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Friday, February 25, 2011

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS (Fargo, 1996, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 98min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel & Ethan Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Lauri Gaffin. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare, Kristin Rudrud, Harve Presnell, John Carroll Lynch. Estreia: 08/3/96

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joel Coen), Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (William H. Macy), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Frances McDormand), Roteiro Original
Palma de Ouro Festival de Cannes: Melhor Diretor (Joel Coen)

Afinal de contas, a que gênero cinematográfico pertence o filme "Fargo, uma comédia de erros"? Ora uma comédia de humor negro, ora um policial repleto de surpresas, ora uma mordaz crítica ao modo de vida dos "caipiras" americanos, o 6º longa dos irmãos Coen - queridinhos da crítica desde a década de 80 - aprimorou seu estilo mezzo anárquico mezzo subsersivo de forma a finalmente conquistar a sisuda Academia. Indicado a sete estatuetas do Oscar, levou duas - roteiro original e atriz - provando que, de vez em quando, boas ideias e inteligência são mais importantes que efeitos mirabolantes e orçamentos inchados. Desde que surgiram no cenário artístico americano - com o noir tardio "Gosto de sangue", de 1984 - Joel e Etan Coen nunca fizeram nada que não merecesse elogios rasgados da crítica. Roteiristas, diretores, produtores e até mesmo editores (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes), eles são uma indústria de dois homens. E "Fargo" é uma de suas obras-primas.


Fargo é uma pequena cidade do interior de Dakota do Norte, onde acontece o encontro que dá o pontapé inicial à trama criada pelos Coen - falsamente indicada como uma história real nos créditos de abertura. É em um bar esfumaçado de Fargo que o Jerry Lundegaard (William H. Macy) conhece os mal-encarados  Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), recomendados por um colega de trabalho. Gerente de uma concessionária de automóveis, Jerry tem um plano aparentemente infalível para arrumar o dinheiro que lhe dará a oportunidade de investir em um negócio próprio: ele contrata os dois desconhecidos para que sequestrem sua esposa e peçam resgate a seu rude e seco sogro (Harve Presnell). Quando as coisas saem do controle - e corpos começam a se acumular - entra em cena Marge Gunderson (Frances McDormand), uma policial grávida de muitos meses que, detalhista e dedicada, tem como missão resolver o caso dos assassinatos ocorridos em sua jurisdição.


A recepção calorosa dos membros da Academia a "Fargo" é fácil de entender. Apesar de manter intactas as principais características de seu cinema - e até exagerá-las em determinadas sequências - Joel e Ethan Coen atingem, aqui, um equilíbrio raro entre a subversão e o mainstream. O visual apurado - cortesia de uma fotografia gélida de Roger Deakins - está um passo acima de seus trabalhos anteriores, e é brilhante a forma como o roteiro escrito a quatro mãos é conciso e assertivo. Sem apelar para as complicações de "Ajuste final", por exemplo, os irmãos contam sua história de forma direta, evitando ao máximo desviar a atenção da audiência para tramas paralelas. E, ao contrário da regra não escrita que dita que um filme policial precisa ser levado a sério e uma comédia não deve recorrer à violência, embaralham as cartas de maneira a surpreender o público a cada nova cena. E para isso, contam com personagens quase inacreditáveis vividos por um elenco nunca aquém de brilhante.


O humor nos filmes dos irmãos Coen é absolutamente particular. Não desperta gargalhadas histéricas nem tampouco é fácil ou comum, surgindo sempre da ironia, e isso nunca foi tão óbvio quanto em "Fargo". Os cadenciados diálogos que movem a história de morte e violência encontram em atores sensacionais sua voz perfeita. William H. Macy começa aqui uma galeria de homens fracassados que encontraria o auge em sua parceria com o diretor Paul Thomas Anderson, nos filmes "Boogie nights" e "Magnólia", onde viveria respectivamente um marido traído e um ex-gênio precoce decadente. Sua indicação ao Oscar de ator coadjuvante foi justíssima e um prêmio não seria imerecido - principalmente se for levado em conta que perdeu a estatueta para o exagerado Cuba Gooding Jr.. Steve Buscemi e Peter Stormare formam uma dupla impecável em suas diferenças cruciais - e Stormare consegue ser apavorante nos momentos mais fortes do filme. Mas é Frances McDormand quem rouba descaradamente a cena, em uma interpretação genial, felizmente reconhecida com uma estatueta dourada.


