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Thursday, December 16, 2010

A LISTA DE SCHINDLER

A LISTA DE SCHINDLER (Schindler's list, 1993, Universal Pictures/Amblin Entertainment, 195min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Thomas Keneally. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Anna Biedrzycka-Sheppard. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Ewa Braun. Produção executiva: Kathleen Kennedy. Produção: Branko Lustig, Gerald R. Molen, Steven Spielberg. Elenco: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Embeth Davidtz. Estreia: 30/11/93

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Liam Neeson), Ator Coadjuvante (Ralph Fiennes), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro 

Em 1975, o suspense "Tubarão" inaugurou a era dos blockbusters e apresentou ao mundo um cineasta jovem, cheio de energia e criatividade chamado Steven Spielberg. Um punhado de grandes sucessos comerciais depois, ele iniciou uma nada discreta caminhada rumo ao mais esperado dos prêmios do cinema, o Oscar. Sendo assim, o pai de Indiana Jones e ET lançou filmes emocionalmente maduros e esteticamente primorosos, como "A cor púrpura" e "Império do sol". Sempre relegado pela Academia - às vezes sem motivo aparente - ele acabou sendo recompensado justamente por um filme através do qual ele fazia as pazes com sua origem judia. Realizado ao custo relativamente baixo de 25 milhões de dólares, "A lista de Schindler" não apenas também se transformou em sucesso de bilheteria apesar do tema pesado - quase 100 milhões de arrecadação nos EUA - como finalmente providenciou a ele sua primeira estatueta de melhor diretor - além de outras seis, inclusive melhor filme. Incensado unanimemente por crítica e público como um dos melhores dramas de guerra da história do cinema, "A lista de Schindler" é mais do que simplesmente uma história contada com o coração: é um exemplo perfeito de um artista no auge de seu talento. É uma obra-prima incontestável!

Baseado no livro de Thomas Kennealy - que romanceou uma história inacreditavelmente real - "A lista de Schindler" começa em 1943, quando o nazismo começava a mostrar seu poder devastador. Sentindo que a guerra pode lhe beneficiar financeiramente, o industrial tcheco Oskar Schindler (o papel definitivo de Liam Neeson) passa a utilizar mão-de-obra judaica em sua fábrica de esmaltados. Oportunista e mulherengo, ele só começa a perceber o tamanho da ameaça do III Reich em relação aos guetos judeus através de seu contador, Itzhak Stern (Ben Kingsley), que o alerta a respeito da violência indescritível que está sendo cometida nos campos de concentração. Testemunhando pessoalmente algumas das atrocidades cometidas em especial pelo frio comandante Amon Goeth (Ralph Fiennes, espetacular), Schindler resolve fazer uma lista de "funcionários indispensáveis" a seu negócio, pagando de seu próprio bolso por eles - e assim evitando sua transferência para os campos.

Por mais que a história real seja um pouco enfeitada para melhor servir aos objetivos dramáticos de Spielberg - o verdadeiro protagonista não era tão altruísta como mostrado no filme, dizem as más línguas - é inegável que "A lista de Schindler" é um espetáculo de primeira grandeza. Apesar do tema doloroso e profundamente chocante - mostrado sem subterfúgios por uma câmera nervosa e onipresente - é um filme obrigatório para qualquer fã de cinema ou de história. Acusado por alguns detratores de exagerar na sacarina em seus momentos finais e de buscar o choque fácil, ele mantém-se poderoso e inesquecível, principalmente devido à paixão imposta por seu diretor em cada momento de seus longos 195 minutos de duração - que passam sem que o público sinta.


Cada detalhe, em "A lista de Schindler" é digno de nota. O cuidado da produção é gritante - e é de admirar-se que um filme desse porte tenha custado tão pouco. A reconstituição de época é impecável - a direção de arte levou um merecido Oscar - e a fotografia de Janusz Kaminski - então casado com a atriz Holly Hunter - é um primor: em um preto-e-branco deslumbrante, Kaminski revela os horrores do holocausto revestindo-o de uma beleza plástica sem precedentes. Talvez tenha sido justamente esse senso estético em relação a um capítulo tão sangrento que tenha incomodado alguns, mas negar-se a admitir sua competência não é nada mais do que inveja.

E é de invejar-se também o trabalho excepcional do inglês Ralph Fiennes, no papel que o consagrou e que quase lhe deu um Oscar - que ele perdeu inexplicavelmente para Tommy Lee Jones, em "O fugitivo". Na pele de Amon Goeth, o mal em pessoa, Fiennes consegue transmitir pavor apenas com seu sorriso forçado e seu olhar diabólico. Suas cenas com Liam Neeson - com diálogos repletos de intenções mascaradas - são dirigidas com extremo cuidado, o que derruba a teoria de que Spielberg não é um bom diretor de atores. Isso também se aplica a Ben Kingsley, dono de algumas das sequências mais tristes do longa. Cercado por Fiennes e Kingsley, Liam Neeson, um ator eficiente mas pouco carismático entrega a atuação de sua carreira, pela qual recebeu sua até agora única indicação ao Oscar. Herdando um papel que Harrison Ford declinou - acertadamente, ele achava que sua presença desviaria a atenção da força da história - Neeson criou um Schindler falível, mas humano, o que torna mais fácil sua identificação com a plateia. Sua expressão horrorizada ao assistir de longe a evacuação de um gueto é, provavelmente, a mesma da audiência.

