Thursday, October 13, 2011

CIDADE DOS SONHOS

CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, 2001, Les Films Alain Sarde, 147min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman. Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde, Mary Sweeney. Elenco: Naomi Watts, Laura Haring, Ann Miller, Dan Hedaya, Robert Forster, Justin Theroux, Lee Grant. Estreia: 16/5/01 (Festival de Cannes)


Indicado ao Oscar de Melhor Diretor (David Lynch)
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Diretor (David Lynch) no Festival de Cannes

O cineasta David Lynch pode ser classificado de qualquer coisa - de excêntrico a hermético - mas de uma coisa o homem jamais pode ser acusado: de ser previsível. Previsibilidade é provavelmente o único ingrediente que não consta na receita de filmes como "Veludo azul", "Coração selvagem", "A estrada perdida" e neste "Cidade dos sonhos", que lhe deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2001 e uma indicação ao Oscar na mesma categoria - no ano em que Ron Howard papou o prêmio pelo acadêmico "Uma mente brilhante". Idealizado como piloto de uma série de TV que não chegou a ser aprovada, seu filme volta a utilizar os elementos oníricos que tanto lhe deram fama e acrescenta a eles uma dose de suspense erótico que o eleva a uma experiência única.

Nada é o que parece em uma primeira sessão de "Cidade dos sonhos". O filme começa quando uma bela mulher (a ex-Miss EUA Laua Elena Harring) escapa de uma tentativa de homicídio graças a um acidente de carro em Mulholland Drive (estrada de Los Angeles que dá título à obra). Sem lembrança alguma de seu passado, ela para em um condomínio onde acaba de chegar do Canadá a ingênua aspirante a atriz Betty (Naomi Watts). Juntas, elas tentarão descobrir a identidade da moça - auto-nomeada Rita em homenagem a um poster de "Gilda" que orna o apartamento onde moram - e, no caminho, cruzarão com tipos bizarros típicos da obra de Lynch, como um cineasta independente (Justin Theroux) e vários executivos misteriosos da indústria do cinema.



Ao contrário dos filmes anteriores de Lynch, em que uma trama linear era ocupada por personagens excêntricos, em "Cidade dos sonhos" o cineasta não somente recheou sua história com tipos absurdos mas também criou uma narrativa repleta de símbolos, imagens dúbias e um roteiro de dar nós na cabeça do mais antenado espectador. Realizado com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo, o filme do criador de Laura Palmer leva o público a uma viagem sensorial, com reviravoltas com clima de pesadelo, onde nenhuma cena deve ser vista apenas pelo que parece e sim pelo que pode significar. Complicado? Talvez. Genial? Sempre. Cada detalhe visual e cada linha de diálogo de "Cidade dos sonhos" faz parte de um conjunto maior, que só faz sentido total em suas cenas finais, cruas e diretas, que parecem contradizer os primeiros 2/3 do filme, quando tudo é APARENTEMENTE simples. Difícil é descrever cada ideia excepcional do roteiro, da direção precisa de Lynch e do trabalho de seus colaboradores.

Contando com a habitual parceria do compositor Angelo Badalamenti na trilha sonora, que mistura canções pop dos anos 50 com uma estranhíssima versão em espanhol da bela "Crying", de Roy Orbison - apresentada na mais forte e deslumbrante cena do filme - e uma fotografia que expressa com nervosismo as intenções jamais óbvias da intrincada história, Lynch ainda tem em mãos um enorme trunfo. Na pele de Betty, a sonhadora atriz iniciante que almeja a glória em Hollywood e se vê envolvida em uma confusa relação com uma misteriosa mulher, a bela Naomi Watts revela-se uma espetacular escolha para um papel complexo e que exige muito mais do que um rostinho bonito. Especialmente na última fase do filme, quando a inocente Betty mostra - ou talvez não - sua verdadeira face, o trabalho de Watts atinge um nível de brilhantismo poucas vezes visto no cinema de David Lynch. Com seu rosto angelical, seu cabelo louro e sua personalidade fragmentada, ela é a personificação de uma musa de Hitchcock transmutada para a geração século XXI - com a sexualidade muito, mas muito mais explícita do que Grace Kelly e Ingrid Bergman.

E, para aqueles que insistem em afirmar que não entendem o roteiro (ou que ele não faz sentido, ou que é apenas um pretexto para cenas de lesbianismo) fica a recomendação para uma nova sessão, com a devida atenção às pistas deixadas pelo diretor logo nas primeiras cenas e o espírito preparado para um filme que, felizmente, foge dos padrões insossos da Hollywood comercial.