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Monday, January 30, 2012

ADAPTAÇÃO

ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002, Good Machine, 114min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, David Kaufman, livro "O ladrão de orquídeas", de Susan Orlean. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Peter Saraf. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Brian Cox, Maggie Gyllenhaal, Ron Livingstone, Tilda Swinton, Cara Seymour, Judy Greer. Estreia: 06/12/02

4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)

Depois de fazer sucesso como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, pelo qual foi até mesmo indicado ao Oscar, o escritor Charlie Kaufman (Nicolas Cage) recebe a proposta de adaptar para as telas o livro “O ladrão de orquídeas”, da jornalista Susan Orlean (Meryl Streep). Ao ler a obra, no entanto, Kaufman entra em pânico: o livro, que conta a história do botânico John Laroche (Chris Cooper) não tem uma forma linear, ou pior ainda, não tem nem história. Em total crise de criatividade, Charlie ainda tem que aturar em sua própria casa as idéias de Donald (novamente Cage), seu irmão gêmeo, que também ambiciona a carreira de roteirista e está escrevendo um filme completamente sem pé nem cabeça, mas que, por ironia, agrada em cheio aos executivos de Hollywood. Sem saber que rumo tomar, Charlie chega a criar uma inexistente história de amor entre a escritora e seu objeto de estudo e, em momento de total desamparo, a procurar a ajuda de um professor de cursos de roteiro, um charlatão profissional que vive de ensinar aos sonhadores autores de cinema a fórmula do sucesso (vivido magistralmente por Brian Cox). No ápice do desespero, Charlie tenta, então, sua cartada mais absurda: pede ajuda a seu irmão, que transforma o livro de Orlean em uma trama de tráfico de drogas, violência e sexo.

Neste brilhante exercício de metalinguagem, o excepcional Charlie Kaufman conseguiu superar a si próprio. Enquanto “Quero ser John Malkovich” era um primor de criatividade e humor negro, “Adaptação” é a afinação de uma mente no mínimo enlouquecida. Ao criticar a própria indústria hollywoodiana com todas as suas idiossincrasias e incoerências, ele criou um filme que todos os roteiristas de cinema poderiam sonhaR criar: inteligente, engraçado e absolutamente inovador, pra não dizer quase esquizofrênico. Quando a agente do roteirista Kaufman, vivida no filme por Tilda Swinton diz, a certo momento que adoraria entrar na sua mente, só o que podemos pensar é que ela não é a única. Charlie Kaufman é tão louco que assina seu roteiro como se o tivesse escrito ao lado do irmão Donald, que na verdade nem existe. E pensar que a Academia indicou (a ambos) para um Oscar.

 

“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
Egresso de videoclipes, Jonze parece não dar a mínima para as regras de se fazer cinema. Criativo, ousado, por vezes delirante, o cineasta não busca as soluções mais fáceis. Ele quer complicar, quer fazer o povo pensar e rir de si mesmo. E o faz com a ajuda inenarrável de seu elenco. Nicolas Cage nunca esteve melhor em sua carreira (nem mesmo em “Despedida em Las Vegas”, que lhe deu um Oscar), em uma atuação dupla absurdamente engraçada; Chris Cooper levou sua estatueta pelo complexo John Laroche, que dependendo do ponto de vista de cada autor, tinha uma personalidade distinta. E Meryl Streep prova mais uma vez porque é a melhor atriz americana em atividade. Na pele da sensível escritora Susan Orlean (cujo livro existe de verdade, mas não tem absolutamente nada a ver com o filme), Streep rouba todas as cenas em que aparece, fazendo uma personagem totalmente distante do que estamos acostumados a vê-la.
“Adaptação” é tão bom que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo vem mastigadinho.

Thursday, July 14, 2011

QUERO SER JOHN MALKOVICH

QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99

3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original

Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vêm à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton – grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de alguns minutos apenas de “Quero ser John Malkovich” o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do estreante em longa-metragens Spike Jonze (visto como ator em “Três reis”) passa longe do trivial e se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma estréia das mais alvissareiras do cinema.

John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.


Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou corriqueira. Desde os diálogos surreais – o documentário sobre a criação do 7 ½ º andar beira a perfeição de um pesadelo – até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que diante da comédia do ex-clipeiro (é dele o vídeo de “Praise you”, de Fatboy Slim, por exemplo) se está diante também de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.


"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias banais oferecem a cada semana. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.

Thursday, July 7, 2011

TRÊS REIS

TRÊS REIS (Three kings, 1999, Warner Bros., 114min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, história de John Ridley. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Carter Burwell. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Gregory Goodman, Kelly Smith-Wait. Produção: Paul Junger Witt, Edward L. McDonnell, Charles Roven. Elenco: George Clooney, Mark Wahlberg, Ice Cube, Spike Jonze, Cliff Curtis, Nora Dunn, Jamie Kennedy, Mykelti Williamson, Judy Greer. Estreia: 01/10/99

Tudo que o povo americano conseguiu visualizar da Guerra do Golfo foram as imagens transmitidas pelas emissoras de televisão. Uma guerra totalmente midiática, sem heróis nem vítimas – pelo menos nos conceitos consagrados como tais – que, se deixou um gosto de vazio nas bocas ianques, mas que pelo menos legou “Três reis”, um dos filmes mais alucinados de 1999, que brinca no tênue limite entre o deboche inteligente e a seriedade que um tema como tal merece. Dirigido pelo desconhecido David O. Russell, que também assina o roteiro - e conseguiu a chance de ser indicado ao Oscar de diretor em 2011 por "O vencedor" - o filme consegue ser chocante, engraçado e dar uma visão completamente inusitada do conflito que jogou americanos em territórios árabes.

Na verdade, o filme começa quando a guerra termina. Às vésperas de embarcar de volta pra casa, o Coronel Archer (George Clooney, cada vez mais à vontade nas telas) junta-se a outros três soldados em uma cruzada pessoal. Ele, o pai de primeira viagem Troy (Mark Whalberg, escolhendo seus papéis com a firmeza de um veterano), o engajado (Ice Cube, hilário) e o atrapalhado (o video-clipeiro que brinca de cineasta Spike Jonze) descobrem um mapa – escondido em um lugar surreal – que dá a exata localização de todo o ouro roubado por Sadam Hussein do povo do Kwait. Dispostos a mudar de vida, eles resolvem buscar o tesouro, batendo de frente com a miséria do povo do Iraque, com a violência com a qual pouco contato tiveram durante as batalhas e com a verdade sobre a guerra criada pelo presidente do país mais poderoso do mundo.



"Três reis" destaca-se também por não pretender levantar nenhuma bandeira politicamente correta. Os protagonistas não são heróis imaculados (muito pelo contrário) e nem tampouco os normalmente vilões na visão norte-americana (os oponentes) são poços de crueldade, ainda que em determinados momentos quase o sejam. Felizmente o humor alucinado do roteiro não permite que a coisa toda seja levada demasiadamente a sério - e a presença de um sensacional George Clooney apenas reitera o tom de brincadeira do filme, cuja edição ágil impede o tédio e foge do tradicional esquema dos filmes de guerra, onde as batalhas são o centro da ação. Talvez incomode os fãs mais aguerridos do gênero, mas pode conquistar a plateia mais afeita a novidades estilísticas.

Longe de ser diversão fácil – ainda que contenha todos os ingredientes necessários a um sucesso de bilheteria (leia-se ação, tiros, humor e atores conhecidos) – “Três reis” destaca-se principalmente por sua coragem em lidar com um tema sério de maneira irreverente, sem nunca deixar-se cair na tentação de apelar para a piada fácil ou tiroteios desnecessários. A violência do filme é cuidadosamente encaixada em momentos-chave para que nunca resvale para o banal e a fotografia estourada de Newton Thomas Sigel colabora para a sensação de calor e sufocamento que o deserto iraquiano passa ao espectador. Mesmo o humor tem seu senso de ironia e amargura que pouco é encontrado em filmes americanos, especialmente nos de guerra. O relativo heroísmo dos soldados, no final, não soa como patriotada barata e sim como questão de humanidade. E a bela canção “In God’s country”, da banda irlandesa U2 fecha a obra com chave de ouro