"Donnie Darko" é tão desconcertante em sua mistura de gêneros que conseguiu dar um nó na cabeça dos críticos e do público em geral, que ignorou sua passagem pelos cinemas. Mas é justamente esse sincretismo que fez dele um cult movie por excelência, adorado por fãs que viram nele um suspense acima da média, com elementos fortes de ficção científica e até pitadas de romance. Co-produzido pela atriz Drew Barrymore (através de sua Flower Films), o filme escrito e dirigido por Richard Kelly (então com meros 25 anos) subverte algumas regras do cinema mainstream e consegue conquistar o espectador, mesmo que apenas em seus minutos finais ele faça algum sentido.
É preciso embarcar na viagem de Kelly para se curtir "Donnie Darko", deixando de lado qualquer preconceito. A trama começa em 02 de outubro de 1988, quando dois acontecimentos transformam a rotina do personagem-título, um adolescente vivido por Jake Gylenhaal (e que quase foi interpretado por Mark Wahlberg): a turbina de um avião cai sobre seu quarto enquanto ele está fora de casa em um ataque de aparente sonambulismo e ele conhece Frank, um coelho do tamanho de um homem, que torna-se seu "amigo imaginário". Dependente de remédios e sessões de terapia, o jovem Darko fica sabendo, através de Frank, que o mundo tem data para acabar: no Halloween, dia 31 de outubro, ou seja, dali a 29 dias. Enquanto tenta descobrir como será o final dos tempos, ele arruma tempo para se apaixonar pela problemática Gretchen (Jena Malone) e busca uma maneira de viajar no tempo. Nos momentos vagos, obedece a ordens cada vez mais agressivas de Frank, que o incitam a atos quase terroristas.

"Donnie Darko" é, definitivamente, um filme de difícil classificação - e qualquer tentativa de resumí-lo soaria superficial e inútil. Um público menos paciente, mal-acostumado com tramas mastigadinhas desde os créditos de abertura provavelmente irá abominar e passar ao largo das aventuras de Darko, aparentemente herméticas mas convincentes e plausíveis dentro de seu universo próprio. Kelly fez de seu filme de estreia um quebra-cabeças sombrio que encontra na atuação quase propositalmente apática de Jake Gylenhaal um de seus maiores trunfos. Misturando conceitos científicos com uma alta dose de suspense e dubiedade, o diretor/roteirista tornou-se uma promessa das mais consistentes do início do século XXI - ainda que depois tenha cometido coisas indescritíveis como "A caixa", estrelado por Cameron Diaz, que, em sua tentativa de mesclar gêneros acabou tranformando-se em um samba do crioulo doido.
No final das contas, "Donnie Darko" é um conto sobre segundas chances e autosacrifícios, ainda que pareça mais um pesadelo criado por David Lynch do que um sensível drama semiaçucarado imaginado por Frank Capra. Contando com um elenco de coadjuvantes de primeira linha - a própria Drew Barrymore, Patrick Swayze como um suspeito guru de autoajuda e Noah Wyle, da série "Plantão médico" como um professor - e um clima dark e opressivo, o filme ainda apresenta uma nostálgica trilha sonora composta de hits dos anos 80, cantados por gente como Eccho & The Bunnymen (cuja "The killing moon" abre o filme), Duran Duran e Joy Division - além de encerrar com uma bela versão de "Mad world" do Tears for Fears. Quem procura fugir dos padrões, gosta de obras estranhas e encarar uma história para pensar já encontrou seu filme de cabeceira.
