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Tuesday, June 29, 2010

TOOTSIE


TOOTSIE (Tootsie, 1982, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Murray Schisgal, Larry Gelbart, história de Don McGuire e Larry Gelbart. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Tom Tonery. Casting: Toni Howard, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Charles Evans. Produção: Sydney Pollack, Dick Richards. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Dabney Coleman, Teri Garr, Charles Durning, Sydney Pollack, Bill Murray, Geena Davis. Estreia: 17/12/82

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Teri Garr, Jessica Lange), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Canção ("It might be you"), Som

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)


De um lado, uma história sobre um tenista que desiste da operação de mudança de sexo, contentando-se em vestir-se de mulher. Do outro, a história de um ator desempregado que encontra trabalho como atriz em uma telenovela. No meio disso tudo, a ideia do ator Dustin Hoffman de interpretar ao mesmo tempo um homem e uma mulher, vinda da época em que filmava "Kramer X Kramer". Dessa mistura de ideias surgiu uma das comédias mais brilhantes da década de 80, que misturava humor de vaudeville, romance, sátira ao feminismo e uma feroz crítica à futilidade do mundo teatral: "Tootsie", dirigida por Sydney Pollack e que recebeu generosas 10 indicações ao Oscar em 1982.

Hoffman, em mais uma brilhante interpretação, vive Michael Dorsey, um ator tão talentoso quanto genioso que atravessa um difícil período de dois anos sem trabalho. Insatisfeito com o emprego de garçom, ele sonha em produzir uma peça escrita por seu colega de apartamento, Jeff Slater (Bill Murray), mas não encontra quem queira lhe oferecer uma chance nos palcos, nem mesmo com a ajuda de seu agente (o diretor Sydney Pollack, com um segundo contra-cheque como ator). Ao acompanhar a amiga Sandy (Teri Garr) a uma audição, que vai escolher a atriz para participar de uma telenovela vespertina, ele tem ideia de vestir-se de mulher e tentar o papel. Com o nome de Dorothy Michaels, ele não apenas é contratado como torna-se um ícone dos novos direitos femininos ao enfrentar o domínio masculino no programa. Seu sucesso começa a incomodá-lo quando ele passa a ser assediado por Lesley (Charles Durning), o pai de sua colega de elenco, Julie Nichols (Jessica Lange), por quem ele se apaixona.

O quiproquó criado pelo roteiro indicado ao Oscar é de uma delícia shakespereana. Assim como em "A comédia dos erros", Michael/Dorothy se vê enredado em uma confusão que se complica a cada cena. Ao tentar aproximar-se de Julie, ele se afasta de Sandy, que tem por ele intenções bem pouco profissionais, e encara a rejeição ao ser confundida com uma lésbica. Não consegue sair do elenco da novela graças a seu êxito impressionante e um contrato milionário. E não consegue desvencilhar-se de Lesley sem revelar a ele sua verdadeira identidade. Inteligente, sarcástico e de um bom-humor contagiante, o script se aproveita do verdadeiro show de Hoffman, que pinta e borda em um papel que lhe proporciona todas as chances de mostrar - mais uma vez - seu imenso talento.

O trabalho de composição de Hoffman, aliás, é digno de figurar em qualquer antologia de grandes atuações do cinema. Não apenas o genial figurino de Ruth Morley e a maquiagem sutil mas eficaz, mas todo o conjunto criado pelo ator é impressionante. O tom da voz de Dorothy Michaels (para a qual Hoffman contou com o auxílio de Meryl Streep), seu sotaque, seu modo de andar fazem parte de um contexto que empurra o espectador em direção ao universo quase surreal proposto por Pollack. E o ator - que perdeu o Oscar para Ben Kingsley em "Gandhi" - tem a sorte suprema de contar com um elenco coadjuvante igualmente de se tirar o chapéu.

Em cena em "Tootsie", Dustin Hoffman é cercado por atores em dias inspirados, que pontuam com precisão seu espetáculo particular. Bill Murray - que improvisou todas as suas falas -, Charles Durning e Sydney Pollack estão em alguns de seus melhores momentos e Teri Garr demonstra um timing cômico irrepreensível. Jessica Lange, na pele da doce Julie Nichols teve ainda mais sorte e levou o Oscar de atriz coadjuvante no mesmo ano em que concorria também na categoria principal pelo filme "Frances". Donos de uma química perfeita, eles formam uma equipe vitoriosa que transformam o delicioso texto em uma delirante comédia romântica.

