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Sunday, July 18, 2010

ENTRE DOIS AMORES


ENTRE DOIS AMORES (Out of Africa, 1985, Universal Pictures, 161min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke, livros de Karen Blixen, Judith Thurman, Errol Trzebinski. Fotografia: David Watkin. Montagem: Pembroke Herring, Sheldon Kahn, Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: John Barry. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Casting: Mary Selway. Produção executiva: Kim Jorgensen. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens. Estreia: 18/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Meryl Streep), Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som

Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários, Som

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Trilha Sonora


Filmes épicos sempre fizeram a cabeça dos membros da Academia, especialmente se são baseados em fatos reais. Por isso não deixava de ser previsível a vitória esmagadora de "Entre dois amores" no Oscar 85. Dirigido por Sydney Pollack, o filme levou 7 estatuetas pra casa, não deixando chance para seus competidores - entre eles o elogiado "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Inspirado em fatos da vida da escritora dinamarquesa Karen Blixen, é um filme que conquista pela beleza de seu visual estonteante e pela atuação soberba - mais uma - de Meryl Streep.

Ficando com o papel que, em projetos anteriores foi cogitado para ser interpretado por Audrey Hepburn e Greta Garbo, Streep entrega um trabalho meticuloso e sensível, que lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar. Ela vive Karen Blixen, que, no início do século XX, se casa com Bor (Klaus Maria Brandauer),um amigo, por puro interesse: ela quer o título de Baronesa que ele pode dar-lhe; ele deseja o dinheiro que ela tem e que pode dar início à sua criação de gado no Kenya colonizado pela Inglaterra. Logo depois do casamento as coisas começam a dar errado: ele resolve mudar os planos e plantar café, além de não abdicar de seus relacionamentos extra-conjugais. Frequentemente sozinha na enorme fazenda de sua propriedade, Karen - uma talentosa contadora de histórias - torna-se interessada pela cultura africana, além de tentar melhorar as diferenças sociais de sua região. Quando ela se apaixona pelo caçador Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que preza sua liberdade acima de qualquer outra coisa, ela passa a experimentar também as agruras de um romance conturbado.

"Entre dois amores" é um épico romântico que exala grandiosidade a cada cena. A espetacular fotografia de David Watkin capta a beleza natural do continente africano com maestria, e a trilha sonora de John Barry corrobora o clima romântico/selvagem proposto pela história de Blixen (autora do conto que deu origem ao filme "A festa de Babette"). A reconstituição de época é caprichada e até mesmo o cuidado com os dados históricos é acurado. Mas falta ao filme de Pollack a opção por um foco específico de interesse. Dividido entre contar a luta da protagonista pelo bem-estar do povo africano, narrar sua batalha pela fazenda e mostrar sua atribulada história de amor, ele acaba por não se aprofundar o bastante em nenhuma das tramas, o que diminui consideravelmente seu impacto.

As três linhas de narrativa de "Entre dois amores" são bastante interessantes. Como paladina dos interesses dos nativos africanos, Karen assume o papel de uma mulher disposta a oferecer sua inteligência e boa-vontade a pessoas de cultura oposta à sua, mesmo batendo de frente com as lideranças locais, uma trama que, sozinha, já renderia um excelente filme. Como uma esposa solitária que luta para manter sua fazenda lucrativa e produtiva, a futura escritora se apresenta como uma espécie de Scarlett O'Hara menos voluntariosa e interesseira e, como "E o vento levou" continua provando, é uma história que manteria acesa a atenção da plateia. E como mulher apaixonada, a personagem de Meryl Streep dá à atriz a chance de mostrar porque é uma das mais destacadas profissionais do cinema. Mas justamente no foco que poderia ser o mais fascinante do filme, ela esbarra em um problema sério: a apatia de seu colega de cena.