Falando com um sotaque absurdo - e com uma naturalidade impressionante - McDormand faz de sua Marge uma personagem multidimensional, alternando sua personalidade metódica de policial com a doçura de uma futura mãe. É McDormand, com suas inflexões vocais e físicas (seu rosto é excepcional para comunicar-se com o público mesmo sem uma palavra dita) que parece dar um sentido de ordem à bagunça orquestrada pelos realizadores. Suas cenas com John Carroll Lynch - que vive seu marido dono-de-casa - são tranquilas, quase tediosas, como forma de demonstrar sua vida doméstica. Quando contracena com William H. Macy transforma-se em uma mulher forte que esconde sua inteligência atrás do barrigão de gestante. Com seus interrogados ela transmuta-se no que for preciso para arrancar informações. Como atriz, McDormand - esposa de Joel Coen - é digna de arrancar os maiores elogios possíveis.


"Fargo" é uma pequena pérola do cinema independente americano. Realizado com meros 7 milhões de dólares, é uma prova cabal de que pouco dinheiro nunca foi desculpa para falta de talento. Mesmo não agradando a todos os tipos de público - cuja maioria prefere assistir sempre a filmes mais "comuns" - é uma obra que une a ousadia do cinema de autor com a qualidade técnica da indústria hollywoodiana.

Thursday, November 25, 2010

CÃES DE ALUGUEL

CÃES DE ALUGUEL (Reservoir dogs, 1992, Miramax Films, 99min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Casting: Ronnie Yeskel. Produção executiva: Richard N. Gladstein, Monte Hellman, Ronna B. Wallace. Produção: Lawrence Bender. Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Lawrence Tierney, Chris Penn, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Edward Bunker. Estreia: 08/10/92

Poucas vezes um filme de estreia causou tanta balbúrdia quanto "Cães de aluguel", primeiro trabalho do ex-balconista de videolocadora Quentin Tarantino por trás das câmeras. Logo de cara o jovem (então com 32 anos) foi comparado a ninguém menos que Martin Scorsese, principalmente devido à sua temática e violência. E o pior (ou melhor, no caso) é saber que todos os elogios que recebeu foram amplamente merecidos. Realizado com pouco mais de um milhão de dólares, o filme de Tarantino em nenhum momento deixa transparecer seu orçamento irrisório. O motivo? Seu foco no texto, nos atores e na tensão constante.

Escrito em três semanas e meia e filmado em 35 dias, "Cães de aluguel" é talvez o mais influente filme independente americano de todos os tempos. Estiloso, cru, empolgante e realista ao extremo, é também um policial excitante e enxuto, que não deixa a plateia respirar nem por um minuto depois de seu hilário texto inicial - onde as personagens discutem teorias a respeito de canções de Madonna. Depois dos créditos de abertura, a ação começa e ganha um doce quem conseguir desgrudar os olhos da tela.


Os "cães de aluguel" do título são um grupo de bandidos reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para o assalto a uma joalheria. Todos chamados por pseudônimos para que não se saiba nada a respeito um do outro, eles armam um plano aparentemente perfeito que dá muito errado. A chegada da polícia, um tiroteio e algumas vítimas fatais - inclusive entre os criminosos - levam os sobreviventes a um galpão abandonado, onde eles haviam combinado de encontrar-se. Lá, o veterano Mr. White (Harvey Keitel) tenta acalmar Mr. Orange (Tim Roth), mortalmente ferido no estômago e, ao lado do nervoso Mr. Pink (Steve Buscemi), tenta descobrir quem, no grupo, é o informante da polícia. A chegada do psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen), com um policial de refém, deixa as coisas ainda mais tensas. É somente quando Cabot e seu filho, Nice Guy Eddie (Chris Penn) chegam que tudo se encaminha para um final extremamente violento.