Aliás, é preciso dar grande crédito ao roteiro de "Tootsie". O seu perfeito equilíbrio entre piadas relacionadas ao mundo artístico e seu tom delicado de contar uma história de amor cativa a audiência sem apelar para risadas fáceis e nem mesmo para o piegas. É bastante sintomático, inclusive, que não haja, durante suas quase duas horas de duração, nenhum beijo entre seus protagonistas, o que não impede de forma alguma a credibilidade de seus sentimentos.

No fim das contas "Tootsie" continua se mantendo como uma das mais admiráveis comédias realizadas em Hollywood, capaz de encantar o público de hoje com a mesma sutileza de quase trinta anos atrás.

Monday, June 28, 2010

APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU 2


APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU II (Airplane II: The Sequel, 1982, Paramount Pictures, 85min) Direção e roteiro: Ken Finkleman. Fotografia: Joe Biroc. Montagem: Tina Hirsch, Dennis Virkler. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould. Casting: Lisa Freiberger. Produção: Howard W. Koch. Elenco: Robert Hays, Julie Hagerty, Lloyd Bridges, Peter Graves, William Shatner, Raymond Burr, Rip Torn. Estreia: 10/12/82

Entusiasmados com o enorme sucesso de seu filme "Apertem os cintos, o piloto sumiu", lançado em 1980, seu trio de diretores conhecido por ZAZ (Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker) imediatamente concordou com a ideia de uma sequência - fato que não era ainda a febre que é hoje. Quando eles desistiram do projeto, no entanto, a ideia não foi descartada. Com Ben Finkleman no comando, "Apertem os cintos 2" estreou com bem menos estardalhaço do que seu capítulo original, o que jogou no lixo a pretensão de uma trilogia. Apesar disso, seu fracasso comercial não deixa de ser injusto, uma vez que mantém o tom debochado e o humor nonsense do primeiro filme, ainda que sem os seus lampejos de criatividade e o senso de novidade. No final das contas, é um filme bastante divertido, um entretenimento passageiro capaz de animar uma tarde chuvosa sem exigir muito do cérebro.

Enquanto o filme original lidava com um envenamento alimentar que impedia a tripulação de um avião a continuar a viagem, obrigando um veterano de guerra a assumir o controle da aeronave, dessa vez a trama gira em torno do primeiro vôo comercial terrestre em direção à Lua. O protagonista do primeiro filme, Ted Striker (Robert Hays) se vê novamente no comando da situação quando uma pane na fiação do avião o força a reviver o pesadelo que de certa forma separou-o da mulher que ama, a comissária de bordo Elaine (Julie Hagerty), agora promovida a assistente de informática da nave e noiva de um comandante que deseja vê-la como dona de casa.

"Apertem os cintos, o piloto sumiu 2" é mais do mesmo. Piadas verbais intraduzíveis - e muitas vezes engraçadíssimas - dividem espaço com gags visuais que acontecem até mesmo em segundo plano. Atores conhecidos tiram sarro da própria imagem (Lloyd Bridges repete o papel do primeiro filme e William Shatner rouba a cena sempre que aparece). Situações absurdas se equilibram com piadas tão infames que chegam a ser brilhantes. E citações a sucessos de bilheteria estão presentes a toda hora (de cara nota-se referências a "ET", "Rocky", "Star wars", "Star trek" e "2001").

Mesmo que jamais possa ser considerado uma obra-prima - até mesmo porque, como já foi dito, não tem o mesmo sabor de novidade do primeiro filme - "Apertem os cintos 2" é um passatempo ligeiro que cumpre exatamente o que promete: boas risadas politicamente incorretas em pouco menos de uma hora e meia de duração.

