sucessos do gênero. O responsável por tal tendência - e que acabou tornando-se vítima dela quando gerou uma continuação desnecessária - foi "O chamado", remake que, por incrível que pareça, melhorou bastante seu original, dirigido por Hideo Nakata (por sua vez, baseado em um romance de Kôji Suzuki). Comandada por Gore Verbinski (em alta pelo sucesso de sua versão cinematográfica de "Piratas do Caribe"), a versão ianque consegue ter clima apropriado, um elenco afiado e, melhor ainda, mantém o suspense em alta até suas cenas finais.

O remake americano de "O chamado" é bastante fiel a sua origem japonesa, seguindo quase à risca o roteiro do filme de Nakata. Naomi Watts (recém saída dos elogios por "Cidade dos sonhos", de David Lynch) é a protagonista, a jornalista Rachel Keller, mãe solteira do precoce Aidan (David Dorfman). Dedicada à profissão (e curiosa como uma boa repórter deve ser), Rachel inicia uma investigação inusitada depois da morte inesperada da sobrinha adolescente: ela segue os rastros de uma fita de vídeo que, segundo consta, mata quem a assiste, depois de sete dias. Após assistir à tal fita (que encontra na pousada onde sua sobrinha passou seu último fim de semana), Rachel começa uma corrida contra o tempo para evitar sua morte e a do filho, que também assistiu às desconexas imagens. Com a ajuda do ex-namorado Noah (Martin Henderson), ela tenta descobrir as razões por trás do filme e descobre, aterrorizada, uma trágica história familiar com fim trágico.



Fotografado com competência por Bojan Bazelli - que mistura o tom sombrio da história com a umidade constante de Seattle, cenário da trama - "O chamado" tem a seu favor, também, a direção competente de Verbinski, que, mesmo que esteja longe de ser um cineasta original ou ousado, narra com correção e seriedade um filme que inteligentemente foge da tendência de apelar para o humor (característica esta que marcou uma fase do gênero terror no final dos anos 90). Para o bem do espectador que gosta de sentir medo (e assustar-se), o cineasta mantém sempre a sensação de perigo constante e chega ao luxo de enganar a plateia, aparentemente terminando a história para então apresentar seu desfecho pessimista. Ainda que não chegue a ser exatamente surpreendente (sempre é bom deixar um gancho para uma sequência, ensinam os executivos de Hollywood), essa opção encerra o filme com coerência e elegância.

Apesar das explicações meio capengas para mostrar os motivos que levaram a vilã Samara Morgan (interpretada pela pequena e assustadora Daveigh Chase) a tornar-se vingativa - culpa mais da história original em si do que de seu remake - "O chamado" é um dos mais decentes filmes de terror dos anos 2000, dando a chance a Naomi Watts de comprovar o talento mostrado em seu inesquecível trabalho em "Cidade dos sonhos". Um filme imperdível para os fãs do gênero!

Wednesday, November 30, 2011

A IDENTIDADE BOURNE

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne identity, 2002, Universal Pictures, 119min) Direção: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron, romance de Robert Ludlum. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Saar Klein. Música: John Powell. Figurino: Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Dan Weil/Alexandrine Mauvezin. Produção executiva: Robert Ludlum, Frank Marshall. Produção: Patrick Crowley, Richard N. Gladstein, Doug Liman. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnouye-Agbaje, Julia Stiles. Estreia: 14/6/02

Em 1988, uma minissérie feita para a TV americana adaptou o romance "A identidade Bourne", do escritor Robert Ludlum. Estrelada por Richard Chamberlain - conhecido como o ator central da famosa "Pássaros feridos" - a adaptação seguiu fielmente o livro de Ludlum e fez relativo sucesso. Quatorze anos depois, Hollywood resolveu contar a sua versão da história, contando com Doug Liman - da comédia independente "Vamos nessa" - na direção. Depois de ter Brad Pitt e Matthew McConaughey (as primeiras escolhas para o papel central) fora da jogada, Liman não poderia ter tido mais sorte com a escolha de seu protagonista: em seu primeiro papel em filmes de ação, Matt Damon criou um novo modelo a ser seguido em termos de adrenalina.

Ao custo de 60 milhões de dólares, a versão livre de "A identidade Bourne" rendeu mais de 120 milhões somente nos EUA, calando a boca daqueles que não acreditavam que uma trama que mistura espionagem, amnésia e um ator mais conhecido por papéis dramáticos do que por tiroteios e altamente coreografadas cenas de luta não tinha como dar certo. Mas justamente a ousadia na escolha do ator central é que faz toda a diferença: ao contrário de outros filmes de ação em que o protagonista serve apenas e unicamente para quebrar ossos e salvar o mundo, Jason Bourne é uma personagem crível e até certo ponto trágica. E ter um ator competente como Damon o interpretando deixa tudo ainda mais interessante.

Quando o filme começa, um grupo de marinheiros recolhe do Mar Mediterrâneo o corpo inconsciente de um rapaz baleado. Sem memória alguma de sua identidade e de seus passos até o momento, o rapaz tem apenas uma pista a respeito de sua origem: uma tatuagem subcutãnea com o número de uma conta bancária em Zurique. Recuperado dos ferimentos, o jovem segue então em direção à tentativa de descobrir sua origem e, no caminho, topa com a alemã Marie (Franka Potente), que tenta regularizar sua situação no país. Enquanto foge de homens misteriosos que aparentemente querem vê-lo morto (por razões absolutamente desconhecidas por ele), o agora nomeado Jason Bourne (ao menos é o que dizem alguns dos documentos encontrados no cofre do banco suíço) e a assustada Marie partem atrás da solução de um quebra-cabeças que parece ter desdobramentos em altos escalões do governo americano e em um tal projeto Treadstone.

 

A maior qualidade do roteiro de Tony Gilroy - que poucos anos mais tarde disputaria o Oscar de direção por "Conduta de risco" - é o fato de apresentar aos poucos os fatos que levaram o protagonista à situação extrema em que se encontra nas primeiras cenas. É  junto com Bourne que o público vai juntando todos os elementos, todas as ligações queo fizeram passar à condição de fugitivo de algo que ele nem mesmo sabe o que é. E, se ele desperta gradualmente para sua agitada vida pregressa, a edição impressionante de Saar Klein não deixa ninguém chegar perto do tédio: a impressionante perseguição nas estreitas ruas de Paris é uma das mais impactantes cenas do cinema de ação da década, de se assistir com a respiração suspensa e todas as cenas em que Bourne precisa utilizar da força física para manter-se em fuga são extremamente bem dirigidas e realistas. Precisa mais? Pois tem: até mesmo a relação entre Bourne e Marie, ainda que apresentada de maneira rápida demais, soa verdadeira.

"A identidade Bourne" é entretenimento de primeira, entregando ao público ação e inteligência na medida correta. Suas continuações, "A supremacia Bourne" e principalmente "O ultimato Bourne" são ainda melhores, mas é preciso que se tire o chapéu para um dos filmes mais empolgantes de 2002.