Robert Redford - que trabalhou com Pollack em "Nosso amor de ontem" (1973) e "Havana" (1990) - é um dos mais importantes nomes do cinema americano, por causa de sua carreira como ator, diretor e produtor e devido a seu incentivo ao cinema independente, como comprova sua cria, o Festival de Sundance. Mas em "Entre dois amores" ele não faz o suficiente para justificar a paixão de Karen Blixen, não fazendo mais do que desfilar seu charme pela tela. Comparado com o furacão passional mostrado por Streep ele empalidece perigosamente e quase atrapalha o resultado final. Para sorte do espectador, no entanto, a história é tão bela e forte que é impossível não se deixar envolver por ela.

"Entre dois amores" é um belo épico romântico, conforme desejado por seu diretor Sydney Pollack. Emociona na medida certa, impressiona por sua beleza plástica e possibilita à Meryl Streep mais um show particular. De quantos filmes se pode falar isso?

Saturday, July 17, 2010

A COR PÚRPURA


A COR PÚRPURA (The color purple, 1985, Warner Bros, 154min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Menno Meyjes, romance de Alice Walker. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Michael Kahn. Música: Quincy Jones. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Quincy Jones, Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Whoopi Goldberg, Danny Glover, Margaret Avery, Oprah Winfrey, Willard Pugh, Akosua Busia. Estreia: 16/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Whoopi Goldberg), Atriz Coadjuvante (Margaret Avery, Oprah Winfrey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Canção ("Miss Celie's blues"), Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem

Vencedor do Golden Globe: Melhor Atriz/Drama (Whoopi Goldberg)


No mesmo ano em que produziu duas pérolas do entretenimento escapista e comercial – “Os Goonies” e “De volta para o futuro” – Steven Spielberg iniciou também seu namoro com o cinema sério e adulto. Aclamado com 13 indicações ao Oscar, o belo “A cor púrpura” acabou decepcionando quando não levou nenhuma estatueta, dando início também a um esnobismo da Academia em relação ao cineasta, finalmente quebrado com “A lista de Schindler”, nove anos depois.

Baseado no romance homônimo de Alice Walker, premiado com o Pulitzer, o filme de Spielberg - que aqui deixa de lado sua parceria com o músico John Williams pela primeira e até agora única vez na carreira para ter a colaboração do experiente Quincy Jones, um dos produtores da obra – conta a dolorosa e sofrida trajetória de Celie, uma negra que, com apenas 14 anos de idade e mãe de dois filhos tidos com seu próprio pai, é praticamente vendida a um viúvo violento e cruel (vivido com maestria por Danny Glover). Separada dos filhos quando eles ainda estão no berço e de sua irmã, afastada por recusar-se a dividir a cama com o cunhado, Celie passa humilhações e sofrimentos durante mais de 30 anos, sendo obrigada a ver-se como uma mulher feia, burra e inútil. As únicas pessoas que lhe dão valor são justamente duas mulheres que também sofrem o preconceito da sociedade: a cantora Sugar (Margareth Avery, indicada ao Oscar de coadjuvante), amante de seu marido e tratada pela cidade como uma prostituta, e Sofia (Oprah Winfrey, antes da fama e do sucesso, também indicada ao Oscar como coadjuvante), casada com o atrapalhado Harpo, enteado de Celie. Sem papas na língua e com o pensamento libertário, Sofia acaba passando anos na cadeia por ousar manter seu lugar no mundo com honra e dignidade.

Visto à luz dos anos, “A cor púrpura”, ainda que um belo e comovente filme, mostra alguns defeitos que, se não chegam a estragá-lo talvez tenham atrapalhado seu caminho rumo ao Oscar (mesmo que seja melhor e mais marcante do que o vencedor do ano, “Entre dois amores”). A opção do roteirista e do diretor em elevar o espírito feminino é louvável, mesmo porque os sofrimentos que as personagens passam são palpáveis e genuínos. Daí a relegar os homens a papéis pequenos, cruéis e unidimensionais são outros quinhentos. Tirando o personagem de Danny Glover – espetacular, diga-se de passagem -, que de vez em quando deixa transparecer algum sentimento, em especial em relação a Sugar, todos os outros personagens masculinos são maus, manipulados ou indiferentes. Esse maniqueísmo pode ser proposital, mas acaba sendo quase um tiro no pé nas intenções de Spielberg em fazer um filme sério.