Sunday, June 27, 2010

GANDHI


GANDHI (Gandhi, 1982, Columbia Pictures, 191min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Fotografia: Ronnie Taylor, Billy Williams. Montagem: John Bloom; Música: Ravi Shankar. Figurino: Bhanu Athaiya, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Michael Stanley-Evans. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Nigel Hawthorne. Estreia: 08/12/82

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte, Maquiagem, Som

Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte

Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Ator/Drama (Ben Kingsley), Diretor (Richard Attenborough), Roteiro, Melhor Estreia Masculina (Ben Kingsley)


Mahatma ("Grande Espírito") Gandhi foi uma das personaliades mais fascinantes do mundo, um advogado inteligente e sensível que, baseado em sua filosofia de não-violência liderou a batalha pela independência da Índia das mãos do império britânico. Assassinado em 1948, tornou-se símbolo da luta pela paz e pela igualdade. E é a personagem principal da cinebiografia que, dirigida por Richard Attenborough, foi um dos maiores papa-Oscar da década de 80. Disputando o prêmio máximo com obras como "ET", de Steven Spielberg e "Tootsie", de Sydney Pollack (ambos grandes sucessos de bilheteria), "Gandhi" levou a a estatueta de Melhor Filme e foi premiado em outras sete categorias. Prova tanto do poder de seu gênero - cinebiografias épicas - em fascinar a Academia quanto da beleza e da importância de sua história.

Projeto de estimação do diretor inglês Attenborough (que dez anos mais tarde comandaria o menos bem-sucedido "Chaplin"), a biografia do pacifisita indiano não despertou muito interesse dos estúdios hollywoodianos, o que o obrigou a recorrer a artifícios variados, como vender sua parte dos direitos sobre a peça de teatro "A ratoeira", de Agatha Christie. Além de comprometer-se em dirigir outros dois filmes para o produtor Joseph E. Levine, ele contou com a ajuda do amigo e produtor executivo Jake Eberts e de companhias de cinema inglesas. O custo do filme, de 22 milhões de dólares foi coberto - principalmente depois dos Oscar, quando sua bilheteria chegou perto de 53 milhões. Comparando com "ET", por exemplo, que rendeu mais de 300 milhões não chega a ser uma marca impressionante, mas o é levando-se em consideração vários aspectos de sua natureza.

Primeiro, "Gandhi" não é um filme de puro entretenimento. Apesar de ser tranquilamente recomendável para qualquer idade, uma vez que não abusa de violência desnecessária nem tampouco utiliza de sexo e palavrões para conquistar uma audiência menos intelectualizada, o filme de Attenborough é bastante lento (dura mais de três horas), tem um assunto um bocado específico (e muitas vezes exige um certo conhecimento histórico do público) e foge do tradicional "final edificante e moralizador", uma vez que o filme todo passa uma mensagem de paz e tolerância. "Gandhi" é um filme adulto, feito para adultos e com intenções bem mais nobres do que simplesmente angariar fortunas. E nesse objetivo ele acerta magistralmente.

Tecnicamente "Gandhi" é uma maravilha. Belissimamente fotografado e com uma reconstituição histórica e épica impecáveis, é um trabalho cuidadoso, feito notadamente com um carinho e uma dedicação raras. Narrado de forma quase didática, a trajetória de seu protagonista em direção a uma Índia mais igualitária e menos opressiva tenta seduzir sua audiência pela beleza, pela delicadeza, pela sinceridade, e para isso conta com uma atuação irretocável de Ben Kingsley, ele próprio descendente de indianos. Ao ficar com o papel cobiçado por Alec Guinness, Anthony Hopkins, John Hurt e até mesmo Dustin Hoffman (!!) ele entregou uma interpretação quase mediúnica de Gandhi, um trabalho inesquecível e comovente.

"Gandhi" não é um filme perfeito. Muitas vezes um tanto cansativo - culpa talvez do roteiro que insiste em mostrar prisões e greves de fome de sua personagem central repetidas vezes -, é uma obra que exige de sua plateia uma dedicação e uma entrega maiores do que o que acontece normalmente. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme que precisa ser visto e aplaudido, pelo que ele é e principalmente pela personalidade que retrata.

