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Monday, July 18, 2011

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.

Saturday, November 27, 2010

TRAÍDOS PELO DESEJO

TRAÍDOS PELO DESEJO (The crying game, 1992, Miramax Films, 112min) Direção e roteiro: Neil Jordan. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Kant Pan. Música: Anne Dudley. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Martin Childs. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Nik Powell. Produção: Stephen Wooley. Elenco: Stephen Rea, Miranda Richardson, Forest Whitaker, Jaye Davidson, Jim Broadbent. Estreia: 26/9/92

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Neil Jordan), Ator (Stephen Rea), Ator Coadjuvante (Jaye Davidson), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

No biênio 92/93, um dos filmes mais comentados entre os cinéfilos de bom gosto era uma produção irlandesa, realizada com uns trocados, sem astros nos papéis centrais e com uma polêmica reviravolta na sua segunda parte. Dirigido pelo talentoso mas não célebre Neil Jordan, "Traídos pelo desejo" pegou o mundo de surpresa ao provar que, antes de astros musculosos e efeitos visuais, uma história bem contada é o ingrediente mais importante de qualquer produção. Hollywood seria muito mais interessante se seu filme fosse regra e não exceção.


Indicado a 6 importantes Oscar - e vencedor merecido do prêmio de roteiro original - "Traídos pelo desejo" é um dos mais fascinantes estudos sobre lealdade e paixão que o cinema já proporcionou. Imprevisível, forte, adulto e interpretado com garra, o filme de Jordan conduz o público a um labirinto de emoções a que somente um roteiro consistente e um diretor com mão firme conseguem. Tudo começa quando Jody (Forest Whitaker), um soldado inglês, é sequestrado pelo IRA, em represália ao governo. Enquanto espera o desenlace da situação, ele inicia uma espécie de amizade com um dos seus carrascos, o sensível Fergus (Stephen Rea, indicado ao Oscar de melhor ator), e fala a ele sobre sua paixão pela namorada. Depois de um trágico fim para o sequestro, Fergus abandona a luta armada e tenta levar uma vida normal. Consumido pela culpa, ele procura a namorada do soldado, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson) e aos poucos eles iniciam um relacionamento. Depois de uma chocante revelação - que muda totalmente a visão de Fergus e da plateia em relação à moça - o passado do rapaz volta a atormentá-lo: sua colega de exército, Judy (Miranda Richardson, absolutamente fabulosa) o procura e exige que ele faça parte de uma nova ação.


As idas e vindas do roteiro de "Traídos pelo desejo" são absolutamente surpreendentes e não parecem forçadas em momento algum, graças principalmente à inteligência de Neil Jordan em não apressar as situações. Tudo acontece no momento certo, da forma correta, e o elenco escalado por ele não poderia estar em melhores dias. Stephen Rea é um ator extraordinário, que consegue dividir suas cenas com generosidade ímpar: ele joga bem com Whitaker, com Richardson e principalmente com Davidson, em um papel cruel e ingrato, mas que lhe dá a oportunidade de uma carreira. E Miranda Richardson rouba qualquer cena em que aparece, equilibrando um ar psicopata com uma determinação ferrenha de cumprir sua missão - e de quebra reconquistar o amor de Fergus.

Mas e quanto ao grande segredo preparado por Jordan? Apesar de ser o divisor de águas do roteiro - e redirecionar a trama de maneira indelével - a reviravolta na história de amor entre Fergus e Dil é apenas um elemento a mais, ainda que importante, de uma história contada com sutileza e sobriedade. Causou controvérsia, e discussões são sempre saudáveis, mas relegar "Traídos pelo desejo" a um nicho específico de cinema é emburrecer a audiência. "Traídos pelo desejo" é um filme que melhora a cada revisão - e na segunda sessão já não há mais a tal surpresa, o que apenas comprova sua enorme qualidade. Humano, sério e fascinante.Como todo bom cinema!

Friday, August 13, 2010

IMPÉRIO DO SOL


IMPÉRIO DO SOL (Empire of the sun, 1987, Warner Bros, 152min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tom Stoppard, romance de J.G. Ballard. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Bob Ringwood. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Harry Cordwell, Michael D. Ford. Casting: Maggie Cartier. Produção executiva: Robert Shapiro. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Christian Bale, Miranda Richardson, John Malkovich, Joe Pantoliano, Ben Stiller. Estreia: 09/12/87

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som


Depois da frustração de ver seu “A cor púrpura” receber 13 indicações ao Oscar e nenhuma estatueta no final da festa e encher ainda mais os bolsos com a segunda aventura do arqueólogo Indiana Jones, Steven Spielberg tentou de novo comover os eleitores da Academia com um filme sério. Apesar de chegar perto, mais uma vez ele errou a mira. Apesar de belo, emocionante e adulto, “Império do sol”, baseado no livro homônimo do escritor inglês J.G. Ballard recebeu apenas indicações técnicas ao Oscar, o que não deixa de ser uma espécie de injustiça.

Apesar da temática adulta, “Império do sol” tem o ponto de vista de uma criança, no caso o mimado inglês James Graham (o ótimo Christian Bale), que tem sua vida confortável em Pequim abalada pelo ataque japonês a Pearl Harbor, que muda a dinâmica da II Guerra Mundial. Separado dos pais – em uma cena angustiante e bem dirigida – e enviado a um campo de prisioneiros, ele passa a sofrer os horrores da guerra na pele, passando fome, testemunhando violências impensáveis e aprendendo a crescer da pior maneira possível. Seus únicos amigos são um americano cínico (John Malkovich) e um soldado japonês, a quem encontra sempre em momentos inesperados. Encantado por uma inglesa casada (Miranda Richardson), James mantém, no entanto, a sua enorme paixão por aviões e a esperança de reencontrar sua família.

O esnobismo da Academia em relação a “Império do sol”, em um ano em que até mesmo o apenas correto e comercial “Atração fatal” encontrou lugar entre os candidatos a melhor filme só pode ser explicado por uma má vontade dos seus membros. Belissimamente fotografado por Allen Daviau, com uma reconstituição de época primorosa e um elenco em dias iluminados, a começar por um arrasador Christian Bale, de apenas 11 anos de idade e escolhido dentre 4000 crianças, o filme de Spielberg peca apenas, assim como aconteceu em “A cor púrpura”, por ser longo demais. Arrastada em alguns momentos, a saga de James perde o pique e o interesse depois de hora e meia de projeção, para reconquistar a emoção da platéia nos minutos finais, em algumas cenas construídas especificamente para arrancar lágrimas do espectador.

Talvez tenha sido o jogo sentimental de Spielberg que incomodou a Academia (que no entanto é capaz de dar o Oscar para obras como “Laços de ternura”, infinitamente mais explícito e manipulador em suas intenções de emocionar). Talvez o tema II Guerra estivesse cansando os eleitores (o que não explica a presença de “Esperança e glória” entre os finalistas ao Oscar do mesmo ano). O fato certo é que o diretor amadurecia a olhos vistos e, enquanto ficava mais rico a cada filme-pipoca que produzia e/ou dirigia, também adquiria experiência para entregar ao mundo, em pouco mais de cinco anos, a sua obra-prima, "A lista de Schindler".