Co-produzido por Harvey Keitel - que leu o roteiro e apaixonou-se à primeira vista - "Cães de aluguel" já demonstra o estilo que caracterizaria a obra de Quentin Tarantino nos anos subsequentes: os diálogos rápidos e espertos (recheados de cultura pop), a edição frenética (a cargo de Sally Menke, morta precocemente este ano), a trilha sonora composta por pérolas trash e principalmente a escolha acertadíssima do elenco. O próprio cineasta atua no filme, como Mr. Brown, mas ambicionava o papel de Mr. Pink, interpretado com propriedade por Steve Buscemi - depois que George Clooney (ainda um ninguém na indústria) foi recusado. É admirável perceber como os atores escolhidos pelo diretor casaram perfeitamente com seus papéis. Tim Roth e Harvey Keitel tem uma química invejável, Chris Penn tem o melhor trabalho da carreira e Michael Madsen merece louvores à parte pela composição inesquecível do psicótico Mr. Blonde, dono da cena mais controversa de toda a obra.

Não houve quem tenha assistido a "Cães de aluguel" sem comentar - ou ao menos se chocar - com a famosa sequência em que Mr. Blonde tortura o policial feito de refém - a ponto de arrancar-lhe uma orelha. Assustadora e quase explícita, ela foi motivo de conversas em mesas de bares, discussões sobre a violência no cinema e proporcionou a Michael Madsen o momento mais marcante de sua carreira. A imagem de sua personagem tomando calmamente um milk-shake antes de partir para a ignorância fria e calculada é de arrepiar qualquer cinéfilo, que tem, inclusive, em "Cães de aluguel" algumas imagens marcadas na retina para sempre.


O grupo de criminosos vestidos de paletó e gravata no início do filme - que virou inclusive parte do logotipo da produtora de Tarantino, A Band Apart - Harvey Keitel dando pontapés em um Steve Buscemi caído no chão e a poderosa imagem de quatro dos "amigos" apontando armas uns para os outros no clímax são cenas de grande impacto visual e uma mostra do talento inegável do diretor já em seu primeiro trabalho - um talento que, apesar de alguns detratores dizerem o contrário, foi apenas se refinando com o tempo e a maturidade. E o roteiro - trabalhado fora de ordem cronológica, outra característica de Tarantino - é conciso, inteligente e verossímil sem, porém, apelar para a previsibilidade.


"Cães de aluguel" é uma das melhores estreias da história do cinema, quer goste-se ou não. Rendeu imitações, homenagens e citações. Mas mantém seu frescor e força apesar da distância do tempo.
 

Wednesday, September 22, 2010

CONTOS DE NOVA YORK


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, 1989, Touchstone Pictures, 124min) Estreia: 01/3/89

"Lições de vida" (Life lessons) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Thelma Schoonmaker. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina F. Ramsey. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara DeFina. Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi

"A vida sem Zoe" (Life without Zoe") Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola & Sofia Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Barry Malkin. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George DeTitta Jr. Casting: Aleta Chappelle. Produção executiva: Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Heather McComb, Talia Shire, Giancarlo Giannini

"Édipo arrasado" (Oedipus wrecks) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel


A ideia parecia genial e infalível: reunir 3 dos maiores cineastas americanos em atividade no mesmo filme, cada um contando uma história curta passada no mesmo cenário natural preferido por 10 entre 10 diretores, a bela Nova York. No entanto, mesmo com o talento inegável dos escolhidos para a empreitada, "Contos de Nova York" sofre do mesmo mal de quase todos os filmes do mesmo formato: irregularidade. E se Francis Ford Copolla e Martin Scorsese tiveram a coragem de afastar-se dos estilos pelos quais ficaram consagrados, é Woody Allen quem se sai melhor, justamente por apresentar mais do mesmo de maneira engraçada e refrescante.