A duração excessiva da obra (mais de duas horas e meia) também não ajuda. Mais uma vez a impressão que é passada é a que o filme queria ter a duração de um épico. No entanto, para preencher o tempo, Spielberg coloca em cena situações que, em outros filmes até seriam engraçadas, se não fossem tão fora de propósito em um filme com possibilidades tão nobres e sérias. Uns bons vinte minutos a menos e o ritmo do filme não seria tão prejudicado (e vindo do sujeito que bolou as duas aventuras alucinantes de Indiana Jones isso não deixa de ser irônico).

No entanto, mesmo com seus pequenos defeitos e qualidades inegáveis, “A cor púrpura” tem do seu lado um fator que a maioria esmagadora dos cineastas sonha: uma protagonista repleta de carisma e talento. Ao escalar a estreante Whoopi Goldberg para o papel de Celie dos vinte e poucos aos quarenta e muitos anos, Spielberg tirou a sorte grande. Em nenhuma cena Goldberg está menos do que exemplar, em uma atuação que foi merecidamente indicada ao Oscar. Só a cena em que, depois de muitos anos a sofrida Celie finalmente vê seu sorriso refletido em um espelho já vale as quase três horas de duração. Por Whoopi, pelos méritos da produção e pela vontade de Spielberg de fazer um filme de conteúdo depois de inúmeros sucessos financeiros “A cor púrpura” merece ser assistido. E tente não se comover!

Friday, July 16, 2010

DE VOLTA PARA O FUTURO


DE VOLTA PARA O FUTURO (Back to the future, 1985, Universal Pictures, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, Robert Zemeckis. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Hal Gausman. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Billy Zane. Estreia: 03/7/85

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção ("The power of love"), Som, Efeitos Sonoros

Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros


Comprovando de vez o toque de Midas de Steven Spielberg, capaz de transformar qualquer produto com seu nome em uma máquina de fabricar dinheiro, a comédia de ficção científica “De volta para o futuro” rendeu mais de 200 milhões de dólares nos EUA, tornando-se a maior bilheteria de 1985. E sabe o que é mais surpreendente? Mereceu cada centavo. Ao contrário de dezenas de produções menos inspiradas que aportam nas telas de cinema semanalmente, o filme de Robert Zemeckis – protegido de Spielberg e diretor do hilariante “Febre de juventude” – tem um rasgo de inteligência, bom humor e auto-ironia que o separa quilometricamente de seus congêneres.

Estrelado por Michael J. Fox (saído da série de TV “Caras e caretas” e que substituiu Eric Stoltz a meio caminho), “De volta para o futuro” é um filme de ação delirante, uma comédia engraçadíssima e, por que não?, uma ficção científica com fundo romântico e nostálgico que agrada pais e filhos. É pouco provável que alguém não vá se divertir assistindo a saga de Marty McFly (J. Fox) na sua missão de, em pleno 1955, juntar seus pais em um baile de formatura e assim impedir sua existência em 1985 de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Ok, vamos às explicações: Marty é um adolescente de 17 anos que sonha em tornar-se guitarrista famoso e vive com uma família absolutamente sem-graça. Seus pais vivem discutindo, seus irmãos não têm ambição e sua vida é definitivamente comum. Tudo muda quando seu amigo, o cientista Doc Brown (Christopher Lloyd, em uma atuação siderada) lhe apresenta sua nova invenção: uma máquina do tempo construída em um DeLorean. Por problemas que envolvem terroristas líbios, combustível feito de plutônio e um relógio na torre de um prédio, Marty acaba sem querer indo parar em outubro de 1955, às vésperas do baile de formatura onde seus pais trocaram seu primeiro beijo. Por uma ironia do destino, no entanto, sua mãe, Lorraine (Lea Thompson), nem de longe tão certinha quanto sempre quis parecer ser diante dos filhos, se interessa por ele e Marty tem então que fazê-la apaixonar-se por aquele que virá a ser seu pai, George McFly (o ótimo Crispin Glover). O problema é que George é desengonçado, tímido, atrapalhado e fã de livros de ficção científica, além de ser eternamente humilhado pelo grandalhão Biff (Thomas F. Wilson). A missão do adolescente Marty acaba se tornando de vida ou morte. Se seus pais não se apaixonarem, nem ele nem seus irmãos existirão mais.

