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Sunday, October 17, 2010

EDWARD MÃOS DE TESOURA

EDWARD MÃOS DE TESOURA (Edward Scissorhands, 1990, 20th Century Fox, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Caroline Thompson, história de Tim Burton e Caroline Thompson. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Richard Halsey. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Richard Hashimoto. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Alan Arkin, Kathy Baker, Vincent Price. Estreia: 14/12/90

Indicado ao Oscar de Maquiagem

O que David Lynch e Tim Burton tem em comum? Aparentemente nada, diriam os mais apressados. Mas basta um olhar mais atento em "Edward Mãos de Tesoura" para perceber que ambos os cineastas tem visões críticas e irônicas em relação à sociedade em que vivem. Mas enquanto Lynch brinca de forma ácida e cruel em relação a isso, Burton prefere um viés mais romântico e delicado, ainda que bastante contundente. Em tom de fábula, "Edward" é o melhor filme do diretor, um trabalho que agrada tanto pelo impressionante visual quanto por sua história, ingênua e delicada como raramente se vê em tempos de efeitos visuais utilizados para mostrar apenas violência e destruição.


A história criada por Burton e sua roteirista Caroline Thompson é simples e eficiente: no fim de um exaustivo dia de trabalho como revendedora de cosméticos, a dona-de-casa Peggy Boggs (Dianne Wiset) chega a um castelo aparentemente abandonado. Lá dentro, encontra o tímido Edward (Johnny Depp), que vive sozinho e isolado desde a morte de seu criador (o veterano Vincent Price em seu último trabalho), um cientista que criou-o com todas as características humanas mas que morreu antes de dar-lhe mãos, substituídas por tesouras. Penalizada com a situação do rapaz, ela o leva para casa, no subúrbio de uma cidadezinha americana. Lá, Edward toma contato com as vizinhas de Peggy - tornando-se atração da região -, sua família e principalmente com sua filha adolescente, Kim (Winona Ryder), por quem se apaixona. No entanto, nem tudo são flores, e o fascínio que ele inicialmente causava transforma-se em preconceito, especialmente quando ele se envolve em um assalto imaginado pelo namorado marginal de Kim (Anthony Michael Hall).




A primeira parceria entre Burton e Johnny Depp (que fala menos de 200 palavras o filme inteiro) é uma fábula deslumbrantemente concebida, tanto em termos visuais quanto emocionais. Narrada em tom de conto de fadas, a história de Edward - variação do bom selvagem - e sua paixão por Kim, é comovente, engraçada e graças principalmente à trilha sonora inspirada de Danny Elfman, tem ares de eterna. Tem cenas hilariantes, momentos de uma ternura palpável e um visual estarrecedor, cortesia principalmente da fotografia de Stefan Czapsky. A direção de arte de Bo Welch também colabora para criar a atmosfera de fantasia imaginada pelo diretor, um artista criativo e que aproveitou o sucesso absoluto de seu "Batman" para legar à plateia uma história de amor e pureza. 

Johnny Depp começou aqui sua fama como ator de personagens excêntricos, em sua mais marcante e memorável caracterização (ajudado pela ótima maquiagem de Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria). Winona Ryder - que apaixonou-se por ele durante as filmagens - está bela e etérea, um contraponto perfeito a seu trabalho, em uma atuação delicada e sensível. E além de tudo, "Edward Mãos de Tesoura" faz pensar e seu roteiro é uma pouco disfarçada metáfora sobre os males que a sociedade é capaz de fazer à inocência.

Simbolismos e metáforas de lado, "Edward Mãos de Tesoura" é um belo filme, um oásis de inteligência em meio a um deserto de boas ideias. Emocionante e delicado, é a obra-prima de Tim Burton, capaz de conquistar o mais empedernido dos corações.

Monday, August 16, 2010

SETEMBRO


SETEMBRO (September, 1987, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Denholm Elliott, Mia Farrow, Dianne Wiest, Jack Warden, Sam Waterston, Elaine Stritch. Estreia: 18/12/87

É inegável que, como diretor e roteirista de comédias sofisticadas e inteligentes, Woody Allen é imbatível. No entanto, seu lado mais sombrio, profundo e melancólico muitas vezes agrada a crítica mas afugenta a audiência. Foi assim com "Interiores", de 1978 e o mesmo repetiu-se com "Setembro", feito quase uma década depois. Filmado quase como uma peça de teatro - sem muitos closes e com muitos planos longos - o 18º longa da carreira de Allen é um de seus menos louvados. Injustamente!