Uma das sequências mais fascinantes - porque triste e inacreditavelmente verdadeira - mostra os soldados alemães acabando com o gueto de Varsóvia, talvez um dos primeiros sinais da tragédia que se avizinhava aos judeus. Centenas de anos de história seriam apagadas, como bem cita Amon Goeth, em poucas horas: o público assiste, horrorizado (mas presenteado com imagens belas e uma música impecável de John Williams), a maneira cruel e abjeta com que seres humanos foram destituídos de suas posses, de suas dignidades, de seu amor-próprio, de sua idelogia. Spielberg não tenta disfarçar nada com sua câmera: tiros são disparados à queima-roupa, sangue jorra aos borbotões, e monstruosidades são registradas da forma mais neutra possível. Como se fosse um documentário - ou um inventário de atrocidades - "A lista de Schindler" é um documento dos mais avassaladores que o cinema criou.

Em uma época em que muita gente apoia inúmeros tipos de fascismo - e onde a crueldade muitas vezes é perdoada ou incentivada - é fundamental que filmes como "A lista de Schindler" sejam resgatados e discutidos. Artisticamente impecável e socialmente indispensável!

Sunday, June 27, 2010

GANDHI


GANDHI (Gandhi, 1982, Columbia Pictures, 191min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Fotografia: Ronnie Taylor, Billy Williams. Montagem: John Bloom; Música: Ravi Shankar. Figurino: Bhanu Athaiya, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Michael Stanley-Evans. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Nigel Hawthorne. Estreia: 08/12/82

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte, Maquiagem, Som

Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte

Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Ator/Drama (Ben Kingsley), Diretor (Richard Attenborough), Roteiro, Melhor Estreia Masculina (Ben Kingsley)


Mahatma ("Grande Espírito") Gandhi foi uma das personaliades mais fascinantes do mundo, um advogado inteligente e sensível que, baseado em sua filosofia de não-violência liderou a batalha pela independência da Índia das mãos do império britânico. Assassinado em 1948, tornou-se símbolo da luta pela paz e pela igualdade. E é a personagem principal da cinebiografia que, dirigida por Richard Attenborough, foi um dos maiores papa-Oscar da década de 80. Disputando o prêmio máximo com obras como "ET", de Steven Spielberg e "Tootsie", de Sydney Pollack (ambos grandes sucessos de bilheteria), "Gandhi" levou a a estatueta de Melhor Filme e foi premiado em outras sete categorias. Prova tanto do poder de seu gênero - cinebiografias épicas - em fascinar a Academia quanto da beleza e da importância de sua história.

Projeto de estimação do diretor inglês Attenborough (que dez anos mais tarde comandaria o menos bem-sucedido "Chaplin"), a biografia do pacifisita indiano não despertou muito interesse dos estúdios hollywoodianos, o que o obrigou a recorrer a artifícios variados, como vender sua parte dos direitos sobre a peça de teatro "A ratoeira", de Agatha Christie. Além de comprometer-se em dirigir outros dois filmes para o produtor Joseph E. Levine, ele contou com a ajuda do amigo e produtor executivo Jake Eberts e de companhias de cinema inglesas. O custo do filme, de 22 milhões de dólares foi coberto - principalmente depois dos Oscar, quando sua bilheteria chegou perto de 53 milhões. Comparando com "ET", por exemplo, que rendeu mais de 300 milhões não chega a ser uma marca impressionante, mas o é levando-se em consideração vários aspectos de sua natureza.

Primeiro, "Gandhi" não é um filme de puro entretenimento. Apesar de ser tranquilamente recomendável para qualquer idade, uma vez que não abusa de violência desnecessária nem tampouco utiliza de sexo e palavrões para conquistar uma audiência menos intelectualizada, o filme de Attenborough é bastante lento (dura mais de três horas), tem um assunto um bocado específico (e muitas vezes exige um certo conhecimento histórico do público) e foge do tradicional "final edificante e moralizador", uma vez que o filme todo passa uma mensagem de paz e tolerância. "Gandhi" é um filme adulto, feito para adultos e com intenções bem mais nobres do que simplesmente angariar fortunas. E nesse objetivo ele acerta magistralmente.

Tecnicamente "Gandhi" é uma maravilha. Belissimamente fotografado e com uma reconstituição histórica e épica impecáveis, é um trabalho cuidadoso, feito notadamente com um carinho e uma dedicação raras. Narrado de forma quase didática, a trajetória de seu protagonista em direção a uma Índia mais igualitária e menos opressiva tenta seduzir sua audiência pela beleza, pela delicadeza, pela sinceridade, e para isso conta com uma atuação irretocável de Ben Kingsley, ele próprio descendente de indianos. Ao ficar com o papel cobiçado por Alec Guinness, Anthony Hopkins, John Hurt e até mesmo Dustin Hoffman (!!) ele entregou uma interpretação quase mediúnica de Gandhi, um trabalho inesquecível e comovente.

"Gandhi" não é um filme perfeito. Muitas vezes um tanto cansativo - culpa talvez do roteiro que insiste em mostrar prisões e greves de fome de sua personagem central repetidas vezes -, é uma obra que exige de sua plateia uma dedicação e uma entrega maiores do que o que acontece normalmente. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme que precisa ser visto e aplaudido, pelo que ele é e principalmente pela personalidade que retrata.