O alucinante do roteiro de Zemeckis e Bob Gale (indicado merecidamente ao Oscar) nunca deixa o ritmo cair. De piada em piada (desde o choque de gerações até piadas mais visuais) o filme vai construindo uma trama consistente apesar da premissa um tanto absurda, apesar de engraçada. Colabora para a atemporalidade do filme - que, ao contrário de muitos filmes realizados à mesma época - sua caprichada direção de arte e o cuidado com os detalhes, um padrão de qualidade da "marca" Spielberg. Mas, além do roteiro exemplar e da admirável parte técnica, é o carisma de Michael J. Fox e sua química com seus colegas de elenco que dão sustentação a todo o projeto.

Apesar de já não ser um adolescente durante as filmagens de "De volta para o futuro", Fox convence plenamente na pele de Marty McFly, assim como o fazem Crispin Glover e Lea Thompson como seus pais - Glover inclusive parece ter nascido para o papel, em uma atuação ao mesmo tempo hilariante e patética. E Christopher Lloyd, como o amalucado Doc Brown entrega um dos trabalhos mais populares de sua carreira no cinema, iniciada com o dramático "Um estranho no ninho".

Tudo em "De volta para o futuro" colabora para o clima exato de Sessão da Tarde com pipoca e guaraná pretendido pelo diretor Zemeckis e pelo produtor Spielberg. As aventuras de Marty e Lloyd rendeu duas continuações, nenhuma tão boa quanto a primeira, ainda que longe de serem ruins. É uma diversão inofensiva que resiste bravamente ao tempo, mantendo-se tão deliciosa hoje quanto há 25 anos.

Thursday, July 15, 2010

OS GOONIES


OS GOONIES (The goonies, 1985, Warner Bros, 114min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Chris Columbus, história de Steven Spielberg. Fotografia: Nick McLean. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard LaMotte. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner. Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Ke Huy Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey. Estreia: 07/6/85

Uma das maiores alegrias que o cinema pode proporcionar a uma pessoa é a possibilidade de uma viagem no tempo. Às vezes literalmente, em outras em espírito. E é justamente isso que faz esse “Os Goonies”, uma das mais divertidas brincadeiras criadas pelo mago Steven Spielberg, aqui atuando como autor da história desenvolvida pelo diretor Chris Columbus. Utilizando de sua nostalgia explícita, aqui o criador de ET dá vazão a suas memórias dos filmes de piratas, gênero praticamente inexistente no imaginário popular desde a morte de Errol Flynn - mas que ganhou novo fôlego com a série "Piratas do Caribe", quase vinte anos depois.

Os Goonies do título são um grupo de pré-adolescentes cujas famílias estão às vésperas de ser obrigadas a abandonar seus lares, despejados por tubarões da especulação imobiliária. Tristes e entedidados, eles acabam descobrindo um mapa segundo o qual encontrarão o tesouro de um pirata chamado Willy Caolho. Liderados pelo asmático Mickey (Sean Astin) e por seu irmão mais velho, Brand (Josh Brolin), eles fogem de casa e partem em busca da fortuna que os ajudaria a permanecer em suas casas. Além de armadilhas criadas por Willy, no entanto, eles terão que encarar os Frattelli, uma família de criminosos formada pela despótica Mama (Anne Ramsey) e por dois atrapalhados assaltantes (vividos por Joe Pantoliano e Robert Davi antecipando em alguns anos as piadas visuais que Columbus refinaria em "Esqueceram de mim").

A esperteza do roteiro de Columbus foi a de pôr em cena personagens que agradam em cheio seu público-alvo. Além da delicadeza de Mickey e do ar sedutor de Brand, estão em cena todos os tipos necessários: há o inventor Data (Ke Huy Quan, de “Indiana Jones e o templo da perdição”), o engraçadinho Mouth (Corey Feldman), as donzelas em perigo Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton) e o assustado Chunk (Jeff Cohen, dono das cenas mais engraçadas), que faz amizade com aquele que acaba se tornando o personagem mais carismático e marcante do filme, o deformado Sloth, rejeitado pela família Frattelli devido a sua aparência, mas que se revela uma alma carinhosa e meiga, bem ao gosto do produtor Spielberg.