A trama de "Setembro" se passa em uma casa de praia em Vermont, no final de verão particularmente desgastante emocionalmente para a frágil Lane (Mia Farrow), que, recém-saída de uma profunda crise nervosa se apaixona pelo escritor Peter (Sam Waterston), que alugou a casa para escrever seu novo livro. Assediado pela mãe de Lane, a ex-modelo Diane (Elaine Stritch) - cujo passado conta com uma tragédia que abalou a vida da filha - para que escreva sua biografia, Peter se encanta com Stephanie (Dianne Wiest), a melhor amiga de Lane, uma mulher casada e romanticamente confusa. Enquanto tenta lidar com sua problemática relação com a mãe e tenta conquistar o amor de Peter, Lane desperta a paixão de um vizinho mais velho, Howard (Denholm Elliott).

A ciranda amorosa-romântica criada por Allen até pode lembrar alguns de seus filmes anteriores, mais notadamente "Hannah e suas irmãs", também estrelado por Farrow e Wiest. Mas em "Setembro" o senso de humor do cineasta é deixado de lado, o que colabora para o clima quase claustrofóbico imposto pela sóbria fotografia de Carlo Di Palma. As personagens, aqui, não relaxam frequentando museus ou visitando o Central Park. Na opressiva trama escrita por Allen na casa de verão de sua então mulher Mia Farrow, viver é complicado, tomar decisões é sacrificante, encarar a realidade é difícil. Lane tem que conviver com um trauma do passado, que praticamente destruiu sua vida, e a impede de ter uma relação saudável com sua mãe, que, em contrapartida, não deixa que nenhum problema a atinja com a devida força. Stephanie luta contra o desejo por Peter, porque não quer magoar Lane nem destruiur seu próprio casamento. E Howard, apaixonado por Lane, deseja arrancá-la da tristeza e da prostação emocional, mas esbarra na fragilidade da própria moça.

Woody Allen filmou "Setembro" duas vezes por achar a primeira versão insatisfatória. Substituiu Maureen O'Sullivan (mãe de Farrow na vida real) por Elaine Stricht (que entregou uma performance bastante distinta de sua personagem), Charles Durning por Denholm Elliot e Sam Shepard por Sam Waterston (sendo que Shepard já substituía Christopher Walken). Ainda achando que o filme não estava à altura do que imaginava, pensou em refilmar uma terceira versão. Ainda bem que não o fez!

"Setembro" tem diálogos belíssimos, interpretações intensas e uma melancolia deslumbrante. Não é para ser assistido em momentos de crise emocional, mas é um trabalho fascinante de um diretor extremamente inteligente e talentoso.

Tuesday, August 10, 2010

OS GAROTOS PERDIDOS


OS GAROTOS PERDIDOS (The lost boys, 1987, Warner Bros, 97min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Janice Fischer, James Jeremias, Jeffrey Boam, história de Janice Fischer, James Jeremias. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Robert Brown. Música: Thomas Newman. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Chris Westlund. Casting: Marion Dougherty. Produção executiva: Richard Donner. Produção: Harvey Bernhard. Elenco: Jason Patric, Kiefer Sutherland, Jami Gertz, Corey Haim, Corey Feldman, Dianne Wiest, Barnard Hughes, Edward Herrmann. Estreia: 31/7/87

Filmes com vampiros já chegam a formar um sub-gênero no cinema mundial. Filmes com adolescentes idem. A grande novidade de "Os garotos perdidos", filme de Joel Schumacher, é a união desses dois ingredientes em uma mistura que, ao contrário do que poderia se esperar, não desandou. Ao unir elementos clássicos da mitologia vampírica - sem desrespeitá-la como a série "Crepúsculo" veio a fazer recentemente -a uma trama de aventura com toques cômicos, o diretor acertou em cheio, conquistando o público-alvo com a despretensão esperada em um filme que coloca até mesmo a oscarizada Dianne Wiest em meio a sangue, efeitos visuais e piadas adolescentes.

