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Wednesday, December 22, 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS


A CASA DOS ESPÍRITOS (The house of the spirits, 1993, Costa do Castelo Filmes, 140min) Direção: Bille August. Roteiro: Bille August, romance de Isabel Allende. Fotografia: Jorgen Persson. Montagem: Janus Billeskov Jansen. Música: Hans Zimmer. Figurino: Barbara Baum. Direção de arte/cenários: Anna Asp/Soren Gam. Produção executiva: Edwin Leicht, Dieter Meyer, Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave, Armin Mueller-Stahl, Teri Polo, Vincent Gallo, Maria Conchita Alonso. Estreia nos EUA: 01/4/94

Demorou anos até que o best-seller da escritora chilena Isabel Allende chegasse às telas. E eis que finalmente, chegou, nas mãos do cineasta Bille August, mas pasteurizado, simplificado e até mesmo decepcionante para quem leu sua obra-prima. Quem não passou os olhos pelo longo romance, no entanto, pode gostar do filme e até se emocionar, graças ao grande e competento elenco, que passa por cima dos defeitos da adaptação simplista feita pelo próprio diretor. "A casa dos espíritos", o filme, não chega aos pés do romance que lhe deu origem, mas não chega exatamente a destruí-lo.

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, Isabel utilizou em seu romance elementos sobrenaturais que lembrava a prosa realista-fantástica de Gabriel García Marquez, mas que, em formato áudio-visual, são apenas detalhes quase insignificantes em meio à longa saga da família Trueba. Tudo bem que condensar décadas da vida de uma família em pouco mais de duas horas de duração não é tarefa das mais fáceis, principalmente levando-se em conta que a autora mistura mediunidade com política, amores proibidos e psicologismos freudianos e que dar profundidade a isso em um único longa-metragem é um esforço hercúleo e normalmente inglório. Mas August, diretor do belo "Pelle, o conquistador", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1989 poderia ter sido menos acadêmico no que é seu trabalho mais ambicioso comercialmente.
A história começa quando o pobre mas ambicioso Esteban Trueba (Jeremy Irons, que convence de jovem a idoso) pede a mão da bela Rosa (Teri Polo) a seus cuidadosos pais (Armin Mueller-Stahl e Vanessa Redgrave, subaproveitados). Querendo enriquecer o mais rapidamente possível, ele vai trabalhar em uma mina de diamantes, mas quando retorna para a mulher que ama, a encontra morta, vítima de um atentado político contra seu pai. Desesperado de dor, ele se refugia no trabalho de construir a Fazenda Três Marias ao lado da irmã solteirona Ferula (Glenn Close), que passou a vida cuidando da mãe doente. Depois de vinte anos, Esteban pede em casamento a irmã de Rosa, Clara (Meryl Streep), uma médium que vive em seu próprio mundo e que adota Ferula como sua irmã de coração.

É a saga da família Trueba que é contada no romance e no filme. Décadas depois de seu casamento com Clara, Esteban vê Blanca (Winona Ryder) sua única filha dentro do casamento - a despeito de no mínimo um filho bastardo ressentido contra a própria pobreza - envolver-se romanticamente com Pedro (Antonio Banderas), líder sindicalista que prega melhores condições de trabalho na fazenda dos Trueba e que passa a ser perseguido depois do golpe militar do início dos anos 70 - que depôs, inclusive, o tio da escritora.

O roteiro de August concentra-se bem mais nos problemas políticos e sociais da história do que em seus elementos sobrenaturais - o que faz com que o título soe meio deslocado. Se acerta por um lado, deixa fãs inconsoláveis de outro. Acerta em deixar o rojão maior nas mãos competentes de Jeremy Irons, mas não aproveita como deveria a dupla Meryl Streep e Glenn Close, que, embora menos exploradas do que deveriam, nunca deixam de dar seu show particular: nas cenas em que qualquer uma delas está presente, o filme cresce emocionalmente - tome-se como exemplo a cena em que Clara beija Ferula no rosto, em um restaurante, e ela chora dizendo que nunca foi querida por ninguém. Também é comovente o encontro entre Blanca, à beira da morte depois das torturas impostas pelos militares, com o espírito de sua mãe, que a convence a permanecer viva.