Dono de um ritmo alucinante, boas piadas e uma trilha sonora irresistível que conta inclusive com uma canção original de Cindy Lauper, “Os Goonies” é um programa para deixar o lado crítico descansando e encarar uma hora e meia de cinema escapista como pouco se faz hoje em dia. Bons tempos que cinema para a pré-adolescência não apelava para vampiros melancólicos...

Wednesday, July 14, 2010

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.

Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

Tuesday, July 13, 2010

CLUBE DOS CINCO


O CLUBE DOS CINCO (The breakfast club, 1985, Universal Pictures, 97min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Dede Allen. Música: Keith Forsey. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção executiva: Gil Friesen, Andrew Meyer. Produção: John Hughes, Ned Tanen. Elenco: Judd Nelson, Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Emilio Estevez, Ally Sheedy, Paul Gleason, John Kapelos. Estreia: 15/02/85

Independente da época onde vivem e/ou como vivem, adolescentes formam um grupo sociológico importante e interessante. Que o diga John Hughes, que, na década de 80 tornou-se uma espécie de especialista em filmes sobre, com e para a faixa etária que vem depois da infância e precede a idade adulta. O mais representativo dessa categoria é “Clube dos cinco”, que, além de virar cult entre seu público alvo ainda criou uma atriz símbolo, a ruiva Molly Ringwald, que chegou a virar capa da revista Time antes de desaparecer com a chegada da idade.

A trama imaginada por Hughes não tem grandes ambições: cinco adolescentes de uma escola de ensino médio de Chicago são obrigados a passar um sábado na detenção, ou seja, presos durante um dia inteiro na biblioteca. Sua missão: pensar nos motivos que os levaram até ali e escrever um ensaio sobre suas verdadeiras personalidades. A princípio aborrecidos com a tarefa designada por seu diretor (o ótimo Michael Gleason), aos poucos o grupo passa a se conhecer melhor, seja por meio de agressões verbais ou físicas ou até mesmo por conversas verdadeiras e sinceras.

A história engendrada pelo cineasta é apenas uma desculpa para que ele ponha em cena alguns estereótipos do adolescente anos 80 – e por que não adolescente e ponto final?. Estão em cena a adorável Claire (vivida com simpatia por Ringwald), a garota mais popular da escola, o saudável Andrew (Emilio Estevez), conhecido por seus dons esportivos, o estudioso Brian (Anthony Michael Hall), que participa de todo e qualquer grupo de estudo possível, a estranha Allison (Ally Sheedy), que passa eternamente despercebida e o rebelde Bender (Judd Nelson), cujo futuro nada alvissareiro pode ser visto a quilômetros de distância por qualquer pessoa com um mínimo de inteligência.

O grande trunfo do roteiro de John Hughes e o que fez cair nas graças da juventude de sua época é o fato de nunca julgar seus personagens, que não são exatamente o que pareciam à primeira vista. Famílias desajustadas, cobranças exageradas e aparências exigidas são moeda corrente entre os adolescentes criados pelo autor. Ecos de “Juventude transviada”, filme-símbolo da rebeldia juvenil podem ser encontrados nos torturados personagens de “Clube dos cinco”. E Hughes nem tenta fugir da tentação de criar romances e cenas que beiram a pieguice. Longe de tentar fazer um filme de arte, ele quer – e consegue – atingir seus maiores objetivos sem fazer muita força.

“Clube dos cinco” contém grandes doses de ingenuidade e em muitos momentos esbarra com a maior cara-de-pau em todos os clichês dos filmes de seu gênero. Mas tem um roteiro inteligente, antenado e sensível, defendido por um elenco que nunca esteve melhor e mais à vontade. Não é um clássico no sentido mais formal da palavra, mas é difícil de não gostar.