O filme começa bem, com a belíssima canção "A whiter shade of pale", do grupo Procol Harum, tocando durante os créditos de abertura de "Lições de vida", orquestrado por Scorsese. Dessa vez, o nova-iorquino que mostra o lado obscuro da Grande Maçã conta uma história de amor e criatividade: o pintor Lionel Dobie (vivido com garra por Nick Nolte) não consegue superar o fim de seu relacionamento com a aprendiz e assistente (Rosanna Arquette), que o abandonou para ficar com um performer (o ótimo Steve Buscemi). Ainda dividindo com ela o enorme loft que habita, ele trabalha furiosamente como forma de sublimar o despeito e o sofrimento. Contando com a ajuda de uma caprichada trilha sonora (que inclui Rolling Stones, entre outros), Scorsese deixa de lado a violência e a vida marginal de seus protagonistas anteriores para mergulhar na mente de um homem talentoso mas um tanto auto-destrutivo, que vê no amor sua maior inspiração. Apesar da forma elegante com que o diretor conta sua história, no entanto, ela não consegue seduzir a audiência, em parte pela falta de carisma de Lionel Dobie, um anti-herói romântico, que busca conquistar a amada da maneira menos adequada possível. Também não ajuda a quase apatia de Rosanna Arquette, insípida como sempre. É um Scorsese com qualidades, mas bastante aquém do esperado.

Coppola, por sua vez, apela para um tom infanto-juvenil em seu segmento. Em seu roteiro, "A vida sem Zoe", co-escrito por sua filha Sofia - que levaria um Oscar quinze anos depois por "Encontros e desencontros" - ele utiliza elementos de fábula ao contar a história da pré-adolescente Zoe (Heather McComb), que vive confortavelmente em um hotel de Manhattan enquanto seus ocupados e milionários pais - um flautista internacional e uma fotógrafa - vivem em constantes viagens. Quando faz amizade com um novo colega de escola - mais rico ainda do que ela -, Zoe tem a oportunidade de salvar o casamento dos pais. Simplista e quase raso, o desenvolver da trama é sonolento, prejudicado por uma protagonista sem carisma e uma trama sem maiores interesses. O visual também não é exatamente atraente, o que deixa no público a sensação de que falta alguma coisa, quando finalmente os créditos finais aparecem. É, das três histórias a menos bem-sucedida, ainda que não deixe de ser simpática, em certos momentos.

E chegamos a Woody Allen e seu "Édipo arrasado". Desde o início, com os créditos inconfundíveis de seus filmes, percebe-se que Allen não quis inovar em absolutamente nada: temática, elenco e equipe técnicas de seus trabalhos anteriores comparecem fielmente e dão à plateia os melhores momentos do longa. A trama busca o surreal, mas ainda assim, o estilo claro do diretor é facilmente percebível. O próprio Allen interpreta o protagonista, um advogado relativamente bem-sucedido que no entanto não consegue livrar-se do assédio exagerado da mãe (Mae Questel), uma típica mãe judia que o super-protege e lhe causa extremos embaraços. Um dia, em um programa familiar com ela, sua nova namorada (Mia Farrow) e os filhos pequenos desta, ele vê seus sonhos se realizarem: sua mãe desaparece durante um truque de mágica. Mas como nada é perfeito, ela reaparece, nos céus de Nova York, falando com ele e quem quiser ouvir, além de mostrar fotos e contar histórias vergonhosas de sua infância. Só quem parece poder lhe ajudar é uma confusa esotérica (Julie Kavner). Às vésperas de lançar "Crimes e pecados", uma de suas obras-primas um tanto pessimistas, Allen brinca com sua persona cinematográfica, levando a plateia ao riso fácil e descompromissado do início de sua carreira, e dando à ótima Julie Kavner a oportunidade de demonstrar seu grande talento (como já havia feito em "A era do rádio").

No final das contas, "Contos de Nova York" não é exatamente um filme genial, a despeito de seus créditos. Mas é sempre interessante perceber que até mesmo os mais talentosos cineastas do mundo conseguem ser simples e delicados.