Saturday, June 26, 2010

BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES


BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Blade Runner, 1982, Warner Bros, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Hampton Fancher, David Peoples, conto "Do androids dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Gillian L. Hutsching. Música: Vangelis. Figurino: Michael Kaplan, Charles Knode. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Hampton Francher, Brian Kelly. Produção: Michael Deeley. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, M. Emmet Walsh, Joanna Cassidy. Estreia: 25/6/82

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais

Definitivamente, quando o assunto é cinema, o tempo é um santo remédio. Quando estreou nos EUA, em 1982, o filme "Blade Runner, o caçador de andróides" foi um fiasco de bilheteria (mesmo estrelado pelo Indiana Jones em pessoa Harrison Ford) e praticamente expulso das salas de exibição devido a críticas negativas. Mesmo tornando-se cult por parte do público, entraria para a história como um dos maiores fracassos da história se, no final da década não fosse descoberta a cópia de uma outra versão do filme, sem as interferências do estúdio no trabalho de seu diretor, Ridley Scott. Essa nova versão tornou-se quase uma lenda urbana, e dez anos depois de sua estreia, voltou às telas de cinema e finalmente recebeu os aplausos que sempre mereceu. Hoje já é reconhecido como uma das obras-primas de seu gênero.

Gênero, aliás, é algo não extremamente rígido em se tratando de "Blade Runner". Apesar de ser nitidamente uma ficção científica - com tudo que isso lhe dá de direito - a visão de Scott (vindo direto do sucesso de "Alien, o oitavo passageiro") dialoga diretamente com os filmes noir que fizeram a glória do cinema americano dos anos 40. Tudo devido ao excelente roteiro inspirado livremente no conto "Do androis dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick, que mistura elementos de uma trama policial a uma visão distópica da sociedade do futuro. Passado na Los Angeles de 2019 (ao contrário do conto original, que situava sua trama em 1992), "Blade Runner" mostra uma Terra ultrapovoada, úmida e claustrofóbica que há muito já coloniza outros planetas, através de escravos criados com as principais características humanas, mas com sua força e agilidade redobradas. Esses robôs são chamados "replicantes" e um motim deles deflagra uma caçada violenta e impiedosa, uma vez que suas mortes não são chamadas de assassinato e sim de "aposentadoria". Essa rebelião faz com que um grupo de replicantes volte à Terra e um antigo caçador de andróides, Deckard (Harrison Ford) seja chamado para eliminá-los. Em seu caminho, ele conhece a bela Rachael (Sean Young), secretária da imponente Tyrrell Corporations - que fabrica os replicantes - e se apaixona por ela, mesmo sabendo que ela não é humana. Ao mesmo tempo que lida com isso, ele chega mais e mais perto do líder da rebelião dos robôs, o temido Roy Batty (Rutger Hauer) e passa a questionar sua missão.

O mais impressionante no resultado final de "Blade Runner" é que, qualquer que seja a versão a ser assistida ele continua sendo magicamente fascinante. A narração em off da versão lançada em 1982, mesmo sendo desprezada por Harrison Ford, acrescenta um toque a mais de noir à trama e só peca por seu final feliz exigido pela Warner. A versão do diretor é mais "artística", com o acréscimo de alguns detalhes que fomentam a discussão crucial do filme: afinal de contas Deckard era ou não um replicante, também? Nenhuma conclusão definitiva pode ser considerada, uma vez que nem mesmo os criadores do filme chegam a um consenso. É preciso ver, rever e examinar com cuidado cada cena criada por Scott e companhia para que se tente chegar a um veredicto. Mas será que isso realmente importa?

"Blade Runner", mais do que um filme sobre um homem caçando andróides em um futuro nada auspicioso, é uma bela reflexão sobre os elementos que fazem o ser humano ser "humano", sobre a liberdade, sobre o amor e principalmente sobre a ambição dos homens em brincar de Deus. Ao inserir filosofia em uma trama que normalmente passaria como uma ficção científica com o objetivo de arrecadar fortunas, o inglês Ridley Scott brindou os fãs de cinema com um um filme de uma perenidade inegável. A bela trilha sonora de Vangelis, sua direção de arte high-tec mas nunca exagerada e a fotografia quase palpável de Jordan Cronenweth o elevam acima do corriqueiro. E não deixa de ser saudável perceber que, no mesmo ano em que "ET" - um filme puramente de entretenimento que utilizava elementos de ficção científica para emocionar sem exigir demais do cérebro - foi lançado, tenha chegado às telas um petardo como este, que não apenas faz pensar como ainda não busca a emoção fácil.