Monday, July 12, 2010

A TESTEMUNHA


A TESTEMUNHA (Witness, 1985, Paramount Pictures, 112min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Earl W. Wallace, William Kelley, história de William Kelley, Pamela Wallace, Earl W. Wallace. Fotografia: John Seale. Montagem: Thom Noble. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Stan Jolley/John Anderson. Casting: Dianne Crittenden. Produção: Edward S. Feldman. Elenco: Harrison Ford, Kelly McGillis, Lukas Haas, Danny Glover, Josef Sommer, Viggo Mortensen, Patti LuPone. Estreia: 08/02/85

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Harrison Ford), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte


Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Original, Montagem

Em 1985, Harrison Ford estava na crista da onda. Na pele de Han Solo e Indiana Jones, ele lotava cinemas mundo afora e arrancava suspiros da ala feminina do público. O que lhe faltava então, a aceitação da crítica e o respeito de seus pares, chegou até ele através de um policial honesto, sério e dedicado chamado John Book, que, como protagonista do filme "A testemunha", lhe proporcionou inclusive uma inédita - e até hoje única - indicação ao Oscar de melhor ator.

Dirigido pelo australiano Peter Weir, "A testemunha" é um drama policial com toques românticos que conquistou a plateia justamente pelo perfeito equilíbrio entre esses gêneros, além de acrescentar à receita um interesse extra: o modo de vida dos amish, um grupo religioso que vive em um mundo à parte, indiferente aos avanços da tecnologia. Ao contrário de aparecer em cena como coadjuvantes folclóricos e/ou exóticos, eles são parte essencial da narrativa, ao mesmo tempo empolgante e terna concebida pelos roteiristas premiados com o Oscar da categoria.

A história de "A testemunha" começa com um violento assassinato ocorrido no banheiro masculino de uma estação de trens. Dois homens cortam a garganta de um terceiro e o crime tem apenas uma testemunha: o pequeno Samuel (Lukas Haas) assiste ao homicídio escondido e assustado. Quem é escalado para interrogá-lo é justamente o John Book vivido por Harrison Ford, um policial solitário e esforçado que, de caçador passa ao status de caça quando descobre que os responsáveis pelo crime são dois colegas de delegacia corruptos. Para recuperar-se de um tiro e proteger sua pequena testemunha, Book esconde-se em uma comunidade hamish - totalmente isolada da "civilização", sem telefone, televisão ou mesmo luz elétrica - e acaba se envolvendo na rotina de seus moradores. Para complicar ainda mais as coisas, ele se apaixona por Rachel (Kelly McGillis), a bela mãe de Samuel, recentemente viúva.

É fascinante observar a maneira como o roteiro consegue entrelaçar a trama policial com a história de amor entre Book e Rachel, sem jamais deixar de lado o choque entre culturas, que é o que lhe dá o sabor especial. A primeira metade do filme se concentra em estabelecer os perigos que irão perseguir os protagonistas - e para isso conta com as atuações excelentes de Danny Glover e Brent Jennings. A segunda parte se dedica a mostrar as relações de John Book com uma cultura completamente oposta à sua, com a bela Rachel e com o encantador Samuel, que vê nele a figura paterna de que necessita depois da morte do pai. E apesar da história policial ser forte o bastante para justificar um filme inteiro, é o encontro entre o cosmpolita detetive com a comunidade hamish que fica na memória da plateia.

A química entre Harrison Ford e Kelly McGillis é responsável pelo sucesso da história de amor contada em "A testemunha". A tensão sexual existente entre os dois é palpável e jamais chega sequer perto da vulgaridade - apesar de McGillis mostrar os seios em uma bela cena, são os olhares repletos de desejo trocados entre o casal que falam mais forte do que o único beijo que os une, já na reta final da projeção. Também é de destacar-se a sequência em que eles dançam no celeiro, que transmite mais paixão e desejo do que horas e horas de closes de corpos suados e ofegantes.

Dono de um invejável equilíbrio entre todas as suas linhas narrativas e de um casal de protagonistas bonito e talentoso, "A testemunha" mereceu todo o sucesso conquistado - chegou mesmo a concorrer aos Oscar de filme e direção. Pode não ser o melhor filme de Harrison Ford, mas deu a ele a oportunidade de provar que é bem mais do que um arqueólogo galã.