Wiest, veterana de filmes de Woody Allen, vive Lucy, uma mulher recém-separada que abandona Nova York em companhia dos dois filhos e volta a viver na cidade litorânea onde mora seu pai. Enquanto luta para recomeçar sua vida, sendo inclusive cortejada por seu chefe, ela não percebe que seu filho mais velho Michael (Jason Patric), sentindo-se deslocado, está envolvido com a misteriosa Star (Jamie Gertz), integrante de uma esquisita gangue liderada pelo sinistro David (Kiefer Sutherland). Só quem percebe que coisas estranhas estão acontecendo é seu caçula, o nerd Sam (Corey Haim), que, com a ajuda de dois vendedores de histórias em quadrinhos - batizados como Edgar e Alan, em homenagem ao escritor Allan Poe - passa a desconfiar que um bando de vampiros anda atacando a cidade e já contaminou seu irmão. Para salvar a vida de Michael, Sam e seus dois amigos têm que descobrir, então, quem é o vampiro-chefe.

O grande lance de “Garotos perdidos”, típico produto dos anos 80 - desde o visual até a trilha sonora, que se apropria inclusive de uma canção do The Doors em uma regravação do Eccho & The Bunymen - é a sua auto-ironia. Fica claro que o roteiro nunca se leva muito a sério, mesmo em cenas bastante inspiradas, como o primeiro encontro de Michael com sua nova turma de amigos, assustadora mas bastante leve. A dupla Corey Haim e Corey Feldman funciona às mil maravilhas em momentos cômicos e os efeitos visuais e de maquiagem são bastante realistas.

“Os garotos perdidos” - título inspirado em "Peter Pan" - é o produto de uma época, e como tal merece ser visto. Quem gosta de filmes com vampiros pode se incomodar com algumas liberdades, mas no geral é um filme de terror assustador de menos e engraçado demais. Sua continuação, lançada direto em DVD há poucos anos, merece ser totalmente ignorada.

Tuesday, August 3, 2010

A ERA DO RÁDIO


A ERA DO RÁDIO (Radio days, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Les Bloom, Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Seth Green, Mia Farrow, Dianne Wiest, Danny Aiello, Wallace Shawn, Julie Kavner, Mike Starr. Estreia: 30/01/87

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Direção de arte/cenários

Nada como um bom Woody Allen engraçado e nostálgico! Emulando o Fellini de "Amarcord", o cineasta nova-iorquino, acostumado a presentear seus fãs com sofisticadas e neuróticas comédias de costumes e/ou densos e profundos dramas psicológicos mostra, em "A era do rádio", que sabe como poucos ter também a saudável melancolia que as memórias de infância sempre proporcionam. "A era do rádio" é um dos mais deliciosos filmes de Allen, mesclando um humor inocente com um delicado retrato de uma época que, apesar dos pesares - e uma grande guerra mundial está entre eles - legou à humanidade muitos talentos artísticos.

O alter-ego de Allen em "A era do rádio" é Joe, um garotinho judeu criado com dificuldades econômicas mas muito amor pelos pais e pela numerosa família, que inclui a casadoira tia Bea (Dianne Wiest, colaboradora constante do cineasta). Vivido por Seth Green - que na década de 90 ficaria conhecido como Scott Evil na série "Austin Powers" - com um misto de ingenuidade e deslumbramento, Joe é testemunha de fatos marcantes (ao menos para seu universo restrito), como a tragédia que envolve uma menina presa em um bueiro e os programas radiofônicos que encantavam sua família. É Joe - adulto, e em uma narração inteligente - que conta também a história de Sally White (Mia Farrow), uma vendedora de cigarros que sonha com o estrelato.

"A era do rádio" é nostalgia pura! Ao evocar um período específico de tempo, Woody Allen destrincha carinhosamente os sentimentos das pessoas da época, retratando a família de Joe de forma emocionante e extremamente engraçada - graças principalmente aos diálogos geniais e o elenco em ótima forma. Apesar de não haver exatamente um protagonista em cena, o diretor dá espaço a excelentes coadjuvantes e participaçõe especialíssimas: rapidamente aparecem no filme Diane Keaton, Jeff Bridges e Danny Aiello, entre outros. Até mesmo o Brasil é homenageado no filme: Denise Dummont aparece cantando "Tico-tico no fubá" e uma cena alto-astral ouve-se a voz de Carmen Miranda...

"A era do rádio" é mais uma pequena obra-prima de Woody Allen, para se assistir com um enorme sorriso no rosto e talvez uma ou outra lágrima nos olhos...

Monday, July 19, 2010

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários

Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.

"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

Wednesday, July 14, 2010

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.

Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

Monday, July 5, 2010

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO


FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84

2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")

Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.

Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.



Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.

Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.

"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.