"Blade Runner" é, sim, uma obra-prima. Independente da leitura que se faça de suas intenções, é um filme que conseguiu sair do limbo dos fracassos comerciais para o paraíso do reconhecimento tardio. Afinal, nunca é tarde para reconhecer-se erros de julgamento...

Friday, June 25, 2010

ET, O EXTRA-TERRESTRE


ET, O EXTRATERRESTRE (ET, the extra-terrestrial, 1982, Universal Pictures, 115min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Melissa Mathison. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Jackie Carr. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg. Elenco: Henry Thomas, Dee Wallace, Drew Barrymore, C. Thomas Howell, Peter Coyote, Robert MacNaughton. Estreia: 11/6/82

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora


De vez em quando, para se gostar de um filme, é necessário deixar de lado a razão e embarcar na proposta do diretor. É o que acontece com “ET, o extra-terrestre”, sucesso absoluto de Steven Spielberg. Quem começar o filme esperando ver uma ficção científica com elocubrações filosóficas sobre a origem do universo, vai perder duas horas da vida. Mas quem entrar no espírito da coisa e baixar a guarda provavelmente sairá da sessão com lágrimas nos olhos e uma sensação de paz e serenidade no coração. Exagero? Vai dizer isso pras milhões de pessoas que lotaram os cinemas mundo afora e se emocionaram a valer com a história da amizade entre o menino Elliot (Henry Thomas) e seu extra-terrestre de estimação.

Elliot, o protagonista do filme, é uma criança como outra qualquer. Ainda sofrendo com a separação dos pais, ele sente-se rejeitado pelo irmão mais velho e, sem ter amigos da sua idade para brincar, ele encontra, na garagem de sua casa, um extra-terrestre que ficou na Terra por engano. A princípio temeroso, aos poucos o menino deixa-se levar pelo carinho que sente por ET e o apresenta a sua irmãzinha Gertie (Drew Barrymore) e ao resto de sua família. A coisa começa a ficar complicada quando agentes do governo descobrem a existência do ser alienígena e resolvem caçá-lo. É a partir daí que a genialidade de Spielberg se revela.

Ao eleger a inocência infantil como a maior qualidade que um ser humano ou extra-terrestre pode ter, o diretor optou por rotular os adultos (que, com exceção da mãe de Elliot não tem seus rostos mostrados até o terço final) como vilões e, sem que se perceba de imediato, o público já voltou à infância, está torcendo por Elliot e sua turma e de jeito nenhum fica questionando se bicicletas podem voar. Por um par de horas o público, da idade que for, volta a ser criança. E a câmera, sempre do ponto de vista infantil, só ajuda no efeito, assim como a inesquecível música de John Williams.

“ET” levou quatro Oscar pra casa: efeitos visuais, trilha sonora, efeitos sonoros e som. Não ficou com a estatueta de melhor filme, que foi parar nas mãos da “adulta e séria” cinebiografia de Mahatma Gandhi. Os fãs da pequena obra-prima de Spielberg, no entanto não se importam. Crianças, de idade e de alma, não se importam com prêmios e sim com o que fica em sua memória. E não há quem assista a “ET” e esqueça de sua bela história, que, a despeito dos inspirados efeitos especiais, se mantem como seu principal ingrediente.