Ainda que não consiga atingir todas as nuances do belo romance de Allende - passando muito superficialmente por temas espinhosos, como o amor que Ferula sente pela cunhada e a relação entre Trueba e as empregadas que ele violentava - a adaptação de "A casa dos espíritos" para o cinema consegue ser interessante o bastante para segurar a audiência na poltrona. Mas, perto da obra-prima que poderia ser, não deixa de ser decepcionante. Felizmente o elenco salva miraculosamente o resultado final.

Saturday, September 18, 2010

LIGAÇÕES PERIGOSAS


LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários

Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários


"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.

Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.



Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.

Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.

"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.

Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.

Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.

"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".

Thursday, August 12, 2010

ATRAÇÃO FATAL


ATRAÇÃO FATAL (Fatal attraction, 1987, Paramount Pictures, 119min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: James Dearden. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Peter E. Berger, Michael Kahn. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/George DeTitta. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção: Stanley R. Jaffe, Sherry Lansing. Elenco: Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer, Ellen Hamilton Latzen, Stuart Pankin, Fred Gwyne. Estreia: 18/9/87

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adrian Lyne), Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Anne Archer), Roteiro Adaptado, Montagem

O bem-sucedido advogado Dan Gallagher (Michael Douglas) vive há nove anos um casamento quase impecável com a bela Beth (Anne Archer), com quem tem uma filha pequena. Caindo na rotina de um relacionamento estável, Dan acaba tendo um caso com a sedutora Alex Forest (Glenn Close), uma mulher solteira e aparentemente bem resolvida. No entanto, o que para Dan seria apenas um romance passageiro para matar o tempo em um fim de semana de solidão acaba tornando-se um pesadelo quando Alex, grávida, ameaça expor o fim de semana que passaram juntos. Quanto mais Dan tenta fugir da ex-amante mais ela se aproxima, disposta a acabar com a família do homem que a rejeitou.

Na época de seu lançamento, em 1987 - quando a AIDS começava a espalhar sua ameaça mortal indiscriminadamente -, esse filme, dirigido pelo esteta Adrian Lyne ganhou manchetes do mundo todo, causando polêmicas sem fim. Sucesso de bilheteria e indicado para vários Oscar, inclusive de melhor filme, direção, atriz e roteiro, a trágica história de amor e ressentimento entre Dan Gallagher e Alex Forest apavorou os maridos da América e do continente e acabou servindo como uma luva para os interesses de um país a cada dia mais assustadoramente conservador.

Deixando de lado análises sociais, o fato é que “Atração fatal” serve muito bem a seus propósitos de assustar e prender o público do início ao fim. O roteiro de James Dearden (que, dizem, foi inspirado em sua ex-namorada, a atriz Sean Young) nem demora muito a chegar ao que interessa. Em quinze minutos de ação, o tórrido caso entre os protagonistas, ilustrados por cenas de sexo pra lá de quentes já acabou e a vilã (interpretada com uma dose de exagero por Glenn Close, que ficou marcada pela personagem) começa a mostrar suas garras. Aos poucos, ela se transforma de doce amante em psicótica e enlouquecida algoz, chegando ao ponto de cozinhar o coelhinho de estimação da filha do casal - uma das cenas mais famosas da história do cinema desde então.

"Atração fatal" foi a segunda maior bilheteria de 1987 nos EUA, um sucesso estrondoso que acabou se refletindo nas indicações ao Oscar. Até mesmo o normalmente rechaçado Adrian Lyne arrumou sua vaga entre os candidatos à estatueta de diretor, o que prova a força com que o filme bateu no inconsciente americano. Os reacionários de plantão não poderiam ter encontrado um veículo melhor para disseminar seus ideais de instituição familiar, e a Academia de Hollywood, como bom baluarte de "bons sentimentos" assinou embaixo. Tudo bem que "Atração" não levou nenhum prêmio, mas com certeza é bem mais lembrado pelo público do que o vencedor do ano, o épico "O último imperador".

Apesar do final moralista – a ponto de o filme acabar com o close de um porta-retrato mostrando a feliz família principal – que insiste em colocar o bem (a família) contra o mal (a amante deixada de lado) em uma guerra física e violenta, o filme de Lyne cumpre o que promete. A edição ágil, a trilha sonora competente e principalmente a interpretação de Close - que ficou com um papel que foi cogitado para praticamente TODAS as atrizes de Hollywood em atividade na época - , dão o tom exato à obra, que grudou feito tatuagem na mente dos maridos dos anos 80.