Thursday, June 24, 2010

POLTERGEIST, O FENÔMENO


POLTERGEIST, O FENÔMENO (Poltergeist, 1982, MGM Pictures, 114min) Direção: Tobe Hopper. Roteiro: Steven Spielberg, Michael Grais, Mark Victor, história de Steven Spielberg. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Michael Kahn. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte/cenários: James H. Spencer/Cheryal Kearney. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção: Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Jobeth Williams, Craig T. Nelson, Beatrice Straight, Heather O'Rourke, Dominique Dunne, Oliver Robins, Zelda Rubinstein. Estreia: 04/6/82

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Houve uma época, nos primórdios de Hollywood em que quem dava as cartas era o produtor. Pois é o que parece acontecer em “Poltergeist, o fenômeno”. Mesmo sendo assinado pelo diretor Tobe Hopper, ele passa a nítida impressão de que é um produto típico de seu produtor, Steven Spielberg, na época colhendo os louros do sucesso de "Os caçadores da arca perdida" e em vias de estrear o ainda mais bem-sucedido "ET, o extra-terrestre". Quando o filme acaba, depois de duas horas de um ritmo acelerado e tenso, fica na cara quem foi que deu a palavra final em sua realização. Dono de um estilo facilmente identificável, Spielberg deixa sua marca inconfundível em cada momento do filme, um grande sucesso de bilheteria que busca sua maior inspiração nos antigos filmes de terror que contavam, como elemento central, com uma casa mal-assombrada.

Os protagonistas de "Poltergeist" são uma tipica família classe-média americana. O pai, Steven (Craig T. Nelson) trabalha em construção civil, e a mãe, Diane (Jobeth Williams) dedica-se ao lar e aos três filhos. Eles moram um bucólico subúrbio americano (primeiro sinal da presença de Spielberg na concepção do projeto) e são um exemplo perfeito de um núcleo familiar saudável e feliz - mesmo que, de vez em quando, os pais ainda tentem resgatar sua juventude através de baseados fumados sorrateiramente em seu quarto. A família Freeling vive suas vidas de forma tranquila e organizada até que acontecimentos sobrenaturais começam a surpreendê-los. Cadeiras passam a mover-se sozinhas, talheres entortam, portas se abrem sozinhas. A transição entre "interessante" e "apavorante" acontece quando, depois de uma noite de tempestade, a caçula da família, Carol Anne (Heather O'Rourke) desaparece misteriosamente e, para espanto geral, parece estar presa em uma outra dimensão, cujo canal de contato é o aparelho de televisão. Contando com a ajuda de parapsicólogos (entre eles a ótima veterana Beatrice Straight e a bizarra Zelda Rubinstein como Tangina), eles tentam recuperar a menina, enquanto revelações sobre a maneira como a casa foi construída explicam os motivos de toda a desgraça que se abate sobre a família.

Na verdade, "Poltergeist" É um filme de Steven Spielberg, que não pôde assiná-lo porque o sindicato dos diretores não permitia, na época de seu lançamento, que um cineasta trabalhasse em dois projetos simultaneamente - e "ET" estava sendo realizado ao mesmo tempo. Isso explica porque, por exemplo, apesar de ser um filme de terror na acepção mais clássica do termo, não haja, nele, nenhuma morte ou nenhuma cena excessivamente violenta. É um filme de terror feito para a família e, dentro desse universo um tanto limitado, uma pequena obra-prima.

Não há como negar que “Poltergeist” é um dos melhores filmes de terror dos anos 80. Seu clima soturno, sublinhado pela trilha sonora de Jerry Goldsmith, tem seus momentos de tensão valorizados pelos ótimos Jobeth Williams e Craig T. Nelson, escolhidos para o elenco por não serem astros e convencerem mais como gente normal - e é bom lembrar que a pequena Heather O'Rourke, que interpreta a inesquecível Carol Anne ficou com o papel porque a outra finalista, Drew Barrymore, não parecia tão angelical. Barrymore ficou com o papel de Gertie em "ET" e mantém uma carreira ativa.
O'Rourke morreu em 1988, vítima de uma doença no intestino, dando seguimento a boatos que diziam que o filme estava amaldiçoado (boatos esses que começaram com o assassinato, aos 22 anos, meses depois da estreia, da atriz Dominique Dunne, que vivia a filha mais velha dos Freeling)

No entanto, há algo que incomoda em "Poltergeist": a profusão de efeitos especiais esvazia a trama desnecessariamente. A opção em contar visualmente o que poderia ter sido imaginado tem a cara de Spielberg e de certa forma diminui o impacto que a história interessante poderia ter se fosse menos explícita graficamente. Como está, “Poltergeist, o fenômeno” é um belo conto de terror, mas que não assusta mais do que um passeio de montanha-russa.